segunda-feira, 25 de agosto de 2014

CAMINHAR E ESCREVER–HISTÓRIAS - UM -

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E já que você gosta de escrever porque não aproveita essa sua peregrinação e rabisca o seu dia a dia para o jornal? acho que com isso dá até para ganhar trocados o suficiente para pagar os albergues, eu bem sei que não precisa, mas dinheiro a mais, mal não faz, é o que penso.
Conheci – e, com o tempo, tornei-me amigo de Seu Patrício – em uma das caminhadas que fiz, talvez no Caminho da Fé , ou o da Luz, ele andando sempre depressa e eu devagar: um velho espanhol, homem alto de pernas longas, bravo, estourado, um infarto – quando realizava o Caminho da Fé - duas pontes de safena, marca-passos e a proibição, para ele grave e triste, de realizar longas caminhadas, proibição, aliás, solenemente reafirmadas aos finais de semana junto ao irmão padre, que obriga o Seu Patrício, mãos sobre a Bíblia Sagrada, jurar a não mais se aventurar por longas andanças em solitários caminhos e menos ainda a visitar uma determinada e obscura casa de oferta de masculinos prazeres, e esta parte do juramento é sempre realizada em código – o irmão recita e ele repetia a promessa em latim – tornando inacessível ao leigo ouvido de Dona Cecília, mulher de Seu Patrício, que – véu negro cobrindo os cabelos brancos, rosário às mãos, contrita - participa da cerimônia semanal de promessas e juramentos do marido ao irmão padre; este – Dom Marcos - uns dois anos mais velho que o irmão, que agora conta com seus setenta e mais de dois anos , e aos domingos, após celebrar a missa das nove, sempre recheadas de solenes prédicas - seu preferido e usual tema atual, do alto do púlpito rococó – é defenestrar o espiritismo kardecista que em sua imaginação impregna com mais perigo as ovelhas de sua paróquia do que as novas igrejas de crentes, mas – aí ele só pensa, baixo, ninguém ouve - tudo farinha do mesmo saco, todos uns legítimos filhos da puta; continuando: tão logo dá por encerrada suas obrigações litúrgicas dominicais, pega sua lambreta vermelha e se prepara para passar o resto do santo dia de domingo com o irmão e a cunhada, onde busca esquecer um pouco sua vida de sacerdote - tão logo encerra a liturgia das promessas e rezas com o irmão e a cunhada. Quanto às promessas – solenemente realizadas na sala, frente a imagem de São Tiago, todo iluminado por acesas velinhas coloridas e enfeitado com perfumadas flores colhidas no quintal por dona Cecília – é bom que se diga que muitas vezes não são cumpridas, mais no que se refere à promessa de visitas à obscuras casas de prazer – alegres encontros para usufruir as cortesias de dona Mercedes com seus rosados seios fartos – que, talvez por ser de curta duração – coisa de hora, hora e pouco, afinal os setenta anos pesam - e são facilitados – a tentação, segundo o irmão padre - pela proximidade da casa de dona Mercedes com a Caixa Econômica, onde seu Patrício é cliente e rotineiramente aparece a cada início de mês: passa pela porta rotatória de vidro que nunca apita apesar do marca passos, a do aeroporto vez ou outra apita, as mãos cheias de boletos de contas a pagar com o salário de aposentado, não usa os serviços da internet para transações bancárias de medo de “raquers” e também porque a obrigação de ir à Caixa é desculpa para sua saída mensal sem maiores explicações a Cecília, sua mulher por mais de quarenta anos: vou ao banco pagar as contas, logo de tarde eu volto; e a obrigação de pagar as contas é - nem sempre, mas quase sempre - emendada com os suaves e doces encontros com a puta Mercedes, sempre à tarde, na casa dela, as outras meninas dormindo descansando do trabalho noturno; enfim, as duras e pesadas contas e prestações a serem pagas são a tentação – o capeta - para descumprir a promessa feita aos domingos – o solene irmão padre, as mãos sobre a bíblia, os olhos fechados e naquela hora o sentimento verdadeiro de cumprir -; mas, Deus do céu, o seu Patrício tem que ir à Caixa pagar as contas, a casa de Mercedes tão encostada na Caixa, dois quarteirões, a carne é fraca, pensa sempre enquanto toca a campainha da casa branca de janelas azuis e antecipa em sua mente o rosado rosto de Mercedes, seus cabelos longos, ela sempre abre primeiro uma janela da veneziana, o vê e sorridente: entre benzinho, estava mesmo te esperando, ando já de saudades do meu bem. E se sua rotineira obrigação de ir ao banco pagar as prestações e contas compromete a promessa jurada o mesmo não ocorre com a outra promessa - a de não mais realizar suas inocentes caminhadas que costumavam durar semanas, dias, meses - : seu Patrício não mais realiza grandes caminhadas, ou peregrinações que é como ele gosta de dizer.
Olhe seu Patrício, eu gosto de escrever, mas sem compromisso; nunca tive coragem - ou competência - para mandar meus rabiscos para jornais, escrever, para mim, é coisa mais de gastar o tempo que me resta nessa vidona que deus me deu (e que ele nunca saiba que escrevi deus com o d minúsculo, católico fervoroso, frequentador da missa dominical regadas de fervorosas orações, confissão e hóstia santa); pois saiba que já conversei com um jornalista, amigo de meu irmão, aquele que é padre, e ele quer seus relatos, que ele chama de crônicas, acho uma bobagem estas classificações: crônicas, novelas, romances, no fundo, bem no fundo, tudo não passa de histórias, de prosas você não acha?; sim, acho que sim, que é tudo a mesma coisa, mas seu Patrício preciso pensar melhor...; ele, o jornalista, disse que tem que ser histórias curtas, que o povo não tem mais paciência de ler coisas compridas e eu mesmo, posso dizer que nunca consegui atravessar um livro inteiro, me cansa.
O jovem jornalista, Anselmo, é um rapaz simpático e bonito, moreno, sorridente, tem a segurança dos jovens, sem as dúvidas e as complicações que o tempo vai metendo na cabeça da gente: procure ser o mais objetivo possível, use uma linguagem clara, poucos adjetivos – por favor, nada de montanhas azuis, isso não existe, as montanhas são negras -; tá bom, Anselmo, tentarei ser objetivo, embora reconheça que sou dado a voos de longas divagações.
1 - Caminhos e andanças!

Mochila às costas e todo o dia pela frente: montanhas, morros, rios, cachoeiras, pastos, pontes, pinguelas, riachos, córregos, o céu de um impensável azul ...e depois daquele morro o que é que vem? vem outro morro ou talvez um campo, ao fundo um riozinho de águas claras, piscoso, uma paineira que convida ao repouso sob sua sombra, lanchar, beber água, tirar as botas e por as pernas para cima, descansar olhando por baixo dos galhos a nuvem que passa, ver – quieto para não espantar - o canarinho da terra carregando um gravetinho no bico para construir seu ninho. Besteira? deve de ser, mas gosto destas besteiras, acho!
O desejo de caminhar dias e dias é velho em mim. Quando jovem acompanhei, invejoso, pela revista O Cruzeiro, os soldados do exército que caminharam de São Paulo a Brasília, quando de sua inauguração: os pés em frangalhos, machucados, os coturnos - duras e pesadas botas - com os saltos em pedaços, o couro rasgado, desgastado, as fotos com os pés feridos que - há época – me causaram profundo desânimo: caminhar por longas distâncias é puro sacrifício, sofrimento; desisti da ideia, que voltou a brotar em mim já velho, aposentado, com tempo de sobra e, nada de coturnos, mas com calçados macios, fiz, com um amigo, parte do Caminho da Fé: andamos pela Mantiqueira a dentro por uns quatro ou cinco dias, os dois orgulhosos por terem percorrido mais de cem quilômetros a pé; caminhamos de Águas da Prata até Borda da Mata de onde voltamos para casa. Mais que entusiasmados, mês e meio depois, voltamos ao caminho, agora para percorrer de Borda até Campos de Jordão e foram mais cinco dias de caminhada e eu já equipado com bota própria para caminhada, roupa leve, de fácil secura, e uma boa mochila.
Viciei!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES - XIV - E FOI QUANDO ARCEBIDES ENCONTROU O SEU DESTINO!

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“Na estrada de Caxangá

tudo passa ou já passou;

o presente e o passado

e o passado anterior” - “in” João Cabral de Melo Neto, O motorneiro de Caxangá

E foi Luzia que um dia me falou com sua voz aveludada: mas veja pois Arcebides, o que importa se você não tivesse fugido de sua vila lá nos Jequitinhonha por causa da morte do delegado, que nem foi você que matou? nos de hoje, no de agora, isso pouco importa, pouco valor tem, e sabe por quê?, porque, Bem, você fugiu e pronto! Isso de ter ficado lá, perto de sua mãe e de seu pai, não existiu, não é essa a sua vida: a sua vida é que você fugiu por causa da morte do delegado que você não matou; e aquela sua fala – ainda hoje sinto um pouco de vergonha de contar - me assustou, achei muita clareza naqueles ditos. Nós dois estávamos, Luzia e eu, deitados com preguiça, descansando na cama, foi em uma tarde de outubro ou novembro, e aquela fala de Luzia cravou fundo dentro de minha cabeça: de verdade eu nunca em antes tinha pensado assim, e fiquei admirado da sabedoria de sua fala e nós dois deitados com pouca roupa na cama, era de dia, o sol lá fora queimava os arrozais, retorcia as folhas dos pés de milho, era tempo de uma secura geral mesmo ali nos goiás das veredas e dos chapadões e foi que bateu em mim uma saudade das caatingas cinza, do ar seco que entra nos peitos e sangra o nariz quando se respira fundo queimando os pulmões. E Luzia – adivinhando, será? - tocou com sua mão pequena e lisa meu ombro nu: pensa em voltar para lá, para junto dos seus, Bem?; ando pensando nisso, mas não tenho mais certeza de nada, lá tudo é nos iguais, e é sempre em cima do que já existe, do que se conhece, que é que se constrói o futuro, e nos meus maiores momentos de agora o que imagino é fazer um futuro diferente, um futuro desligado do passado, será que dou conta disso? E Luzia soltou todo o corpo em cima do meu, falou baixo: dá conta sim, Bem!; e foi ai que me dei conta que gostava de Luzia.

Luzia, uma mulher que parecia duas: uma delas era a Luzia - tia na casa das putas de Dona Inês - que gostava de ronronar feito gata no rabo do fogão, se aquecendo nas brasas dos fregueses, uma Luzia faceira, que apreciava manejar meiguices, sonhos e tinha a outra Luzia: olhos negros, carinhosa e por demais entendida da vida, que sabia encontrar o que se passava em meu coração, lembrando um pouco a mãe da gente – com o perdão da comparação - , mas – lembrava sim - uma mãe nova, esperta, amiga era o que era essa outra Luzia, de abraços e carinhos tantos e eu – cheio de decidida coragem - resolvi arguir: não quer ir conhecer as caatingas do Jequitinhonha?; mas Bem, mode o que, ir para lá Arcebides? acha que carece mesmo?; a gente pode ter lá uma casa pequena com um jardinzinho na frente, plantar um pé de rosa vermelha, que acho a mais linda, no outro lado, bem em frente à porta fazer canteiro com onze horas coloridas, malvas cheirosas, cravo de defunto, desenhar um arco-íris de tantas cores, você não gosta dessas belezuras?; muito, gosto é por demais, e também de ver as galinhas ciscando as folhas atrás de escondidas minhoquinhas de um chiqueiro com porcos de engorda para matar e comer carne, fazer banha. E fomos ficando a falar, conversando os dois com os corpos encostados um no outro e aquilo foi acendendo vontades, desejos, misturando sonhos com carinhos, e resolvi de vez que queria viver com Luzia, que mostrava ali naquela tarde, com o sol alumiando lá fora, que não tinha nojos em seus préstimos de mulher, a cabeça cheia de invencionices, os dois juntos, colados, aquilo por demais me agradava: e é isso que deve ser a vida, é o leste que ando atrás, será, mesmo?

E naquela tarde combinamos o futuro.

O senhor vê – nos de agora - o nosso sítio, a casa em que construímos com tijolo e telhas de barro, aqui moramos, tem o chiqueiro com porcos, o curral para tirar o leite, a tulha com fartura de milho para ser trocado por fubá, a charrete dom rodas de pneumáticos, mais nos fundos a mina d’água clara, boas terras para o plantio, o chiqueiro hoje com cinco capados de engorda, se bem que agora, com a idade que chegou, temos trabalhado menos, respeitado mais os dias santos e os dias de sábados e domingos, comida até sempre tem com a graça de deus, filho para criar não tivemos, os cachorros guardam a casa quando vamos dormir na vila para rezar na igreja em dias de festas de santos, o jardim com o pé de rosa vermelha, o canteiro de onze horas, Luzia fez outro com cravo de defunto e malva cheirosa, no fundo da casa, perto da mina, o pé de manga rosa, que carrega nos janeiros, manga das melhores, amarela, cheirosa, chamando passarinhos pequenos – sabiás, sanhaços, tiés - e bicudos tucanos e, sabe o senhor que mesmo ainda hoje, na velhice, apreciamos de gostar de esquentar cada um o corpo do outro nos frios das noites, de conversar de nossa vida nas tardes quentes de dezembro, os dois aqui vivendo ao deusdar, fechando os olhos para não ver o doer das dificuldades esperando o de noitinha para acender rádio de pilha com boas modas e o dormir no silêncio das caatingas do vale.

Pois é essa vida que ando a viver e é o que me leva a pensar que encontrei o meu destino, achei o lugar onde carecia de ficar, o lugar que sempre andei atrás, meio sem saber, mas que para ele sempre havia rumado: sabe o senhor que penso que é assim que vivemos a vida que, de verdade, não passa das boas coisas e das besteiras que fizemos até o dia de ontem, e que o hoje nada mais é do que o ontem de amanhã, uma vida de difícil entendimento quando se pensa forte na busca de seu entendimento, e até, no mais das vezes, desisto de entender e passo a querer apenasmente, com a graça do bom deus, viver.

Foi bom ter contado ao senhor e agradeço a paciência de ter me escutado, mas chegou as horas do descanso, do cerrar os olhos, dormir se esquecendo, se apagando a vida no escuro do sono e aguardar a claridade do amanhã, se ela chegar. Boa noite!.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES–XIII–FOI QUANDO ARCEBIDES RESOLVEU PROCURAR O SEU DESTINO!

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“Do que serve afligir-se em meio a terrores, se o homem vive à lei do acaso, e nada pode prever ou pressentir! O mais acertado é abandonar-se ao destino.” Édipo Rei, Sófocles.

E Arcebides fechou os olhos devagar, tragou bem fundo o cigarro de palha com fumo goiano, a fumaça chegou forte aos pulmões e foi ai que descansou a mente, deu aquela vontade de soltar a fumaça bem devagarzinho, sentindo uma cosca quentinha da fumaça nos bigodes, namorar a fumacinha azul clara sumindo no ar misturando o seu cheiro com o amargo perfume do café de bule que inundava a sala, lá fora o sol quente, os cachorros latindo contra uma visão que só eles viam, uma assombração, seria?, bebeu mais um gole de café doce e continuou a sua história:

A verdade é que fiquei parado, estatelado, enquanto ia vendo o Militão ir sumindo estrada a fora, montado na carroceria do caminhão com a caravana do circo, eu escutava seu assobio feliz que entoava as canções que iria cantar no Circo Veneza; os caminhões foram sumindo, sumindo, iam alcançar o horizonte, deixando uma nuvenzinha marrom de poeira fina na estrada, o barulho dos motores já se apagando nas veredas, sem poder de fazer mais eco no chapadão e uma nuvem de tristeza foi tomando conta de mim e aconteceu – comigo – em um tempo tão pequeno, coisa de minutos, mas que me pareciam infinitos, de uma dúvida por demais de grande ir tomando conta de todo o meu corpo, e era a dúvida de não estar indo para o leste se o leste era o meu destino, não entender por que andava acompanhado o cigano Igor para o norte, para Goiás, e tive vergonha de mim, da fraqueza de não ir á caça do meu destino, fosse ele qual fosse, mas para isso urgia mais d’eu saber onde estava o destino, o que é que eu – de verdade - queria, para onde iria, se o leste era o que me aguardava ou se o leste era apenas uma invenção de fugir de mim e eu não sabia - e reconhecia, naqueles minutos - minha incapacidade de sonhar o futuro, de saber para onde eu ia, reconhecendo a falta de saber, a oquice da cabeça, o vazio n’alma. Parado, a caravana de caminhões sumiu da vista, o horizonte vazio e foi quando o cigano Igor, solene em seu cavalo, quebrou o silêncio meio as veredas e falou com voz segura: vamos embora, sobrou um cavalo agora para vender; e me deu um ódio grande de ouvir aquela fala, o Militão buscando o seu destino, eu invejoso, e o cigano pensando em vender o cavalo e eu respondi raivoso: vou para o norte não, vou para o leste; fazer o que no leste?; achar o meu destino; só a dois dias daqui e chegamos no Porto Nacional, onde tem casa de mulheres, vamos?; eu estava ainda pensando o que decidir quando um comichão de vontade de mulher invadiu meu corpo, embraseou meu ventre, foi dominando todo o meu pensar, uma vontade grande de carinho, de sentir lábios quentes, do calor úmido de línguas se enrolando e sugando salivas, de gemer incontroláveis gemidos saindo do mais fundo do ser e eu decidi: dois dias a mais ou a menos não faz diferença e de Porto Nacional eu caminho para o leste e acho meu destino!

Em uma rua de terra com a calçada forrada de grandes pedras arenosas, casinhas azuis com pequeno alpendre iluminado por uma lampadinha vermelha; em uma casinha, na porta, uma morena alta: entrem, boa noite, tem cerveja gelada e meninas quentes; e entramos, Igor e eu, a moça morena acendeu a luz da sala e berrou alto: tem freguês; sentei em um sofá de plástico, a moça morena ligou a vitrola e soou alto a voz grossa de Nelson Gonçalves – fica comigo esta noite, e não se arrependerá, lá fora o frio – eu acompanhava o ritmo batendo com os dedos no braço do sofá; do corredor aparece e entra na sala uma pequena mulher, morena, os cabelos lisos caindo até os ombros, olhos negros abaixo de sobrancelhas cerradas, negras, nariz pequeno e lábios grossos...Luzia! Linda, Luzia, se aproximou de mim, a perfumada cabeça batia no meu peito – tão pequena -, pegou em uma das minhas mãos, e foi se aconchegando feito gata na brasa, ronronava - parece –, acomodou-se em meus joelhos: toma cerveja, bem?; sim, quero, bem gelada; Nair, manda uma cerveja bem gelada aqui pro meu bem, dois copos; e eu fui abraçando aquele corpo pequeno, sentia os peitinhos rijos se esfregando logo acima do meu umbigo, tão pequena a Luzia, de dentes tão brancos, e com uma voz docemente baixa e audível e fomos para o quarto; Luzia fechou a porta e apagou a luz, ficou tudo escuro e eu não achava mais o copo de cerveja em cima do criado mudo, e só depois, bem depois, com a luz acesa foi que vi o copo que a espuma da cerveja tinha desenhado uma seca rendinha em sua borda, lambi a rendinha e desmanchei o desenho, bebi o resto da cerveja amarga, quente e Luzia: volte amanha, de dia se quiser!

Foi dia seguinte, de dia que Luzia me contou que não conhecia seu pai: minha mãe se apaixonou por um loiro alto, de bigodes, eu me lembro de um retrato dele vestido com a farda de soldado da Coluna Prestes, uma carabina na mão, o olhar severo, ele, meu pai, junto a um bando de soldados ficaram acampados na praça perto da igreja matriz de Porto Nacional, minha mãe tinha medo de guerra, de tiros, e meu pai foi embora com a Coluna, eles fugiam da polícia do governo e então não deu tempo para eu conhecer meu pai; e sua mãe? onde ela mora?; morreu quando eu tinha ainda uns doze anos, pegou tifo; acho que gosto de você; também gosto de você; e fui gostando e fui ficando mais de uma semana em Porto Nacional.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES - XII–FOI QUANDO MILITÃO AVISTOU, AO LONGE, A CARAVANA DE UM CIRCO!

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Fugíamos - o cigano Igor, Militão e eu – sempre, um dia ou dois à frente das carroças da tribo de ciganos, galopando em direção a Goiás, para o norte, com o sertão das caatingas dando lugar às verdejantes veredas, se enxergando, no fim do horizonte, negros chapadões, os buritis, solenemente enfileirados enfeitando as veredas; no céu azul pipocam tucanos com seus pesados bicos vermelhos, voando desajeitado, um voo desengonçadamente inseguro, parece que vai cair, exigindo das negras asas o esforço de bater contínuo e rápido, para cima e para baixo, os olhinhos negros – tristes – procurando uma árvore para pousar, o melhor seria se encontrasse uma mangabeira ou um jalapão, porque os buritis se encontram, parece que desde o sempre, ocupados pelas vermelhas araras, barulhentas, de curvados e fortes bicos, e nos úmidos chãos das veredas os preás deixavam seu cheiro e seus redondos caminhozinhos ao meio do capim verde, que faziam lembrar os túneis que as máquinas furavam para o metro de São Paulo passear dentro do chão, feito minhoca, e batia lembranças do Parque Dom Pedro, de jogar baralho valendo dinheiro, de passear de noite no Parque Xangai e ganhar sonho de valsa acertando bolotas de barro na boca do palhaço com o estilingue de forquilha torta e, coisa mais de melhor, nos dias de final de mês, dia de pagamento do ordenado, à noitezinha, tomar banho, passar perfume e ir para a Rua Aurora visitar as casas das bonitas e morenas meninas, levar uma cerveja gelada e dois copos para beber no quartinho dos fundos com uma mineira bonita – Dulcinéia, era o seu nome – fazer amor com ela me chamando de Bem!, e imaginar – sonhando - a vida de homem casado, de sempre deitar acompanhado de mulher, tem que ser uma boa vida, pensava, o corpo sacudindo pelo trote molengo do cavalo que seguia desviando o caminho do leste, indo para o norte, e o que será que eu vou fazer no norte? E o que eu pensava em fazer no norte? Sabia não: até hoje, velho, com reumatismos endurecendo as juntas, acomodado, continuo a ser homem de ideias curtas, com dificuldades de pensar o longe, o depois de amanhã e naquela viagem de fuga, o rápido galope do cavalo fazendo as paisagens mudarem sempre – da cor de palha de milho do sertão catingueiro para o verde das veredas, do elegante voo do carcará para o desajeitado voo dos tucanos - dificultavam ainda mais essa minha pouca inteligência de enxergar o futuro que deus me reservou, e então eu resolvia que o melhor era cutucar o cavalo, apressar ainda mais sua marcha, e ir vislumbrando novas serras, as horizontais chapadas, admirar o repetitivo cantar do bem te vi que voava de buriti em buriti, seguindo os fugitivos viajantes, alertando de sua presença: bem te vi! bem te vi! e o seu piar canto me lembrou do Nestor, um sergipano que trabalhava como apontador de máquinas em São Paulo e sempre que bebia, contava a história de um jagunço que quando caminhava pelos sertões de caatinga, o intestino desarranjou, o recurso era procurar uma moita para fazer suas necessidades, e tão logo encontrou uma moita, abaixou as calças e estava se preparando para agachar quando ouviu o bem te vi cantar: bem te vi! bem te vi! e o jagunço, envergonhado, se alevantou de sua posição de agachado, suspendeu mais que depressa as calças até a cintura e continuou a andar com as pernas apertadas uma na outra de medo de sujar as calças - e Nestor, bêbado, enquanto contava a sua história teatralizava o andar cambaleante do jagunço segurando as calças, e a gente ria de sua imitação perfeita - e o jagunço andou mais um pouco quando viu outra moita, e apertado por demais, baixou as calças, se ajeitou para cumprir suas necessidades e de novo o bem te vi: bem te vi! bem te vi! e o jagunço, novamente, subiu depressa as calças e continuou a caminhar com as pernas coladas uma na outra para evitar lambanças, não era mais nenhuma criança para sujar as calças e andar debaixo do sol quente com as calças fedendo, os intestinos roncando e o jagunço viu outra moita, se arrumou para cumprir a urgente necessidade e o bem te vi: bem te vi! bem te vi! e o jagunço nervoso: fica quieto que meu cu tá aqui! e obrou, aliviou o corpo das necessidades e continuou o caminho, e Nestor dava risadas de sua história - sempre repetida - e repetia também mais um gole de pinga!

Foram mais de duas semanas caminhando para Goiás.

Em uma tarde, o céu azul sem nenhum algodãozinho de nuvem de enfeite, o sol castigando a nuca e as costas de quente, apeamos dos cavalos, para um descanso, no alto de um chapadão, apreciando o lá embaixo: uma imensidão de campo tingido de verde - as veredas -, e daquele alto também dava para enxergar, tão lá embaixo, a nascente do rio das Mortes, que depois ia se engrossando e se serpenteando pelas veredas e suas águas brancas sob o sol se transformavam em espelho obrigando a gente fechar os olhos, melhor então era ver as fileiras de buritis que pareciam de brinquedo de tão pequenos vistos daquela altura do chapadão, os urubus voando rente com nossas cabeças, nas alturas, e lá e embaixo, um fiapo cor de areia riscando o verde das veredas, uma estrada de chão que acompanhava as curvas do rio das Mortes, e foi quando todo aquele mundão de silêncio se assustou com o urro de um leão – ourrrourrrurrr! –; mas será que tem leão aqui?; tem não, o que tem aqui é onça suçuarana, cor de vinagre que come borregos e cabritos; mas isso não é urro de onça. E não era uma mentira: o urro bateu nos muros do chapadão e reverberou ecoando de volta - ourrrourrrurrr!; e foi daí que eu que os olhos do Militão começaram a brilhar feito que tinha um sol dentro deles, e aquele brilho foi se esparramando pelo todo de seu rosto, o homem se transformava, sorria por inteiro ao ouvir o novo ourrrourrrurr!: é um leão! é um circo! dá para ver, preste atenção, é uma caravana de circo! é o circo, o circo!; será que endoideceu o Militão?

Tinha endoidado não: como o urro do leão, não era mentira, não era engano dos ouvidos deu para ver lá embaixo, na estrada arenosa - meio ao infinito verde das veredas - caminhões, uns quatro ou cinco, em fila, colados um no outro - brummmm! brummmm! e Militão apontava enquanto repetia, gritando para ele mesmo: é um circo, é o circo! e foi saindo daquele estado de sonho, olhou para mim, mais do que para o cigano e disse: voum'imbora com eles, adeus!; montou o cavalo e tocou para a planície, em direção aos caminhões do circo, forçando o cavalo a forte galopar, o cavalo escorregando as patas dianteiras pelo íngreme barranco do chapadão e Militão berrou: vem comigo para a estrada, vem!; e eu, sem muito pensar e sem saber o porquê, toquei o cavalo na tentativa de alcançar Militão que vez ou outra olhava para trás e dava para ver que ele ria de contente quando notou que eu ia em direção ao circo e eu pensava será que ele está imaginando que vou junto dele? não vou não, quero vida de andar com circo não!

Alcançamos o planície e os cavalos – agora parelhos - galopavam em direção à caravana; os caminhões seguiam devagar com dificuldade de vencer os sulcos de areia que se formavam na estrada e um, mais pesado, entalou, acelerou forte para escapar e suas rodas giraram em falso, jogando areia para cima e cavando um enorme buraco na areia e o pesado caminhão que puxava a fila entalou, a caravana parou meio a vereda, os homens pulando dos caminhões, o leão urrava bravo em sua jaula amarrada na traseira do caminhão atolado, crianças corriam pelo mato e atiravam pedras nos preás e nas araras, as mulheres aproveitando a parada, faziam suas necessidades atrás de uma moita de mangabeiras, e o caminhão entalado roncava forte, queimava os pneus, e nos juntamos aos homens do circo e ajudamos a colocar capim e uma taboa no buraco de areia, embaixo dos pneus, agora ele poder sair: engate a reduzida e afunde o pé no acelerador, berrou um italiano forte, rosto vermelho do sol, e a gente empurrando o caminhão – brummm!brummm! – viva! escapou do buraco depois de solavanco forte: viva! Viva! berrava Militão, entusiasmado, meio fora de si, abobado na alegria de seu sonho.

Na carroceria do caminhão em letras vermelhas: Grande Circo Veneza! Militão, à vontade, se apresentou ao italiano que agora fumava um cigarro de papel e suava molhando a camisa, gotas de suor caiam do rosto encharcando o peito: meu nome é Militão, já trabalhei em circo como cantor; e Hipólito enxugou o rosto de suor com a manga da camisa: sabe, mesmo, cantar?; sim, quer ouvir?; e Hipólito, imediatamente, gritou alto: o rapaz aqui quer cantar em nosso circo, atenção; e o pessoal do circo foi se aproximando, as mulheres deixaram as moitas onde faziam suas necessidades, filhos nos colos, os meninos deixaram de atirar pedras nos preás, os operários e artistas deixaram os caminhões e fizeram um semicírculo, sentados no chão, e foi inventado ali um palco, meio da infinita verde vereda e o seu fundo era o chapadão de negras pedras, e Hipólito: pode iniciar sua apresentação de cantoria, primeiro com voz feminina e Militão com voz agudíssima cantou e dançou requebrando sensualmente os quadris:

Tomo um banho de lua
Fico branco como a neve
Se o luar é meu amigo
Censurar ninguém se atreve
Mas é tão bom sonhar contigo
Oh! luar tão cândido…

e foi entusiasmando seu público - artistas e trabalhadores do Grande Circo de Veneza - e Hipólito gostou da apresentação – mostrava isso com um largo sorriso em seu rosto – e ordenou que Militão continuasse sua apresentação e sob o silêncio das grandes veredas, agora com voz masculina,Militão não se fez de rogado, e soltou a voz aveludada, masculina:

Luna que se quiebra
Sobre las tinieblas de mi soledad
Adónde vas?
Dime si esta noche tu te vas de ronda
Como ella se fue;
Con quién estás?…

e todos aplaudiam, contaminados pela beleza da voz e da elegância da apresentação e ao término da segunda canção,Hipólito disse: quer cantar no Veneza?; sim, quero; então venha com a gente, tem lugar para cantor.

E Militão foi se aproximando de mim, seu rosto era só felicidade: voum’imbora Arcebides, esta é minha vida: o real, para mim, é a apresentação, é o palco; boa sorte, que deus lhe ajude, vá mesmo; você pode devolver o cavalo para o cigano?; posso; e Militão me abraçou forte: tomara que você encontre seu leste; vou encontrar, adeus, amigo!; adeus!

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES–XI–E FOI QUANDO A TRIBO DE CIGANOS RECEBEU SEU IGOR COM FESTAS E HONRARIAS!

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“Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não humilhar ninguém; percorrer a terra, tranquilamente e sem ninguém nos conhecer! ...Também eu quero viver assim.” A mãe, Maxim Gorki.

Continuo, então, ao que andava a te contar,

Foi em uma madrugada que encontramos o acampamento da tribo de Igor no pé da serra Geral: umas quatro carroças rodeando uma tenda enorme, o toldo descorado pelo sol e pelas chuvas, puído, mais ao fundo, separadas tendas menores – uma aqui e outras ali -, no meio da praça, perto da grande barraca de lona, uma fogueira ainda acesa – o fogo minguando de cansado de alumiar a escuridão para espantar a onça suçuarana que não apareceu, dois cachorros magros, costelas à mostra, ladraram forte, bravos, dentes à mostra e Igor ralhou bravo: quieto listrado, se esqueceu do dono? e foi só ouvir a voz grave de Igor que listrado e o outro cachorro, ganiram um caim! caim! longo, os rabos girando forte, os pintos não segurando a urina, se mijaram todo, e das tendas foram saindo gentes: ciganos com os olhos remelentos, mulheres com os negros cabelos despenteados, peitos desnudos, uma velha de cabelos brancos: meu filho, meu filho! e todo aquele povo acordou barulhento, a fogueira teve seu fogo reanimado com sabugos de milho, os tocos de angico se abrasearam vermelhos e soltaram chamas amarelas, o caldeirão com água para ferver colocado no centro da fogueira, sorrisos, abraços: e por onde esteve por tão longo tempo?; andei ficando preso; e te soltaram?; não: fugi da cadeia com a ajuda destes dois aqui; e foi só então que fomos – Militão e eu – notados pelo bando de ciganos.

O dia foi clareando devagarmente, dando tempo para que a tribo de ciganos se visse toda acordada e o silêncio da madrugada foi sendo quebrado – pouco de antes dava para ouvir o barulho das minhocas fazendo tuneizinhos dentro da terra - por uma crescente onda de misturados sons, uma algazarra infernal de vozes, sorrisos, gargalhadas, cantos, um rapaz pegou o violão e ponteou uma música alegre, Igor entrou em sua barraca e ficou por lá em amores com as moças que havia roubado e enquanto um velho cigano afiava a faca para matar o cordeiro, outro colocava mais tocos de angico na fogueira e o sol apareceu – plenamente - na barra do horizonte.

Uma senhora, cabelos brancos, peitos caídos, chegou até onde Militão e eu estávamos - eu um pouco desorientado, já desacostumado que andava de ouvir tanto barulho, monte de cores, gentes, alegrias – e ofereceu a cada um caneca com café quente – ralo, doce – e perguntou pelo nosso nome - me chamo Luiza, disse - , e apontou para duas tendas que ficavam debaixo de um pé de jenipapo: estão vazias, querendo descansar...Terminei de tomar o café e senti bater em todo dentro de mim uma canseira boa, o café tirou o amargo de losna que tinha na boca, um rapazinho cigano desarreava os cavalos, senti uma preguiça boa de nada fazer, fechar os olhos e dormir, um nada pensar, desculpe-me pensando que o mundo gira de qualquer jeito, tanto faz eu estar aflitamente pensando quanto lerdamente quieto, ocioso no pensar e no fazer, e deitei na tenda debaixo do pé de jatobá e dormi.

Dormi fundo, pesado e acordei com o barulho de música lá fora, senti o delicioso cheiro da carne do carneiro assada na fogueira, os ciganos cantavam, bebiam festejadamente, não cabiam em si de felicidades, dançavam, os homens com olhares para os corpos morenos das mulheres que volteavam, rodopiavam - sensualmente – ao ritmo de uma música alegre, libertadora, e aproveitei para ficar apreciando aquilo tudo de dentro da tenda, quieto, sentindo que aquele mundo não era o meu, o mundo dos gerais, das veredas, um mundo mais quieto e talvez um pouco mais triste e contido. Saí da tenda, comi carne de carneiro assada, me ofereceram e tomei goles e goles de uma forte bebida, me senti embriagado, a língua grossa dentro da boca e os ouvidos, mais sensíveis, trazendo a música para dentro da alma e os olhos fixos nos corpos das ciganas que rodopiavam em volta da fogueira, as chamas amarelo avermelhadas dos troncos de angico subindo e queimando o ar, aquecendo meu ventre, e surge uma grande necessidade de mulher, de tocar em morenos corpos, beber seios, roçar lábios, sugar salivas, sentir as ondas de dois corpos unidos, acho que o domina o homem é o que tem no meio das pernas...Voltei, cambaleando, para a tenda e tornei a dormir.

Acordei, já escuro, o gosto de losna amargo tomando outra vez conta da boca, a saliva grossa, o ar carregado e fedido dentro da barraca, saí para mijar, tudo já escuro, as estrelas dominavam o céu negro, uma estrela caiu e fiz um pedido: quero mulher, e me lembrei das moças da rua Aurora, nas noites do dia de pagamento, na sala, um sofá vermelho e a gente bebia cerveja gelada, as moças gostavam de beber cinzano, faziam amor com hora marcada, sentavam em meus joelhos e me chamavam de Bem, Benzinho, vamos logo meu bem! Voltei para a tenda e deitei, os olhos fechados para pegar novamente no sono: senti no escuro da noite um vulto clareado pela luz das estrelas que entrava na tenda e senti delicadas mãos tocando meu corpo, se enfiando abaixo da camisa, lábios grossos – carnudos - procurando os meus, os seios firmes, grandes e longas pernas tomando conta de meu corpo, as mãos pequenas ousando liberdades maiores, se enfiando calça a dentro e acariciando minhas partes, eu querendo cegamente tatear o rosto e desvendar sua beleza, e ela fugindo do meu tocar, só ela se dando ao direito de tudo fazer, as roupas atiradas ao lado dos corpos nus, quem seria? mulher casada ou moça virgem? quem seria que quietamente me dominava, mas isso de saber quem era em alguma importância? naquela tribo eu só conhecia Igor e a velha de peitos caídos que me ofereceu café, aqui seios fortes, redondos, e dava para eu escutar o seu respirar ofegante e o meu coração batendo forte, fora do compasso de tempo, batendo apressado, e o seu tum! tum! tum! chacoalhando meus ouvidos. E, silenciosamente, tal como havia entrado o corpo saiu nu da tenda em direção à fogueira, as nádegas fortes, os longos cabelos chegando às costas, e com o andar silencioso, amassando as moitinhas de capim com o peso de seus miúdos pés e foi sumindo, devagar se evaporando pela noite, não olhou para trás, lá fora a música foi diminuindo e se escutava o coaxar de um sapo e o cricri!...cri! de um grilo noturno, até que o silêncio voltou a dominar o mundo!

De madrugada Igor chegou na tenda em que dormia e vi que ele já vinha acompanhado de Militão e acordei com seu falar: temos que palestrar, Arcebides!; e os meus olhos – acomodados com a escuridão da madrugada - se recusando a obedecer a ordem de abrir, queriam continuar descansando fechados; Militão boliu sorrindo com minha preguiça: tem vergonha não? tanta preguiça que nem parece mineiro; e Igor, agachou-se, sentou em cima dos calcanhares e com sua voz grave e calma: tenho que fugir senão logo a polícia morde meu calcanhar; nós, ciganos, resolvemos que iremos para o norte, região dos Goiás, comigo sempre um ou dois dias à frente da tribo e agora vocês é que decidem se vão mais uns tempos comigo ou se querem pegar outro caminho, sozinhos; os cavalos, agora três, estão selados, prontos, vamos?

E foi assim que o silêncio e o descanso da madrugada deu-se por finado: um pouco em antes dava para escutar o cair do sereno para orvalhar as plantas, e agora, tão de repente, ainda escuro, o céu coalhado de estrelas, e já vem a brava necessidade de se tomar decisões, para onde vou? será que acompanho, mais o Militão, o cigano Igor nessa fuga sem fim, indo agora para o norte e eu querendo ir para o leste? mudo eu o meu rumo? deus do céu, careço de repouso de tanto fugir; e eu comigo mesmo ali pensando e os olhos de Igor exigindo respostas; o Militão, ali do meu lado, tomou a iniciativa de falar: qualquer paixão me diverte, até a hora que eu encontrar um circo para eu poder cantar e dançar eu sigo vocês para qualquer ponto cardeal; então vamos, falei e concordei por fora, mas comigo mesmo decidido que o que eu carecia era de um ou dois dias para eu saber tomar um rumo mais meu, de acordo com o que eu queria, só que eu não tinha certezas do que queria e tinha então que resolver um rumo a tomar, mesmo sem certezas de saber o que, realmente, eu queria.

O rapaz que tocava alegres músicas no violão chegou com três cavalos arriados; Igor tomou as rédeas do maior, um cavalo negro, montou e do alto do animal nos olhava pedindo pressa: embora antes que clareie o dia!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES–X–E FOI QUANDO O CIGANO IGOR ENCONTROU SUA TRIBO!

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“...Ficam, portanto, os amigos avisados de que na história do Silva há uns floreios. Acho que ele procedeu com acerto: quando um cidadão escreve, estira o negócio, inventa, precisa encher o papel. Natural. Conversando, como agora, a gente só diz o que aconteceu. É o que eu faço. Na sala havia quatro jaqueiras. Apenas.” Alexandre e outros heróis, Graciliano Ramos.

Naquela noite da fuga da cadeia caminhamos, em direção a leste, dentro de um silêncio total no mundo, silêncio que vez ou outra era quebrado pelo barulho de nossos passos no arenoso terreno- tchoc! tchoc ! tchoc! - , ou pelo pio de uma coruja e nessas horas Militão fazia, sempre e intuitivamente, o sinal da cruz: fechava os olhos e com a mão direita batia na testa – em nome do pai - , depois no peito – do filho – no lado esquerdo do peito – do espírito - , no lado esquerdo do peito – santo – até a mão chegar aos lábios – amém - ; dá azar escutar coruja piar, bicho do demo, dizia ao final de sua reza e Igor: coruja é filho de deus igual a qualquer outro passarinho, deixe de pensar besteira; e eu meneava um sim com a cabeça, sinal de ter concordado com o cigano: isso mesmo Militão, pensar besteira chama desgraça.

A lua gorda, cheia, foi caindo para o oeste, querendo se esconder do nosso mundo para ir alumiar outras bandas, outras terras e gentes, e o dia foi despertando, clareando, na barra do horizonte o sol aparecia, iluminando de vermelho claras nuvens – não vai chover hoje – ; à nossa frente um capão de mato denso, fechado e Igor emendou: vamos ficar ali escondido por hoje. E os três – Igor, Militão e eu – sem as paredes da cela da cadeia a nos cercar, deitamos no chão, debaixo de um pé de jatobá – frondosa árvore – e descansamos nossos corpos, cada um sonhando o que queria: eu querendo com o leste, Igor sonhando em encontrar sua tribo e Militão sonhando seu sonho de cantar no circo... Acordamos protegidos pela sombra do pé de jatobá, sol a pino: deve ter córrego por aqui, escuta o barulho?, falou Igor e Militão colocou a mão em concha no ouvido, enrugou a testa: sim, tem, o barulho vem de lá; e enquanto seguíamos Militão na procura do córrego, passamos por um pasto verde, bonito e Igor: tem cavalo por aqui, sinto o cheiro; e eu cheirei o ar, respirei mais fundo, senti cheiro de araticum maduro, senti também o cheiro meio azedo de pequi e foi então que me dei conta que ouvia bem o rumor das águas do córrego, mas não escutava barulho de patas de cavalo de que falava Igor, nem sentia seu cheiro e caminhei pensando naquela incompetência minha e foi ai que vi uma matinha verde, comprida, que seguia feito um mandarová, cobrindo do sol o córrego de águas frias, claras; não me lembro agora se vi ou se sonhei aquele pedregoso córrego: um córrego com muitas gambevas nadando em seu fundo, na correnteza borbulhante das águas, escondidas no meio das negras pedras e senti fome, me deu grandes vontade de comer lambari ou gambeva fritos, crocantes, vestidos de farinha de milho, bateu saudade de entrar em um bar e beber cerveja gelada, olhar o passar de uma moça bonita, ver seus lábios carnudos, inventar suas pernas roliças e tocar seus seios firmes, parecidos com pequenos mamões; mas isso lá são horas de pensar besteiras e mudei o pensamento dentro de minha cabeça, ordenei aos miolos que se entretecem com outras coisas mais reais.

Igor continuava a buscar de onde vinha o cheiro dos cavalos, o nariz comprimia tanto o ar que puxava para dentro, e vi quando seus olhos brilharam de contentamento: estão ali, por aqueles lados, tem mais de um cavalo, falou baixo ao mesmo tempo em que meteu dois dedos na boca, prendeu a língua e soltou um assobio agudo: fiii! fiii! , e falando mais com o coração do que com a boca: vem! vem!, vem! foi andando devagar, cuidadosos passos, sem nenhum barulho, foi saindo da beira do córrego, caminhando a passos surdos de quietos, os olhos atentos e Militão cochichou no meu ouvido: nossa, e não é que o cigano é danado de mágico, achou os cavalos; e no pasto verde, mato baixo, os dois cavalos vieram vindo – obedientes – em direção ao cigano: vem! vem! vem!, que esticava as mãos em direção aos animais, vem! vem! e tanto Militão como eu ali parados, admirados da arte do cigano, vem! vem! e vimos quando ele acariciou o focinho do cavalo branco de crinas longas, olhar meigo: vem! vem! abraçou o animal pelo pescoço e chamou o outro cavalo, na verdade uma égua zanha: vem! vem!... e olhou suplicante para que nos aproximássemos – chega aqui vocês dois, depressa – e obedecemos ao que o cigano ordenava e Igor disse: vamos montar e fugir nestes cavalos; e eu: em pelo?; sim, por enquanto tem que ser assim, você monta na égua zanha; e eu?, perguntou Militão: você vai na garupa do branco comigo...Tudo isso acontecendo sem antes ter sido pensado, nada combinado e Igor montou o cavalo branco, puxou Militão que se ajeitou na garupa e – sem freio ou cabresto - guiava o sentido do caminho que queria roçando com as mãos as orelhas e focinho do cavalo branco, com os calcanhares – delicado - cingia os flancos do animal, perto do sexo, para imprimir a velocidade que desejava e sempre, a todo momento, acariciava o pescoço do animal: bom! amigo! trote nessa boa marcha picadeira para doer menos nossas bundas, estamos em pelo cavalinho amigo...o céu azul, nenhuma nuvem branca para a gente brincar de inventar com que bicho ela se assemelhava, os cavalos marchando, Militão grudado na cintura do cigano e eu agarrado nas crinas da égua zanha, o vento acariciava o rosto e eu gostando daquela aventura de seguir o mágico cigano em seu cavalo branco.

A noite estava querendo chegar quando do alto de um morro deu para enxergar, lá embaixo, um amontoado de casas, uma pequena vila – Ituaçu -: pouco mais que uma ou duas ruelas de chão batido, arrodeadas de pequenas casas – uniformemente caiadas de branco e azul, uma ou outra desobedecendo à ordem imposta pelos costumes de então tingida de forte cor de rosa - , as casas grudadas uma na outra, uma cruz grande de madeira quase no final da principal ruela, junto a uma igreja branca, com duas torres, uma delas vazada para caber o sino de bronze, um pouco mais abaixo o posto de saúde e uma escola. Igor desviou o olhar da vila, vista do alto do morro e me encarou, firmando seus olhos nos meus, pedindo atenção: pois agora você e eu descemos o morro e vamos para a vila, enquanto o Militão fica aqui tomando conta dos cavalos, carecemos de arrumar dois arreios, baixeiros e cabrestos para selar estes animais e continuar nossa fuga; mas como faremos isso?; só chegando lá para a gente ver o que pode ser feito. Chegamos os dois na principal rua da vila com suas casas emendadas uma às outras – parede meia - , cachorros esticados dormindo na calçada coberta de largas pedras arenosas, em uma casa de janela azul um vaso de flores, um jumento come o que sobrou de moitas de grama na rua sem calçamento; acima das janelas de uma casa branca, escrito com letras góticas, desenhadas em marrom escuro, lê-se: Selaria São José, de Alcides Mancini & Irmãos, a porta da casa aberta e Igor foi entrando: oi de casa, boa tarde, venho em paz; entramos sala adentro, um forte cheiro de couro, a sala repleta de arreios esparramados pelas cadeiras, pendurados em ganchos, pelas paredes cabrestos, baixeiros, pelegos de lã de carneiro, esporas, estribos; do fundo da sala, em voz grossa, vem a resposta: boa tarde, em que posso servir os amigos que veem em paz? quase mesmo tempo, em voz baixa: vá pra dentro Emerenciana; e uma mulher alta, forte, com a enorme barriga sustentando filho prestes a nascer, sai da sala, andando devagar, os passos com os pés arrastando o chão, pesada, andando com as pernas abertas como caminham as grávidas no final dos oito meses e o cigano Igor: para quando é esperado o filho, meu bom senhor?; pra próxima lua; pois o meu não vai esperar a virada da lua, é coisa para amanha ou depois, as dores do parto já estão vindo quase de hora em hora e é por isso que estou aqui, preciso de selar dois cavalos, nossa carroça enguiçou, os aros da roda quebraram e tenho necessidade de levar a mulher para o acampamento ainda hoje; que tipo de arreio o senhor precisa? Igor olha pela sala, tantos arreios, aponta primeiro para um cutiano enfeitado com estrelas de prata e depois para outro arreio comum, cabeça larga e falou: quero aquele cutiano para mim e este outro aqui para minha mulher; por quanto o senhor me vende os dois arreios acompanhados, cada qual, de cabrestos, freios, baixeiros e pelo menos um pelego de lã de carneiro para amaciar a bunda de minha mulher, pobre coitada, sofrendo com as dores do parto? pago o senhor em dinheiro vivo; o homem coçou a cabeça, tirou um lápis de trás da orelha, rabiscou umas contas em um pedaço de jornal velho, fez preço que Igor aceitou sem regatear, meteu a mão na algibeira e enquanto contava o dinheiro ia colocando as notas, uma em cima da outra, no balcão, cuidando de colocar as notas de maior valor por cima; vamos, me ajude a carregar a tralha Arcebides, tenho pressa; eu ainda parado, assustado com a coragem mentirosa do cigano, a pilha de dinheiro sobre o balcão, o dono da selaria separando baixeiros, cabrestos, freios e o pelego de lã, ia juntando e enfiando em um saco de aniagem; Igor pegou um arreio – o cutiano – olhou para o dono da selaria e disse : confere o dinheiro, meu senhor, temos pressa de ir embora, quero levar a mulher para parir, não passa dessa noite; e o homem concentrado em enfiar – com minha ajuda - os cabrestos, os freios, os baixeiros no saco de aniagem: tá certo, vi o senhor contar o dinheiro nota por nota, não carece de conferir, e vou orar para que nossa senhora do bom parto zele pelo nascimento de seu filho, que venha cheio de saúde; vai zelar, senhor, a nossa senhora do bom parto, vai zelar pelo parto de nossas mulheres que vão trazer filhos para alegrar nossas vidas, respondeu Igor que enquanto falava foi se ajeitando de frente para a mesa, perto da pilha de notas de dinheiro, olhou para o dono da selaria, percebeu que ele estava de cabeça baixa enfiando os baixeiros no saco, rápido, recolheu as três das últimas notas do monte de dinheiro, enfiou no bolso, sorriu e disse: então boa tarde amigo, que deus proteja; boa tarde e boa viagem, eu aqui espero que venha um filho homem desta vez, já tenho quatro mulheres em casa e quero agora filho homem para continuar o meu negócio com arreios; nossa senhora do bom parto te dará o filho homem, adeus; adeus.

Saímos da selaria com um arreio nas costas e cada um segurando uma ponta do saco de aniagem com os acessórios, dividindo o seu peso; e eu nervoso me vi apressando o passo, um frio nas espinhas de medo de o italiano descobrir o roubo das notas, e Igor percebendo, com sua sempre voz calma: devagar, não tenha medo porque o seleiro, com certeza, deve estar agora contando para sua mulher a boa notícia que o cigano lhe deu de que ela terá um filho homem, na crença geral de que todos os ciganos são adivinhos....

Minha cabeça rodeava confusa e chegamos, os dois, suados, cansados, no alto do morro e Igor, imediatamente, se pôs a selar os cavalos: acariciava o pescoço dos animais, cobria os lombos dos cavalos com os baixeiros comprados, jogava o arreio em cima e de tão forte que apertava a barrigueira que a barriga dos cavalos pareciam se dividir em duas e os cavalos soltavam barulhentos ventos, uma catinga danada e Igor continuava a acariciar as ancas gordas dos animais: bom, muito bom, agora a caminhada vai render mais, bom...e assim que selou os dois animais falou, calmo, como sempre, muito embora sem admitir contestação - o cigano se sentia chefe e fazia uso deste poder - : melhor a gente pegar logo a estrada, aproveitar a escuridão da noite que está chegando e sumir pra longe daqui.

Montou em seu cavalo branco, com uma mão ajudou Militão a subir na garupa e sem olhar para trás cutucou o flanco do animal que saiu marchando - a macia marcha picada, estradeira – o focinho chegado ao peito pela força do freio de boca esticado e eu montei na égua zanha e segui Igor, que ia à frente, e no silêncio da noite ninguém trocava palavras. Eu, comigo mesmo, discutia com meus miolos: o que estava me injuriando era de a mulher gorda de filho e seu marido terem sido roubados? mas os cavalos que andávamos também tinham sido roubados, o que me injuriava então?, continuei trotando, seguindo o cigano, sem decidir o que me injuriava, o que me entristecia, deve ser o cair da noite, isso passa; vez ou outra Militão cantava baixo uma canção lamentosa e seguimos trotando por duas noites, descansando o corpo e os cavalos durante o dia, fugindo agora rumo ao norte, e teve muitos instantes que os cuidados do cigano Igor tinha para comigo e com Militão, me levava a acreditar na bondade dos homens, fugia de meus pensamentos a possibilidade de malvadeza, e aquilo me dava uma felicidade boa, uma alegria de achar que valia a pena viver, mas ocorria também de em muitos instantes eu me entristecer pelo conhecimento das vilanias humanas.

Uma manhã, após a terceira ou quarta noite toda trotando, encontramos abrigo em uma choupana abandonada e cada um procurou um canto para descansar, isso depois de desarrear os cavalos, puxar água com um balde de uma cisterna funda , beber e dar aos cavalos, e foi nesse dia que Igor me convidou para conversar, os dois deitados no chão, com sono e cansados e ele iniciou a palestra: você, por acaso, já viu uma tribo de ciganos?; sim, já vi; pois então fica mais fácil você entender nossos procedimentos: nós ciganos, não plantamos, não colhemos, não temos raízes, vivemos a vagar mundo a fora, e então como arranjamos para comer e beber? o que fazemos se não plantamos e nem criamos? é assim que vivemos: vendemos tachos de cobre, lemos as mãos em troca de algum miúdo de dinheiro, roubamos cavalos e mulas e éguas, mascaramos os animais roubados e vez ou outra chegamos a vendê-los de quem roubamos...é assim que somos.

Militão não escutou a conversa: dormia no canto da cabana abandonada, o sol se punha forte atravessando com seus raios os buracos das velhas e tortas telhas de barro; Igor virou o rosto para o lado da parede de pau a pique, cobriu o rosto com o chapéu e logo se ouvia o seu ronco forte; cansado, dormi logo. Duas noites depois encontramos a tribo de Igor acampada às margens do rio Preto, nos pés da Serra Geral, divisa da Bahia com Goiás.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A HISTÓRIA DE ARCEBIDES–IX–FOI QUANDO O CIGANO IGOR ORIENTOU NOSSA FUGA DA CADEIA!

2009 Caminho da fé 104

“Como eu conto – respondeu Sancho – é que eu sempre ouvi contar os contos na minha terra; de outro modo não sei, nem vossa Mercê me deves pedir que arme agora novos usos.” Dom Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes.

Depois de uns quinze dias depois que fui preso o delegado mandou o soldado gordo me levar até sua sala, uma sala apertada, ele sentado atrás de uma mesa de madeira grossa, um fedor de cigarro espalhado no ar, o delegado balançava – pra frente pra trás - o corpo em uma cadeira com encosto alto, olhava para o teto enquanto me fazia perguntas, o revólver ao alcance de sua mão: pois então, o que tenho para te dizer é que passei telegramas para as delegacias dos distritos das Gerais, de onde você disse que veio, citei seu nome e até o momento delegado nenhum respondeu meus telegramas ordenando que eu mantivesse você preso aqui na Bahia; então o senhor vai me soltar?; e para onde você vai se eu te soltar?; vou para o leste, para o mar, como disse ao senhor, é para onde quero ir; para as Alagoas?; não sei não: quero ir para o leste, ver o mar; mentiroso, querendo ser mais esperto que eu: você é da turma do Julião, das Ligas Camponesas seu filho da puta; sou não senhor, posso garantir isso ao senhor, juro por deus que não estou mentindo; e o delegado chamou aos berros o soldado e ordenou que me colocasse preso de novo na cela: prenda o homem, temos que esperar resposta das Alagoas.

Militão e o cigano Igor me esperavam curiosos de saber os acontecidos na sala do delegado: o delegado encafifou que sou da turma do Julião, das Ligas Camponesas; temos que fugir daqui, disse Igor; e um silêncio demorado, custoso do tempo passar, aconteceu depois do que disse o cigano, que continuou: cadeia é lugar para homem, não há nada de errado em ficar preso, mas não gosto e vamos, os três, sumir daqui o mais depressa possível. Igor falava devagar, palavra por palavra, pensando e calculando o valor da palavra seguinte, economizando nos dizeres, a voz grossa saindo dos fundos da garganta, e quando ele falava a gente se via na obrigação de quietar e escutar o que ele dizia com atenção.

Eu, cá estou preso, continuou Igor, por crime de morte: sou chefe de uma tribo e roubei duas moças de outra tribo para compor melhor minha barraca, alegrar minhas noites e madrugadas com sangue novo; as minhas mulheres gostaram da minha atitude, receberam bem as moças roubadas mas o chefe da outra tribo se enfezou, ficou atazanado de raiva, aprontou guerra com a gente, não se conformou com o roubo, tentei negociar, querendo evitar guerra e mortes ofereci duas mulheres de minha tribo em troca, ele poderia escolher, mas nada, o chefe cigano estava desgastado, disse que o que queria eram as moças roubadas de volta, eu disse que não e ele me ofendeu com nomes horrorosos, o sangue subiu e eu matei o desgraçado, furei com o punhal o seu peito, fundo o punhal chegou no coração, morreu na hora e a partir dali o recurso foi só fugir e fugir da polícia, que acabou me encontrado na serra do Mato da Onça, nas cabeceiras de onde nasce o rio Gavião.

Militão, com sua voz flauteada, tomou a dianteira em nossa reunião de conversa: todos nós aqui com morte nas costas: só eu, com minha navalha, posso contar cinco, até sei que é pecado, mas o certo é que passei a gostar de matar, gosto de ver o sangue pular da veia do pescoço, escorrer e ir descendo corpo abaixo, a cara ir ficando arroxeada, a respiração fraca, só um pinguinho de ar entrando pulmão adentro não dando conta de estufar o peito por completo, o sangue empedrando negramente nas roupas...a morte, capeta dos infernos!

Vamos fugir dentro de umas três noites, retornou a fala o cigano Igor, isso se cada um concordar comigo...; eu quero, não gosto dessa vida de assum preto na gaiola não, logo vão querer furar nosso olhos para, como diz a canção, a gente cantar melhor aqui preso, cagando nesta lata fedida, melhor fugir; e como pensa em a gente fugir, perguntei; tenho tudo na cabeça, vai dar certo se cada um ajudar a cumprir com sua parte; e qual será minha parte, perguntou Militão? e o cigano: de noite, a gente combina, de dia as paredes tem ouvido.

O sino da igrejinha bateu doze vezes: meia noite! Igor se levantou da cama, foi até a lata de necessidades, mijou, olhou bem para a porta e para o corredor, nada viu e disse: vamos combinar em como escapulir daqui.

Sentamos, os três, na cama do cigano que explanou o seu pensar:

Você, Militão, já deve ter percebido do interesse que o soldado gordo te em você; mas eu não tenho nenhum interesse nele; pois carece ao menos de fingir que tem para a gente poder fugir daqui; fale o que pensa, então; pois é assim: você deve demonstrar interesse em satisfazer as vontades dele, agradar com o olhar em suas partes, mostrar vontades em pegar com as mãos o pinto o soldado e bater, daqui de dentro da cela, uma punheta para ele; tá ficando louco seu cigano de merda? que pensa que eu sou? me acha com cara de puta de soldado, pegue você o pinto dele; o cigano continuou calmo: se você topar, Militão, na hora que ele estiver para gozar eu e Arcebides vamos fazer a nossa parte: enquanto eu agarro o pescoço e a cabeça dele e prendo entre as grades o Arcebides pega o revólver e as chaves na cintura ... e aí a gente abre a grade da cela, enfiamos aqui dentro o soldado gordo e caímos na rua, daqui a três dias é noite de lua plena, cheia, gorda, luminosa, de boas sortes, agora vamos voltar a dormir e amanhã, se ninguém der sinal ao contrário, começaremos a contar as noites que faltam para a lua ficar plena de cheia.

Já na manhã do dia seguinte Militão passou a encarar o soldado com um olhar lânguido, lascivo e foi daí que contou que quando estava no circo, depois de uns dois meses em companhia de Ângelo, sem nada o que fazer, se interessou em aprender a cantar e a imitar vozes com um artista – Geraldo - que nos espetáculos, se apresentava com seus cabelos loiros, olhos muito verdes, quadris arredondados, imitando os grandes cantores do rádio: Geraldo imitava tanto homens, como Gregório Barrios cantando História de Um Amor, Francisco Alves cantando Adeus mas também imitava – e aí dançando e requebrando – mulheres como Isaurinha Garcia, Marlene e Emilinha Borba, e continuou Militão: aprendi e fiquei bom naquilo, passei a imitar direitinho, até que uma noite, Geraldo com a garganta inflamada, chegou a minha vez e eu me vesti de negro e cantei e requebrei:

“Ya no estas a mi lado, corazon,

En el alma solo tengo soledad

Y si ya no puedo verte,

Porque dios me hizo quererte

Para hacerme sufrir mas...”

e público aplaudiu gostando, olhei no fundo do palco e vi o Ângelo batendo palmas, o rosto vermelho, alegre e então cantei com voz aguda, feminina, imitando Isaurinha Garcia:

“Quando o carteiro chegou,

E o meu nome gritou,

Com uma carta na mão...”

e quando fui terminando, agradeci e o público gritava Diana, Diana, Diana e eu me travesti de Paul Anka:

“ Oh-oh, oh-oh, oh-oh

Only you can take my heart

Only you can tear it apart

When you hold me in your loving arms

I can feel you giving all your charms

Hold me, darling, ho-ho hold me tight…”

e fui muito aplaudido e passei a gostar demais de ser cantor de circo, imitando cantores e cantoras, dançar e requebrar languidamente, ser aplaudido e ao final do espetáculo ir, feliz, para o camarim com o Ângelo!

As nove horas da noite o soldado gordo veio vistoriar a cela: se aproximou das grades e ao perceber o olhar de Militão em suas partes, desabotoou a braguilha, tirou para fora o sexo murcho, e Militão se aproximou da grade e foi acariciando o pinto do soldado que foi ficando duro, ereto, veias grossas aparecendo, o pinto vermelho arroxeado crescendo, os olhos do soldado se fechando de prazer e Militão chamando o gordo soldado de meu lindo, meu macho...e foi então que Igor, ágil como um macaco, saltou de sua cama alcançando o pescoço do soldado gordo e os olhos fechados de prazer se abriram de susto, de medo, percebendo que estava com o pescoço preso na grade pelos braços fortes do cigano e eu, conforme combinado, saltei da cama e apanhei o revólver e as chaves que estavam penduradas em sua cintura e Militão largou o pinto do soldado, que murchou de vez: goze, gordo de merda, goze agora seu filho da puta.

Encarceramos o assustado soldado gordo na cela e Igor disse: se eu ouvir um grito seu antes do relógio bater dez horas, volto aqui e te mato; saímos pelo corredor em direção a sala do delegado onde estavam nossas armas guardadas dentro de um armário de madeira: meu punhal, minha espingarda de chumbo, meu revólver, o revólver do cigano Igor – um Schmidt cabo de osso – e uma faca que se assemelhava às facas usadas por nós em Minas Gerais para cortar arroz, uma faca meio arredondada e a navalha do Militão.

A lua cheia clareava a rua da delegacia, dava para enxergar o seu vazio, imaginar as pessoas em suas casas recolhidas , dormindo, um cachorro ouviu , nossos passos, acordou e latiu alto – au! au! – mês de agosto é mês de cachorro louco, passamos por ele e o auauau foi diminuindo, diminuindo e quase não mais se ouvia do alto da serrinha, a cidade lá embaixo, silenciosa. Olhei para o céu negro, estrelado, para achar Vênus : vamos para o leste?; sim, para o leste, disse Igor e Militão olhando para o alto, com um jeitinho esperto, dengoso, atirou no mato as chaves da cela: tchau, tchau, berimbau! pra onde vocês for eu vou.