sábado, 27 de junho de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - X - FOI QUANDO NENZÃO VESTIU A FARDA DO SOLDADO MORTO!
sexta-feira, 19 de junho de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - IX - A VIOLENTA LUTA CONTRA OS MACACOS DA REPÚBLICA!
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - VIII - E SE CONTA DOS DIAS EM QUE NENZÃO VIVEU EM CANUDOS!
terça-feira, 5 de maio de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - VII - FOI QUANDO JOÃO DA MATA CONTOU DA COBRA BUIUNA
domingo, 12 de abril de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - VI - FOI QUANDO NENZÃO CHEGOU EM CANUDOS E VIU O CONSELHEIRO!
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO - V - CONTA DA IDA DO VAQUEIRO PARA CANUDOS
sábado, 21 de fevereiro de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO – IV – FOI QUANDO NENZÃO RESOLVEU DEIXAR A VIDA DE VAQUEIRO E FOI JUNTO A ESTEVO PARA CANUDOS!
E foi passada aquela manhã com a gente – Estevo e eu - comendo a carne da onça suçuarana com farinha e rapadura e bebendo cachaça: quando se findou uma garrafa, Estevo catou nas mãos a verde garrafa vazia, olhou para o céu e atirou com força para onde estava a morta cabeça e os fedidos intestinos da onça, um urubu já rondando em baixo voo o que restava de comida, a cabeça morta da onça agora negra, preta de vespas, marimbondos assustando os calangos com tanto zunir, e Estevo atirou forte a garrafa vazia para junto da cabeça da onça – Oxenti, vida mais dura de boa – e catou no bornal outra garrafa verde, cachaça, arrancou a tampa com os dentes e o cheiro da pinga invadiu o sertão, enfiou miolos adentro, inundou o corpo, a língua inchou, ficou molengona para falar, contar histórias, cresceu dentro da boca: mais um gole?; só mais um, estou tonto de bêbado; as pernas bambeando, o sol queimava os olhos, um torpor de preguiça tomou conta do corpo, melhor deitar, esticar o corpo no girau, barriga cheia... Dormi e acordei quase no fim do dia: a boca ressecada, uma sede dos infernos, o Estevo – esticado - roncava no outro girau, perto da janela da tapera, e o que me deu, quando acordei, foi vergonha de mim mesmo, onde já se viu homem com minha idade ficar bebendo cachaça em dia que não é dia de feira, de vaquejada nem de domingo, isso é coisa de vagabundos e sou vaqueiro, honrado vaqueiro, mas vou deixar a vida, já decidi e não é por causa da força da pinga na minha cabeça, não é por causa da tontura da cachaça, em antes de ficar bêbado já havia decidido e continuo firme: deixo, e logo, a vida de vaqueiro, vida com tanto isolamento que a língua acaba se esquecendo de como é que se fala, tanto desuso, ninguém com quem parlamentar e reclamar do sol quente, das vacas que estão a morrer de sede e de fome, contar os de bom e os de ruim e ter alguém para assistir – junto, dividindo a tristeza - no pasto as vacas e bois e borregos carregando suas peles em riba dos ossos da cacunda caatinga afora, bichos, filhos de deus, sem força para viver, quero isso mais não, decidi.
E a noite chegou com o céu estrelava devagar, nuvem alguma para agradar a esperança de chuva; nada de chuva, pura secura: uma semana em antes tinha feito – a noitinha, logo ao fim do dia - a simpatia e a reza das sete pedras de sal; conhece, não?; explico a simpatia das pedras de sal, é assim tal como procedi: tão logo o sol se escondeu no horizonte, fiz o nome do pai e escolhi sete pedras de sal grosso para esparramar no quintal, a alma com esperança, fé e muito cuidado com a simpatia, que eu queria por demais que desse certo, e orando, olhos no céu estrelado, esparramei as sete pedrinhas de sal, porque era sete o número de meses que faltavam para chegar a dezembro, deixei as pedras rodeando em volta da imagem de Santa Luzia no quintal e fui dormir esperançoso da resposta da santa e mesmo depois de deitado no girau, dormindo, continuei – toda vez que acordava de noite - pedindo a Santa que encharcasse – com suas lágrimas - as pedras de sal para eu descobrir – vendo as pedras molhadas, derretidas com as lágrimas da santa - os meses em que o sertão teria chuvas e a Santa atendeu a meu chamado, apareceu no meu quintal e chorou um choro triste, mas um choro sem lágrimas, incapaz de encharcar nem mesmo uma pedra de sal, o mês que seria de chuva, nada, todas as pedras de sal secas, secas, esturricadas, vai ter chuva este ano não, nenhuma esperança, e se iniciou ali minha decisão: vou m'imbora!
Deitei no girau pensando naquela falta de esperança, esmiolando as misérias da seca e da fome e da impossibilidade de sonhar melhor futuro, e acho que dormi assim, um sono de muita tristeza até me acordar com o Estevo que, madrugada escura, se levantou estalando os paus do girau, fazendo barulho, abrindo a boca com dois enormes dentes de ouro: AIIIIIIIIHHHIIAA e UHHHHHHHS, sentou na beira do girau, se benzeu com o sinal da cruz, levantou de vez e saiu tapera afora para desaguar; levantei-me e ficamos os dois – no terreiro da tapera – amigos, desaguando mijo de urina em cima da esturricada terra, o céu negro cheio de estrelas, uma estrela caiu, fiz figa com os dedos da mão direita: ‘dia, Nenzão!; ‘dia Estevo, pensa em ir hoje mesmo embora?; ah, sim, careço, e o compadre tá igual a eu com a cabeça doendo tanta pinga?; não gostei de ser recordado da bebedeira, queria esquecer aquilo, me envergonhava e Estevo: voum'bora hoje ou amanhã meu compadre, fico no aguardo do sal e do sol curtir o couro da suçuarana para mode fazer um colete; e Estevo continuou a parlamentar, mais sozinho do que comigo, não conferindo pedidos, consultas mas contando de decisão já tomada: levo daqui, das rezes que o compadre toma conta, o tanto que a gente achar que consegue andar viva por mais uns dez dias, vou devagar, em marcha lenta do cavalo, aproveitando as madrugadas e as tardinhas, senão o gado não aguenta e morre antes de chegar para matar a fome do pessoal de Canudos, careço de chegar o quanto antes; pensei, memoriei um pouco e disse: assim, nessas condições, do jeito que o amigo quer, acho que vai encontrar umas doze ou treze, melhor doze porque treze dá azar; e o resto?; o que sobra por aqui?, pura espelunca, vai morrer tudo, sozinhas...
No quintal da tapera, esticado com firmes troncos de berimba, banhado de sal, o couro da suçuarana secava, sem feder carniça, esticado, lembrando uma bandeira do divino colorida de amarelo com olhos negros, aqueles olhos tudo olhando, vigiando, nenhum vento, o sol dominando o mundo, abrasador, um ou outro calango com coragem de caçar suas comidas e a sombra do umbuzeiro servindo de descanso para tanto desconforto de calor; Estevo quebrou o silêncio, com sua voz grossa: carece de a gente acertar a viagem de ida para Canudos; respondi mais com pensamentos, tantas palavras necessárias: por causa de mim, tem que se mudar o roteiro, necessito de escrever e deixar bilhete no papel, escrito, para o patrão informando minha decisão de deixar a vida de vaqueiro, contar no bilhete de quantas vacas e quantos bois tinham ficado sozinhos aqui neste fim de mundo, que estava indo embora levando as vacas marcadas com o FJ e as que aqui ficaram logo morreriam, seca nunca vista igual, acabou o mandacaru, não sobrou palma, pura secura amarelada, e que eu agradecia sua confiança e que não queria mais viver a vida de vaqueiro e terminava o bilhete com bonitas palavras, tipo assim cordialmente vaqueiro Nenzão; e partimos, com doze rezes, Estevo em cavalo selado com arreio ornado de douradas estrelas, garrucha de dois canos no ombro, bornal de couro de cabrito e eu montado em uma jumenta, a pelo, nas costas – pendurado – trouxa de duas camisas, uma alpercata comprada na feira de Mocambo, as pernas apertando a barriga da jumenta, enormes orelhas: s’imbora conhecer novas gentes, religiosas pessoas, rezadeiras, enxergar o Conselheiro com estes olhos que um dia a terra irá comer... dentro de mim: esperança!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO – III – FUGA DO SILÊNCIO!
Mosquitos, vespas, marimbondos - em bando – semelhante a uma nuvem, zumbiam em volta do defunto corpo da onça suçuarana, de olhos meio abertos, mortos, sem brilho, da boca escorria bolotas negras de sangue que misturavam com os vivos mosquitos que zuniam impingindo no silêncio da caatinga estranha música, não se podendo classificar de feia – assustadora, sim, com certeza -, sem ritmo, música que não dava vontade de sacudir o corpo e sapatear as alpercatas até levantar poeira nos secos terreiros, rodar feliz; na noite que antecedeu aquela manhã, pouco dormi: o sono não vinha, o Estevo roncando no girau, um calor brabo, os ventos – iguais aos córregos e rios - secaram, não assopravam para aliviar um pouco, ao menos, o calor que melava o corpo, os peitos suados, o pescoço molhado, deu sede, me levantei para beber água e iniciei um pensar: como pode conseguir - o Estevo – de se vestir com roupas novas, de ter o arreio bordado com estrelas prateadas, de usar esporas de prata enfeitando o grosso e negro calcanhar? como pode ele conseguir isso tudo? o colete de couro de cabra trabalhado em cores, mostrando que foi comprado? e o homem, vi bem ontem, carregava boas armas: nada de espingarda de um cano só de carregar pela boca, carregava, isso sim, no ombro, em cima do colete de couro de cabra, um cinturão recheado de cartuchos, cartucheira de dois canos – alemã - de nome estranho, facão brilhante preso na cintura e na parte traseira do corpo se escondia o punhal com cabo de madrepérola, colorido, o aço do punhal com mais de palmo, pontudo, deve ter sangrado diferentes corações; mas, como será que Estevo conseguiu tudo isso? e, por minha conta, por minha livre e espontânea vontade desacreditei que não foi seguindo rezas do conselheiro que Estevo apresentava tantas posses, tantos bens: só reza não constrói belezas assim, isso só pode ser de invasões e saques, e naquela manhã, ainda escuro, me benzi por medo das ofensas que havia conseguido pensar: devo estar variando a cabeça de tanto calor, muita sede, e voltei deitar no girau, tentar dormir um pouco, corpo cansado, suado. Manhãzinha, a barra clara do dia ainda sem ousar de aparecer no horizonte, tudo escuro, levantei para acender o fogo, coar café e o barulho do fogo pipocando nos gravetos, esparramando amarelas estrelinhas na boca do fogão e a claridade amarela do fogo se juntou com a barra clara do dia que agora vencia o horizonte, subia céu acima e entrava pela janela de perto do fogão, e o fogo e a barra do dia clareou a tapera, fez o dia chegar e a luz bateu nos olhos do Estevo que acordou, virou de lado no girau escondendo os olhos, mas nada adiantou: a barra do dia encheu a tapera de claridade e Estevo, vencido, espreguiçou forte, soltou da garganta forte AHHHHHHUHHHHHHH! ‘dia Nenzão!; ‘dia Estevo, água fervendo mode coar café, tem farinha, rapadura; e Estevo girou o corpo no girau, acordou de vez: café com rapadura e carne de onça é o que careço para este dia de hoje; Estevo levantou do girau, se benzeu com o sinal da cruz e arrastou para fora do chão da tapera o corpo morto da onça, espantando com as mãos em barulhentos tapas os mosquitos, as muriçocas, as vespas, e até negras mangavas e enormes venenosos marimbondos – daqueles amarelos de ferrão - todos ali zumbindo e se matando na procura do melhor lugar para beber o sangue seco da suçuarana e o Estevo - xingando palavrões - arrastou a onça para fora da tapera, se estancou debaixo do pé de umbus, desaguou o mijo e arrancou um galho do umbuzeiro que usou para espantar tantos insetos e começou, com afiada faca, a esquartejar a onça suçuarana morta, o corpo endurecido pela morte, a faca afiada guiada pelas grossas mãos de Estevo separando o couro amarelo desenhado de manchas negras da carne vermelha, os mosquitos e vespas e marimbondos infernando o trabalho e Estevo decepou – forte golpe de facão a cabeça da onça - e atirou longe, para ainda depois da sombra do pé de umbu e a cabeça da onça voou até perder a força e rolou pelo meio da caatinga, cabeça redonda da onça, os dentes de fora, parece que sorrindo triste embaixo do mandacaru, e o Estevo berrou alto xingando para os mosquitos, marimbondos e vespas: aproveitem seus diabos do inferno: cabeça de onça é o de comer de mosquitos e marimbondos, deixem eu aqui em paz; e continuou o delicado trabalho de esquartejar – pacientemente, sempre xingando, mas com muita ciência - o corpo da morta onça, e jogou longe, para perto da cabeça, o bucho e as tripas.
A caatinga fedia!
Carne de onça é dura e adocicada, açucarada não sei se pela falta de costume de comer aquela espécie de carne, nunca tinha ainda usado de fazer, ou se é mesmo doce – por sua natureza a carne de onça -, que a gente comia junto com a farinha de aipim e rapadura e o café amargo, e depois - quando a garganta já seca de tanta farinha – Estevo tirou da capanga uma garrafa verde, pinga e a pinga se misturava na garganta com a farinha e a carne da onça e a rapadura fazendo um gosto muito dos bons e apercebi que matava a fome do de comer, me empanzinava, a barriga cheia e foi me invadindo um estado de felicidade de conversar, de estar falando e de ficar escutando a voz do Estevo e foi então que resolvi naquela hora: vou-me embora deste sertão, largar nos de agora a vida de vaqueiro, viver com gentes e vozes: tudo aquilo pensado e decidido nos intervalos das conversas com Estevo, ele não desconfiado do que estava a decidir, e se for só mode as pingas que bebi, me sentia tonto, era desacostumado a beber tanto assim, pernas bambas, a língua enchendo a boca de grossa, e Estevo me contando das gentes reunidas, de joelhos, orando de manhã e a tardezinha pela monarquia - orapronobis, virgo fidelis, quirieleison – as beatas, magras e enrugadas, feias com cabeças cobertas de negros véus, terços de contas nas mãos, orando com fé e me contou mais ainda do magro e santo conselheiro, das rezas e das ladainhas e das brigas e das lutas e das guerras para defender – sob as ordens do conselheiro - a monarquia dos republicanos federais armados até de canhão, e falou das necessidades de invadir povoados para arranjar comida e armas e da satisfação do corpo com moças virgens encontradas em invadidos e distantes povoados...
Resolvi que ia embora!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO – II- SERTÃO: UM MUNDO DE SILÊNCIO
“Sei também tratar do gado,
entre urtigas pastorear;
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.” (*)
(*) Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto
Conto os acontecidos, do passado, aqui, nos de agora e é então por isso que o contado são memórias com nuvens e névoas embaralhando a correta visão dos fatos que verdadeiramente aconteceram por este tempo todo - que passou – e o que vivo agora e, por isso posso e gosto de contar é como uma massa de memórias engordada e crescida por forte fermento: a massa se incha, fica cheia de bolhas, não mais pura farinha e água e nacos de banha. Então vamos... Terminada a festa das vaquejadas o silêncio invadia o sertão: os ventos que vinham do sudeste, frios, perdiam força tão logo encontravam o calor do sertão, se esquentavam e parece que gostavam da quentura e se envolviam e cochilavam naquele calor úmido e se esqueciam do trabalho de soprar ou sopravam tão fraco que mesmo as finas e verdes folhas dos umbuzeiros se quietavam, como se estivessem dormindo, nem tremer tremiam tão fracos eram os ventos e ficavam ali, os umbuzeiros, imóveis pontos verdes meio ao cinza palha das caatingas; pouco se ouvia: aqui ou acolá um ou outro piar da coruja, ou o rum! rummmm! da asa branca e também se escutava o barulho das folhas secas que chacoalhavam, esparramadas pelos pés espertos dos tiús, dos calangos e das cascavéis – estas arrastando a barriga amarela em curvas à caça dos silenciosos e rápidos piriás -; fora isso, no mais era o silêncio de escutar as distâncias, de imaginar o barulho da nuvem branca que viaja devagar no céu azul, e a gente torcia e rezava para que ela ficasse cinza e despejasse água caatinga acima, e nada de barulho das chuvas e até se podia escutar o barulho do pingar da gota de orvalho ao chão, tudo quieto por demais. Barulho de vozes? ah!, não: no sertão não se usa falar, palestrar: se carrega uma vida isolada, silenciosa, que passa devagar, cozinhando o tempo no dificultoso trabalho de campear gado, furar cacimbas na caça d’água e havia momentos, as vezes horas, ou mesmo dias inteiros, que se imaginava que o pensamento tinha sumido dos miolos da cabeça igual a voz que sumia da garganta pelo excesso de não falar; o silêncio dominando o por de dentro, emudecia a alma e o recurso era – na solidão das caatingas, vaquejando sob o sol - imaginar histórias passadas, falar sozinho, consigo mesmo, em voz alta – qual um louco ou um velho caduco – cantar ou assobiar as conversas acontecidas nas vaquejadas ou nas feiras que frequentava a cada dois ou três meses, coloridas feiras de cantadores, de carnes, chapéus, macacos e maritacas e até mesmo araras, vivos animais, vendidos ou trocados por porções de aipim, cabritos, milho seco. Conto, agora, o acontecido no passado, o já acontecido das horas em que – enquanto vaquejava - relembrava o encontro com Ditão - na feira de Macambira - e o combinado com o benzedor, homem esquelético de magro, cabelos longos, barba escura alcançando o peito cabeludo, enormes olhos acinzentados de verde, bom e afamado benzedor: b’dia seu Ditão, careço de seus serviços, as vacas estão carregadas de bicheira, gastei com remédio de farmácia e não adiantou; e chega o dia combinado de Ditão aparecer no rancho para benzer o gado – benze pelo rastro – sem a devida necessidade de tocar o animal com as mãos; meio da caatinga, embaixo da sombra de um umbuzeiro onde as vacas costumavam se esconder do sol o benzedor para – longas pernas abertas, corpo ereto, esticado, tira o chapéu, olha para o chão e reverencia as manchas dos rastros e as negras bostas das vacas pisoteadas na sombra do umbuzeiro, segura e ergue nas duas mãos o terço de contas pretas, os mistérios gozosos, a cruz de metal brilha e cerra os olhos e vai soltando garganta a fora incompreensíveis palavras, rezadas - com fé, na busca do milagre - em outra língua: “orapronobis” “quirie” “virgo virginum” “virgo fidelis”, só o final se entendia um pouco mais quando Ditão, já com os olhos abertos, as mãos enormes apontava para o sol, inundava - com sua voz rouca - o silêncio infinito do sertão: vá-te bicheira desgraçada, vá-te pra junto dos demônios que são seus pais, inferno!; parecia cansado da força de pensar os pedidos e dar suas ordens às bicheiras e quieto, com medidos passos lentos, me seguia pela trilha da caatinga até o rancho e lá – sem nada falar - comia farinha com rapadura, não cobrava pelos seus serviços nem pela sua visita: cumpro o destino que Deus me deu, aceito adjutório qualquer que tiver em seu poder e que não te faça falta; vez ou outra, em outras benzeduras – cansado - repousava a noite e dormia no girau, roncava forte, sonhava e falava grosso enquanto sonhava, metia – em mim - um pouco de medo o Ditão dormindo ali, roncando, homem de tantos poderes, mandando as bicheiras e as frieiras do gado ir para os esquintos dos infernos dos diabos, benzendo os animais pelo rastro, e nos depois – dia seguinte - se via os vermes obedientes às suas rezas: caiam moles e esbranquiçados dos furúnculos dos animais, forravam de branco o pasto, montes amarelos de vermes mortos junto dos montes pretos das bostas das vacas, vermes mortos, ressequidos pelo calor do sertão; e é de pura verdade o que eu conto – temeroso – das benzeduras do Ditão, faço em antes o sinal da cruz em respeito às suas rezas e aos seus poderes, que Deus o tenha, já falecido o benzedor Ditão, um pouco mais novo que eu, morreu cedo, cruz credo!
Como disse inhantes, o dia a dia, a rotina diária, era de silêncio; faltava assunto quando – cansado das lidas com o gado – se chegava em casa, o sol já querendo sumir no horizonte e batia nos peitos grandes melancolias, o fim do dia se assemelhando ao fim da vida, o melhor era comer farinha, rapadura, beber uma pinga e ir para o girau dormir, sonhar com outros dias, com coloridas e alegres conversas nas feiras e nas vaquejadas. Quieta a vida de vaqueiro!
Depois das vaquejadas, o gado negociado era substituído por gordas vacas compradas nas verdes fazendas dos lados do Porto Nacional, distantes, chegavam nas caatingas brancas e chifrudas vacas, mais de oitenta e naquele ano, que estou contando, apareceram meio as vacas compradas duas novilhas rajadas, magras, com o pelo caindo, sem bicheiras; nas ancas magras das duas novilhas a marca de ferro: FJ, muito bem desenhadas as letras a cabeça do F grudada na ponta do J, os pezinhos das duas letras grudados um com o outro formando um desenho bonito; FJ: só pode ser dos Junqueira, o J dos Junqueira, o F do Franquelim, fazendeiro forte, ligado nas políticas, contrário à monarquia, querendo fazer valer o casamento no cartório, falando para quem quisesse escutar que o melhor era que o rei voltasse para seu país, de onde viera, que fosse ser rei por lá ou nos esquintos dos infernos e deixasse aqui a gente quieto com presidentes e governadores. Ajeitei uma vaca velha, sem poder de dar mais crias para amadrinhar as novilhas brancas: cumpre dizer que era obrigação do vaqueiro cuidar dos animais apareciam nos ermos dos pastos, bem cuidar até que um dia o dono desse por falta e aparecesse ou mandava um vaqueiro buscar: a obrigação era de cuidar dessas rezes desregradas, dar comida e sal e remédio e se – por acaso – fizessem crias nos pastos do patrão, carecia de marcar – a ferro quente – a anca dos bezerros com marca igual a da anca da mãe, o animal não pertencia ao patrão, e se suas crias chegasse a passar de quatro não pertenciam ao vaqueiro; era assim: lei do sertão a de se cuidar de gado desregrado como se cuidava do que era propriedade do patrão.
Isso, o que passo a contar, se deu em um ano de seca das mais bravas, aquele ano! A esperada vaquejada de junho julho - tão pobre - aconteceu sem festas e danças e sem vacas para negociar: naquele ano as vacas e os bois e os bezerros – que com as chuvas do inverno deveriam se apresentar gordos e pesados para o corte - mais pareciam assombrosos esqueletos cobertos de pelos brancos, pelos sem brilho, andando devagar, as cabeças caídas sem força de carregar os chifres para o alto, secas de carne, as vacas, mesmo as com crias novas, com as tetas murchas, escuras, enrugadas, parecendo jenipapo velho e o sertão se enchia de tristeza e de perigos. A fome! Numa tarde, quase noite, escutei da porta da tapera de pau a pique que levantei perto da cacimba e de dois umbuzeiros, o tropel de cavalo, quem seria?; apertei os olhos e deu para ver que era um cavalo grande, preto, arreio com luminosas estrelas enfeitando, cabresto de couro, cavaleiro com esporas de prata nos pés, o cavalo fungava e soltava espuma branca pela boca; oi de casa, sou o Estevo, vivo em Canudos sob as ordens do santo Conselheiro e carecemos de carne; meu nome é Nenzão, vaqueiro do seu Chico de Barros, às suas ordens, apeie do cavalo que tem farinha e rapadura para os amigos; vim buscar gado vivo para matar a fome dos acampados no Canudos, margem do rio Vaza Barris; gado que cuido é do patrão Chico de Barros e só sai daqui com ordem dele é o que posso afirmar e refaço o convite: tem farinha para encher um prato, rapadura e se gosta pinga das boas para esperar o sono da noite; aceito a farinha e a rapadura, estou com fome, mas como homem religioso e de princípios redigo: amanhã levo daqui, sua ou do seu patrão, dez ou mais vacas para matar a fome dos crentes acampados em Canudos a serviço de Deus e da Monarquia; e o Estevo apeia do cavalo, desarreia e solta o animal no pasto, senta sobre os calcanhares com o prato de farinha nas mãos e faminto come com as mãos, misturada a seca farinha com a doce rapadura: pinga posso não, tô proibido pelo Conselheiro. E a noite foi chegando, lua gorda no céu de muitas estrelas e o Estevo ajudou na feitura da fogueira para amedrontar e fazer fugir a sussuarana que andava espreitando a cacimba, o gado contava - pelos mugidos medrosos - que tinham sentido o cheiro da onça sussuarana, olhos brilhando no escuro, passos leves, espreitando silenciosa por detrás da moitinha de mandacaru, perto da cacimba que era onde as vacas e os bezerros bebiam a água suja e pouca. Era a sussuarana querendo matar sua fome com os ossos e as poucas carnes das novilhas: a fogueira de lenha acesa durante a noite não deu medo no animal, a fome maior que o medo, as vacas e as novilhas sem força para fugir da sussuarana faminta mugiam doloridos berros e foi Estevo quem tomou as iniciativas: limpou um pé fino de berimba e arrumou um espeto longo de mais de dos metros, quase três, com prego afiado na ponta, e foi o Estevo em direção à cacimba e com o berimba na mão esquerda cutucava o bicho, a mão direita segurava firme facão afiado, e o Estevo – sem medo, penso - cutucava a onça que a cada cutucão urrava e tentava segurar o espeto de berimba com sua enorme pata cheia de presas brancas, urrava miados medonhos, se via os dentes brancos e os olhos faiscando de mortal raiva, e Estevo cutucando e aguardando a hora exata do bote: ou mata ou morre! um pé mais atrás dando apoio ao corpo erguido, esperando o golpe e a onça sussuarana saltou prá cima do Estevo que esbarrou o corpo de lado, largou fora o espeto de berimba e segurou certeiro o facão no pescoço da onça, e eu me benzi com o sinal da cruz, um urro de dor invadiu a caatinga, o sangue vermelho jorrando, molhando a seca terra naquela noite clara de lua cheia que é uma lua ruim de chuva, boa para chuva é a crescente, e as vacas magras fugiram nos limites de suas forças, mugindo um berro de medo, a coruja piou seu canto de azar e Estevo limpou a lâmina do facão: amanhã cedinho tiro o couro mode fazer com ele um colete, vale muito colete de pele de sussuarana, as moças vão gostar de me ver vestido assim.
Na tapera: em um canto a onça morta; me deitei no girau rente ao fogão para dormir e ofereci ao Estevo o outro girau perto da porta da tapera, mais conforto pelo ventinho que vinha do umbuzeiro e passava pela porta.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
A LONGA HISTÓRIA DO VAQUEIRO NENZÃO – I – OS INÍCIOS!
Caatingas, serrados e agreste: meu mundo; os horizontes, longínquos, que emolduraram – tal qual a dourada e rococó moldura do retrato em preto e branco, margeando e prendendo dentro dela um austero e severo velho de enormes bigodes, olhos negros amendoados, lábios finos, cabelos negros escorridos – minha vida teve, nos de sempre, páramos agrestes, céu de poucas nuvens e sol forte, ardente, torrando o chão de áridas terras, vincando, enrugando e bronzeando a pele amarela que ganhei da mãe – uma índia da tribo dos tapuias -; minha vida? uma vida mais de vaqueiro a andar sempre - como um mascate – mas meio sem rumo, sem precisão de retornar ás antigas casas, um sempre andar, andar, a cada dia, a cada ano, nas secas e nas invernadas: carência de sair à busca pastos cada dia mais distantes, os tão necessários pastos com ramas e matos para alimentar os gados do patrão, dar ao gado força - ao menos - o suficiente para que as brancas vacas de longos chifres, tetas pequenas, dessem crias o mais poder, pois de cada quatro crias uma é minha, e minhas vacas e meus bezerros e meu cavalo e meu jegue precisando de pasto e eu a cada ano indo mais longe, me afundando sertão afora à busca de menos pobres e raspados pastos. O sal: o sal comprava do patrão; cada cabeça de gado que sobrevivia às durezas da caatinga aumentava a carência de sal (conheci um vaqueiro mineiro, vindo dos lados do Jequitinhonha, que pronunciava “sali” e não sal, “bassoura” ao invés de vassoura e “meli di abeia” e não mel de abelha, muito amigo, virou meu compadre, compadre Bié, que gostava de contar, com seu palavreado musical, histórias de assombração e da mula sem cabeça que, segundo Bié, existiam e ainda existem, em grande número no vale do Jequitinhonha) aumentava mais ainda a dívida com o patrão, seu Ramalho que contava - mais quando bebia umas pingas era que o patrão soltava a língua, no normal era de poucas falas, calado, rídico, apenas vez ou outra um “tá tudo bão com as vacas?”, “então tá bom” – que era descendente direto do bravo João Ramalho, português safado de esperto, casado em regime de temericó com mais cinquenta índias, não sei como dava conta de tantas, semelhava, este português João Ramalho, ao boi inteiro no pasto de tantas vacas ou do galo no terreiro de muitas galinhas, e eu pensava, quando seu Ramalho contava essas histórias, e na maioria das vezes concluía - comigo mesmo, em silêncio sem comentar – que isso, de ficar casado com mais de cinquenta índias era igual as histórias de mula sem cabeça do amigo Bié: não passa de invencionice da mente humana, nada de fato ocorrido de verdade, onde já se viu uma mula sem cabeça, por onde ia conseguir enxergar? pelos buracos traseiros, sujos de cocô ou de amarela urina?, pura invenção, nada real, mas continuando o que antes falava: a cada ano que passava, menos eu via o patrão e suas histórias; vez ou outra, por puro acaso a gente se encontrava nas vaquejadas de junho ou julho: bom dia, Nenzão!; e eu, cerimoniosamente retirava o chapéu de coro da cabeça: bom dia, meu patrão, senhor Ramalho!; e quantas cabeças nós temos agora Nenzão?; pois acho que mais de cem, meu patrão, coisa de cento e oito se não errei nas contas; errou não, Nenzão, o Quinzinho recontou as cento e oito que você criou que se juntaram a outros e mais outros tantos e se constituiu uma grande boiada – minha – que Quinzinho e mais uma comitiva de vaqueiros está levando para vender na capital e comprar sal e remédios; careço de sal, meu patrão: os pastos cada vez mais longe, poucas aguadas e é o sal segura a boiada perto dos currais para dar leite e lamber as crias; Quinzinho vai trazer sal e você paga com cabeças de gado, o sal anda cada dia mais caro, uma carestia infernal, estamos em tempo de vacas magras, vaqueiro Nenzão; e então a gente se separava na festança da vaquejada, vaqueiros e peões de um lado os patrões do outro, eles falando de políticas e entre nós se contava de vacas, de mulheres, da seca brava e se contava histórias acontecidas ou não e se escutava os cantadores que ralhavam a viola afinada e com a garganta molhada de pinga, bucho cheio de farinha e rapadura que cantavam:
“Tornou a dizer de novo
Ali aos seus camarada:
- Boi e vaca que morrer
Hoje, de perna quebrada,
Tudo isso é para comer
A mim não se deve nada.
Ficou o povo animado
Com as palavras do patrão
- Vamo agora comer muito
Farofa, carne e pirão...
Até eu estive lá
Também dei meu empurrão.” (*)
(*) Luís da Câmara Cascudo, Vaqueiros e Cantadores.
domingo, 9 de novembro de 2014
ESCREVER E CAMINHAR 6
Em 2008 um grupo de amigos resolveu criar um BLOG para comemorar os 40 anos do ano de 1968 – ano de péssimas memórias, ano do recrudescimento da violência imposta pelos generais de plantão responsáveis pelo golpe militar de 1964 - e me interessei, de imediato, em participar; tive, naquele momento, o apoio – muito grande - e o estímulo de amigos no sentido de que minhas limitações no uso da internet não bloqueassem ou dificultassem minha participação no ARQUIVO 68, sugestivo nome do blog. Mas o que importa aqui, neste relato, é que àquela época já havia escrito algumas histórias e algumas delas, mero acaso, remetiam às vivências do ano de 68 e naquele ano – 2008 -, nascimento do ARQUIVO 68, andava a experimentar um período de profunda e generalizada descrença, vivia um momento de forte niilismo e consequente péssima sensação de descrença nas possibilidades do HOMEM em superar suas injustiças e suas desumanidades.
E foi então, vivendo o estado de espírito acima, que iniciei a redação das histórias a serem postadas no ARQUIVO 68 e ao redigi-las ou revisá-las percebi que algo de novo ocorria comigo: tive, enquanto trabalhava nas histórias, a consciência de que o escrever me libertava das “garras” do niilismo, da descrença e enquanto escrevia voltava a crer nas possibilidades de reação às misérias humanas, me rejuvenescia (pode isso, aos 65 anos? pode, sim) e lutava – enquanto escrevia – tal como havia lutado, quando jovem, em 1968. O escrever me transforma: creio em mim, no homem, na luta e mais que isso: o escrever passou a integrar a minha vida, dando a ela mais sentido e saúde. Penso que vale a pena abrir aqui um parênteses: havia interrompido a escrita destas memórias há semanas em função de viagem a São Paulo para acompanhar minha esposa internada em hospital para tratamento de problema cardíaco e como sabia, de antemão, que o período de internação seria longo comprei o pesado e “volumoso” A interpretação dos sonhos, do Freud, para fazer com que as horas corressem mais depressa e – surpreso – encontro meio aos sonhos e ás teorias do velho Freud esta passagem, na verdade, uma carta do filósofo-poeta – assim Freud o chama - Schiller ao amigo Körner: ...“A razão de tua queixa, segundo me parece, se encontra na coação que o teu entendimento impõe à tua imaginação... Não me parece bom, além de desvantajoso para as obras criativas da alma, quando o entendimento examina com demasiada severidade, já nos portões, por assim dizer, as ideias que chegam...” e foi aqui no hospital, anos e anos após ter consciência do prazer que o escrever me proporciona, que fui encontrar o “suporte” teórico ao que instintiva e solitariamente havia ocorrido em minha alma ao me por a escrever; e fecha o parênteses.
Então... então, claro, a partir de 2008, entusiasmado, passei a fazer do ato de escrever um exercício diário – nem sempre tão diário assim - de sensibilização e de crescimento no processo de humanização e de busca da integração e de entrega interior ao belo, às causas e aos caminhos que objetivam o aperfeiçoamento e o desenvolvimento. E isso tudo comigo quieto: o eu comigo mesmo e o escrever oferecendo mais sentido à vida, o ato de escrever, de rever e reescrever cada palavra, cada parágrafo, da tentativa de descobrir a equação que soluciona o final de uma história e do pensar uma nova história se tornando momentos de felicidade, me fazendo mais humano, mais comprometido e, importante, mais feliz!
E plagiando o professor Pasquale: É isso!
Vamos, então, à crônica prometida ao jovem jornalista Anselmo.
Estava, salvo engano, no sexto dia de caminhada quando nuvens começaram a cobrir o céu que até aquele dia de caminhada vivia um azul infinito e belo, seu constante anil cobrindo as montanhas e vales e rios e riachos até aquele sexto dia quando, já de manhã, claras nuvens cobriram o sol até então imponente - e senhor – com seus raios queimando as costas e os braços e os pastos e as plantações pondo tudo a secar: os rios como que se desnudando e mostrando pedras antes não vistas, volumosas e barulhentas cachoeiras se transformando em magros fiapos d’água a pingar em negras pedras, o nariz a sangrar; mas... tem sempre um mas: o caminho pelo qual andava naqueles dia era de “roxas” terras - de bonitos cafezais - que quando encharcadas pela água da chuva se transformam em vermelhas e grudentas piçarras que colam no solado das botas aumentando absurdamente seu peso, impedindo o caminhar; e também tem outra coisa: além do desconforto do caminhar sob chuva pelo peso das botas e risco de escorregar, o que ocorre – de fato – é que o mal estar que sinto ao caminhar sob chuva é o ancestral medo de raios e trovões, muito presentes naquela região. E daí? Daí que apesar da importância de boas e molhadas chuvas na região, torcia – escondido de mim mesmo - para não chover e a covardia egoísta floresceu quando, à noite, acessei o clima tempo – em uma lun-house que lembrava um vulcão tanta fumaça de cigarro - e ao constatar que a previsão era – em toda aquela semana - apenas nuvens e zero de chuva, vergonhosamente, fiquei feliz.
Continuando: penso já ter confessado que o caminhar faz deslizar em minha memória - como em um sonho - a infância! Paisagens, cheiros, silêncios e cantares e voos de pássaros e de velhas casas brancas com suas janelas azuis...
Do alto de uma pequena montanha se via, lá embaixo, o sinuoso o vale, a estrada vermelha de chão batido com seu solo socado e moldado por rodas de pesados e lentos caminhões e carrocinhas que transportam galões e galões de leite; mais ao fundo do vale a antiga, velha e imponente casa de fazenda, à sua frente – como em um desenho - o curral e suas vacas ruminando, descansando e os bezerros socando forte as tetas da mãe à busca de leite, no ar o forte e quente cheiro de curral; pouco mais abaixo – em direção ao sul - as altas e verdes árvores ladeando a estrada e protegendo do sol a casa branca e seu telhado vermelho e suas janelas azuis descoradas e mais a frente à pequena e delicada ponte que atravessa o córrego de águas claras, transparentes; deve ser bom de pescar – vara de bambu e minhoca de isca - prateados e espertos lambaris do rabo vermelho, e ao me aproximar passei a ouvir o barulho da correnteza, córrego pedregoso com forte correnteza o que me leva a concluir que além dos lambaris, sob as negras pedras formando as locas – moradia das escuras gambevas, dos amarelos bagres e dos cinza escuros mandis e manditingas; e eu ia assim caminhando distraído, pescando e fisgando, ágil - em minha imaginação - lambaris e gordas gambevas quando vi – rodeado por dois cachorros vira latas - um senhor gordo e alto, andava com as dificuldades impostas pela idade, o bastão de guatambu ajudando o equilíbrio; o cão late nervoso e o velho gira bravo o bastão de guatambu, berra alto, voz forte e rouca ameaçando arrebentar os ossos do vira-lata cor de vinagre: sai Duque! cachorro desgraçado, não me obedece, mais não? então leva cacete seu cão de merda; e vai sacodindo o bastão de guatambu no ar tentando, sem sucesso, quebrar as costelas do Duque, que continua a ganir, dentes brancos à mostra, e eu – medroso - me preparando para enfrentá-lo com meu cajado de bambu, a adrenalina nas últimas e dizem que o cachorro percebe o homem que tem medo pelo cheiro da adrenalina que exala, será mesmo meu deus do céu?, não devia ter tanto medo assim, nasci na roça, acostumado com cachorros, e então – felizmente - os berros e as maldições jogadas ao ar pelo senhor Mário - o gordo e velho senhor dono da fazenda de casa branca e janelas azuis descoradas, moreno, barba branca de dois ou mais dia, paletó preto, camisa de flanela, chinelos havaianas nos pés - deram resultado, o Duque fugiu com o rabo enfiado entre as pernas, latindo chiado, vez ou outra criava coragem e voltava a cabeça em direção ao velho e mostrava os olhos tristes – como que pedindo perdão - pela brabeza do dono que aliviado com a obediência do cão: bom dia! este desgraçado do Duque vez ou outra teima em não me obedecer e eu tenho que meter o cacete nas costelas dele, mas o senhor vai indo para Aparecida?; sim, estou indo para lá; posso andar um pouco com o senhor?; claro que sim, a gente aproveita e conversa um pouco; quer água de mina? tem uma mina d’água logo ali, é a mina que buscamos água para uso na cozinha e para beber, água pura que nasce ali embaixo das pedras do morro; vamos sim até a mina. Abrindo um parênteses: nessas caminhadas pelas pequenas cidades de Minas se percebe claramente o orgulho das pessoas da região com a qualidade das águas das minas que brotam aqui e acolá: elogiam suas águas frescas, claras e falam do prazer em beber água na concha das duas mãos, sugando e molhando o peito, o que ali, naquele dia frio não era de todo agradável e fecha-se o parênteses. O senhor mora aqui?; sim moro naquela casa ali e o senhor de onde vem? Venho de Salvador; nossa que longe, veio andando pé de lá?; não, venho caminhando desde Alfenas; desde Alfenas, tá louco, longe, tenho parentes por lá, um irmão e uns tios; achei a cidade bem bonita, grande; e bebíamos água e parlamentávamos quando fomos interrompido pelo ganir do Duque: latia nervoso ao mesmo tempo ciscava o chão em volta de uma moita de gabirobas, e no espaço entre um latido e outro se ouvia, do meio da moita de gabiroba o chiiiii...nervoso: é cobra, é o chiado do guizo de cascavel, com a seca brava elas vêm a procura d’água, melhor ter cuidado, cobra venenosa; rápido, medroso, meti a mochila às costas e junto com seu Mário que esqueceu o doloroso reumatismo e andou célere para a estrada, deixamos Duque às turras com a cascavel e já distantes, seguros, sentamos no barranco da estrada: eu ainda ajeitando melhor a mochila e seu Mário se recompondo da rápida fuga, se põe a contar: minha filha, quando tinha sete anos foi mordida por uma cascavel e eu tive que ir com ela para a cidade em busca de socorro e o médico da Santa Casa receitou sete injeções e falou que a menina podia estar salva, mas que eu cuidasse bem dela porque a doença do veneno poderia voltar a aparecer depois de sete meses, e caso não aparecesse logo aos sete meses que poderia voltar depois de sete anos e, aí sim, caso não aparecesse – depois de sete anos – é que se poderia considerar minha filha curada de vez da doença e foi isso que aconteceu, ela está viva, mãe de sete netos, e foi depois daquilo, quando a cascavel mordeu minha filha, que aumentou mais o meu medo de cobra e se uma cobra cascavel tivesse me picado quando criança eu seria hoje um homem morto, naqueles tempos não tinha recursos, nem médicos, e é acho que é por isso que muito cuidado e ando sempre a olhar o chão, não enfio a mão para catar gabiroba de medo de cobra; e o Duque continuava ainda às turras com a cascavel e o seu Mário voltou aos seus berros e a lançar pragas no cachorro: sai seu desgraçado, quer morrer seu puto? – e enquanto berrava atirava – desajeitado - pedras no cachorro e na cascavel seu Mário contou que as cascavéis moram mais ao fundo no cerrado e que aquela que o Duque queria morder tinha um guizo de sete gomos, era então uma cobra já criada com sete anos de idade, cada guizo demora um ano para crescer. Até mais obrigado pela água da sua mina; até logo, boa viagem e chegando a Aparecida, reze por nós; sim, rezarei.
Caminhei por mais três horas e cheguei faminto à pequena cidade – me foge agora o nome: acho a pousada, o banho, onde tem um restaurante com boa comida? logo ali, vire a direita depois de dois quarteirões da praça, tem um bom; muita fome e no pequeno restaurante a memória da infância reativada: comi moganga, chouriço, torresmo, couve, frango com ora-pro-nobis...!
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
ESCREVER E CAMINHAR–5 -
Há dois anos estive em Portugal e, saindo de Porto, fiz o Caminho Português para Santiago de Compostela: coisa de uns treze ou quatorze dias de caminhada, mochila às costas, andando – devagar para sentir os cheiros, os ares - quilômetros e quilômetros por milenares estradas romanas, colhendo doces e negros figos no pé, apreciando o estrelado céu e procurando, sem muito sucesso, a estrela Vênus e a constelação do Cruzeiro do Sul naquele outro ponto da abóboda celeste (e já que o assunto é escrever e caminhar é importante a expressão Abóboda Celeste, título de uma composição que Dona Tarsila escreveu na lousa com data marcada para a entrega e eu deixei para a última hora e por isso perdi o treino com o time de futebol cuidando da redação da Abóboda Celeste que, para mim, foi um marco: percebi, ao término da redação, que poderia escrever sobre garrafa, pedra, torres, montanhas). De volta de Santiago de Compostela, em Lisboa, comprei o último livro do Vargas Llosa – O herói discreto – com direito a pequeno um carimbo na primeira página: Bertrand Livreiros – Este livro foi comprado na livraria mais antiga do mundo, e sempre que reiniciava a leitura do livro dava, antes, uma passadinha e re-relia o carimbo: chegando ao Brasil vou contar para o meu neto, acho importante; mas o que quero mesmo contar do livro é uma frase do filho Fonchito ao pai Rigoberto: “nunca é tarde para isso, papá – retorquiu o miúdo . – Ainda tens muito tempo, podes dedicar-te àquilo de que realmente gostas. Agora estás reformado e tens toda a liberdade do mundo para fazer o que quiseres.” Vou escrever as duas ou três próximas frases com cuidado redobrado, mas mesmo assim, antecipo: por favor, não as entendam como uma apologia à pobreza e muito menos como possível desculpa pela não condução da minha vida tal como poderia tê-la feito; então vamos lá: sou o décimo filho de uma família de roceiros – colonos e depois meeiros em lavouras de café – e fui o único da família que teve a oportunidade de estudar; os demais labutavam nas roças de café ou de arroz ou de milho de sol a sol, e só chegaram, quando muito, ao segundo ou terceiro ano - alfabetizados em escolas rurais, fazendo contas de cabeça melhor que por escrito, enfim: bons e rudes irmãos, carinhosas irmãs, pai e mãe e todos - orgulhosos – sorriam quando aos sete anos me ouviam dizer vou ser professor. E porque toda essa história? o que tem é que nunca em meu interior – nunca, repito – foi aventada a possibilidade de viver de uma profissão artística e o mais interessante é que, penso agora, caso essa possibilidade tivesse ocorrido e – eu tivesse força e talento para tanto - teria me tornado artista plástico, vivendo a vida a desenhar e a redesenhar os periquitos e as igrejas barrocas que aprendi – ao colo do Tio Olímpio – quando criança, e que vivia a rabiscar em mesas, folhas de papel e grossas areias. Agora e viver da escrita, da escrevinhação pura e simples? jamais passou pela cabeça tal possibilidade, embora quando adulto e na ativa, sempre que frequentava Seminários e Cursos me via “reescrevendo” palestras dos doutores, dos altos executivos, transcrevendo fitas gravadas, “passando a limpo” aquele falatório todo, transformando a linguagem falada em um discurso escrito: imaginando que viveria bons momentos com aquele trabalho, nunca, realmente, executado. Então no dia a dia no trabalho - e em suas tensões - à prática e o exercício da escrita se resumiam a projetos, planos, propostas e quando resultado desta prática era “aprovada com certo louvor” eu colocava o mérito da avaliação aos componentes técnicos e objetivos que eu havia repassado para o papel, enfim, nunca vi – nestes trabalhos – uma possível habilidade na escrita. De fato, enquanto na ativa, escrevi umas cinco ou seis histórias, que mostrava – envergonhado - a poucos amigos. Outra hora conto desta minha mania – que tenho agora, depois de aposentado - de escrever: no momento vou cumprir o compromisso com o jovem e sorridente jornalista Anselmo e escrevinhar a prometida crônica.
“Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
E de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.” : Manoel de Barros, Poemas Rupestres .
Já disse, em outro escrito, que o caminhar pelos cerrados, atravessando pequenas cidades, subindo e descendo pela Mantiqueira, instiga o carinho com que carrego as memórias de minha meninice, mas cuidadoso, repito: memórias atravessadas pelo prisma da idade que alcancei, e assim, fico - a todo momento, enquanto caminho - revendo e vendo postes verdes, “cobertos de limo” , repletos de saudades, de inocentes amores, de medos e de orgulhos; quintais onde, meio a bananeiras e pés de mexerica enredeira se misturam galinhas e galos e pintinhos e patos e porcos e leitões e cachorros e, vez ou outra, uma mansa jacutinga e joãos de barro e sabiás laranjeira, todos à espera da comida, aguardando ansiosos e barulhentos – uma sinfonia, dodecafônica a ouvidos mais apurados, mais uma sinfonia – aguardando, repito, o “pritititititiii” da dona da casa, o milho debulhado no avental sendo jogado, esparramado pelo quintal – pri ti ti tiiiiiiiii- e todos avançam ao milho amarelo esparramado ao chão, meio a ciscos e cocôs e penas caídas – céleres e egoisticamente engolindo cada grão como se fosse o último, o quintal se transformando em uma flutuante nuvem de penas e pernas e pius e coins e que que qué; quieto, ainda sem latir, apenas o cachorro vinagre, atento ao olhar e à mão da dona que vai, a qualquer momento, apontar : é aquele ali Lulu e aí, sim, disparado, o esperto Lulu - acatando à ordem - avança e logo tem sob seu peso, preso, o frango carijó de oito meses que cacareja forte, esperneia de medo de ser cozido com quiabo, jiló e com comigo ninguém pode, a faca afiada primeiro abrindo caminho suave estradinha entre as penas do pescoço, e só depois – a estrada amarela meio as carijós penas - alcançar fundo a veia aorta, o pires embaixo para colher o sangue, misturado com o limão para não coalhar e virar galinha a cabidela.
Nas praças das pequenas cidades, quase sempre frente a uma igrejinha bem cuidada e de portas abertas para solitárias orações, os homens velhos se reúnem para conversas: chegam, quietos, em suas bicicletas e vão se reunindo aos outros dois que já chegaram, fazem uma roda à sombra do jacarandá mimoso que protege do sol suas as cabeças – todos cerimoniosamente vão retirando os chapéus, deixando à mostra os poucos cabelos brancos, molhados de suor – e falam de suas bicicletas, do jogo de ontem que viram na televisão e vão se acalmando, se acalmando e ficam de cotó, tiram do bolso traseiro da calça o canivete e o pedaço de fumo goiano, alisam a palha de milho na língua, conversam e picam o fumo, e esfarelam o fumo na concha da mão esquerda, acertam o fumo macerado na mão como uma pequena leira – ou lera? – que é cuidadosamente jogada na palha de milho, já bem alisada com as costas do canivete e com a baba da língua e pacientemente, dedos ágeis, enrolam o cigarro, e agora sim, o pito pronto, sentam confortável no bando de cimento, sob a sombra do pé de jacarandá mimoso, riscam a binga e acendem o cigarro, fortes tragadas, a fumaça branca saindo pelo nariz e continuam a falar da vida, do Seu Barbosa que Deus levou domingo passado e deixou viúva Dona Gertrudes: ainda faceira, diz um; mas que falta de respeito pensar assim; reclama outro: a pobre coitada ainda não saiu do luto e já se fica pensando besteira; mas o que conta é que sou viúvo e sei o quanto é dura essa vida de solidão nas noites; e todos riem, alegres e maliciosos: mais o compadre, ainda tem essas vontades? a idade não acabou com elas?; que nada, compadre, inda padeço de amores e sabores. Mais calado e quieto um senhor alto, magro, camisa aberta ao peito, atento às conversas – percebo isso pelo acenar com a cabeça para baixo e para cima quando aprovava o assunto e balançando de lado quando o que ouvia não lhe agradava o ouvido, discordando com a cabeça, e depois me contou que largou de fumar pito de fumo por ordem médica – o diabo de uma tosse e o doutor me disse que se eu não largasse ia morrer de longa morte sofrida e aquilo me meteu medo – e as mãos acostumadas com o canivete herdado do pai – a folha já gasta, pela metade – com necessidade de se sentirem ocupadas se dedicam a raspar e modelar galhos de goiabeira e de mangueira, tirando as cascas, acertando ângulos e produzindo carrinhos de boi, carrocinhas de carregar leite, cavalinhos que quando prontos oferece, de presente, para a meninada da região, que nos de agora, segundo ele, andam mais é se interessando pelos desenhos da televisão. A tarde toda a praça é ocupada pelos velhos e os brancos alpendres das casas, o vaso com a samambaia de metro – verde, verde – pendurado no teto e ocupando enorme espaço, quase cobrindo a mesinha de ferro pintada de branco e os três banquinhos o chão de ladrilhos brilhando de tão bem encerado, vermelho, sobre a mesa a branca toalha de algodão, xícaras de louça e as velhas ocupam as mãos e as mentes com agulhas de tricô, de crochê, conversam quietas e fabricam sapatinhos e casaquinhos de lã que prontos serão doados para o leilão da creche, bebem elegantemente - o dedinho minguinho para cima - o café coado na hora, comem biscoito de polvilho assado, falam da vizinhança, do padre novo que chegou na cidade e vive a falar no celular, isso é mau exemplo; que isso comadre, deixe o coitado do padre usufruir das modernidades; gosto disso não; mas das conversas da mulheres dava para eu ouvir pouco, apenas quando passava frente ao alpendre e dizia boa tarde e vez ou outra o assunto encompridava: o senhor é peregrino?; sim; está indo praAparecida? sim, estou; reze por nóis lá; rezarei.
A noite a praça é dos jovens e seus celulares: dois rapazes frente a frente, cabisbaixos manipulam com o dedo indicador a minúscula tela: olha só, viu, o Romeu tá saindo com a Marisa, me mandou mensagem agora; e o outro rapaz: verdade, mesmo? sem tirar o olho da tela de seu celular, de onde escuta ou vê alguma coisa e solta uma escandalosa gargalhada – e percebendo o inconveniente da altura de seu riso tapa a boca com a mão esquerda – mas continua sorrindo do barulho estridente: piada suja meu foi aquela mina de São Paulo quem mandou, porra, forte demais, meu, forte demais; no banco de cimento o casal de namorados, as costas pequenas e magras da bonita menina apoiada nas largas e fortes costas do rapaz moreno, também bonito, os pés no banco, cada qual com seu celular, os dedos manipulando minúsculas teclas: você não me ama mais; bobagem, sua, ti amo cada vez +; então pq ficou com a Luiza no baile de sáb?; tudo mentira, fiquei ñ, num fui ao bailei; verdade?; juro por deus nossa sra; me dá um bj?; um bjão amor!