quarta-feira, 26 de maio de 2010

ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: IVO, O ESCULTOR.


Tão logo o velho mineiro terminou de contar história do Encantador de Cobras, posicionou-se na arena um homem moreno, pequeno, atarracado, lábios grossos, músculos salientes aparentes sob a camiseta branca. Tinha olhos negros, sobrancelhas espessas e bem delineadas, dentes perfeitos, brancos e os cabelos encaracolados como os dos anjinhos dos antigos santinhos, só que escuros.
Voz clara, forte em um timbre suave de baixo-tenor.
“Meu nome é Osvaldo, e quero contara a história do Ivo, o escultor.
De imediato devo confessar a dificuldade que estou encontrando de contar esta história. Desde a hora que saí de casa, no interior de São Paulo, até chegar aqui, pensei e repensei inúmeras vezes em como contá-la e agora, comigo aqui no centro da arena ainda não conclui qual seria a melhor e por isso, já peço desculpas.
Vou começar pelo começo, e tentar ser o mais compreensível possível, em respeito ao Ivo e também, claro, aos senhores aqui presentes.
Penso que a minha mochila e as minhas leves vestimentas devem ter denunciado minha condição de andarilho. Sim, conheço a palmo quase todo este país de Deus, andando, caminhando, dormindo em minha barraca, comendo grãos, frutos secos, bebendo água nas fontes e nos córregos, tomando banho nos mares e nos rios.
E foi assim, em uma de minhas inúmeras caminhadas que, por mero acaso, reencontrei o dono desta história.
Iniciando então devo dizer que somos, o Ivo e eu, de uma pequena cidade do interior do Estado de Minas Gerais. Crescemos protegidos pela verde e negra Serra da Mantiqueira: verde de manhã ao nascer do sol e negra quando o mesmo se esconde, determinando uma sombra fresca, protetora, que, aliada ao vento sul, prepara as noites frias, que exigem, de janeiro a janeiro cobertores tecidos com lã de carneiro.
Os estudos na pequena cidade, pelo menos até então, limitavam-se, aos que queriam e podiam, ao antigo Ginásio. Ivo estudava um ano em minha frente e nos tornamos amigos. A bem da verdade eu era um dos poucas pessoas com quem se relacionava. Para a maioria da cidade Ivo era uma figura por demais “neurastênica” e para nossa professora de português, nosso herói apresentava traços de misantropia.
Nossa convivência era cordial, pacífica, silenciosa, pouco afetiva e mutuamente respeitosa. Sua competência para com a arte da escultura era, desde àquela época, inquestionável, unânime mesmo entre os outros artistas da pequena cidade e região que, maravilhados com sua arte, libertavam-se de mesquinhos ciúmes, esqueciam aspectos realmente sombrios de sua estranha personalidade e maravilhavam-se com sua arte.
Terminado Ginásio, fez vestibular nas Escolas Nacionais de Belas Artes do Rio de Janeiro e de São Paulo e foi aprovado em ambas. Optou pelo Rio de Janeiro. Após isso passou a vir à nossa pequena cidade apenas em suas férias até que seus pais mudaram-se para São Paulo quando suas visitas e seu contato rarearam por completo.
Retornou apenas quando terminou o seu curso no Rio, como que surgindo do nada... Aconchegou-se na única e pequena pensão que havia na cidade e o encontrei no jardim frente à Igreja; nosso encontro foi cordial, afetuosos embora, como sempre, Ivo evitava qualquer tipo de manifestação externa de carinho. Continuava quieto, mudo mesmo, com seus olhos oblongos voltados para o horizonte; usava, agora, longas costeletas o que lhe rendeu, de imediato, o apelido de D. Pedro I.
Combinamos de nos encontrar, no clube, na manhã seguinte. Foi lá, ao lado da piscina, que após horas de silenciosa convivência Ivo me disse que lhe haviam oferecido duas bolsas de estudo na Europa e que entre Portugal e Alemanha havia optado pela Alemanha. Repetiu duas vezes o nome da escola onde iria estudar e percebeu que eu não entendia. Quando lhe perguntei, maravilhado, se falava alemão, Ivo respondeu:
- Sei falar Bom dia. Caso tenha sede não sei como pedir um copo d´água. Melhor: não vou lá para conversar.
Continuou em seu silêncio até o momento em que chegava ao clube, passando por nós, o time de futebol de salão da cidade. À frente do grupo o enorme Taíde, famoso por sua força física, resistência e também pela inquestionável habilidade como jogador. Ivo perguntou-me:
- É o Taíde?
- Sim, Ivo, é o Taíde, ou se quiser o Marrucão seu velho apelido.
- Verdade: havia me esquecido de seu apelido. Continua o mais forte da cidade?
- Sim, continua sendo o mais forte.
Repentinamente Ivo levantou se do banco onde estávamos acomodados e, sem mais, dirigiu-se até o local onde estava o pessoal do futebol de salão, e ao aproximar-se do Taíde, calmo e com voz suave disse:
- Você continua sendo o mais forte? Quero brigar com você.
Realmente não estávamos, em nossa cidade, habituados àquele tipo de briga. Para nós uma briga sempre começava por algum motivo, fútil ou não, mas tinha que haver um motivo: seja lá alguma desavença oriunda de qualquer tipo de ofensa tipo xingar a mãe ou roubar a namorada, enfim, uma briga nunca se iniciava do nada. Era sempre partir de uma questão que se formava a roda e começava a briga; agora assim do nada, só do frio das palavras, nunca havia ocorrido.
Mas ocorreu. Taíde aceitou o desafio, colocou se de pé em posição de defesa com os dois braços colados ao peito, punhos cerrados, olhos atentos. Ivo, imitou-o. Dois enormes corpos em posição de luta, próximos um do outro; não havia fúria, não havia raiva e também quase não houve tempo: Taíde afastou um passo, viu a imobilidade do adversário e acertou-lhe bem ao meio do nariz um potente soco.
Sangue no ar e Ivo foi-se ao chão.
Em briga tão inusitada nem houve necessidade dos sempre presentes “deixa disso”. Taíde foi para a quadra de futebol de salão e eu corri a enfermaria à busca de algodão para colocar no nariz ensangüentado do amigo.
Estancado o sangue Ivo levantou-se e voltou para a pensão.
Tornei a vê-lo na manhã seguinte: mala às mãos na plataforma da estação ferroviária; tinha o rosto inchados e a região dos olhos toda roxa acusando a força do murro recebido. Fiquei ao seu lado, aguardando o trem, e após longo silêncio Ivo disse-me:
- Foi bom: não senti nenhum medo.
Chegou ao trem e Ivo não aceitou o abraço que lhe ofereci.
Anos, décadas se passaram.
Ivo, provavelmente na Europa, em sua carreira de escultor e eu, deixando de lado meu sonho de escritor, tornei-me fiscal do IBGE até aposentar-me por um motivo qualquer e iniciar esta vida de andarilho.
E foi como andarilho que vim a conhecer um belíssimo parque estadual no litoral do sul do país. Minha curiosidade em relação a este parque, além da beleza natural, dizia respeito ao cultivo de uma tradição: a cultura do Fandango.
Mas vamos deixar isso de Fandango de lado. Após três dias acampado em uma longínqua praia, alimentação à base de grãos, o organismo pediu comida quente o que me levou à cidade sede do parque. À procura de comida e de informações sobre o fandango descobri uma escola, sede de um trabalho comunitário que orientava artesões locais a, utilizando recursos da região, produzir artefatos para suprir a renda familiar. E ali naquela escola, entre tapetes de sisal, utilitários feitos com folhas de palmeiras da região, tarrafas, tapetes, surge uma pequena escultura de argila; um calafrio percorreu todo meu corpo ao vê-la: as formas elegantemente orgânicas, abstratas e de uma delicadeza ímpar denunciavam o autor: só podia o Ivo.
Toquei-a emocionado.
Percebendo meu vivo interesse pela escultura surge a “mestre” das oficinas: uma senhora já cinquentona, pele clara, português elegante, delicada. Soube depois que era professora aposentada, filha de austríacos, eximia na arte do tear, casada com um senhor português. Ao aposentar-se, aliou sua competência e experiência profissional, com sua habilidade no tear e passou a, voluntariamente, coordenar as oficinas de formação dos caiçaras da região em diferentes capacitações. Ao ser questionada pelo autor da escultura disse-me:
- O autor, cujo nome é Ivo, é um homem de nossa idade, formado por importante escola no Brasil e chegou, mesmo, a estudar na Europa. Chegou aqui no parque vindo do nada e realizou aqui algumas oficinas: é um escultor profissional, delicado, competente, mas pessoa de trato difícil, personalidade controvertida. Me parece uma pessoa sofrida, que ama a solidão e aqui no parque relaciona-se, com alguma dificuldade, apenas comigo e com Otávio, meu marido, que semanalmente leva até a ilha onde vive, em uma modesta cabana, comida e víveres que garantem sua sobrevivência.
Nossa conversa foi interrompida pela presença de uma jovem morena, bem vestida, olhos negros e amendoados como de nossos índios e um corpo escultural sob elegante vestido de malha. Dona Astrid, a professora com a qual estava a conversar, toma as vezes de anfitriã e apresenta-me:
- Senhor, esta é Clarice, assistente social, responsável pelos projetos que garantem a sustentação dos cursos aqui em nossa escola. Clarice este senhor é um turista e interessou-se sobremaneira pela escultura do Ivo.
- Boa tarde, senhor. Sim, o trabalho do Ivo encanta pessoas sensíveis. Mas é homem de difícil trato, não cumpre os compromissos. E já me colocou em situações realmente difíceis.
- Verdade? O que meu amigo lhe aprontou?, perguntei.
- Nem te conto! Veja só. Veio aqui visitar nossa escola nada menos que o governador. Viu uma aula do Ivo, gostou de seus trabalhos e encomendou três esculturas. Pagou pela que estava em exposição e pediu mais duas que ofereceria a autoridades da UNICEF. E foi a partir daí que iniciou minha luta. Ivo, alegando ora um motivo, ora outro, simplesmente não realizava as esculturas encomendadas pelo governador. Posso garantir que fiz de tudo, usei de todas as artimanhas, e nada de esculpir o solicitado.. E como você deve estar percebendo fiquei na pior. Semana si, semana não, era cobrada pela mulher do governador em longos telefonemas. Fui, pessoalmente, várias vezes até a tapera do escultor, trouxe-o uma vez até aqui rogando que fizesse as obras encomendadas, e nada. Mudo, mudo, sempre intolerável e irritantemente mudo...quando se dignava a abrir a boca dizia que havia feito a escultura mas que não havia gostado e que, por isso, havia destruído.
- Ele é realmente muito exigente, disse, meio sem pensar, mas intuitivamente, colocando-me, já em defesa do amigo.
- Um louco. Doido varrido. Mas...vocês são amigos? Como o conheceu? É também artista plástico? Faz esculturas?, perguntou-me.
- Não, não sou artista plástico. Conheci o Ivo quando adolescentes, antes dele ter ido para Rio estudar; nascemos na mesma cidade.
- A mulher do governador continua me cobrando as esculturas. Nossa escola depende de favores. Você poderia interferir? Não poderia pedir ao seu amigo que as faça? Se quiser mando um canoeiro ainda hoje levá-lo até a cabana de seu amigo - falou, denotando na fala, um fio de esperança.
A ansiedade da assistente social causou-me mal estar. Para ganhar tempo disse que gostaria de almoçar, que estava com fome e que não sabia se queria ou não visitar meu amigo.
- De qualquer forma, Astrid, você tem autorização de contratar canoeiro para levar este senhor até a cabana do escultor. Agora tenho que ir; tenha um bom dia e prazer em conhecê-lo. De qualquer forma veja o que pode fazer por mim, ou melhor, por mim não, mas pela nossa escola, e nos deixou , caminhando a passos largos em direção ao carro.
Ligou o carro, saiu apressadamente e, reconheço, deixando, para mim, o ar mais leve.
Dona Astrid continuou a conversa:
- Um pouco apressada, quer resolver as coisas a seu modo, mas é pessoa honesta e decente. Quanto recusa do Ivo, creio, é que seu amigo não resiste,ou não admite cobranças. Criou e vive em um mundo todo seu, isento de responsabilidades, de cobranças, de julgamentos; vive o seu mundo que privilegia o relaxamento total da consciência, onde reina o esquecimento, a imobilidade e a ausência do tempo. Penso que, em sua “doença”, se assim posso assim falar, é feliz. Quer vê-lo?
- Sim, quero, respondi.
Quem me levou até Ivo foi o Sr. Otávio, marido de astrid. Fomos em um pequeno bote.
Sr. Otávio, aproveitando a viagem, levou víveres comestíveis para Ivo. Foram mais de duas horas de viagem pelos canais de mangue que predominam na região.
Chegamos a uma praia erma e ao longe a pequena cabana, na qual deduzi, Ivo vivia. O pequeno bote estacionou a uns cem metros da cabana. Frente à cabana, junto ao mar, vi Ivo: enorme, cabelos já brancos, moreno de sol; de joelhos ao chão trabalhava, na areia da praia, uma enorme escultura. À aproximação do barco, levantou-se colocando em posição de defesa, mas ao reconhecer o Sr. Otávio voltou ao trabalho de esculpir.
Senhor Otávio aproximou-se:
- Boa tarde, Ivo. Trouxe um amigo seu aqui.
- Sei, é o Osvaldo, respondeu sem nos olhar, mantedo os olhos fixos nas mãos firmes talhando a areia grossa, úmida.
Emocionei-me.
Sr. Otávio deixou os alimentos em uma caixinha de isopor e retornou.
Fiquei ao lado do amigo escultor vendo-o trabalhar a areia dando-lhe formas inimagináveis.
- Você está bem, Ivo?, ousei perguntar.
- Só fico bem trabalhando. São as únicas horas em que me esqueço, esqueço as realidades do mundo. Realizo aqui os meus sonhos. Já sei bem as fases da lua e a tábua das marés: trabalho sempre de forma que logo após o término da escultura com suas ondas o mar as consuma.
E voltou ao trabalho que havia sido interrompido pela nossa palestra.
Estava esculpindo, já a terminar, um jovem fauno.
A maré subia e percebi que as ondas se aproximavam mais e mais de nossos pés.
Ivo convidou-me para comer.
Comemos grãos, em silêncio total, enquanto as águas solapavam, primeiramente, os pés do belo fauno de areia...

domingo, 4 de abril de 2010

ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: O ENCANTADOR DE COBRAS!



E a ágape dos contadores de histórias continuou noite adentro sob o céu estrelado e com uma enorme lua gorda e brilhante. Um ventinho frio cortava a arena convidando os contadores a aproximarem os corpos para confortar do frio.
Um outro contador de se apresentou.
Era um homem de estatura média, gordo, com a barriga estufando a camisa de flanela com mangas compridas, olhos claros de um azul meio acinzentado; tinha os cabelos grisalhos, lisos, caídos sobre a testa, encobrindo as rugas salientes, marcas da idade e, talvez, dos sofrimentos e das alegrias que tivera na vida.
Apresentou-se, um pouco tímido, diga-se de passagem, anunciando seu nome – Arlindo Maringone - , e nos informou, platéia atenta e curiosa, que nascera, há mais de setenta anos, no interior de Minas Gerais, divisa com Goiás, em um planalto de cerrados e algumas veredas com elegantes buritizais.
Bonito seu sotaque de mineiro, seu dialeto tão próprio, carecendo às vezes de ir fundo na atenção de ouvir e pensar para traduzir suas palavras. Atento, quando o Arlindo percebia na platéia as dificuldades de seu palavreado, gesticulava, fazia careta, sorria, torcia a boca, fechava os olhos e, com estes tantos gestos, facilitava o entendimento de sua fala.
“Lá onde nasci, prosseguiu Maringone, não tinha os benefícios da luz elétrica, da água encanada e do asfalto. Era todo um mundo de solidão, de excessiva quietude, de muitas pouquíssimas palavras. Os fins de dia e seus entardeceres eram tristes, prognosticando a escuridão da noite. E foi lá, no sítio do Baguaçu, que nasci e depois, homem feito, vivi a vida de casado com minha mulher Lourdes; não tivemos filhos, e só, vivia cuidando de uma roça de dois mil e poucos pés de café bem embaixo do pé da serra; também, numa espraiada situada mais ao norte do sítio, nos tempos das chuvas, plantava milho e feijão das águas e, na época da seca, semeava e colhia arroz; no sítio tinha, também, margeando o entorno do morro do Chapéu, um bom pasto forrado de capim gordura, suficiente para criar de vinte a trinta cabeças de gado mais uns poucos cavalos e a mula Serena.
Era assim que me ocupava e os dias iam passando devagar.
Foi então que em um ano, que hoje não me lembro mais, me foge o seu número, que aconteceu das cobras matarem, com suas picadas venenosas, duas vacas, três novilhas e pequenos bezerros. No pasto, campo do cerrado, sempre teve muitas cobras mas, de antes do ocorrido que estou a contar, nunca havia acontecido, graças ao bom Deus, mais que uma ou duas mortezinhas em todo o ano. Pois vejam: naquele maldito ano, do qual estou a contar, só no mês de setembro, as cobras deram fim a dois bezerros, uma novilha e, pior de tudo, mataram a Esperança, vaca de minha mulher, que estava mojando, prestes a parir mais um bezerro, que pobrezinho, morreu mesmo antes de nascer.
Para ser fiel com a verdade, não posso negar que sempre houve cobras por lá.
E bastante!
Tanto que um primo meu, menino da cidade, pouco conhecedor dos perigos da roça, foi mordido por uma cascavel quando, inocente, mesmo tendo ouvido o “creshshsh” de seu guizo continuou em sua lida de catar, para comer, doces gabirobas na moita. Nem preciso contar o triste fim do que aconteceu com este meu primo: morreu de dor e de inchaço pelo veneno forte. Meu pai matou a cobra e descobriu, pelos anéis de seu guizo, sua idade de treze anos, mesmo tempo em anos, do primo que vitimara com seu veneno forte. Se encontrava também, nos pastos e no cafezal, além das cascavéis e das jararacas, enormes surucucus, que gostavam mais de ficar quietas, escondidas nas margens do riozinho, espreitando as rolinhas e juritis que iam beber água fresca; também se via por lá a temida urutu, aquela que tem a cruz na testa, e a veloz capitão do mato, só que esta, por não ser venenosa, não causava medo de dores e de morte.
Mas, voltando ao assunto da história: naquele ano já tinha perdido mais de três novilhas, dois bezerrinhos, uma outra vaca e a Esperança, todos finados por mordidas de cobras.
Para acabar com tantas mortes a solução que me veio à cabeça seria buscar, longe, bem longe, na Gruta da Onça, o Senhor Sudário, famoso curador e benzedor.
Falei com Lourdes e fomos.
Pelo menos três dias, no lombo do cavalo, foram gastos na viagem de casa até o Taquari, casa dos pais de Lourdes; de lá, onde ficou minha mulher, foi mais um dia e meio até a Gruta da Onça, onde ficava, à beira de um córrego, a tapera do Senhor Sudário.
Era lá que ele vivia: só, ensimesmado com suas rezas, barba por fazer, cabelos longos. Alto, tinha a pele escurecida e enrugada, um olhar sereno, mas severo, exigente, argüidor, sempre teimando em inquirir o que é que a gente queria com ele. O Senhor Sudário, só com o poder de seu olhar, punha a gente a falar o que ele queria, obrigava a gente a dizer o que vinha fazer naquele recanto, que necessidades e urgências possuía para vir buscar o seu auxílio.
Só falava o estritamente necessário, economizando palavras; era assim o Senhor Sudário e como disse antes, apenas pela força de seu olhar, lhe falei dos acontecidos no meu sítio, da ferocidade das cobras naquele ano e que carecia de seu auxílio de benzedor.
- “Ta com dois cavalos? Posso ir amanhã. O caso urge.”, falou com sua voz cavernosa, profunda, que causava receio, mesmo sendo eu já homem adulto e experiente em desavenças.
Dormimos em sua tapera esperando o dia clarear.
Ordenou, ainda de madrugada, o caminho que faríamos e disse que não levasse Lourdes: “pode sangrar nestes dias e, mulher sangrando, atrapalha benzedura.”
No caminho de nossa viagem tentei buscar conversa, mas não tive respostas. Seu olhar ordenava silêncio: nem mesmo o Bom Dia! ao acordar e a Boa Noite! ao anoitecer.
Silêncio de palavras na quietude total.
Chegamos, depois de quatro dias de silenciosa viagem, ao Sítio do Baguaçu.
- “Sem descanso. O assunto carece urgência.”, disse tão logo chegamos .
-“Aceita um café? Posso coar.”, perguntei.
O curandeiro não aceitou o café oferecido.
- “Preciso, para os benzimentos, de uma carcaça de vaca, morta por mordida de cobra; as orações, os terços e as encomendas, que mandarão para longe, as cobras deste lugar, serão feitos junto à cruz de um humano morto por picada de cobra. S´imbora logo.”, ordenou.
Nem bem disse e saiu à minha frente a passos largos, seguros, confiantes. E milagrosamente, sem saber como ocorria, o Senhor Sudário, como que me guiando, caminhou em direção ao córrego, logo abaixo da cachoeirinha, onde, eu sabia, havia a carcaça da Soberana, uma enorme vaca zebuína, morta há uns dois anos por uma urutu. Recolheu a carcaça e, sempre à minha frente, encaminhou em direção à cruzinha que homenageava o local da morte de Edinho, o primo da cidade que havia sido morto por uma cascavel enquanto colhia gabirobas, como já contei.
Não sei se vocês conhecem pastos de cerrados, mas se não, saibam que os mesmos são recortados por trilhos feitos pelo gado e cavalos em sua busca por água e capim. São inúmeros os trilhos que se cruzam, formam encruzilhadas e, para quem não conhece, folrmam verdadeiros labirintos. Aqui no meu sítio do Baguaçu, não era diferente e caminhar pelos trilhos, passar adentro pelas capoeiras de mato sem se perder era ofício dos nascidos no local. Então, por isso, o que sentia ao ser guiado tão corretamente pelo Senhor Sudário, pelos trilhos dos pastos do meu cerrado era de muito difícil compreensão. Deveria estar eu a guiá-lo e o contrário era o que acontecia, Deus do céu.
E fui atrás de seus passos largos até chegarmos à cruz.
Lá o Senhor Sudário depositou, aos seus pés , a carcaça, deu um passo atrás e argüiu-me:
- “Daqui de onde estou, de que lado nasce o sol?”
Apontei a direção e o velho curandeiro posicionou-se , de forma a ficar com suas costas para a nascente e, com seu facão, a partir dos pés da cruz traçou, riscando forte e fundo, uma enorme cruz ao chão, cuja cabeça seguia em continuação dos pés da cruz de madeira.
Terminada a feitura da cruz no chão, silenciou-se, fechou os olhos por alguns instantes e disse:
- “É hora de tomar uma resolução para onde quer que eu mande embora as cobras.”, e apontando para o poente continuou: “Para lá sei que mora seu inimigo, mas não é bom, tocá-las para aquelas bandas...para onde você quer mandar?”.
“Até dos meus inimigos, que guardo em segredo até de Lourdes, o velho curandeiro tem ciência”, pensei.
Urgia decidir. Ao sul havia as furnas dos Ferreiras, lugar ermo, sem plantação e casas de moradia. Dizia-se, mesmo, que nos bem antes era habitado por bugres, que, temerosos pela quantidade de cobras que havia no local fugiram para os Altos do Chapadão, onde passaram a viver.
O melhor, pensei, seria devolver à furna dos Ferreiras as amaldiçoadas cobras.
Apontei a direção desejada e, imediatamente, o Senhor Sudário iniciou um outro traçado, unindo os braços e a cabeça da cruz que havia riscado no chão, formando um desenho parecido com um caixão de defunto.
Terminado o desenho no chão, tirou do embornal um novelo de barbante e iniciou rezas de incompreensíveis orações; seus os olhos foram ficando vesgos, tortos, a boca soltando grossa espuma, enfim, endemoniando-se o homem. Com o barbante fez uma cerca sobre o traçado feito com o facão, para cercar as cobras deixando apenas um vão que ficava, justamente, nos pés da cruz de madeira. A cruz seria o vigia para impedir o retorno das amaldiçoadas cobras.
Durou, a cerimônia, tempos, para mim, indefinidos.
- “Pronto. Quando quer que elas se vão? Quer agora ou mais de tarde?”
Atordoado por tantas novidades achei melhor acudir que elas fossem um mais tarde: precisava descansar de tamanhas tonturas.
- “Agora, se puder, quero um café”, falou em voz baixa.
Voltamos para casa e coei café. O velho curandeiro ficou fora, perto do curral. Coado o café levei o bule e duas canequinhas e sentamos para beber. Seus olhos indicavam que continuava a não querer prosa: almejava silêncio.
E nem bem sentamos em uma pedra para bebermos o café ouvi, ao longe, um assobio forte tal e qual fazem os ventos em meses de chuva brava, como aqueles que vêm antes das chuvas de dezenove de março, a das enchentes de São José, e ele:
- “São elas, já estão indo e que o diabo as carreguem!”, disse ao mesmo tempo em que fez o sinal da cruz.
Nem bem terminou de beber a segunda canequinha, levantou-se, assoou forte o nariz, cuspiu no chão um cuspe preto e ordenou:
- “Encilhe o cavalo para mim. Já tou´indoimbora. Sozinho.”
Obedeci e enquanto arreava o cavalo o sibilo da fuga das cobras tornou-se mais próximo, atravessou o pasto em direção do cafezal, passou pelos fundos do quintal, ao lado do pequeno córrego e foi sumindo em seu tinido agudo para as bandas da furna dos Ferreiras.
- “ E quanto lhe devo pelo serviço?”, perguntei.
- “Tem paçoca de carne seca, já pronta? Tenho uns quatro dias de viagem de volta até minha tapera.”
Quando voltei com a matula de paçoca o curandeiro já estava montado.
Seus olhos permitiram apenas:
- “Que Deus o ajude, minha benção.”
- “Abençoado está. Inté.”
E tocou o cavalo em direção à porteira.

sexta-feira, 12 de março de 2010

ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS



E assim, logo que o sol se despontou atrás do morro do Chapéu, todos foram chegando: de mansinho, quietos mas curiosos, olhos acesos e ouvidos atentos, mergulhados para dentro de si como que preparando a mente e os sentidos para ouvir histórias e mais histórias.
Muitos eram velhos e a idade era sinalizada pelas barbas brancas nos homens e pelos cabelos grisalhos nas mulheres, algumas com cabelos longos, trançados, adornando a cabeça como uma coroa, coisa de muito antigamente, que não se usa mais; mas chegavam também jovens rapazes e moças: lindos em sua juventude, em seus dentes brancos à mostra em permanentes sorrisos, na força de seus corpos ágeis.
Alguns, principalmente os mais jovens, traziam pesadas mochilas às costas enquanto outros puxavam, pelas alças, pequenas malas com rodinhas, que lembravam pequenos carrinhos com os quais haviam, certamente, brincado na infância.
Eram todos contadores de história!
Foram chegando e, cada um ao seu jeito, se acomodando. A arena ao ar livre, sob o céu azul, agora repleto de estrelas e com a lua cheia, gordona, tão enorme em sua claridade que era possível ver os rostos, os corpos e mesmo as mãos daquela horda de sonhadores.
Sim, sonhadores, pois não sei se você sabe, mas contar histórias, é, de certa forma, indignar-se com a realidade: é criar uma memória não de fatos - estes muito pouco importantes – mas, antes, gestar uma memória de fantasias, de sonhos, daquilo que o contador confia ser o melhor que deveria ter acontecido.
Resumindo, amigo leitor, no final das contas, ou melhor, no frigir dos ovos, o contador de histórias é um crédulo de que a memória do mundo pode ser corrigida, alterada, moldada sempre que a realidade não se mostra compatível com seus sonhos. Pois então, ali, naquele mundão sem fim, silêncio absoluto, todos, por dever e prática de ofício, sabiam que no momento de contar uma história, ocorre com seu contador uma metamorfose que o liberta da crua realidade e suas limitações que empobrecem as possibilidades de esculpir o mundo.
As regras eram poucas, muito poucas. Cada um contava a história que queria e todos ouviriam silenciosa e respeitosamente, pois a história contada era também sua história.
A ágape dos contadores deveria funcionar ininterruptamente, enquanto houvesse história a ser contada: uma espécie de palimpsesto oral onde cada história apagava a outra em um movimento contínuo, infinito.
O primeiro a contar uma história foi um velho homem, com seus setenta e tantos anos: magérrimo, bastante calvo, barba feita, boca pequena, olhos oblongos negros - lúcidos em seu brilho –, mãos longas - próprias para pianista -; apresentava, enquanto narrava, movimentos largos e ágeis e, ao que parece, incontroláveis à racionalidade de sua mente, mas obedientes, sim, ao anseios de suas histórias.
Disse que, se tivesse título, gostaria que sua história fosse chamada de MISTO.
Sua história:
“Amigos: eu nasci no interior do meu Ceará tão querido, ao meio da caatinga, sob o calor forte do perene sol e pouquíssimas suavizantes sombras.
Meu pai tinha por lá uma fazenda onde vivíamos: ele - Seu Francisco-, meu pai, Dona Zulmira, minha mãe, eu, Gilberto e mais três irmãos: Paulo, André e Júlio. Minha mãe, um verdadeiro poço de carinho, dizia não entender direito porque logo eu, que de todos os seus filhos era o que mais gostava de falar, era gago. Mas mesmo gago, desde cedo, gostava muito mesmo de falar, de contar.
Chegou então uma hora que me mandaram para capital estudar. Naqueles tempos havia, pelos lados onde eu nasci, um meio de transporte muito característico e que hoje não tem mais. Chamado de “MISTO” e era, como o nome diz, uma transmutação de caminhão metamorfoseado em ônibus: aumentava-se a boléia a ponto de que a mesma abrigasse, feito ônibus, de oito a dez pessoas sentadas em duros bancos de madeira e, claro que com isso diminuía a carroceria, mas não tanto a ponto de impedir que nela fosse transportadas dúzias de galinhas com suas perninhas amarradas com cipó, cabritos que berravam todo o tempo - reclamando, talvez, do calor e da sede -, quietas e pesadas sacas de arroz, gordas sacas de feijão de corda e pacotes e mais pacotes de doces rapaduras.
Era em um misto que eu viajava da fazenda do pai até a capital para onde fui mandado morar para os necessários estudos.
Em uma destas idas, voltando para capital depois de boas e longas férias, que me acomodei à boléia do misto, ao lado do Senhor Edmundo, meu padrinho de crisma, levando na carroceria caixas e mais caixas com dúzias de queijo coalho que minha mãe havia feito. Tantos queijos eram regalos e deveriam ser distribuídos, assim que chegasse à capital, para tios e tias, uns dois para o padre, Freio João, que foi quem me batizou e grande apreciador dos queijos de minha mãe; outros para o diretor do Ginásio, o senhor Everton, que os recebia sempre sisudo, e não agradecia; um para o Juiz de Direito, Doutor Moacir, e outros para os amigos do pai, e neste caso havia uma lista, escrita em papel jornal, pelo pai, com os nomes e na frente o número de queijos que eu deveria entregar a cada qual, sem revelar as outras entregas para não fomentar ciúmes entre os amigos, dizia, severo, meu pai: “nada dizer ao outro quantos queijos você entregou para o Pedro ou para o Rodolfo; diga simplesmente: Seu fulano: ta aqui o queijo, ou os queijos, que minha mãe fez e o pai mandou para o senhor, entendeu?”, “entendi, meu pai”, respondia, enquanto pensava em Alterar a lista de modo a reservar um ou dois para minha professora predileta, Dona Rose, que, lindíssima em sua pele clara e olhos azuis sob os óculos redondos com aro de tartaruga, dava aulas de português.
Mas como ia dizendo, íamos em nossa viagem: eu na boléia e, na carroceria, os queijos com as galinhas, cabritos e as sacas de mantimento.
E foi então que, depois de umas seis horas de viagem, na divisa do município de Parambu, o misto foi parado pelo fiscais que, mal humorados, voz alta de comando, de imediato ordenou que o mesmo se acomodasse pouco mais à frente, sob a sombra de um juazeiro, para “poder melhor revistar tudo e todos, sem sobrar nada”, dizia um dos fiscais, o de de avental banco, escoltado por dois soldados com suas espingardas, ou fuzis, não me lembro mais, apontados para o alto em posição de sentido.
Eu tinha, à época, uns quatorze ou quinze anos: tímido, gago e medroso destes negócios de soldado, ainda mais armados.
E os fiscais e seus soldados, subiram na carroceria e esquecendo as galinhas, cabritos, sacas de arroz e rapaduras implicaram com os meus queijos: “Porque que tantos? Vai vendê-los? Se vai vendê-los, como penso, eu te pergunto rapazinho, seus queijos foram devidamente vistoriados pelo posto de saúde lá de seu município? Onde está o certificado de higiene?”
E eu gago. Nervoso, mais gago ficava: como responder a tantas perguntas, feitas ao mesmo tempo, rápidas, em voz alta - autoritária - pelo fiscal de avental branco e sobrancelhas espessas, vigiado pelos soldados armados de espingardas de cano longo ou fuzis, não sei bem distinguir, esta é a verdade.
Impossível, com minha gaguice aumentada pelo atávico medo que tinha de soldados, responder, argumentar, explicar para quem os queijos seriam oferecidos, mostrar a lista com os nomes dos amigos do pai que seriam agraciados com tão perfumado regalo, berrar alto que minha mãe era a melhor queijeira de todo o interior do Ceará, que todos os queijos coalhos que levava nada mais eram que inocentes presentes.
Só, temeroso, pensava; a gagueira impedia-me a fala.
E os fiscais e seus áulicos ameaçaram, caso se eu continuasse teimando em não responder às suas perguntas, jogar, ali mesmo na caatinga, os queijos, e o “fariam estritamente dentro da lei, pois saiba rapazote, que o que você está fazendo é crime: transportar perecíveis sem a devida inspeção; saiba, frangote, que isso é o mesmo que contrabandear alimentos, que dá pena de cinco anos...”
E eu, gago, sem tempo e forças para defender-me e a meus queijos: “que joguem os queijos para os ratos da caatinga, mas Deus do céu, que não me prendam; se eu ficar cinco anos preso vou ter que faltar tantos dias das aulas no Ginásio que vou acabar repetindo de ano, e meu pai vai ficar bravo porque eu lhe prometi que nunca repetiria, que só teria boas notas”, pensava.
Aí surge meu padrinho Edmundo:
- “Mostre a ele sua carteira de estudante, Gilberto! Você é um estudante com carteira e tudo; mostre ao fiscal que logo, logo, neste fim de ano, antes do Natal, você vai se diplomar no Instituto de Educação Dom Bosco. Vamos, menino, ´mbora , tire logo a carteira do embornal”.
Mais sereno por não precisar falar, tirei do fundo do embornal a carteira de estudante e, timidamente, ofereci-a. E nas mãos enormes do fiscal ela se apresenta, viva, com sua capa azul, com meu retrato três por quatro na primeira folha, todo sério, com a assinatura do diretor, Senhor Everton, bem legível com sua letra um pouco tombada à direita, com boas notas mensais, fora um quatro e meio em matemática e de outro em trabalhos manuais, com a parte das presenças não apontando nenhuma falta durante todo o ano.
Devidamente vistoriada a carteira me é devolvida e eu a acomodo no fundo do embornal; aproveito para a acariciá-la com os dedos, em uma retribuição pelo feito: a danada da carteira azul de estudante salvou-me a mim e aos meus medos, respeitou minha gagueira, salvou os queijos coalhos feitos por minha mãe e, mais que isso, delicada, tornou-me homem àquela hora.
Perdi o medo.
E agora aproveitando já que o assunto é “misto” vou contar uma história acontecida em outra viagem, também indo de minha casa para a capital e tendo, mais uma vez, ao meu lado o padrinho Edmundo...
Agora eu tinha uns dezesseis anos e estava no científico. Já era um rapazinho com as barbas querendo apontar, sujando as faces, cultivava um bigodinho ralo - penugens claras e finas acima dos lábios - e tinha a voz em mudança, motivo de ironia pela professora de canto orfeônico, que frente às diferentes e contraditórias entonações quando solfejávamos no coral, comentava : “tem um galinho cantando no coral?”.
O que quero dizer é que era já um rapaz.
Ao meu lado, na boléia do Misto, viajavam duas meninas, lindas, usando, ambas, vestidos de organdi bordados, pequenos e rijos seios, feito pequenas laranjinhas forçando, para fora, os botões da blusinha branca.
E eu, ao lado, viajava quieto e tímido em minha gaguice, ou disfemia, como preferia a professora Rose, vestido com minha roupa nova de ir à missa. Entre o brim caqui de minhas calças e o organdi branco do vestido da linda menina sobrava por volta de um palmo de madeira de banco duro.
Queria, mas faltava coragem, aproveitar os solavancos do misto para encostar minha perna na perna da que estava ao meu lado direito e diminuir aquela, para mim, absurda distância ente os tecidos caqui de minhas calças e o organdi de seu vestido. E se a cada solavanco a distância diminuía, a coragem de uma aproximação total não era suficiente. A uma certa hora ficou uma coisa que era nada mais que dois dedinhosde distância entre nossas pernas, e quase não se via a madeira dura do banco separando os tecidos de nossas roupas.
Até que chegou a hora: em uma curva, onde o misto passava sobre o leito de um córrego seco, um buraco provocou um solavanco forte no duro misto, que fez sua vez e ajudou-me a vencer a timidez; nossas pernas se encostaram e misturou o brim caqui com o organdi branco.
Senti o calor de sua perna junto a minha. Mudo, coração saindo pelas ventas, imóvel, penso: “Deixo assim, tão gostoso, encostada a minha perna? Será que ela está concordando com minha sem-vergonhice? E se ela, descontente e brava, resolve contar para o motorista desta minha ousada pouca-vergonha?”.
Foram, penso, coisas de uns dois segundos com nossas pernas aquecendo-se mutuamente. Medroso, voltei à posição de antes do solavanco, e com as pernas desencostadas, dois dedinhos separando o organdi do caqui, me pus a pensar: “Será que ela percebeu? Será que, como eu, gostou?”.
Olho firme no espaço entre os tecidos: uns dois dedinhos de madeira a separá-los.
Veio um próximo solavanco, e com ele, um novo, mais forte, corajoso e demorado contato de pernas: “Se deixou encostar é porque está gostando”, pensava.
Temeroso de ser descoberto olhei para meu padrinho; queria verificar se ele estava vigiando minha pouca-vergonha; morreria de vergonha, com certeza, se levasse dele um pito por tamanha safadeza de minha parte. Mas meu padrinho, quieto, olhava para os lados da paisagem seca e parecia, mesmo, que eu, para ele, nem existia.
Outro solavanco, este menor, mas agora eu mais atrevido, fiz colar, novamente, minha perna na da linda menina de vestido de organdi: e desta vez com tempo suficiente para sentir sua firmeza, sua quentura; meu coração teimava em querer sair do peito, fugir pela boca, ir para onde, não sei, talvez lá pelos meios da caatinga quente e rude.
E assim, juntamente com o coração querendo sair pela boca, palpitando célere, que, inesperadamente e na pior hora possível, surgiu uma dor de barriga enorme, cólicas intestinais insuportáveis a exigir rápidas medidas de alívio ou o pior aconteceria.
Tive que agir rápido: conhecia meus intestinos, minhas fraquezas. Vou até o motorista e , envergonhado, peço um tempo para cumprir minhas necessidades urgentíssimas.
- “Logo ali na frente tem uma moita de gabiroba. Agüenta até lá. Aqui neste ermo de caatinga não tem como você fazer o seu serviço. Bebeu leite cru no curral da fazenda?”.
E eu, penas cruzadas, temendo o pior, aguardei ansioso a capoeirinha de gabirobas!
Chegou e, felizmente para minha timidez, o esconderijo ficava a uns quarenta metros da beira da estrada: sons que certamente ocorreriam, seriam inaudíveis, dada a distância dos passageiros.
Dirigi-me, o tão rápido como minha situação permitia, pois correr seria desastroso, à moita de gabiroba; a vergonha da inusitada situação aliada ao perigo de que algo poderia ocorrer me fazia perder os sentidos.
Protegido pelas ralas folhas das gabirobas, aliviei-me!
O pior já passara! Agora era pensar em como retornaria ao misto e enfrentaria a menina de vestido branco de organdi. Com certeza, não teria coragem, mesmo que mil e um solavancos ocorressem, de encostar minhas pernas nas suas até o fim da viagem; não ousaria perguntar seu endereço na capital e nem mesmo seu nome descobriria.
Bem que a mãe sempre dizia: “este menino tem dois problemas, pobrezinho: gagueira e intestino fraco”.
Eu lá a pensar. O motorista tocou a buzina do misto para apressar-me! O “fommm! Fommm! Fom!...” rouco do misto invadiu a caatinga.
E o intestino resolveu voltar a funcionar: cólicas agudas aliadas a sons escandalosos que eram emitidos independentes de minha vontade, quanto mais tentava segurá-los mais as cólicas chegavam ameaçadoras, dolorosas, terríveis...
Quão bom seria se faltasse pouco para chegar a capital: faria o resto da viagem a pé, diria, como desculpa, que precisava caminhar, que era uma penitência para pagar mortais pecados cometidos, ou mesmo, menos trágico, promessa feita para passar de ano; excelente idéia, penso: mesmo longe tenho certeza que o melhor é chegar até a capital a pé...
De qualquer forma terei que informar isso ao padrinho e ao motorista: mas aí será um tempo curto, logo o misto vai embora e eu fico quieto com minhas vergonhas...
- “Fom! Fommmm! Fommmmmmm!” chamava furiosamente o misto.
- “ `Mbora, cagão!” berrou o motorista.
E os intestinos a funcionar!
Interminável e interminavelmente dolorosa a situação em que me econtrava, agachado atrás da rala moita das gabirobas, querendo morrer: “Até morte deve ser melhor que passar a vergonha que estou passando e que só vai piorar quando eu entrar no misto.”
E a caatinga foi mais uma vez invadida por mais um sonoro “Fomm!” só que este curto, sem repetição, e me pareceu que interrompido pela voz de meu padrinho.
Silêncio nas caatingas; dava para ouvir ao longe o pio lamuriante do anu preto.
Urgia de mais tempo para pensar em como entrar no misto.
Sem solução a solução era enfrentar.
Me ajeito e volto ao misto e subo em sua boléia sob o olhar dos passageiros.
Meu padrinho me recebe:
- “Senta Gilberto. Fez tudo o que precisava? Está aliviado?”
Gago, nervoso, não deu tempo para responder que sim.
Me preparava para sentar e ele continuou:
- “Você ouviu a buzina, menino?”
- “Sim, padrinho eu ouvi, mas...”, iniciei, gaguejando, minha justificativa pela demora, mas fui mais uma vez interrompido pelo padrinho:
- “Tinha nada que buzinar este puto...? Sabe o que eu disse a ele?”
- “Não, padrinho, não sei o que o senhor disse.”
- “Eu, meu filho, me emputeci e berrei alto: pare com esta buzina, seu corno, deixe o menino cagar.”
A menina de vestido de organdi branco ajeitou cuidadosamente a saia de seu vestido, oferecendo o lugar próximo a ela.
Sentei-me.
Percebi havia sentado deixando coisa de um palmo de distância entre o caqui de minhas calças o organdi de seu vestido. Logo um pequeno solavanco diminuiu uns dois dedos a distância....

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Gambeva ou Manditinga?



Margoso é uma pequena vila, incrustada, feito um presépio, no meio do verde das árvores e do negro acinzentado das enormes e pesadas rochas da serra do Alto Porã. Foi lá, no Margoso, que encontrei o Seu João de Barros e Dona Lúcia, sua mulher.
Ele, Seu João, muito magro, costelas à mostra sob a camisa de algodão, com uma verruga enorme, marrom, pouco acima dos bigodes grisalhos e logo abaixo dos olhos brilhantes, vivos, azuis. Seus cabelos, brancos, passado do grisalho, quase não se vê, enfiados, sempre, sob o chapéu de camurça. Conta suas histórias com a voz grave, melodiosa, que parece sair do fundo do peito, bolindo, para cima e para baixo, com o pomo de Adão no pescoço escuro marcado pelo sol; nas pausas de suas histórias, fazendo o papel de vírgula, seu dedo minguinho alisa a verruga e os olhos azuis se fecham , saboreando o intervalo silencioso, ganhado tempo para pensar nos fins de suas histórias.
- “Margoso, de antes, era bem diferente. No lugar desta, agora, igreja branca com sino e tudo, o que tinha, mesmo, era uma pequena capela; mais embaixo, a duas quadras da praça, onde se tem o Grupo Escolar era a escolinha municipal, que foi onde encontrei Lúcia, minha mulher de há mais de cinqüenta anos. E sabe o senhor que foi na antiga capelinha que nos casamos? Pois foi: Lúcia, sempre muito bonita em seu vestido branco de organdi, eu com paletó de gabardine, gravata apertando o pescoço e o padre, solenemente paramentado, dando sua benção. No final do casamento, junto e mesmo depois dos cumprimentos, no jardim frente à porta da igreja, teve fogos e foguetes; e se quer saber mais ainda doutor, eu digo que também que foi nesta casa, onde estamos agora tomando café com leite e comendo bolo de fubá que sempre vivemos e criamos nossas filhas? Faz já muito tempo isso tudo. Nossas vidas... Daqui do Margoso até a cidade mesmo, com cartório, banco, cadeia e outras coisas se gasta mais de quatro horas se for a cavalo, e umas duas se for de trator, jipe ou caminhão, pois, sabe, doutor, que automóvel com seus luxos, ainda não passa por aqui: estrada com muitos buracos, subidas fortes e curvas perigosas feitas para desviar dos negros e profundos tembés rochosos, que arrodeiam toda a serra. Pois eu fui lá, na cidade, durante toda a minha vida, duas vezes e por necessidade pura: uma vez fui para acertar, no cartório, a papelada do sítio que herdei de meu pai e outra vez chamado pelo juiz para ser testemunha em júri no fórum da cidade: crime de morte. E foi só: por demais não gosto e penso que não careço de ver mais longe que do Margoso. Para mim, daqui do alto da serra do Alto Porã, dá para enxergar o longe, bem longe e já está bom demais.”
Cheguei em Margoso - e veja só quem lê esta história: se realmente eu contasse imitando direitinho a fala do pessoal de Margoso, teria escrito que cheguei "no" Margoso, mas deixa isso para lá - ao fim do dia, quase noite, depois de andar uns trinta e poucos quilômetros, em mais uma de minhas intermináveis caminhadas pelo interior de Minas Gerais. A casa de Dona Lúcia e Seu João é o pouso indicado aos andarilhos que se aventuram por aquela região; lá se encontra cama limpa, banho, comida caseira e muita prosa. Para aproveitar a luz do dia, que ainda tinha, fui, antes mesmo das prosas, para o tanque no quintal, coberto com folhas de palmito, com uma torneira de água clara e farta, escova de piaçava, bola de sabão de pedra, feito com soda e mamona; carecia lavar as botas e as meias imundas de tanto pó, a bermuda e a camiseta marcadas pelo suor do dia quente e pelas alças da pesada mochila.
Dona Lúcia, bem falante, é fisicamente, o oposto do marido: cheia de carnes recheando e dando formas arredondadas ao corpo, seios abundantes, quadris largos no alto de suas pernas curtas e grossas. Bonita e, pela tintura dos cabelos e pelas unhas esmaltadas, vaidosa em seus mais de cinqüenta anos. Rigorosa e prestativa, ao ver meu pouco caso em lavar as botas e a camiseta toma meu lugar:
- “Posso lavar para o senhor? Acho melhor...”, disse ao mesmo tempo em que recolhia do varal a camiseta que, embora lavada teimava em mostrar manchas escuras provocadas pelo suor, pó e atrito com as alças da mochila; e enquanto lavava:
- “Amanhã vai ser dia de festa na igreja. É dia da Padroeira e vai ter quermesse com leilão de prendas logo depois da missa rezada pelo padre. Por que não fica? Gosta de festa?”
Me comove, na verdade me fascina, festas singelas, sem cheiros de modernidade! Uma outra vez, também em uma pequena cidade de Minas, numa dessas festas tive a oportunidade de saborear, em plena praça da igreja, uma canja de galinha cozida em enorme panela de ferro, servida com fartura em prato fundo; e foi assim, com o prato cheio de canja repousado no colo, uma colher, um banco de jardim, lua e estrelas ao céu, o zunzum de gentes falando ao redor e mais ao fundo, de dento da igrejinha, a voz do padre dizendo a missa, com a sopa aquecendo a garganta e o estômago, que me lembrei do que diz uma amiga que se tornou cozinheira famosa: canja é uma comida que fortalece a alma.
Mas para não encompridar mais ainda está história: aceitei imediatamente ao convite, acertei o preço de mais um almoço, uma jantar e uma noite na pousada da Dona Lúcia e foi assim, por causa de uma festa na igreja, que passei em Margoso um domingo ensolarado e quente.
Acordei cedo e dei de cara com o Seu João na sala, os olhos grudados em uma televisão com imagens em branco e preto e o som quase no zero para não fazer barulho, provavelmente preocupado em não me incomodar. Na tela um programa rural falando de pescaria de fieira.
E você, leitor, já ouviu falar de pescar de fieira? Deixando de lado a preocupação em esticar mais ainda esta história , vou contar. Muito simples: é um tipo de pesca possível de ser realizada apenas em pequenos córregos pedregosos, onde haja fartura de gambeva e pequenos mandis, melhor dizendo, manditingas. O instrumento de pesca, em vez da tradicional vara e anzol, é uma forquilha tirada de qualquer árvore, não precisa ser de jabuticabeira ou de goiabeira, as melhores para forquilha de estilingue, e linha destas de costura, sendo melhor as mais grossas, número cinqüenta, se não me engano. Pois então, pega-se as minhocas, bastante, e com a ajuda de uma agulha, “costura-as” na linha, como que vestindo-a, tendo sempre o cuidado de deixar pontinhas para, nelas, as gambevas ou manditingas “mamarem” para serem fisgadas. E assim, depois de vestida de minhocas, é que se amarra a linha nas pontas do Y da forquilha, fixando-a bem. Depois , acertado o poço onde será realizada a pescaria, vai-se até alguns metros acima do mesmo e com enxada ou um pequeno enxadão joga-se bastante terra na água turvando-a ponto de impedir que as gambevas, ou manditingas, com seus olhinhos miúdos e negros, enxerguem o pescador, seu algoz. Tomada estas precauções vai-se à pesca propriamente dito: mergulha-se a fieira com as minhocas nas águas barrentas do poço e depois de alguns segundos ergue, silenciosa e suavemente, a fieira acima do nível da água; a fieira vem, então, carregada de gambevas ou manditingas dependuradas, que, sentindo a falta d´água caem em uma bacia ou peneira colocada sob a forquilha. Pega-se o bastante para a mistura de uma refeição, porque mais não precisa: tanto gambeva como a manditingas fritas são deliciosas, tenras, carne branca sob a pele escura, sem escamas.
Voltando a nossa história, percebo que tirei o sossego do Seu João que, ao me ver de pé, imediatamente desliga a televisão e:
- “Bom dia! Estou indo à padaria buscar pão. Em um momento já estou de volta para o café.”
- “Posso ir junto?”, pergunto por perguntar, e o acompanho rua abaixo.
- “ ´dia seu João.”
- “ ´dia seu André. Hoje, tem andarilho aqui em casa; então quero seis pãezinhos; manteiga já temos e o leite trouxe do sítio, não carece.”
- “Tá certo...vai na quermesse, seu João?”
- “Ocha se vou, e o senhor aqui do lado, o andarilho, também. Viu o programa de pesca na televisão seu André?”
- “Vi sim, pesca de fieira; e olhe que deu sorte pelo tanto de gambevas que o danado pegou.”
- “Gambeva, não, seu André, foi manditinga.”
- “Me pareceu gambeva, seu João: pele negra, barbatana comprida. A manditinga ...”
Seu João desconversou:
- “Bem, ta´qui o dinheiro do pão, tenho que ir; mas foi manditinga, sim, conheço bem peixe.”
No caminho de volta por duas vezes Seu João resmungou em voz baixa:
- “Foi manditinga ..., conheço bem de peixe.”
No café da manhã, além dos pãezinhos, leite, café amargo, bolo de fubá e banana da terra frita. Enquanto comíamos, os três, conversávamos. E o Seu João, insistindo:
- “Pois então Lúcia, na televisão hoje teve pesca de fieira; se lembra o tanto que a gente pescou de fieira no córrego do Bom Jesus. Lá se pegava gambeva, mas no programa de hoje o que pescaram foi manditinga.”
- “Para mim tudo igual: parecido demais, difícil de saber. O que sei é que gosto delas fritas, depois de passadas no fubá.”
- “Bem diferentes. A gambeva tem a pele mais...”
E agora quem desconversou foi dona Lúcia:
- “Tá bom João, mas é muita precisão. E o bolo de fubá, está de seu gosto? E o senhor andarilho, pronto para a quermesse?”
Depois do café saí a caminhar pela vila do Margoso. Em um banco do jardim, frente à igreja, fico assistindo o movimento das pessoas terminando de montar as barraquinhas para a quermesse.
A praça, pequena, vai se povoando das gentes do lugar. As mulheres em seus vestidos de domingo, os homens, todos de chapéu, com camisas bem passadas, botinas limpas de barro, crianças pelas mãos...Fila de mulheres, dentro da igreja, para a confissão. Os homens de fora, esperando a hora da missa começar.
Conversam:
- “Acho igual ao Seu João, que foi manditinga o que pescaram na fieira; pele mais clara que gambeva.”, fala do alto de seu mais de um metro e oitenta o seu Ricardo, fazendeiro e velho morador do Margoso.
- “Acho não. Sei que a manditinga tem a pele mais clara, pois daí é que vem seu nome, tirado do tupi: mandi + -tinga (tupi 'tinga 'branco, claro'), mas a da pesca de hoje na televisão foi gambeva, mesmo.”, replica, garboso em sua profissão de professor de português, o Álvaro.
Nisso o padre, sai à porta da igreja e chama a todos para a missa que vai começar.
Bom ir logo porque depois da missa vai ter quermesse com leilão de muitas prendas: frango assado, bolo, garrafas de vinho e, segundo, Dona Lúcia, até uma paca assada pela mulher do seu Higino.
Bom demais.
Missa rezada e a praça, de novo, torna-se toda povoada das diversas pessoas: pais, mães, filhos, solteiros, casados, moças e rapazes e até dos soldados e do vice-prefeito que vieram, de jipe, da cidade, prestigiar a festa da padroeira.
Fogos e foguetes. Bum! Bum! Rolinhas voam assustadas!
Começa o leilão das prendas para arrecadar fundos para a pintura da igreja.
Dona Lúcia, amiga do padre, inventa um jeito e me coloca como a pessoa que, ao lado do leiloeiro, segura a prenda para que a mesma fique no alto, mais à vista de todos.
E o leiloeiro com sua voz forte, sonora:
- “E aqui, a primeira prenda, um frango assado, todo recheado, oferta da família Santana. Quanto me dão por este delicioso frango?”
E eu lá, com a obrigação de erguer o frango desfilando-o bem visível aos interessados.
- “Damos dez.”, responde um grupo sentado em uma das mesas, com garrafas de cerveja abertas, alegres, falantes.
- “Quinze”, responde o outro grupo, “cobrimos com quinze, e vamos, nós, comer este frango.”
E o leiloeiro:
-“Quinze, oferece o pessoal da mesa à nossa esquerda. E é só? Quem dá mais?...
- “Vinte...damos vinte, para comer agora, com a cerveja gelada.”, grita alto o pessoal da primeira mesa, na qual estava o Seu João.
E a disputa correu solta: deu para perceber que na mesa do Seu João estavam os que achavam que o peixe pescado na fieira foi manditinga e, na outra mesa, os que defendiam que havia sido gambeva, o peixe pescado.
Era o que dava para ver, do alto do coreto, junto ao leiloeiro, segurando o cheiroso frango assado, ainda quentinho, envolto em papel celofane .
- “Vinte..” grita o leiloeiro e, com seu martelinho improvisado, batendo forte sobre a mesa, “dou-lhe uma!...Vinte! E dou-lhe duas...”
- “Vinte e cinco, nós é que vamos comer”, cobre a oferta, Seu João.
- “Trinta! Comam manditinga, que nós vamos comer é frango”, responde a mesa do pessoal da gambeva.
E o leiloeiro:
- “Trinta! Trinta! Trinta!...Quem dá mais? Dou-lhe uma, trinta! Dou-lhe duas. Trinta! Trinta pelo frango! E dou lhe....Quem dá mais? Ninguém? É pouco, o frango vale, quem dá mais? Ninguém? Então dou-lhe três! Quem come o frango é pessoal da gambeva.”
E enquanto, batia forte o martelo na mesa, ordenou para que eu entregasse o frango ao pesssoal da mesa com o lance vencedor.
Então: Viva a gambeva, e acabou –se!

domingo, 20 de dezembro de 2009

FIQUEI VELHO!



Fiquei velho!

Faz tempo, que fiquei.

Certa vez, na biblioteca de uma colônia de férias, caiu-me às mãos um enorme ensaio da Simone de Beauvoir , A VELHICE, livrão pesado que compete, em grossura e número de páginas, com OS SERTÕES do nosso Euclides ou mesmo com A MONTANHA MÁGICA do Mann. Não li todo o ensaio e só posso compará-lo com as obras aqui citadas, apenas pelo volume... Mas, me recordo que uma das anotações da autora a respeito da velhice é a que sempre pensamos que a idade chega aos outros e não a nós, e naqueles dias em que lia o ensaio, pensei que aquela conclusão talvez fosse influência do companheiro Sartre: “o inferno são os outros”.

Mas chega à gente, sim!
Quero dizer, se você não morre cedo, a idade e a velhice chegam.

E cada um vai descobrindo a sua chegada de um modo.
Rubem Alves, em uma crônica, há tempos na Folha, fala de sua - agora - “implicância” em ser fotografado de perfil: a papinha ou a barbela, que nas fotos de perfil aparece abaixo do queixo, para ele, sinaliza o envelhecimento.
Um bom amigo, me disse, que se surprendeu no dia em que, no metrô, uma bonita jovem ofereceu-lhe o lugar e, depois, feliz pela prática da boa ação, olhou carinhosamente para ele com olhos de neta. Sorte, disse-me ele, a bela moça não ser “escoteira” e agradecer a boa ação diária com os dois dedinhos no alto da face dizendo em voz alta: “Sempre alerta”.
Moro em uma casa aqui na Serra da Cantareira e tive, durante alguns anos, como vizinho, um chileno educadíssimo, amante de bons vinhos, de fotografia e de uma boa prosa. Victor é o seu nome. Pois bem: ele tinha uma sobrinha, com pouquíssimo tempo de Brasil, àquela época com uns cinco ou seis anos, falante e graciosa com seu rostinho emoldurado pelos negros e lisos cabelos, parecendo uma indiazinha. Em uma tarde estava a podar plantas no jardim quando ouvi Camila, a sobrinha de Victor, aos berros em seu quintal, ao lado da piscina. Chorava alto e dolorosamente.
Depois descobri: sua tia “aproveitou”, enquanto Camila dormia, e saiu para realizar pequenas compras; ocorre que a nossa indiazinha deve ter acordado mais cedo que o normal em seu sono vespertino e se viu só na enorme casa, com um medo enorme dos tucanos que berravam no alto da paineira, medo da solidão, de não ter a tia a oferecer-lhe leite com Nescau, nem os primos para jogá-la de roupa e tudo na piscina... Assim berrava e berrava a pequena chilena!
Resumindo: me muni de uma escada, pulei o muro, fui até o quintal do vizinho e, com o apoio da mulher, “salvamos” a pequena Camila que ficou conosco até a chegada da tia. Em casa imediatamente se acalmou, ficou toda prosa, tomou leite, comeu bolo, e, a partir dali, tornou-se visita freqüente às tardes sempre pedindo bolo de chocolate, sua paixão. Mas voltando à velhice, assunto desta história: sempre que lhe perguntavam sobe o ocorrido naquela tarde, Camila dizia: “fiquei com muito medo e chorei até que um velhinho pulou o muro e veio me salvar.”
E agora de volta aos bancos azuis do metrô.
Estava indo da Sé para a República quando uma jovem ofereceu seu lugar a um senhor que, junto comigo, estava sem local para sentar.
O velho agradeceu a gentileza:
- “Obrigado, estou bem, e, também, desço na próxima” e olhando para mim: “Não quer sentar?”
- “Também, quero não. Desço na República, obrigado, não vale a pena.”
Travamos ali uma amizadezinha:
- “Quantos anos você tem?”, perguntou-me.
- “Sessenta e três”, o que dá para concluir que esta nossa historia no metrô ocorreu já há bastante, ou sendo generoso, algum tempo.
- “Mas você está bem, parece forte. Tenho sessenta e sete, fiz agora, no dia seis do mês passado.” E para seus sessenta e sete, realmente, o velho era saudável e se equilibrava firme, braços erguidos com as mãos segurando forte na alça de apoio do vagão do metrô. Assim estávamos os dois, próximos, dependurados no apoio do vagão: ambos magros, bastante calvos e as com as nossas enormes orelhas cheias de pelos abanando e ocupando razoável espaço naquele vagão do metrô. Com certeza, caso houvesse alguma jovem mulher no vagão, estaria olhando para nós como dois simpáticos e fortes vozinhos.
- “Mas o senhor está muito bem aos seus sessenta e sete”, disse.
- “Sim, estou bem, forte e cada dia mais feio. Tenho espelho lá em casa, me vejo todas as manhãs e o mesmo não me deixa mentir. Bem, desço aqui no Anhangabaú. Tchau!”
E desceu rápido, passos firmes, ombros erguidos sem nenhum sinal de corcunda no corpo magro...Feio.
Mais uma história. Foi em um almoço onde o prato principal era uma deliciosa feijoada. Entre os participantes desse almoço, um senhor, velho como eu, talvez uns dois ou três anos a mais, o que em nossa idade é zero, muito diferente de quando se tem treze anos e encontra um “menininho” de dez, que achamos insuportável em sua infantilidade. Voltando a este velho: me disse que praticava yoga, era vegetariano, não comia carne e ficou, realmente, um tempão frente a enorme panela da feijoada, catando grãos de feijão e um pouco de caldo que misturou ao arroz e couve; nada de carne, toucinho, costelinha defumada e, nem mesmo, um pedacinho de carne-seca.
Fez seu prato e sentou-se a meu lado para comer e conversar. Assunto principal: velhice. E eu tomando coca light em homenagem a diabetes e ele com sua feijoada vegetariana!
Mas era forte, saudável e um pouco falante demais o meu vizinho de mesa.
Não perguntei, mas descobri sua idade:
- “Tenho sessenta e oito anos, mas me sinto como se tivesse vinte, não vejo nenhuma diferença”, disse, iniciando a conversa enquanto, ao mesmo tempo, dirigia um olhar lascivo para a jovem e morena garçonete que ajudava nas tarefas de por a mesa.
Eu um pouco sem paciência:
- “Eu me sinto bem aos meus sessenta e cinco, mas muito diferente de quando tinha vinte anos.”, respondi.
E ele:
- “É mesmo? Por que?”.
E eu:
- “Bem...há muitas coisas que fazia aos vinte as quais não faço mais”, respondi.
E o velho falador, que não tirava o olho da garçonete morena, quase a desnudando em público:
- “Verdade? Ah, comigo não! O que você não faz agora e que fazia quando tinha vinte?”, desafiou-me enquanto continuava a desnudar a garçonete que, agora, à luta com a travessa de couve, era obrigada a curvar-se, deixando parte das belas pernas à mostra.
- “Não jogo futebol como jogava”, disse.
A conversa foi encerrada. Comemos em silêncio: eu a feijoada e minha coca light e ele, agora calado, o seu prato de arroz, caldo de feijão e couve.
E só para terminar cuidando para que esta historinha não fique tão longa como o ensaio da Simone de Beauvoir - atenção ao “tão longa”, pois longe de mim querer competir com a velha francesa em profundidade, qualidade na escrita e competência - vou contar de uma vez quando voltava de uma caminhada de dez dias pelo Caminho da Luz. Cansado da caminhada, após desembarcar na estação Rodoviária do Tietê, pegar o metrô e depois um ônibus até o ponto final, já no pé da serra, tomei um táxi para subir a Cantareira até minha casa; e foi aí, neste percurso pela estradinha da serra, que conversa vai, conversa vem: "Mas onde mesmo o senhor foi? Quantos dias andou caminhando no meio do mato? Dormiu em barraca?" . Enfim, satisfeitas as primeiras curiosidades, o taxista deu-me tempo para, por minha livre e espontânea vontade, dizer:
- “Gosto muito de caminhar, ficar só comigo mesmo por alguns dias no meio do mato. A gente, quando está envelhecendo, precisa disso.”
E o velho motorista de táxi, agilmente:
- “Envelhecendo não: já somos velhos.”

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

EREMITAS

Não sofro pela solidão; já é bastante esforço alguém tolerar a si mesmo e as suas próprias manias.” Jorge Luís Borges, “in” O livro de areia.

Não sei se com vocês, mas, em mim, a figura do eremita sempre exerceu um fascínio inexplicável. Ainda criança, via do curral de casa, ao longe, o Morro do Baguaçu que tinha ao seu pé, uma arredondada mancha amarelo avermelhada contrastando com o verde da vegetação ao seu redor e o negro de suas rochas; era a, para mim, inatingível, caverna do bugre Brechó: “é lá que mora o Brechó, negro de uma só perna, feroz e hábil na luta e na briga tamanha a facilidade que tem em manusear sua muleta”, dizia Antônio, um de meus irmãos. “Pode ir lá?”, perguntava e a resposta era sempre um “só vai quem gosta de morrer”. Aquilo me intrigava; o amarelo avermelhado da gruta e a sempre presente interrogação de como seria a vida do Brechó em sua caverna ao pé do morro. O que e como ele comia? Onde dormia? Será que, à noite, não tinha medo de onça? E também pensava no que o Brechó fazia para passar o tempo lá, tão só.
Mas foi então, com meus sessenta e tantos anos, já até meio esquecido do Brechó e do Morro do Baguaçu, que fui me embrenhar para conhecer um parque estadual do sul do país: seus cânions, cachoeiras, rio caudaloso, longas caminhadas foi o que me tirou do sossego de casa para a uma viagem, até lá, de mais de oito horas de carro. A uns dez quilômetros para chegar à pequena cidade onde permaneceria - sob intensa chuva, mau sinal para o que eu planejava fazer - uma placa aponta para uma pequena estrada calçada de pedras: a sede do parque estava há quatro quilômetros, à direita. Tomo a estradinha pedregosa, estreita, da qual se via, logo “lá em baixo” a casa que, imaginei, deveria ser a sede do parque; vista do alto, a pequena casa branca, com o grande cânion ao fundo era de um encanto assustador.
A uns quinhentos metros da sede, encontro Carlos - depois vim saber, um guia - que, em trabalho voluntário, estava a consertar o mata-burros, vítima das fortes enxurradas causadas pelas chuvas da semana. De dentro do carro trocamos os tradicionais: “Oi, tudo bem?”, “Sim tudo bem, fora a chuva?”, “É ali, naquela casa, a sede?”, “Sim, é ali mesmo”, “Obrigado, tchau”, “Tchau”. Na sede obtenho as informações e os mapas dos passeios possíveis de serem realizados sem guia, e daqueles que, necessariamente, teria que ter o apoio de um guia credenciado; quando me despeço para ir para a pousada, sou tímida e educadamente solicitado pelo guarda-parque a oferecer uma carona para Carlos.
Abrindo parênteses. Tenho, acentuada com a idade, com certeza, uma boa dose de birra dos guias com, via de regra, seus discursos “científicos”; não tenho mais, talvez nunca tenha tido, o mínimo interesse em saber se a tão amiga e esbelta “embaúva” chama-se “cecropia pachystachya” e que é, a pobre coitada, uma planta dióica; o que quero é ver a embaúva, relembrar o tanto de bicho preguiça que vi alimentando-se de suas bananinhas, rememorar a serra da minha infância coalhada de suas folhas prateadas... Enfim, o que quero em minhas andanças é sossego e não saber; o que quero é vislumbrar-me, me emocionar com o vazio, com o silêncio das palavras a salientar o canto dos pássaros ou o assoprar dos ventos. Fecham-se os parênteses.
Carlos, o guia, é um homem alto, com mais de um metro e oitenta, magro, pernas longas, jovem em seus trinta e poucos anos, rosto claro marcado pelo sol, cabelos fartos, tímido, educado, fala mansa. Enquanto conversamos Carlos me orienta a chegar até a pousada e, com um certo desânimo em relação ao tempo, se propõe a, caso o mesmo melhore, realizar comigo, no dia seguinte, uma caminhada que daria uma visão geral do parque, do cânion, e, de sobra, duas ou três cachoeiras: oito horas de duração entre caminhada, descanso, lanche e banhos de cachoeira. Isso, claro, se o tempo mudasse, e ao se despedir:
- “O pessoal da pousada tem meu telefone. Se o tempo estiver bom, é só pedir que eles me ligam. Daqui da pousada em casa são dois ou três minutinhos. Obrigado pela carona e boa noite.”
- “Boa noite, Carlos. Se o tempo estiver bom, te ligo.”
Inacreditável, parece mesmo mentira, mas o dia amanheceu sem nenhuma nuvem, com o céu azul à mostra e o sol brilhando forte, aquecendo as árvores molhadas e úmidas.
À caminhada, pois!
Ao fim da tarde, depois da subida, por trilha, do poço da última cachoeira do dia, com mais de duzentos metros de altura, exaustos - eu, pelo menos - Carlos propõe:
- “Vi que anda bem. Assim, se quiser, amanhã a gente pode descer o cânion, contornar o rio, visitar a cabana de um eremita que vive isolado no parque; lanchar junto à cabana do eremita, retornar e lá por volta das quatro da tarde, tomar um café reforçado na casa de uns colonos amigos. Andando bem, lá pelas seis da tarde estaremos de volta na pousada. Caminha-se uns trinta e pouco quilômetros, ida e volta, e o eremita que vamos visitar, se o senhor quiser ir, é o meu pai.”
As palavras “visitar um eremita” boliram fundo com a minha curiosidade.
Impossível não ir. Acertamos quanto ao lanche a ser levado, horário de saída - “temos que sair bem cedo” - e fui deitar pensando na figura do eremita: cabelos longos, barbas grisalhas, peito desnudo, calcanhares calejados nos pés descalços?
Saímos às seis horas: mochila com lanche, água, um potente binóculos – que se tornou a paixão do Carlos – e uma disposição enorme alimentada pela beleza do cânion, pelas rochas esculpidas em suas encostas, pelo rio tão lá em baixo com suas águas correndo forte entre pedras formando pequenas quedas e pela ansiedade de encontrar o eremita. Durante a caminhada não tocamos no assunto do eremita, pai de Carlos.
Já havíamos alcançado os fundos do cânion e caminhado há mais de uma hora margeando e ouvindo bem de perto o barulho das águas do rio quando, assim que atravessamos um pequeno córrego pedregoso, com águas límpidas e claras, com muitos lambaris à vista, Carlos aponta:
- “É ali, a cabana do eremita, meu pai.”
Na pequena clareira uma pequena cabana, com as paredes de bambus amarrados e justapostos muito próximos uns aos outros, vedando a entrada da água das chuvas e a cobertura feita com folhas de uma palmeira típica da região, também caprichosamente executada; as paredes de bambus tão justapostos e a cobertura com as folhas da palmeira conferiam, à pequena cabana, ares de um “bunker” com um pé direito de mais ou menos dois metros de altura e com uma área de, no máximo, oito metros quadrados, contemplando a cozinha e a sala e quarto. Vista por dentro, lembrou-me uma pequena “kitchenete” que morei quando estudante: aqui, em um dos cantos da cabana, uma pequena cozinha com panelas e frigideira limpas e areadas pousadas no fogão de taipa, sobre uma pequena bancada de bambu dois pratos de ágata, garfos e um facão enorme, com cabo de osso; na sala, contígua à cozinha, a cama sob a pequena janela, também feita com bambus, protegida por um colchão usado e gasto. Em toda a cabana um cheiro de limpeza, asseio e ordem.
- “Benção, pai.”
- “Deusabençoe, filho!”
O eremita estava barbeado, tinha os cabelos aparados e curtos, aparentava ter a minha idade, peito à mostra no corpo musculoso, magro, dentes brancos e um olhar intenso e curioso.
- “Pai, este senhor é de São Paulo e veio aqui conhecer o vale e o rio”, apresentou-me Oscar.
- “Prazer, meu nome é Tiago.”
Era hora do lanche. Tiro da mochila três bananas, ofereço ao eremita Tiago, que sem cerimônia, aceita duas, comendo-as rapidamente. Fala com elegância, voz clara de tenor, acentuando o sotaque típico da região. Reclama do cachorro, que pelo visto, era o xodó de Carlos:
- “Caga de medo de onça, o peste. Esta noite mesmo, por causa da lua, ela veio por aqui e o Tarzan, ao invés de atacar fugiu, ganindo morro acima. Que adianta cachorro que tem medo de onça? Só para gastar com comida?”
Carlos diz que vai ao rio desocupar. Ficamos o eremita e eu , sentados em um banco sob a árvore; comemos mais bananas e umas cenouras quando ele disse que aquilo seria seu almoço.
- “E o seu?”, perguntou.
- “O meu também: hoje nosso almoço é de bananas e cenouras”, respondo.
- “Ontem jantei mandioca e lambaris fritos. Comi bem demais. Quer ver a roça de mandioca?”
Fomos.
Sua tapera, que é como ele chama sua cabana, ficava a uns trinta metros da base de uma grande montanha rochosa e a uns cinqüenta do rio. “Os guardas do Ibama estiveram aqui e implicaram com a minha roça. Me disseram que deste jeito, com o desmatamento, as pedras da montanha podem se desmoronar e rolar em cima da minha tapera. Mas, olhe doutor, eu não acredito: se Deus colocou ali aquelas pedras desde os eternamente, porque agora iriam querer sair de lá, para justamente, vir derrubar minha tapera? Besteira.”
Não consegui, na hora, formar minha opinião: estariam corretos os ficais do Ibama? Será que o desmatamento provocado pela roça de mandiocas do eremita Tiago - que se limitava a uns trinta pés da planta, em um quadrado de vinte metros por vinte - poderia, mesmo, em longo prazo fazer rolar as imensas rochas que ficavam ao pé o morro? Sei não!
Nem bem Oscar, após ter cumprido suas necessidades à beira do rio, se aproxima, seu pai muda de assunto:
- “Oscar, comprei plástico grosso para cobrir a tapera; semana que vem vou buscar.”
Ficou evidente a decepção do filho, orgulhoso da engenhosidade do pai em cobrir tão perfeitamente sua tapera com as folhas de palmeira:
- “Mas pai, está tão bem coberta, não chove dentro. Para que por plástico, pai? Vai esquentar muito nos dias de sol quente.”
- “Até pagar, já paguei. Semana que vem, vou à cidade pegar a aposentadoria, ver sua mãe e trago ...tenho também que trazer mais querosene, arroz e óleo. Você não quer me ajudar a trazer? Te pago o dia.”
- “Ajudo pai, não precisa pagar o meu dia, mas não precisa do plástico.”
- “Quero, sim”, aparentando, pelo tom de voz, que o assunto do plástico estava encerrado.
O jeito foi Oscar muda de assunto:
- “Vamos embora? O pessoal está esperando a gente, às quatro, para o café. Pai, sabe que vamos tomar café na casa da tia Geraldina? Ela vai fazer biscoito de polvilho frito na graxa, bolo de mandioca e café margoso para o senhor aqui, que não pode com açúcar, por doença. Sua bênção Pai.”
- “Deusabençoe, filho. Pra semana a gente se vê.”
- “Até um outro dia, seu Tiago”, me despedi.
Deu-me a mão e respondeu timidamente:
- “Inté. Volte mais vezes, quantas quiser; gostei de conversar com o senhor.”
Nem bem coloquei a mochila nas costas para o retorno, Seu Tiago já descia em direção ao rio, dirigindo pesados palavrões ao “cagão” do cachorro Tarzan, que indiferente, abanava seu rabo a todo vapor, derramando-se em carinho pelo dono.
O retorno deveria ser realizado, para alcançar o sítio onde teríamos o festejado café na casa dos colonos, por um outro caminho, que nos deixaria a oeste da sede do parque, onde estava o carro. Por este caminho, segundo Carlos, bem mais difícil e cansativo que o da vinda, passaríamos pela caverna de calcário, ao pé do morro, que até “hoje em dia ainda é morada das onças, mas foi, de antes, morada dos bugres, que até enfeitaram suas paredes com desenhos rupestres; estes desenhos não podem ser tocados, mas, mesmo assim, se quer ir ver, podemos. Não atrasa muito a caminhada, coisa de uma meia hora, e estamos adiantados. Quer?”
Impossível não querer.
Enorme a caverna de calcário! Uma boca de mais de quatro metros de largura por uns sete de altura. Até uns cinco metros entrava-se com a luz a clarear; após isso, seu fundo era de um escuro absoluto, breu, tudo imensamente negro e com um silêncio capaz de fazer ouvir as batidas do coração e sentir, tamanha a solidão naquele negrume, o pulsar do sangue nas veias.
E foi então, aos sessenta e tantos anos, que visitei Brechó em sua caverna, ao pé do morro do Baguaçu, e o ajudei a desenhar, ao fim do dia, nas paredes da caverna, figuras que relatavam as aventuras de nossas caçadas, de nossos amores, de nossos sonhos e de nossos medos; repousei em sua cama ao chão, ajudei a fazer fogo, junto ao monte de pedras que era o fogão, para assarmos a paca que havíamos caçado e o enorme pintado que, no rio pedregoso, havíamos pescado; comemos, com as mãos, sentados no chão, a carne de paca e o peixe assado e ao despedir-me, coloquei sua muleta à entrada da caverna, para defendê-lo das onças e de outros bugres inimigos...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina


O verão já chegara.
O ipê amarelo perdera as flores e estava, agora, carregado com suas folhas verdes pardas, ásperas, mas que funcionavam com um bom guarda-chuva, protegendo, do sol quente do meio dia, o banco do jardim, no qual me sentava após o almoço, para ler e fumar. De verdade, penso que ler e fumar talvez fosse a desculpa, sem motivo, inventada por mim, para o encontro e as palestras com Orozimbo, que chega faminto por fortes tragadas.
Fumamos e, já pensando na troca que faria, leio para ele:
“Meio século não se passa em vão. Sob nossa conversa de pessoas de leituras misturadas e gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos diferentes demais e parecidos demais. Não podíamos nos enganar, o que torna difícil o diálogo. Cada um de nós era o arremedo caricatural do outro...porque o inevitável destino dele era ser o que sou.”
Orozimbo toma de minhas mãos O Livro da Areia, do Borges e me entrega sua brochura; percebi que desenhara, com sua caneta de pena, um par de óculos sobre os olhos do Duque de Caxias, que assim, de óculos, ficou mais sério, o Patrono do Exército Brasileiro.

DURVALINA: ACABOU-SE A HISTÓRIA, MORREU A VITÓRIA.

Mas, Deus do céu, onde foi parar o tatu galinha?
Sumiu, o desgraçado? Será que esqueceu seu compromisso de buscar-me para meu retorno de volta à luz? Ando já cansado do escuro e da umidade das profundezas do cemitério e querendo, muito, ver de novo o sol. Resolvo que a melhor maneira de esperá-lo é conversar com a Mariquinha Precata. Vou até seu canto!
Como sempre está lá a Mariquinha, toda encolhida, costas curvadas, magérrima, e me faz pensar: “não sei como deu certo em sua profissão: feia demais para ser puta”.
- Me conte, Mariquinha a história de sua irmã Durvalina?
- Conto sim, Orozimbo. Mas para não encompridar ainda mais esta história, vou contar para você partindo do fim, e assim, vejo se, hoje, termino. Pois aconteceu que Durvalina, sabendo dos meus finalmente de vida, veio me visitar, palestrar comigo, fazer a última visita. Você sabia, Orozimbo, que foi ela que ficou comigo na hora da minha morte, segurando em minhas mãos, rezando terço baixinho, pedindo a Deus e a Santa Luzia pela minha alma? Boa demais minha irmã Durvalina. Então foi assim que ela me contou:
- “Pois então, Mariquinha, moramos lá na Santa Generosa, eu e Oscar, por trinta e tantos anos. Já no segundo ano de morada por lá o Patrão nomeou Oscar, como vaqueiro: isso dava a ele toda a responsabilidade pela fazenda, desde tarefas mais simples como cuidar do trabalho e do pagamento dos colonos e dos peões até trabalhos mais difíceis e honrosos como contar e vender, todo ano, lá pelo mês de setembro, a boiada, receber o dinheiro pelas vendas e zelar por ele até hora de entregar ao patrão. De bom, além dos pagamentos, a cada quatro bezerros que nascia um era dele. No início, quando tínhamos a certeza de muitos filhos e filhas, oferecíamos aqueles bezerros aos futuros: este vai ser do Luís, aquele outro da Luzinete, o tourinho bravo, cujo nome é Cigano, será do Justino...Filhos não tivemos: nada, providência nenhuma – e foram muitas as tentativas - conseguiu apagar a praga de secar meu bucho, jogada, em mim, pela patroa. “ Que fazer: Deus quis assim “, dizia Oscar;” desgraçada, filha d´uma égua “, pensava eu. Mas enricamos, Mariquinha: muitos bezerros e bezerras, porcos, galinhas, arroz, milho, mandioca...tudo com fartura a ponto de sobrar para vender. E foi daí, não sei se você ainda se lembra, Mariquinha, mas sabe aquela fazenda quase em frente a do Patrão, chamada de Boa Vista? Então: o governo desapropriou, dividiu em alqueires e distribuiu entre os moradores da região que não tinham terra. Seu Alfredo, pai de Oscar, e dona Ana, sua mãe, ganharam dois alqueires e para lá se mudaram. Com o dinheiro da venda de bezerros e porcos, Oscar mandou construir uma casinha, cercar as divisas, fazer curral e comprou duas bezerras para iniciar a criação. Seus pais também plantavam mandioca, milho e feijão de vara. A única dificuldade era a água: em grandes secas tinha que ser buscada na fazenda do Patrão, em troca de dias de serviços. E foi daí, Mariquinha, que Oscar, com seus cinqüenta e poucos anos foi ficando fraco e mais fraco. Não mais aguentava montar cavalo, respirava mal com o peito doente, de qualquer coisa se cansava e nada mais podia. O médico disse: “foi picada de barbeiro, o coração cresce demais e morre cedo.” Morreu, o meu Oscar, de tanto que inchou seu bom coração. Levei seu corpo para ser enterrado no cemitério do lugar onde nascera. E passei a ficar morando por lá, cuidando dos seus pais; te confesso, Mariquinha, que fiquei muito desiludida, sem o marido, sem os filhos que não tivemos; de bom, mesmo, só as lembranças de nossa vida de marido e mulher, das tardes na Santa Generosa, dos nomes que imaginávamos para nossos filhos, dos sonhos que sonhamos.
- “Mas me conte, Durvalina, como foi que você voltou a trabalhar para o Patrão Anselmo”, pedi.
E Durvalina continuou sua história. Pois foi assim, me disse: Acontece que, mesmo antes de sua mulher morrer, ele me contratou para lavar suas roupas, cuidar da limpeza da casa e cozinhar. Era o pagamento pela água que a gente precisava e que em casa não tínhamos. Então fui. O Patrão Anselmo era agora um homem fraco, doente, cara amarela, barba sempre por fazer: quieto, moribundo. Apenas quando nuvens apareciam no céu, chamando chuva, ele assoviava, um pouco desafinado a Saudades do Matão, mostrando um pouco de alegria.
Nos demais, parecia tão triste como eu.
Pai de Oscar morreu e ficamos na chácara, sua mãe e eu, para de tudo cuidar: das vacas, da plantação de mandioca, do feijão e do chiqueiro com os porcos. Intentei e consegui, com o Patrão, trabalhar até o meio-dia em sua casa com o direito de voltar à tarde para cuidar das nossas coisas. “Se não der conta de tudo o que tem que fazer, também dou só a metade da água que vocês precisam, combinado, Durvalina?” foi sua mal humorada resposta. Então era essa a luta: eu querendo tudo fazer logo cedo até o sol do meio dia queimar minhas costas para poder voltar e cuidar das nossas vacas, porcos, galinhas, mandiocas e feijões, e ele, Anselmo, querendo tudo retardar, reclamando da comida, sujando mais roupa, exigindo que além da dele eu lavasse também a roupa do vaqueiro já que “minha mulher morreu e não tem mais que lavar a roupa dela”. Eu seguia fazendo de tudo para dar conta: aquilo era minha diversão, minha vida: jogar na cara amarelada e barbuda do patrão doente que eu estava ali, forte, sacudida, com doença apenas na alma triste de tanta falta do Oscar. Uma tarde, lavando a louça do almoço, ouvi no rádio que o Patrão havia ligado: “o governo decidiu arrendar a lagoa da fazenda do Patrão para oferecer água a quem não tinha”.
- “Filhos da Puta! Sabem, os desgraçados do governo, que não quero arrendar merda nenhuma”, berrou o patrão, desta vez saindo da rede com a antiga rapidez de homem são.
Terminei de lavar a louça e me despedi.
- “Até amanhã, seu Anselmo.”
- “Inté”, respondeu nem bem se dignando a olhar para os meus lados. E continuou a falar sozinho: “Desgraçados, querem tirar minha água para oferecer aos merdas dos seus eleitores; que se fodam: bondades com minha água é que não vão fazer.”
Fui para casa e sob o sol escaldante, sem uma nuvem no céu, me peguei assoviando a Saudades do Matão. Manhã seguinte, também: alguma coisa me fazia assoviar Saudades do Matão enquanto lavava as louças que sobraram da janta, enquanto pendurava a roupa lavada no varal, enquanto ajeitava, sob a sombra da aroeira, a rede do Seu Anselmo, toda manchada e fedida de suor, para ver se aliviava um pouco aquela catinga por demais de ruim. No rádio, dia seguinte e seguintes, a notícia era a mesma: decisão tomada pelo governo era a de desapropirar a Lagoa, tirar sua cerca em volta e dar água a quem quisesse: era para se cumprir a lei. “Filhos da puta, desgraçados!”, xingou, pulou da rede e desligou o rádio. Espreguiçou forte, enfiou o chapéu de couro na cabeça, pegou a espingarda e dirigiu-se para a Lagoa, com a intenção de defender suas águas.
Terminei o serviço, arrumei as louças na prateleira, peguei minha trouxinha e me pus a caminho de casa. Era outro dia em que, sem nenhuma santa nuvem no céu anunciando chuvas, eu, independente de minha vontade, meu pus a assoviar a Saudades do Matão. O jeito foi a polícia chamar, na capital, Lindomar e Sebastiãozinho, seus filhos; Seu
Anselmo pai endoidara, não mais comia, teimando em ficar dia e noite encostado na aroeira, espingarda às mãos, para, dizia mal humorado entre os dentes, “defender o que era seu pela justiça de Deus e dos homens”.
Os filhos o levaram, vestido com camisa de força, para um hospício na capital; decidiram, também, que eu seria paga para tomar conta da casa onde, quando criaças, sobre minhas costas, brincaram de cavalinho. A polícia retirou os arames que cercavam a lagoa, agora de todos. Foi também a polícia quem avisou do telefonema do Seu Tonico, me avisando de seu estado de saúde. Então resolvi vir: vendi um porco, duas galinhas, arranjei, com isso, o dinheiro das passagens, peguei o ônibus e estou aqui, ao seu lado, Mariquinha, rezando por você que logo, logo estará junto do meu Oscar.