sexta-feira, 3 de junho de 2011

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -1–OS JOVENS E A PUETA DEL SOL

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Dedicado ao Antônio, à Catarina e ao Francisco: netinhos queridos.

Foram por volta de 760 quilômetros percorridos em mais de trinta dias de andanças pela região norte da Espanha e um tiquinho de nada da França; a andança pela França, na verdade, foi mais para botar banca e dizer que se Aníbal e seus elefantes venceram os Alpes eu, com o peso da mochila, subi, desci e “atravessei” os Pirineus.
O resultado, então, são histórias para contar, memórias a resgatar, cheiros e paladares que teimam reviver, amizades feitas que são mentalmente revisitadas, ventos, montanhas, albergues, casas de pedra...
Por onde começar?
Pelo início diria meu tio Olímpio, quando eu, ansioso, iniciava uma história pelo meio, ou pelo fim, tornando-a incompreensível: “comece pelo começo: é sempre assim que se conta, sem nenhuma pressa, uma história”.
Desta feita não vou acatar: iniciarei pelo fim. Começarei esta história por Santiago de Compostela, final da caminhada, e não por St. Jean Pierre de Port, onde iniciei esta aventura.
Cheguei, cansado, claro, a Santiago de Compostela onde fiquei, por dois dias, alojado no elegante Albergue do Seminário Menor. E foi em um passeio na Plaza Mayor que vi, encantado, jovens com seus celulares acampados em pequenas barracas Kechua, montadas sob o sol ardente no meio de tão ampla e interminável praça.
Antes de continuar um pequeno parêntese. Não li jornal e não acessei a internet durante o percurso do Caminho e as ligações telefônicas que fiz para o Brasil foram feitas para matar a saudade da família. Fiquei, então, mais desinformado do que costumo ser e o mundo, indiferente à minha ignorância, continuou girando. Fecham-se os parênteses.
A curiosidade a respeito dos jovens acampados em plena Praça Maior durou pouco: “são jovens estudantes que protestam contra os políticos e contra os bancos. Combinaram tudo pela internet”, interrompeu-me o Sr. Oto, um velho alemão, mochila ainda às costas, com o qual havia me encontrado algumas vezes durante o caminho. O convite para um café e a garantia de uma boa prosa calou mais forte que a curiosidade em relação a tão inusitado acampamento.
A viagem de Santiago de Compostela para Madri foi em um trem noturno. Saí de Santiago às 22h30min horas e cheguei a Madri às 08h05min da manhã seguinte.
E é aqui, na estação ferroviária, que de verdade começa esta história. Depois de um café me dirigi ao Serviço de Atendimento ao Cliente da Rede Ferroviária onde fui atendido por um funcionário mal humorado:
- “Estou chegando de Santiago de Compostela e gostaria de saber se há, nesta estação, um serviço de orientação ao turista; preciso de ajuda para escolha de acomodação.”, educadamente falei.
- “Não há”, respondeu sem retirar o olho da tela do computador em sua frente.
- “E o senhor poderia me dizer onde encontro este serviço?”
- “Não.”
Indignado com tamanha indelicadeza, estava ainda a imaginar como faria para obter a informação que necessitava quando fui abordado por um jovem rapaz:
- “O Serviço de Orientação ao Turista está na estação Puerta Del Sol. Lá o senhor encontra as informações a respeito de albergues, pensões e hotéis”, disse o rapaz ao mesmo tempo em que solicitava a sua companheira um mapa do metrô para me orientar. A mesma não tinha o mapa e eu agradeci ao rapaz informando que conhecia mais ou menos o metrô e que não se preocupasse. “Estação Puerta Del Sol, não se esqueça”, e correu para alcançar a namorada apressada.
No metrô ajeitei-me, com a mochila às costas e o mapa sobre as pernas para estudar as conexões que teria que fazer. Na estação seguinte à qual eu havia tomado o metrô senta ao meu lado um jovem e começamos a nos falar.
“Puerta Del Sol? Na estação Novos Ministérios o senhor desce e pega a linha dois, vermelha. Se não me engano é a quarta estação em direção a Las Rosas. Cuidado com esta máquina fotográfica: a Puerta Del sol está lotada de gente por causa do movimento dos estudantes.”, disse solícito o jovem rapaz.
- “Em Santiago de Compostela estavam acampados, protestando na Praça Maior. Fiquei sabendo que o movimento foi combinado pela internet. É isso mesmo?”, perguntei.
- “Sim, é isso mesmo. Mas aqui, em Madri, o movimento está muito forte.”
- “E os estudantes protestam contra o que?”, perguntei.
- “Somos contra os políticos corruptos e contra os bancos que nos roubam. Cuidado com esta máquina, a praça está cheia. Adeus!”, falou enquanto descia em uma estação para tomar outro rumo.
Eram um pouco mais de nove horas da manhã quando desci na Puerta Del Sol.
Impossível de se ver o calçamento da praça: todos os seus mínimos centímetros estavam ocupados por barracas, cartazes e jovens: uma imensidão de jovens que falavam, cantavam, dormiam, tocavam violão, namoravam.
Na verdade o Serviço de Orientação ao Turista fica na Praça Maior e fui orientado em como lá chegar. Fui atendido por uma bonita e sorridente funcionária. A bela moça ao ver um velho com cara de cansado, mochila às costas, resolveu por sua conta e risco que meu lugar seria um albergue. Forneceu-me a lista dos albergues – poucos – da cidade e orientou-me para que eu telefonasse para verificar onde encontraria vaga: “Telefone público o senhor encontra na Porta do Sol”, disse a sorridente e tão bela funcionária.
De novo na Porta do Sol e eu, com dificuldade para manipular o telefone público tão cheio de possibilidades: carregar cartão, enviar MSN, fazer uma chamada; e eu bem que tentei e tentei, queria apenas fazer e tão somente fazer uma chamada para um albergue. Novamente sou socorrido por um jovem: este agora de longos cabelos enrolados, daqueles que lembram os jovens baianos.
Sorte minha: havia vaga em um albergue, o primeiro da lista que havia escolhido, dado sua proximidade com o Metrô. Mas antes de tomar o Metrô para ir ao albergue passeio, maravilhado, pela Porta do Sol: tanta juventude, tantas barracas, o sol forte no céu azul encheram-me de forças, sumiram com meu cansaço fazendo com que eu me sentisse como que embriagado por intensa felicidade.
Voltei à Porta do Sol à tarde.
A praça fervia. Em uma barracas ofereciam água aos passantes, em outra - a Barraca das Artes – os participantes tinham pincel, papel e cartolina para fazer cartazes, em outra “bocadilhos” de queijo eram oferecidos, em outra – extrema luxúria – duas belíssimas estudantes faziam e ofereciam chá de ervas, pode? ; bem no meio da praça corria solta uma barulhenta assembléia: “Palavra de ordem” pensei saudoso das assembléias que havia participado quando jovem.
E como os jovens gostam de falar. Orgulhoso do movimento o estudante de arquitetura comenta sua repercussão: “em toda a Europa o movimento é notícia na TV e mesmo nos grandes jornais, tanto é assim que em Londres e em Paris já há acampamentos com o nosso.”. Realmente era grande o número de repórteres e de câmeras de TV pela praça. E o que é que vocês reivindicam? “Somos contra a corrupção, contra as eleições que ocorrerão amanhã na Espanha e contra os Bancos que nos esfoliam a todos.”, informou-me o estudante de enquanto terminava de fazer mais um cartaz, no qual ao lado de uma caricatura, chamava os políticos de filho de uma certa coisa.
Na tarde seguinte voltei à praça. Já mais descansado, me permiti enfiar-me na fila dos voluntários do dia e, face a possível dificuldade que teria em relação ao idioma, me escalaram para cortar pão para fazer sanduíches. Fui, então, conduzido até a barraca dos lanches onde havia uns cinco jovens voluntários e fui recebido, carinhosamente, com um avô. Cortei pão, separei queijo e conversei a tarde toda.
Na praça não se podia beber álcool, os namoros deveriam se limitar ao que se faz em público, todas as drogas proibidas, apenas o cigarro permitido. Às margens dos quiosques que existiam na praça foram marcadas com uma fita impedindo que se acampasse para não prejudicar o acesso do público aos seus serviços. Não sei de onde aparecia tanto pão, tanta água, tanto papel; os jovens, e a sua internet, conseguiram até banheiros químicos que foram colocados na praça.
O resumo do resumo: a Praça do Sol era uma verdadeira aula de cidadania e humanidade: alegre, respeitosa, colorida, barulhenta e silenciosa. E o sol, astro maior, sob um céu azul, iluminava até as nove horas da noite aquela imensidão de ternura, de afeto e de cidadania. Inesquecível.
No domingo as eleições ocorreram e o partido governista – o socialista PSOE – foi duramente derrotado pelo PP.
Na segunda voltei à praça a procura dos meus “netos” amigos e não os encontrei na barraca de sanduíches. Sofia, a minha amiga do dia anterior me viu e gritou: “Ei! Avô “padeiro” – é que eu, que no dia anterior havia ensinado aos “colegas” da barraca de como se fala e escreve padaria e padeiro em português, ganhei, em troca, o apelido de “avô padeiro”, não abuelo, vejam bem - estou hoje na barraca de comunicação, não quer ir lá para conversar um pouco?”, perguntou-me.

Claro que fui.
- “E o resultado das eleições, te chatearam?”, perguntei.

- “Não. Para nós, estudantes, quem quer que ganhasse seria a mesma coisa. São dois partidos que se revezam ambos com políticos corruptos, atrelados com os bancos, sem nenhuma ética e compromisso verdadeiro com as pessoas e com a coisa pública.”, respondeu serena e, a meu ver, com sinceridade a meiga Sofia.
- “E porque hoje você não está mais em nossa padaria?”, perguntei.
- “Todos nós, diariamente nos revezamos, mudamos de setor. Assim, ninguém fica perto ou seduzido por possíveis poderes. O poder corrói, pensamos, e tem que ser democraticamente distribuído. Acreditamos e praticamos isso. Concorda avô padeiro?”
Fiquei comovido. Não há como não concordar.
Na terça feira, no avião, de volta para casa me é oferecido um jornal; pego o El Mundo: fazia uns quarenta dias que não lia jornal. No El Mundo toda a Espanha se restringia às eleições que haviam acontecido no Domingo: eleições, eleições e eleições.
Folheio insistentemente e chego à página 18 onde um quarto de página era dedicado ao movimento dos estudantes. A foto de um jovem sonolento, abrindo a boca, encabeça a manchete: “El ocaso de Sol”. O texto, irônico, afirma que a “sede” da soberania nacional que havia se instalado na Puerta Del Sol estava em franco processo de desaceleração.
Triste e comovido recortei a página 18 do El Mundo com a foto do jovem sonolento.
Da janela do avião via que o sol, astro maior, brilhava sobre as nuvens que cobriam toda a Espanha.




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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: OUTRA HISTÓRIA

2009 Caminho da fé 009

Acordei com o clarão que, junto ao assustador estampido de trovão, invadiu a barraca. Tenho medo de raios e trovão. Para fugir do medo forcei a mente a pensar na conversa que havia tido com o Beato Gastão: havia sido um sonho? Será que ocorreu mesmo? Se foi sonho até que foi bom, não foi ruim. O último sonho ruim que tive foi um sonho no qual sonhei que havia sonhado. Explicando melhor: sonhei que uma pessoa muito amada havia morrido, deixando minha alma angustiada, em frangalhos. Ainda no sonho acordei, aliviado, na cantina do escritório onde trabalhava e comentei com o pessoal: “puxa vida, tive um sonho horrível esta noite: sonhei que meu pai morreu? Que coisa mais triste!” O pessoal do escritório estava em roda tomando café, fumando cigarros, fazendo hora para iniciar o trabalho. Um deles, famoso por não ter papas na língua me disse: “Você não sonhou não, ele morreu mesmo.”, e minha alma retornou ao estado de agonia. Aí acordei de verdade e acordar depois de um sonho ruim é a felicidade tão buscada e da qual muitas vezes temos dúvida se existe ou não, se é sonho ou se é o impossível.

Senti que a chuva ia se amainando e a Bivac havia dado conta do recado: continuava seca, sequinha, por dentro, a brava barraca.

Voltei a dormir.

Acordei outra vez com a voz de tenor do Beato Gastão:

- “T’acordado peregrino? Assustado, como eu, com o trovão? Cruz credo, São Jerônimo, Santa Bárbara a Virgem, Deus me livre e guarde!”.

Acompanhei o Beato Gastão em seu pedido a Santa Bárbara e fiz o sinal da cruz três vezes.

- “Sim, acordado, Beato Gastão. Quer conversar?”.

- “Vamos, sim. Gostei muito de palestrar com você. Posso entrar”?

- “Claro. Há espaço bastante na barraca, a casa é sua.”, respondi e ao mesmo tempo abri bem os olhos, conectei meus ouvidos e parei de respirar para perceber a mínima mudança que viesse a ocorrer dentro da pequena Bivac. Os pingos da chuva se tornaram tão diminutos que quase não dava para ouvi-los e os raios e os trovões, felizmente, tinham ido embora de vez. Sem a luminosidade intermitente dos raios a escuridão era plena: a barraca era um breu puro.

Continuei com todo o corpo atento até ouvir:

- “Quer mesmo escutar? Sabe que em meu estado acabei de vez com a pressa de contar as coisas passadas. Esqueço da vida quando falo, canto e rezo.”

- “Não tenha pressa Beato. Gosto de ouvir. Me conte de você e também quero que, quando tiver vontade, cante.”, respondi, o que era bem verdade.

- “Pois então: o Beato que me ordenou e me deu esta túnica marrom, este cinto de corda e este santo crucifixo que carrego em meu peito, com quem trabalhei por anos e anos, me disse que era chegada a hora de nossa despedida. Tinha uma missão para mim: era para eu seguir caminho até uma pequena vila, depois das veredas do Jequitinhonha, pois lá careciam de meus serviços. E eu obediente, fui: foram dias e dias, caminhando, até chegar a Venda Nova.

E o que é que acontecia em Venda Nova? Quer saber? Pois então, já te conto.

É que lá em Venda Nova as pessoas se reuniram, construíram uma igrejinha e perto do pequeno amontoado de casas, em uma Curimatá, passaram a criar vacas e cabras, a plantar aipim, abóbora e melancia. Todo mundo ajudava todo mundo: mulheres, homens, velhos, e mesmo crianças se ajuntavam em mutirões para fazer fartura: se dinheiro não corria, fome também não havia; para todos tinha leite, queijo qualho, abóboras, milho, feijão, maxixe, cajus, melancias, quiabo.
E foi aquele ordeiro povo de Venda Nova que resolveu me chamar, que era para eu ajudá-los nas rezas, nas orações e na organização das procissões até a cruz, no alto do morro, para clamar por chuva. Foi para isso que me chamaram; eu fui, e este passou a ser meu ofício em Venda Nova.

Resolveram, também, naqueles mesmos tempos, chamar Dasdores para ensinar a ler e a escrever a todo cristão de Venda Nova, fosse pequeno ou grande. De verdade, mesmo, os pequenos eram obrigados a ir aprender, de manhã, na salinha perto da igreja. Já os grandes iam se queriam, à noite, na mesma sala. E foi aí que acabei de aprender a ler.

Dasdores era uma morena sacudida de forte: cabelos pichainhos sempre envoltos por lenços coloridos, dentes brancos e limpos de cáries, ombros largos, braços delicadamente fortes, seios rijos e fartos, pernas curtas e grossas. O sorriso permanente, a voz clara, doce e a delicadeza com que ouvia a todos fez de Dasdores a princesa de Venda Nova. Todos a respeitavam: suas palavras e conselhos eram ouvidos e, obedientemente, seguidos.

Em um final de tarde de domingo estávamos reunidos frente a igreja para orar e agradecer a Santa Bárbara as grossas chuvas que haviam caído banhando as plantações e averdejando os pastos. Puxei um terço e todos me acompanharam na reza e depois pediram para eu cantar.

Então eu abri a Missão Abreviada e cantei:

“Lança a foice afiada e vindima os cachos da vinha da terra, porque maduras estão suas uvas.O anjo lançou sua foice à terra e vindimou a vinha da terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue que atingiu até o nível dos freios dos cavalos pelo espaço de mil e seiscentos estádios.” Apocalipse, 14.

Depois do canto as pessoas foram cada qual procurando o caminho de casa. Dasdores me acompanhou até perto do quartinho onde eu morava, e ao se despedir e dar boa noite confabulou comigo em voz baixa:

- “O seu Deus está sempre tão bravo. O meu não: carinhoso, amoroso.”, e, confesso que aquelas suas palavras me deixaram atordoado, marcado. Fui deitar sentindo-me zonzo, parecia embriagado, a cabeça girava, os pensamentos não seguiam a ordem que eu queria, desobedeciam-me; a doce voz de Dasdores “o seu Deus está sempre tão bravo. O meu não: carinhoso, amoroso” repetia dentro de mim, e por mais que eu mudasse de assunto comigo mesmo, teimava em voltar, me deixando encabulado.

Dias depois, fiquei bastante em doente.

O defeito que tinha na coluna, de nascença, e me obrigava a andar igual a um orangotango se agravou e minhas costas e braços doíam sobremaneira. Juntou a isso uma gripe e forte febre causada pela garganta inflamada. Dasdores cuidou de mim. Matou umas sete daquelas vespas feiticeiras, que não têm asas, e fez chá para eu tomar. “Santo remédio para a garganta: beba e amanhã a garganta já estará boa para cantar de novo”, disse enquanto me passava a caneca com o, para mim, estranho chá.

De manhã apareceu em meu quartinho com uma travessa de comida coberta com um pano de prato todo bordado: pedaços de melancia, favos de jaca mole, queijo, leite de cabra, aipim e uma caneca de café margoso. Vinha tudo bem ajeitadinho no prato de louça que até parecia uma flor de tantas cores. “Coma. Está muito fraco Beato Gastão; onde já se viu: dá quase para se ver suas costelas debaixo da túnica. Tem que viver homem, Deus gosta de filhos fortes. Estou indo para a escola e volto com a merenda. Até mais Beato Gastão”.

Fiquei só com prato colorido de comidas em minha frente e foi aí que percebi, ou me dei conta, de que eu só comia para viver: havia, há tempos, perdido o paladar, o prazer de diferenciar um prato do outro, de apreciar o doce sabor de um umbu, de brincar de furar e chupar o pó seco e amarelo do jatobá, de colher no pé e, sob a sombra, deliciar-me vagarosamente com o bacu pari madurinho. Nem mesmo a gabiroba, antes tão querida, o veludo, a mangaba eram, agora, fontes de prazer. O que havia comigo?

Uma semana se passou com Dasdores cuidando de mim e eu sentia que me recuperava. Uma manhã, na hora do almoço, Dasdores me trouxe uma marmita com cortado de palma e carne de sol. Cuidou para que a carne marronzinha envolvesse o verde ferrugem do cortado de palma. “Pros olhos e pra a barriga Beato Gastão: sirva-se.”

E eu, gulosamente, saboreei, sob o olhar feliz de Dasdores, toda a marmita.

Nem bem terminei de comer, ainda me deliciava ainda com o sabor forte da carne de sol com o cortado de palma, Dasdores falou:

- “ Hoje sou eu que quero cantar, posso?”

- “Sim, Dasdores, nunca te ouvi cantar. Cante.”

Então Dasdores, pegou sua Bíblia, procurou, procurou e cantou:

- “ Ah! Beija-me com os beijos de tua boca!

Porque seus amores são mais deliciosos que o vinho,

e suave é a fragrância de teus perfumes;

o teu nome é como um perfume derramado: por isso, amam-te as jovens.” Cântico dos Cânticos, 2,3.

Fiquei mudo: tinha vergonha de ter ouvido o que ouvi, e imaginei mesmo que Dasdores estava inventando, e não lendo tudo aquilo: "sem-vergonhice pura, falta de respeito com um beato". Mas ao mesmo tempo não deixava de estar inebriado com a beleza de sua voz, com seu sorriso simples e afável, com seu perfume de mulher. Aflito perguntei, encarando-a nos olhos:

- “De onde você tirou estes versos, Dasdores? Que versos são estes? Em minha Missão não tem isso, estou certo. Sua Bíblia não é do Demônio? Me diga Dasdores.”

- “Não Beato. São versos do Cântico dos Cânticos e minha Bíblia é tão de Deus quanto a sua Missão Abreviada. Só que a minha é completa e contempla as falas de um Deus bondoso, amante de seus filhos, caridoso e respeitoso! Gosto mais deste Deus, mais humano, mais parecido com a gente aqui da terra!”, respondeu séria, Dasdores.

- “Não sei o que pensar, mas quero ficar só.”, e Dasdores, atendendo ao meu pedido, recolheu a marmita, ofereceu-me água e se foi.

Fiquei só, com minha timidez, em meu quartinho: a solidão é, para os tímidos, não só a libertação, mas a proteção e o conforto necessários e suficientes para lidar com a vida.

Hora do jantar volta Dasdores: trouxe um prato de mungunzá. E foi ela que puxou assunto:

- “Beato: se Deus não quisesse o amor entre os homens e as mulheres teria criado o mundo de um jeito em que a gente germinaria igual às plantas, com o vento ou os pássaros esparramando as sementes. O amor, irmão, é obra de Deus.”.

- “Estou confuso Dasdores. Tenho, e você sabe muito bem, procurado levar uma vida de orações e castidade, mas me sinto, por dentro, como uma ossada de vaca morta pela seca em plena caatinga. Já viu a secura de uma ossada meio a areia e ao sol quente? Pois se já viu, como afirma com seus olhos, é assim que me sinto por dentro. Seco! Esturricado”.

- “Olhe mais a vida, as plantas, os bichos e menos sua Missão Abreviada irmão. A vida é curta e, mesmo acreditando em uma vida futura, não podemos sacrificar a vida presente. É o que penso. E penso também que você deveria tomar amanhã cedo um banho: seu corpo fede, você tem carrapatos sugando seu sangue: além de sujos trazem doenças e te enfraquecem. Banhe-se no córrego: suas rezas trouxeram chuvas e o córrego está cheio de águas limpas e frias.”

Ficamos mudos depois desta fala.

- “Vou cantar irmão, e este canto será o meu Boa Noite e o meu durma com Deus:

“A passagem de uma sombra: eis a nossa vida,

e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim...

Vinde, portanto! Aproveitemos-nos das boas coisas que existem!

Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude!

Inebriemos-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!”Sabedoria, 2:5 e 2:6

Fiquei só!

Manhã seguinte, logo cedinho, antes mesmo do sol nascer, fui para o córrego me banhar. Levei comigo sabão de pedra e bucha.

Estava ainda escuro quanto tirei a túnica e, nu, entrei devagar no córrego. Os pés foram os primeiros a sentir o frio da água. Continuei córrego adentro até as águas tocarem o meu ventre. Afundei, então, todo o corpo n’água, prendi a respiração e fiquei ali, submerso, quieto, me deliciando com a água que envolvia meu corpo em maternal abraço.

Voltei para margem em busca do sabão e da bucha. O dia clareava. Passei sabão por todo o corpo: desde a cabeça até os pés uma espuma branca cobria o corpo e então passei vigorosamente a bucha retirando a espuma, verificando cada parte do corpo, examinando se tinha carrapato ou não, massageando-me com a bucha, retirando com os dedos e unhas os carrapatos redulegos que encontrava em meu corpo. Havia vários e o local de onde eu os retirava sangrava e coçava. E fui me lavando, lavando. Voltei ao meio do córrego, mergulhei todo o corpo n’água e as espumas sumiram correnteza abaixo. Voltei para a margem e, novamente, me ensaboei, me esfreguei com a bucha e retirei um ou outro carrapato que havia ficado.

Resolvi lavar a túnica antes de colocá-la em meu corpo, agora tão limpo. Lavada dependurei-a para secar no galho de um umbuzeiro. O dia agora estava claro com o sol saindo forte por detrás do morro da cruz.

E eu nu, banhado, iluminado pela claridade me examinava, me sentia, me tocava, me conhecia e minhas mãos ousaram tocar partes antes nunca tocadas. Tive a clareza de que todas aquelas partes eram minhas, do meu corpo e que deviam ser respeitadas, limpas, tocadas, amadas.

Voltei para a vila com a túnica molhada. Passei por um pé de maçaranduba recolhi duas frutinhas, descasquei-as com as unhas e perfumei-me com o seu o óleo no peito e na face.

Cheguei em meu quartinho e encontrei na porta a travessa coberta com o pano de prato bordado. Dentro havia favas de jaca mole, dois cajus, queijo qualho, uma caneca com leite de cabra e uma com café forte, margoso. Mais que fome senti vontade de deliciar-me com os sabores, com as cores, com o frio e com o quente daquelas comidas, tão delicadamente ordenadas na travessa.

Sentei-me para comer com a travessa sobre os joelhos e percebi a falta que fazia Dasdores. Queria ela ali perto, com sua voz, com seu sorriso, dividindo comigo as favas da jaca mole, tomando na mesma caneca o leite de cabra e o café margoso.

Chorei de tristeza e de felicidade.

Em um domingo tomei coragem e me ofereci para tomar café em sua casa e Dasdores, prontamente, aceitou. Fomos: sua casa era pequena, muito limpa, e me lembro bem de uma canequinha com flores sempre-vivas sobre a mesa, o fogão de lenha aceso, muita ordem em todos os cantos e um cheiro de limpeza. A mesa estava coberta com uma toalha de chita com flores vermelhas e azuis e na parede a imagem de Santa Izildinha. Dasdores ficou preparando o café e eu sentei-me em um banquinho frente à porta da rua. O leite de cabra estava na panela sobre a chapa do fogão e Dasdores encheu duas canequinhas, feitas com lata de massa de tomate, e colocou sobre a mesa. “Vamos tomando o leite enquanto faço o café. Gosto de café forte, você também?”, perguntou enquanto bebericou um pouco de leite de cabra, e deixando a canequinha sobre a mesa voltou para o fogão.

As duas canequinhas com leite de cabra estavam pousadas sobre a mesa, e eu não tive dúvidas: bebi na canequinha de Dasdores, e me senti como se estivesse roubando um beijo. Procurei colocar meus lábios exatamente no local onde ela havia tocado com seus lábios grossos e meu corpo estremeceu ao dar aquele primeiro beijo: rápido, roubado, intenso.

Dasdores voltou e colocou sobre a mesa com as duas canequinhas com café, cujo cheiro inundou a sala.

E eu me sentia fora de mim, exaltado, sentindo-me como nunca antes havia sentido, tomado de emoções nunca antes experimentadas e que me deixaram atordoado.

Indiferente, muito calma, Dasdores sentou-se, pegou a canequinha com leite de cabra, olhou desconfiada para mim e bebeu. Penso que cerrou os olhos ao tocar a canequinha, mas não sei, peregrino, te juro, se foi sonho meu ou se ela realmente cerrou os olhos e tocou em meus lábios na canequinha de leite de cabra. Não sei, até hoje não sei, e vivo esta eternidade em dúvida, mas sempre torcendo para que Dasdores tenha, naquele momento, cerrado seus lindos olhos negros.

Tomei rapidamente o café margoso e pedi licença para sair: “barriga cheia, pé na areia” disse, desculpando-me, mas não conseguia permanecer tão perto e tão longe de Dasdores. Meu coração parecia querer sair pela boca fora, meus pensamentos fugiam do controle, meus lábios tremiam e minha respiração acelerava descontroladamente.

Saí rápido e fui para o córrego. Abri a Missão Abreviada para ver o caminho a seguir, e me vi cantando e chorando à beira do córrego, sob a sombra do umbuzeiro:

- “Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” Apocalipse, Epílogo da segunda parte, 5.

Meu corpo nasceu para a dor e não para o amor, concluí.

Voltei para a vila e procurei por Dasdores. Encontrei-a na sala de aula.

- “Dasdores, quem pegou as sete vespas feiticeiras que você usou para fazer o chá para minha dor de garganta?”, perguntei.

Três ou quatro meninos responderam ao mesmo tempo:

- “Eu sei onde tem Beato. Quer? Quantas?”

- “Preciso de quatorze vespas, para hoje ainda.Quem pega para mim?”

- “Eu! Eu! Não eu! Não, eu é que pego!”

Dasdores colocou ordem:

- “Ta bom, Marsílio e Eurípides vão vocês pegar as vespas desta vez. Peguem umas quatorze, enfiem em uma latinha, fechem a boca da lata com pano e tragam para o Beato. Cuidado com cobras.”

À noite fui para a beira do córrego com a latinha e as vespas. Peguei a primeira com cuidado, coloquei-a perto do braço e apertei seu abdome: senti a primeira ferroada e imediatamente meu coração acelerou. Logo peguei outra, apertei da mesma forma e tomei a segunda picada: a palpitação do coração aumentou, e eu comecei a suar. Continuei forçando as picadas até chegar à décima terceira vespa. Meus olhos foram se fechando, mas eu continuava vendo canequinhas de lata de massa de tomate e os lábios de Dasdores e assim, com visões, desmaiei e não acordei do desmaio: morri.

Foi Dasdores que no dia seguinte descobriu meu corpo e ocupou-se das obrigações do caixão, das rezas e do enterro no cemitério perto da igrejinha; o padre mais perto de Venda Nova se recusou a dizer a missa de sétimo dia pelo motivo forçado de minha morte e por isso ando a vagar por até não sei quando, por esta eternidade.

Agora descanse peregrino. Você tem um longo dia pela frente. Boa caminhada!”

- “Obrigado, Beato Gastão. Foi bom te ouvir. Até uma outra vez.”

A manhã estava chegando. As nuvens se foram, o sol apareceu forte entre as serras da Mantiqueira.

Me pus a caminhar logo cedo. Tinha ainda uns seis ou sete dias de caminhada pela frente e em todos aqueles dias seguintes da caminhada me lembrava, vez ou outra, do Beato Gastão.

Sua Dasdores me levou a pensar no simbólico do imaginário coletivo e, principalmente, em uma mitologia iraniana, da qual soube pela primeira vez em um conto do Borges, e cujo nome, por mais que tentasse, não conseguia me lembrar. Outra coisa que me intrigava era o uso da formiga feiticeira: no norte do Estado de São Paulo a vespa assassina do Beato Gastão é, ou era, pelo menos, muito usada para feitiçarias terrenas, voluptuosas.

Chegando em casa, depois de abraços, café quente, muita prosa jogada fora não resisti, fui à busca, e encontrei, a palavra que não conseguia me lembrar: masdeísmo, da mitologia iraniana, encontrada no conto “O asno de três patas” em “O livro dos seres imaginários”, de Borges, como já disse.

Quanto à vespa feiticeira, negra, sem asas, e com suas belas faixas amarelas fantasiando seu abdome, fui ao google e achei:

- “O termo Formiga-feiticeira é a designação comum a diversas espécies de vespas do gênero Dasymutilla, família Mutillidae, especialmente as fêmeas ápteras, que têm aparência de formiga e são geralmente pretas, aveludadas e com vistosas manchas vermelhas, amarelas ou brancas.”

sábado, 15 de janeiro de 2011

HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: PRIMEIRA HISTÓRIA

2009 Caminho da fé 025

O primeiro encontro com o Beato Gastão foi fruto de iluminada coincidência, se pode chamar ao ocorrido de coincidência. Foi assim: eu me encontrava enfiado na Serra da Mantiqueira em mais uma de minhas peregrinações pelo Caminho da Fé. Naquele dia o planejado era caminhar uns vinte e poucos quilômetros e pernoitar em uma isolada pousada para peregrinos, na serra das Limas, meio à belíssima Mantiqueira, mas o pensado e matutado não ocorreu por culpa de uma cachoeira.

Eram quatro horas da tarde, mais ou menos quando revi a belíssima cachoeira da Surpresa, distante uns cem metros da trilha que me encontrava. Não era a primeira vez que passava pela Surpresa; a cachoeira sempre me encantava, mas por um motivo ou outro não ia até ela banhar-me. “Escute: você tem seus sessenta e tantos anos, chegando aos setenta, pense nisso: a vida é curta!”, assoprou em meu ouvido o vento fresco naquele dia tão quente. As águas claras e límpidas, o silêncio absoluto - exceto o cair das águas nas pedras e um canto aqui e outro ali do bem-te-vi que me acompanhou no caminho por todo o dia - forçou a decisão. E assim me esqueci, deliciosamente, da vida: tinha lanche o suficiente para uma refeição noturna e uma minúscula barraca Bivac para o pernoite.

O sol já se punha quando, pesarosamente, saí do banho; coloquei a roupa no corpo, a mochila nas costas e saí à procura de um local para o pernoite: esperava encontrar, para armar a Bivac, uma paineira para poder ver as estrelas entre suas folhas, ou a margem de um córrego para dormir ao som de suas águas correntes. A noite estava chegando e logo depois de uma curva na trilha surge uma pequena e abandonada capelinha à margem da estrada: decidi que seria ali o pernoite.

Vou, como sempre, abrir um parêntese na história, mas desta vez acho que vale mesmo a pena. Para os que não conhecem a Bivac é uma marca de barraca típica para andarilhos. Pequena, leve e para melhor entender: quando armada lembra mais um caixão de defunto do que as redondas e confortáveis barracas utilizadas pelos que gostam de acampar. É uma barraca para dormir, na qual nem sentar-se com algum conforto se consegue. E antes de fechar o parágrafo: a primeira vez que vi a palavra Bivac foi em Os Sertões, onde Euclides da Cunha usa como verbo: os soldados “bivacaram”. Agora sim fecham-se os parênteses e vamos à história do Beato Gastão.

Ao fundo da pequena igrejinha havia um gramado plano e foi lá que armei a Bivac. Lanchei o que havia de disponível, bebi água e me preparei para dormir. Havia caminhado por volta de uns dezoito a vinte quilômetros, o banho na cachoeira relaxou meu corpo por demais e o sono me levou para dentro da barraca. Nuvens negras e clarões de relâmpagos anunciavam as típicas tempestades que ocorrem no dia de Reis.

Dormi.

Ouvi uma voz:

- “Oi de casa, peregrino! Dorme ou está acordado?”, meio sonado, não sabendo se havia sonhado ou se alguém havia, realmente, me chamado atentei meus ouvidos:

- “Acordado, peregrino?”, agora com certeza de ter ouvido.

- “Sim, quem é?”, perguntei.

- “Sou o beato Gastão e trago a paz nas palavras do Senhor.”, respondeu.

Continuei deitado em minha barraca; estava cansado e não estava entendendo se o que ocorria era um sonho ou se havia alguém naquele fim de mundo, em plena escuridão e, além do mais, sob torrencial chuva.

- “Está vindo de Tambaú?”, perguntou.

Tambaú é o início do Caminho da Fé, rota dos peregrinos, que vai daquela cidade até Aparecida do Norte. No meu caso faço o Caminho da Fé em seu trecho mais belo do ponto de vista geográfico: inicio a caminhada em Águas da Prata e vou até Campos de Jordão; mas, aprendi nestas caminhadas, que quando argüido o melhor e mais cômodo é responder que faço o caminho tal como ele foi idealizado, ou seja, de Tambaú a Aparecida.

-“Sim, saí há uns dez dias de Tambaú e vou, com a graças de Deus, até Aparecida.”, respondi.

- “Devo minha fala a um milagre do Padre Donizete, de Tambaú, que Deus o tenha, Santo homem.”, falou o Beato, e complementou: “Você visitou a sala dos milagres?”

- “Não, não visitei. Bonita?”, disse preocupado em não encompridar a mentira e ser pego de calças curtas.

- “Sim: uma sala repleta de muletas, cabeças de cera, rosários, crucifixos, botas; muitos que alcançaram a graça de um milagre do Santo Padre Donizete, retornavam a Tambaú para colocar uma lembrança da graça alcançada; outros já deixavam lá as muletas até então necessárias para poder andar e que depois da graça recebida, sem mais utilidade prática, ficavam ali em uma demonstração de fé; meu pai mandou fazer uma cabeça de cera e voltou a Tambaú e a colocou lá na sala. Comigo foi assim: até os treze anos eu não falava, tinha a língua grossa, dura e presa; aconselhados por uma beata de minha região, fomos a Tambaú e graças a Nossa Senhora de Aparecida e ao Padre, minha língua desenrolou, e saí de lá falando, matracando, feliz. Enquanto eu exercia o dom da fala minha mãe chorava e rezava de felicidade. É muito bom poder falar”.

- “Sim, é uma dádiva: nos torna mais humanos.”

- “Gosto muito de falar, contar e cantar...está cansado para ouvir?”, perguntou.

- “Não, estou desperto. Pode falar, Beato...”

- “Gastão...Beato Gastão é o meu nome. Nasci pelos lados do vale do Jequitinhonha, norte de Minas, já perto da Bahia.Em casa era meu pai, minha mãe, Dona Terezinha, uma irmã mais velha, muito linda, depois tinha eu e um irmão caçula, o Odilom. O nome de meu pai era Chiquito. Nasci com muitos problemas e dificuldades: além da língua grossa e presa que me impedia de falar e cantar, até a graça alcançada em Tambaú, eu era torto, corpo curvado com os braços pendentes ao lado corpo: “parece um orangotango quando anda, este nosso filho”, dizia meu pai. “Que isso Chiquito, está ofendendo um filho de Deus, Cruz Credo.” Mas, realmente, pela minha sombra percebia que quando andava me assemelhava a um macaco. Também não conseguia segurar o mijo e vivia com as calças molhadas, fedendo.

Mas como te dizia antes, depois da graça recebida pude falar e cantar. Não poder cantar sempre foi um motivo de tristeza para mim enquanto tinha a língua enrolada e dura. Lembro bem de minha mãe cantando para mim enquanto me gestava em sua barriga e também não posso esquecer as tardes que, quando o rádio tinha pilha nova, ouvíamos a Ave Maria do Júlio Louzada: eu me encantava com a música que iniciava e terminava o programa, gostava mais até do que a reza propriamente dita. Mas até o milagre não podia falar e muito menos cantar, embora, internamente, eu cantasse e falasse.”

- “E você é Beato, desde quando? A partir do milagre que te deu voz?”, perguntei.

- “Não. Resolvi ser Beato desde o dia que pela primeira vez eu vi, quando rezávamos uma novena e molhávamos a cruz pedindo chuva, o Beato Jeremias, que foi ordenado Beato pelo milagroso e santo Beato de Ibiapina, fundador de uma ordem de beatos do sertão. Logo depois de me ouvir cantar na novena pedindo chuva, Beato Jeremias abriu sua Missão Abreviada Para Despertar os Descuidados, Converter os Pecadores e Sustentar o Fructo das Missões e, solenemente, passou a ler: “ninguém podia aprender esse cântico, a não ser aqueles cento e quarenta e quatro mil que foram resgatados da terra. Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens”Apocalipse, 14.3 . E assim que terminou a leitura Beato Jeremias disse: Gastão você é um eleito! E naquela tarde, depois de mais de seis meses de seca choveu tanto quanto chove aqui agora. Resolvi seguir Beato Jeremias em sua peregrinação santa: ajudava-o em seus mutirões para construir igrejas nas mais afastadas vilas e nas plantações de roças comunitárias onde a fome destruía vidas e espalhava doenças, matava crianças e velhos.”

Um clarão acompanhado de forte estrondear de trovão iluminou a barraca, cegando os olhos e encobrindo e calando a voz do Beato Bernardo.

Percebi que, quando o Beato voltou a falar, sua voz não era a mesma: demonstrava insegurança, medo. Como sempre tive um medo atávico por raios e trovões entendi, de início, o tom angustiante de voz, denunciando temor do Beato; refeito do susto não conseguia me dar conta do medo do Beato e perguntei:

- “A alma carrega os medos para o além?”

- “Sim, carrega.”, respondeu.

- “Só os temores e as dores? Também os amores?”, sem muito pensar, perguntei

- “Vamos parar um pouco esta nossa palestra. Estou assustado.”

A chuva continuava a cair torrencialmente e, felizmente, a velha Bivac resistia firme e forte, permanecendo seca, sem respingos em seu interior.

Dormi novamente.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A pedra do VELHO DEITADO: outra história

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“Quero ser feliz

Nas ondas do mar

Quero esquecer tudo

Quero descansar.”

Manuel Bandeira, Antologia Poética.

Aprendi a gostar da pedra do Velho Deitado. Não me cansa ver a cabeça negra, com seu longo e afilado nariz, ser vagarosamente tragada pelas ondas para, horas depois emergir meio às brancas espumas: tornou-se um amigo que, silenciosamente, ameniza a solidão que a velhice sempre traz consigo.

Rodeando a pedra do Velho Deitado pequenas lagoas se formam: são negras em seu piso de pedras e verdes em suas águas límpidas. São nestas lagoas que muitos pescadores caçam não só pequenas iscas para seus anzóis, mas também, com artesanais e pontiagudos arpões, belas lulas e polvos feios com seus olhos enormes e tristes.

Entre os pescadores de perto da pedra do Velho Deitado destaca-se Barsanufo: um negro esbelto em seu corpo de mais de setenta anos, peito e cabeça totalmente cobertos de pichainhos brancos, como se aqui fosse Europa ou Estados Unidos e tivesse caído neve sobre o velho pescador. Mas isso é bobagem: onde já se viu nevar em praia tão quente para esbranquiçar a cabeça do Velho Deitado e a do Barsanufo? Quem cobriu de branco a cabeça do Barsanufo e de verde o peito do Velho Deitado foi o tempo, foi a idade chegando, chegando.

Mas, voltando ao assunto: Barsanufo é considerado, aqui pelos lados da pedra do Velho Deitado, o melhor e o mais sábio nas artes da pesca, o que conhece a melhor isca para cada tipo de peixe, o melhor horário para pesca de cada espécie, o momento certo da fisgada. Em dias em que a maré baixa é de manhãzinha, coloca-se de pé sobre o peito do Velho Deitado, e com as mãos sobre os olhos, para se proteger do sol, vigia as ondas, olha, reolha e descobre onde os peixes estão. E aí, só, com suas varas e seus anzóis vai à caça.

Gosta de pescar.

-"Peixe para levar para casa e comer é o budião branco o que mais gosta. Tem o budião azul, mas este só se pesca em águas profundas." Para Barsanufo, na beira praia, no raso do mar, melhor peixe para se pescar e comer é o budião.

Eu o conheci quando limpava um budião de quilo e meio que havia acabado de pescar. Ao seu redor, enquanto limpava o budião, fez-se uma rodinha: um cinquentão goiano que passeava na praia, um jovem moreno, todo queimado de sol, com os braços tatuados e eu. Barsanufo concentrado na operação de limpeza do budião não nos via, ou fingia não nos ver: com uma faca afiada raspava as escamas, cortava o peixe pela barriga e retirava suas vísceras.

O goiano teimava em comprar o peixe: queria, por que queria levá-lo para fritar em sua casa, alugada para suas férias beira-mar. A cada investida do goiano, Barsanufo respondia: “é para comer em casa, com a família.”; “você pesca outro e leva para casa, me vende este. Quanto quer?” insistia o goiano, “ é para o almoço, comer coma família.”, encerrou o assunto Barsanufo.

Quando o goiano, mal humorado, desistiu de comprar o budião, o rapaz queimado de sol e eu já pensávamos em seguir nossa caminhada pela praia, Barsanufo disse sério:

- “Tem gente que come assim. Já eu não. Dos que levo para comer em casa, tiro as baratas do saco das baratas.” E enquanto falava, com sua faca afiada, fez um pequeno furo logo acima do olho do budião, tirou a pele e encontrou uma pequena cavidade – o “saco das baratas” – da qual retirou, com a ponta da faca, pequenas baratinhas do tamanho de um grão de arroz, brancas, leitosas. Umas cinco ou seis: todas vivas, espertas, espremidas como sardinha na lata, no saco das baratas. Repetiu a operação acima do outro olho do budião e mais uma leva de pequenas baratas foram retiradas e jogadas em um pequeno pocinho, perto da cabeça do Velho Deitado. No pocinho as baratinhas nadavam, ágeis, rápidas, parece que felizes, meio a tanto espaço encontrado, apertadas e comprimidas que estavam até então no saco das baratas.

No mar as baratinhas e no ar certo mal estar; a rodinha se desfez: o goiano, sem nada dizer, saiu; o rapaz moreno, queimado de sol, disse: “e a gente acaba comendo barata e, sem nada saber, acha gostoso.”, e eu a olhar as baratinhas no pequeno poço: buscavam minúsculas locas e lá se enfiavam e sumiam, aparecendo vez ou outra expulsas pelos sirizinhos pretos, donos da loca.

Barsanufo, em um outro dia, me disse:

- “ Só os budiões têm o saco das baratas. Tem um tipo de corvina, rara aqui, que tem uma pedra acima dos olhos; dizem os mais velhos que a pedra da cabeça da corvina é um santo remédio para curar dente de crianças e para segurar filho na barriga de mulher que têm dificuldade de sustentar criança no bucho. Agora as baratinhas do saco das baratas do budião é o seguinte: o budião as come no mar e elas vão para o saco das baratas, onde se protegem.”

Eu, calado, ouvia Barsanufo, que continuou:

“ Os mais velhos contam a história do negro Rufino, ainda dos tempos da escravidão, que foi quem iniciou e a poucos ensinou o feitiço que sabia fazer com as baratinhas brancas do saco das baratas dos budiões.

Quer que te conto?

Quer?

Bem, já que quer, e tem tempo para escutar, foi assim:

Rufino era um preto baixo, avesso às lidas do trabalho, viciado em mulher. Gostava do amor e exercia fortes poderes sobre as mulheres que queria possuir e as mulheres, enfeitiçadas, não resistiam à sua magia. Era assim que fazia: ficava vigiando a mulher desejada, observando onde a mesma desaguava. Em antes, nos tempos de Rufino vivo, contam os mais velhos, as mulheres usavam desaguar na praia, deixando sobre a areia branca uma pocinha úmida de mijo. E Rufino fazia então seu trabalho: recolhia a areia úmida de urina, punha em uma latinha com água do mar e lá colocava as baratinhas dos budiões que pescava; as baratinhas se infiltravam, como minhocas, na areia do mijo e faziam a mágica: a mulher, dona do mijo, se apaixonava por Rufino.”

Interrompi Barsanufo:

-“ Sabe que coisa parecida acontecia nos sertões de Minas, só que com formiga cabeçuda, que eram presas em caixas de fósforo com terra úmida de mijo de mulher. Os mais velhos contam que funcionava: era tiro e queda.”

Barsanufo continuou:

- “Pois então, aqui nesta praia, viveu e se enamorou por muitas e muitas mulheres o negro Rufino. Trabalhar não gostava, namorar queria sempre e demais. Esparramou filhos pelo mundo: filhos com negras gordas e novas, filhos com negras magras e mais velhas, filhos com moças virgens até encontrá-lo e com mulheres casadas e, assim Rufino esparramava amor nas mulheres e ódio e vontade de vingança nos maridos traídos e nos pais que tiveram suas filhas descabaçadas e engravidadas por ele. Mas estes nada podiam fazer: Rufino, diziam, tinha acordo com o CAPETA, com o DEMO. Em troca de sua alma a COISA protegia seu corpo de facas, de balas, de punhais e até mesmo de pauladas; assim, Rufino não era, em qualquer luta, jamais ferido e vencido.

E vivia assim: para o amor. Só prejudicava as pessoas quando namorava e possuía mulher dos outros, ou fazia filhos em meninas novas, que tinham que depois de parir sustentá-los, pois amava os filhos mas não os criava. Conta-se que mesmo o xixi de Sinhazinhas brancas, como as baratinhas do saco das baratas do budião, foram, às escondidas, recolhidos e colocados em sua latinha com água do mar junto às mágicas baratinhas. E assim, graças aos encantos de Rufino, da filha mais velha do senhor do engenho nasceram dois meninos mulatos e da filha do administrador da casa da farinha nasceram Jonas e Ernestina, também mulatos. Correu, em seu tempo, o boato de que a repentina viagem para a Europa da filha do Governador foi por motivo de filho de Rufino na barriga e que na Europa, parece que na França, onde tirou o filho do bucho, refez o himem para poder voltar e casar virgem com Espósito, filho do Coronel Moreira Cezar.

Chegou hora em que Rufino adoeceu, picado pelo barbeiro.

Ficou com o coração grande, fraco. Rufino, mal podendo falar, dizia que seu coração tinha ficado grande, aumentado até encher o peito, dificultando a respiração e impedindo de ir à pesca do budião, era inchaço de amor, que não tinha doença ruim mas uma doença boa de se morrer.

E contam os mais velhos que todos - maridos traídos, pais de moças virgens por ele descabaçadas e mães de seus filhos, mulheres negras e gordas com seus seios grandes como um mamão, mulheres negras e magras com seios pequenos como uma doce e saborosa manga, mulheres brancas como as baratinhas do saco do budião, todas as mães de seus filhos – enfim todas as almas vivas desta praia e das de perto, compareceram e respeitosamente prestaram homenagem, cobrindo de flores e velas o corpo morto Rufino enrolado em branco lençol de algodão.

E foi aqui, nesta praia, em um silêncio em que se ouvia até o murmúrio das menores ondas roçando as pedras e a areia, que, atendendo ao seu último pedido, foi enterrado, junto às baratinhas do saco do budião.

Seu corpo virou esta pedra do Velho Deitado que é o negro Rufino”.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A pedra do VELHO DEITADO: uma história.

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“... Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão.” Dizeres proféticos escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos - "in" Euclides da Cunha, Os Sertões.

Impressiona a incrível semelhança da pedra negra, à beira da praia, com um homem deitado, em repouso; quanto mais se olha mais se vê o nariz pontiagudo, a boca, o tórax saliente, o umbigo e o braço estendido ao longo do corpo. Sua cabeça apóia-se em outra pedra, como em um travesseiro: dorme. As algas cobriram o peito de verde, trocando os pelos brancos da velhice pelo verde da eternidade.

Quando a maré-baixa chega a 0.1 fica todo mais visível, oferecendo uma visão perfeita, linda.

Me encantam as pedras negras da praia. Na infância via formas nas nuvens e lhes dava nomes: uma nuvenzinha era a vaca Surpresa, outra a égua Queimada, outras horas, mais de tarde, ao escurecer, via o Saci, a Mula Sem Cabeça e tinha medo.

Agora na velhice me fascinam as pedras da praia que em sua negritude, dureza e perenidade não mudam de forma como as nuvens, mas vestem-se e despem-se com a água salgada e rendada de espumas; a maré, ao subir, as encobrem lentamente, até desaparecerem e, também lentamente, com a baixa da maré, surgirem como que para se aquecer ao sol e tornarem-se referência e ponto de encontro dos namorados e amantes do mar.

A história da pedra do Velho Deitado é a que vou contar.

Quem a contou para mim foi Evilásio, que ouviu de seu pai, que ouviu de seu avô, de nome João Cocobobó:

- “Esta pedra é o meu avô.

Foi aqui que ele morreu, quietamente na água, protegido por uma baleia, que é esta outra pedra: é só prestar atenção para ver como ela cerca meu avô com seu corpo enorme, defendendo-o.

A história é verdadeira e dá para provar. Meu avô, que como já disse tinha por nome João do Cocobobó, seguiu seu pai para junto de Antônio Conselheiro, na vila de Canudos. Sua mãe havia morrido e ele se acostumado a viver, em um silêncio mudo, com o pai. Na vila de Canudos foi batizado por Antônio Beato que, em Canudos, como contou meu avô, era de tudo: sacristão, dizia a missa e tinha o privilégio de, junto com as beatas de azul, tomar refeições e orar junto com o Conselheiro.

Meu avô ganhou fama por tanto saber caçar: tatus, calangos, seriemas e peixes no Vaza-barris; também por isso ganhou clavinote e a confiança de Joaquim Tranca-pés para fazer trabalhos de vigilância e espiar as forças do mal que ameaçavam Canudos. Meu avô tinha, então, seus quatorze ou quinze anos: era muito pequeno, magro, quieto, sem nenhum pelo no rosto: parecia uma criança velha.

Com o cerco a Canudos, pelas tropas do mal, meu avô sabia dos perigos que corria e conhecia a morte: um seu amigo, também treinado para espiar, havia sido pego pelas forças do mal e ao ser assassinado com uma faca berrou: “Viva o Bom Jesus”; e posso afirmar, pois foi meu pai quem me disse, que este episódio está mais que provado, até escrito em livro que se lê nas escolas.

Quando o Conselheiro morreu quem a todos avisou foi Antônio Beato. Naquela noite meu avô foi destacado para ir até a estrada do Cambaio vigiar e contar o número de inimigos que chegavam e chegavam. O sino havia sido derrubado por balas de canhão e dias depois as torres da igreja forram ao chão.

Canudos foi invadida, destruída.

Meu avô, devido ao seu pequeno tamanho, apesar da idade de mocinho, ficou junto às mulheres, crianças e velhos. Seu pai tinha sido morto com um tiro no peito quando montava guarda em uma tocaia na estrada de Uauá.

Meu avô foi passado em revista, junto às mulheres e os velhos, mas nada foi encontrado: esperto e desconfiado, havia deixado sua garrucha, balas e uma peixeira escondidas em uma tocaia no alto da Favela.

Á noite meu avô fugiu. Conhecia a palmo toda a região. Durante uma semana, com as tropas do mal por perto, enfiou-se em uma caverna na serra do Cambaio e ali ficou dia e noite: de barulho se ouvia apenas seu respirar, às vezes o canto agudo das seriemas ou de um solitário trinca-ferro.

Aproveitou a chegada da lua quarto - crescente para começar sua viagem. Para onde? Ninguém sabia, nem Deus. Caminhava à noite: evitava assim, usando deste expediente, tanto as forças do mal que andavam pela região à caça de fugitivos de Canudos, como o sol ardente, que a tudo queimava. De comer? Bem, meu avô dizia que comia calangos, frutas de umbu e coquinhos de dendê. De beber? Água, quando achava, muitas vezes salobra, porque a sede é forte e não oferece escolha a quem a tem. Peregrinou sem rumo, guiado nos primeiros dez dias pelas estrelas e depois, quando se achou fora do perigo das tropas do mal, guiou-se pelo sol. Caminhou rumo ao Leste, sem saber o por que: puro instinto, “guiado por Deus”, disse meu avô a meu pai.

E viu, pela primeira vez, o mar. Encantou-se de imediato: maravilhou-se com sua grandeza, com suas cores que iam do verde claro ao azul escuro do céu, com as ondas que iam e vinham, batendo nas pedras incessantemente, sem se cansar, deixando, na areia, espumas que se assemelhavam às rendas de papel que as beatas faziam para enfeitar a igreja de Canudos em dias de prédicas do Conselheiro. Tudo lindo demais e, no ar, o cheiro o cheiro de sal que lembrava boas comidas e muita fartura!

Chegou à praia de tardezinha, viu tudo isso e buscou lugar para se esconder. Chegou a uma clareira ao meio de uma floresta de dendezeiros e, cansado, se ajeitou para dormir. Tirou da cintura a garrucha e dormiu com a peixeira atada, pelo cabo, com cipó, em uma das mãos, melhor dizendo, atada à sua mão esquerda: era canhoto. Acordou, com a lua ainda baixa, prenunciando início de noite, com barulhos e vozes na clareira. Nem abriu os olhos e se viu agarrado, preso por dois homens negros, altos, fortes: o maior pegou-o pelas costas, ergueu-o do chão; meu avô, suspenso no ar esperneava, gritava, dizia palavrões e pedia socorro a Deus, ao Antônio Beato e ao falecido Conselheiro. Berrou: “Me largue seu corno filho da puta, desgraçado do diabo” e a resposta veio logo: o negro forte, que o carregava pelas costas como se peso não tivesse, lhe deu um tapão no ouvido e ordenou que parasse de berrar como “um cabrito de merda”.

Ficou tonto e, ainda zonzo, foi atirado no centro da clareira da floresta de dendezeiros. Lá no centro da clareira se encontravam mais homens negros, reunidos em volta de uma mulher forte, gorda, toda de branco e de uma linda moça, também de branco. Flores e velas acesas enfeitavam uma colorida imagem. O negro forte que o carregara e lhe dera um tapão no ouvido disse ao grupo ali reunido, mas com o olhar na negra gorda:

- “Achamos este cabrito entocaiado na moita de dendê, mãe Onice”, sossegou por um pouco a fala e acrescentou: “só pode ser espía dos brancos.”.

- “Assente ele aí. Perigo nenhum: é uma pobre alminha perdida nos tempos, carece ter medo não.”, disse, com autoridade, a gorda Onice.

E, meu avô, acostumado às rezas e prédicas do Conselheiro e do Antônio Beato, na igreja dos Canudos, viu, sob o céu aberto, estrelado – sentindo-se protegido pela mãe Onice – uma nova liturgia, conduzida pela negra gorda, cujo corpo se agitava, e da garganta emitia estranhas palavras: “Tar tá ta ta... rrries, mozzz” enquanto virava e revirava os olhos. Mãe Onice perdia a serenidade bondosa da gorda face, trêmula, em transe: “ Se assentem todos... é chegada a hora... Zurrr... Ta trá to.. Rrrém, amém!”. E guiados por ela, rendiam, todos, graças a Oxossi, rei das matas, caçador imbatível.

Depois da cerimônia Mãe Onice levou meu avô com ela. Deu-lhe o que comer, para beber deu água limpa e clara e mostrou o paiol que tinha no fundo da casa, onde passou a dormir.

Desacostumado de família, de calor e carinho materno, meu avô era uma felicidade só; cedo se esqueceu de Canudos e de suas misérias.

Para não depender totalmente de mãe Onice ganhava sustento aprendendo ofício e ajudando na casa de farinha.

A barba teimava em não cobrir a cara e o corpo em fingir que era menino. Mas os pentelhos ralos foram surgindo, cobrindo a região do púbis e estranhos, indecifráveis e incontroláveis desejos anunciavam a meu avô sua mocidade. Mãe Onice, em um domingo, mandou matar uma galinha, limpou-a das penas em água fervente e depois com uma faca afiada cortou a borda superior do curranchinho, logo acima da cloaca da galinha, e deu ao meu avô: “Passe este sebo no bigode e na cara. Faz nascer e crescer barba para ficar com cara de homem.” Meu avô obedeceu. Como também comia carne de baleia, quando menos se viu, estava com o rosto pedindo navalha e o corpo crescendo a cada dia. Sonhava à noite que estava caindo do pé de coco e mãe Onice dizia: “ é porque você está crescendo; cada pulo deste na cama é um dedo a mais em seu tamanho”. Também sonhava com Dasdores, filha de seu Pitu, e acordava com a roupa suja e as pernas melando com grossa e malcheirosa baba.

Saiu da casa de farinha para trabalhar na queima do óleo de baleias: homem forte carregava os tachos quentes e respirava o mau cheiro da fábrica. E foi ajudando Zacarias no transporte do óleo da fábrica para as barcaças que se imaginou no mar caçando baleia. E assim se tornou ajudante de barco e depois mestre. Caçava baleias.

Casou com minha avó Rufina Dasdores.

Às tardezinhas, segurando a mão com minha vó e acompanhado dos filhos que chegavam, ia ver o mar.

Era diferente aquele mar que via ao entardecer - com as pessoas que amava - do mar que enfrentava durante o dia caçando baleias. Gostava mais deste mar, perto da areia branca, com peixinhos pequenos mordiscando o calcanhar das crianças que brincavam de nadar nos pocinhos, meio às pedras. De verdade, pensou meu avô, gostava de todo o mar: o que não gostava e o que o entristecia no mar de seu trabalho de mestre de barco baleeiro era a matança dos bichos: enjoou de ver o sangue das baleias mortas tingir de vermelho o azul da água do mar, enodoar as suas águas e suas carnes apodrecendo – fedidas – encher a praia de urubus famintos que pulavam e brigavam entre si e afugentavam os gaviões carcarás que vinham a busca de comida.

Certa feita, em alto mar, viu o que não podia: no horizonte uma enorme baleia mãe, que amamentava a filha; para lá teve, contrariado, que levar o barco e ver a baleia ser arpoada e ao receber na carne - no lombo, perto da cabeça - o enorme arpão, desesperada, chorar o canto triste de dor pela certeza da morte e da saudade que a morte lhe traria da filha.

Ajudou a descarnar a baleia, jogar os miúdos na praia: desta vez, sentiu enorme enjôo que o fez vomitar até as tripas chegarem à boca.

Triste recusou os pedidos da mulher e dos filhos para o rotineiro passeio à praia. Aquela tarde não queria companhia, precisava de solidão para se entender no mundo.

E foi só para a praia. No sagrado local em que ficava com a família a baleia filha chorava com seu canto desafinado e triste de saudades e de medo da solidão no gigante mar. E meu avô contou para meu pai: foi a primeira vez que chorou depois de homem feito.

Feriu propositadamente, com uma faca, o braço esquerdo, e foi, por isso, impedido de conduzir o leme do enorme barco baleeiro.

Mãe Onice faleceu.

Meu avô voltou a trabalhar na casa de farinha.

Seus filhos cresceram e nenhum foi autorizado a trabalhar com barco de caçar baleias. Dasdores morreu.

Me avô sabia, porque mãe Onice havia lhe contado dos perigos de se comer a delicada carne do baiacu. As peixadas de baiacu, muitas vezes, resultam na morte de todos os que saboreiam a nobre carne. “O perigo da morte é porque não tiram a pele, não limpam o peixe direito, mãe Onice?”, perguntou meu avô, enquanto ajudava mãe Onice preparar uma dúzia de baiacus que seriam servidos após uma cerimônia religiosa. “Nada disso: depende de quem faz. Se quem prepara pensa e quer a morte, o baiacu é um veneno só. Sua mãe Onice, não: gosta da vida e já preparou centenas de peixadas, todas elogiadas pelo seu sabor, e graças a Deus e a meu pai Xangô, em minhas peixadas de baiacu nunca houve morte, só vida, amor, meu filho.”, respondeu sorridente mãe Onice.

Meu avô se lembrou daquilo e resolveu.

Não foi trabalhar na casa de farinha e partiu com o barco pesqueiro de manhã: pescou cinco ou seis baiacus. Quis apenas um: os outros ofereceu à tripulação do pesqueiro, grato pela generosidade do passeio e da pesca. Recomendou que bebessem pinga na hora de preparar, que cantassem alegres músicas, pois assim, a carne do baiacu lhes traria felicidade, fartura na mesa e bons amores na cama..

Foi para seu canto preparar o baiacu; preparou a carne do baiacu no dendê e no leite de coco, como havia aprendido com mãe Onice; enquanto assistia a fervura da carne branca do peixe no dendê e no coco, pensava na morte.

Sozinho, à tarde, como sempre, vinha rezar aqui nesta praia. Era seu costume: já cansado e velho, sentava uma pedra a beira mar, rezava e esperava a maré subir até a água molhar seus pés.

Naquela tarde, enquanto tinha os pés salgados pela água do mar, enfeitados com pequenas espumas trazidas pelas ondas, meu avô comeu o baiacu que havia pescado e preparado.

Era uma tarde de março – época de marés bravias – e uma onda o levou.

Manhã seguinte, maré baixa, meio às pedras surge seu corpo que descansava deitado ao lado dos ossos da baleizinha.

O tempo passou e seu corpo virou esta pedra, que é meu avô.”

domingo, 21 de novembro de 2010

ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, Nada Consta. Final: O DOPS.

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A reunião dos contadores de história estava se encerrando. Uma senhora de cabelos grisalhos, com um papelzinho na mão, acompanhou o contador da última história ao centro da arena e, antes dele iniciar sua história, tomou a palavra e disse:

- “Contadores de histórias: estamos nos finalmentes deste encontro. O nosso adeus - ou até breve – fica por conta do que vou ler, copiado do livro “Viver para contar” de Gabriel Garcia Marques: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”

E a que seria a última história do encontro teve seu início:

“No bilhete, junto com o dinheiro da compra do quadro, escrito com letras de quem fez curso de caligrafia, elegantemente tombadas à direita, vinha o endereço: Edifício Copan, Rua...

E lá fui eu.

Não sei se já ocorreu com algum de vocês o que aconteceu comigo. Pois então: do estacionamento, onde deixei o carro e meus quadros, até o Copan, para onde, esperançoso me dirigi, tem por volta de um quilômetro, pouco menos, pouco mais e eu, posso garantir, nada vi, nada ouvi, nada senti em todo o percurso. Quando dei por mim estava tocando a campainha do apartamento 1360. Ocorrência inédita e explico o porquê: tenho o hábito, atávico, de frente a qualquer percurso me por a pensar, a refletir e a calcular, em uma tola tentativa de prever o que poderá ocorrer aos finais destes pequenos destinos. E sempre foi assim. Me lembro - e não lembro-me, como teima em corrigir este desobediente micro - que quando ainda no Ginásio, onde, por causa de meu diminuto tamanho, sentava na primeira fileira, o que significa que de minha carteira até a mesa da professora era coisa de uns três ou quatro passos, e, mesmo assim, ao ser sorteado para a chamada oral, o percurso naquele ínfimo espaço que separava minha carteira da mesa da professora se alongava a ponto de se a chamada fosse de latim eu recordar a primeira declinação: nominativo -a, genitivo - ae, dativo - ae, acusativo -an, vocativo - a e ablativo - a; ou mesmo os difíceis: hic, haec, hoc; já quando a chamada oral era feita pela lindíssima professora de Geografia, esquecia sua beleza morena e tinha tempo para relembrar, naquele pequeno percurso, os afluentes do lado esquerdo do rio Amazonas.

Mas, para não encompridar demais esta história: cheguei sem saber como, sem nada pensar ao apartamento do pai de Hamilton, amigo do Pedro Paulo; lembro ainda hoje do apartamento: grande, ventilado, limpo, mobiliado com móveis claros e com as coisas em seus devidos lugares; nas paredes belos quadros pintados a óleo e suaves marinhas de aquarela.

Estava ansioso e tenso.

Optei, educadamente, por um guaraná ao invés da cerveja oferecida; não queria beber: precisava da consciência clara, arguta, e tinha claro que um copo de cerveja sempre me levava a outro, e a outro e a outro até a língua crescer dentro da boca, aumentando a dificuldade de falar e entender com clareza, e a liberação, ao extremo, da libido.

- “Quando posso ver Pedro?”, perguntei de imediato.

- “Penso que esta semana, mas antes, por favor, tenha paciência: temos muito o que conversar. Meu nome é Danilo e posso saber o seu? Havia entendido pelo Hamilton e pelo Pedro que seu nome era Romeu, mas não bate com a assinatura do quadro. Qual é o seu nome?”, perguntou o Sr. Danilo.

- “Me chamo Romeu mesmo, nos quadros assino meu sobrenome: Rios.”, respondi com má vontade.

E o Sr. Danilo, calmo e simpático, colocou seu copo de cerveja sobre uma pequena mesa e enquanto bebericava:

- “Desculpe-me, é que são tantos os nomes e cognomes dos amigos de meu filho que às vezes me perco. Mas Romeu é o seguinte: Pedro Paulo é contra sua visita ao DOPS e vou tentar explicar seus motivos: ele teme, e tem lá suas razões, que sua visita seja interpretada pela polícia política com sua adesão à causa que o levou à prisão e, ainda, segundo ele, causa à qual você se mostra indiferente; assim, segundo seu raciocínio você poderá, ao visitá-lo, se comprometer, sofrer perseguição, ser preso, torturado, o que, para ele não seria ainda mais injusto do que o fato porá si só injusto. Por outro lado caso a visita seja encarada pelo pessoal do DOPS como afetiva, caso você insista, o preconceito quanto à relação afetiva ente dois homens poderá deixar Pedro Paulo em uma situação pior da qual já se encontra: à atual tortura física será acrescida a tortura moral e é por que Pedro acha que você não deve ir visitá-lo. Está me entendendo?”, perguntou Sr. Danilo ao ver minha expressão de incredulidade.

- “Quando posso ir visitá-lo?”, perguntei.

Na quarta-feira seguinte, por volta do meio dia, me encontrei com o Sr. Danilo na Rodoviária. Ele se vestia de modo informal e elegante; eu mudei radicalmente minha maneira de vestir: deixei no armário minhas roupas extravagantemente coloridas que foram trocadas por calças jeans velha e surrada, camiseta branca da Hering e sandálias da Bierkestoken; enfim, nada a ver comigo aquelas roupas que, penso, me deixavam tristes, um pouco amargo.

- “Nada de toques e emoções!”, repetiu, em voz baixa, com as palavras sibiladas entre os dentes, o Sr.Danilo quando adentramos ao DOPS.

Pedro Paulo estava magro, branquíssimo, barba mal aparada, e na face uma expressão de dor profunda; ao meu abraço respondeu, sem conseguir se conter, com um forte gemido de dor: tinha suas costelas quebradas. Seus lábios estavam inchados, havia escoriações em sua face e dois dentes haviam sido quebrados pelas mãos fortes e pelo soco inglês de um dos inquisidores. Eu havia levado uma boa quantia de sementes de abóbora torradas, pois sabia que o trabalho de retirar suas sementes com os dentes era calmante, fazia o tempo passar, o pensamento voar, fazendo bem a quem estava preso. Me senti culpado por não ter previsto a impossibilidade do meu tão querido Pedro Paulo não poder usar desta terapia: sua boca estava ferida, maltratada.

Mesmo assim nosso encontro foi comovente: estava vivo e, como sempre, esperançoso; contou-me que se sentia fortalecido em relação ao que acreditava ser sua missão, que o medo havia passado e que havia aprendido a suportar, com dignidade, as torturas. “Você se lembra que vimos “O caso dos Irmãos Naves,” no Belas Artes? Meio parecido.” disse tentando me confortar, creio.

Apertei suavemente sua mão na despedida e prometi voltar tão logo fosse possível.

- “Visita encerrada.”, assim aos berros, fomos convidados, o Sr. Danilo e eu, a nos retirar. Saímos juntos.

Sr. Danilo, bondoso, convidou-me para um guaraná no bar da Rodoviária; e lá, antes do guaraná oferecido fui ao banheiro público chorar: e chorei, chorei e chorei, e aquele choro convulsivo, sentado em uma privada de banheiro público, escondido não sei de quem, e, talvez, de mim, colocou minha alma para fora. Me senti vazio, inútil e com uma única certeza: viver não valia a pena.

Sr. Danilo me esperava no bar. Já havia pedido sua cerveja e no balcão um guaraná me esperava. Tomei todo o guaraná em um gole, pedi uma cerveja, depois outra, depois outra, e outra até sentir que a língua enchia minha boca, com as salivas grossas e amargas impedindo-me de falar fluente e corretamente. E, assim, bêbado, apoiado pelo Sr. Danilo, tomei um táxi e fui para casa e lá, livre, continuei a chorar e a chorar e a achar, mesmo, que viver não valia a pena.

Minha habilidade em desenhar com as duas mãos ao mesmo tempo, esquerda e direita, era motivo de admiração mesmo entre os talentosos alunos da Escola de Belas Artes. Explicando melhor: eu podia, ao desenhar um rosto, por exemplo, iniciar pelo pescoço e enquanto a mão esquerda traçava o lado esquerdo do rosto a mão direita, simultaneamente, desenhava o lado direito; e assim, fazia o mesmo com os olhos, nariz... Fazia sucesso com esta brincadeira que era feita tanto na lousa, com giz, como também usando os antigos e hoje em desuso pincéis atômicos, com os quais, nas grandes folhas coladas nos cavaletes do álbum seriado, desenhava rosto dos professores, caricaturas de políticos, de colegas, de jogadores de futebol.

Sabia também que a mais fácil maneira de falsificar uma assinatura era iniciar sua cópia pelo fim. Resumindo: unindo meu talento em desenhar com ambas as mãos e falsificar à confiança que Pedro Paulo e seus companheiros depositaram em mim, passei a ocupar parte do meu tempo em um trabalho de falsificação de passaportes, carteiras de identidade e outros documentos para militantes políticos. Embora, principalmente no início, Pedro Paulo, por motivos ideológicos, fosse contrário a minha participação neste trabalho, reconheço hoje, que graças a este meu talento ajudei muitos de seus amigos, e, também de desconhecidos, ligados ao grupo, que precisavam de documentos especiais para sair do país, ou para, mesmo aqui no Brasil, viver na clandestinidade.

Para realizar estes trabalhos eu era sempre apoiado por Francano: um jovem “arte finalista” extremamente habilidoso. Francano usava muletas, tinha a perna esquerda infinitamente menor que a direita, fumava de dois a três maços de Continental por dia, usava uma barba rala e bigodes ainda mais ralos; ele mesmo dizia que tinha um time de futebol de cada lado - referindo-se aos “vinte e dois” fios de bigodes que teimavam em deixar a desnudo a parte superior de sua boca suave, sempre pronta ao sorriso franco, mostrando dentes claros, perfeitos. Francano, que falava o tempo todo, me introduziu no vocabulário do grupo ao qual pertencia e admirava; suas conversas me faziam lembrar as reuniões de Pedro Paulo e seus amigos em nosso apartamento: eram conversas recheadas de “campesinato, burguesia nacional, guerrilha urbana, reeducação, luta armada, lumpemproletariado...”. Tornei-me seu amigo.

Em um sábado chegou um novo passaporte sobre o qual eu deveria trabalhar. Meu trabalho consistia, entre outras coisas, em falsificar as assinaturas das autoridades e “copiar” a assinatura de quem seria beneficiado pelo novo documento. Em minha última visita ao DOPS percebi que Pedro Paulo estava barbeado e com os seus longos cabelos cortados. Estranhei e ele, percebendo, me disse: “logo me verá assim”; não entendi, mas em ambiente tão impróprio para perguntas achei por bem dar o não entendido por entendido. Agora estava claro: o passaporte a ser produzido em nome de Sérgio Manreza seria para Pedro Paulo utilizar; ele estava ali, na foto, sem barba, cabelos cortados rente; também reconheci sua letra na assinatura que deveria usar e eu deveria falsificar. Dedução: provavelmente Pedro estaria para ser libertado e quando isto ocorresse iria para outro país ou viver na clandestinidade com outro nome. O fato de estar falsificando o passaporte, e não a carteira de identidade, indicava fuga para outro país.

Fiquei comovido: falsificar o passaporte da pessoa querida foi um ato de extrema gentileza da direção do grupo, que desconsiderou as severas e minuciosas normas de segurança, sempre sugeridas e, por todos, obedientemente acatadas; para mim, tal ato, foi de uma generosidade e solidariedade ímpar, demonstrada por pessoas que corriam permanente risco de vida em função do que acreditavam, mas que, em atos como este, apontavam a riqueza humana e os valores que regiam suas vidas e, principalmente, uma prova de extrema confiança a um alheio às suas causas. A falsificação do passaporte de Pedro, significou no momento e significa até hoje coerência com valores universais e até hoje me comove e ao qual me sinto grato.

Fui instruído, pelo Sr. Danilo, a solicitar visita ao DOPS apenas quando ele voltasse a me falar. Dois meses se passaram sem visitas a Pedro Paulo.

Em uma manhã de domingo, recebi, na feira da Praça da República, a visita do Sr. Danilo. Discretamente olhou meus quadros, apontou um e disse: “Quero este. Pode embrulhá-lo para mim?”. Não tive dúvidas: iniciei, rapidamente, o trabalho de acondicionamento do quadro enquanto o Sr. Danilo retirava do bolso um pacotinho de notas presas por um “clipes”. Não aceitou a oferta de gratuidade: “Posso pagar e, ademais, junto ao dinheiro você terá boas surpresas, penso que até melhores que o dinheiro”, disse enquanto saia. Não houve, desta vez, recomendação para que eu aguardasse tempo algum para “contar” o dinheiro. Peguei o bolinho de notas e junto a elas, preso pelo clipes, o envelope que eu havia perdido no banheiro do cinema da Rua Aurora um com um endereço anotado no verso.

Havia combinado de almoçar com o Francano e soube por ele que Pedro Paulo e seu amigo Hamilton haviam sido libertados, graças, principalmente, aos esforços desenvolvidos pelo arcebispo de São Paulo e que, fugitivos, estavam na Argélia.

Entendi, então, o estranho endereço escrito com a elegante letra do Sr. Danilo. Era o endereço de Pedro Paulo na Argélia.

Nunca, até então, havia feito uma viagem internacional e meu projeto, quando pensava nessa possibilidade, era sempre a Holanda. Sonhava, quando pensava ou falava no assunto, em conhecer a Holanda, suas tulipas, seus moinhos e sua Amsterdã tão liberal. Nestes devaneios sempre comprava passagens, de primeira classe, pela Air France, na viagem comeria salmão e beberia champagne.

Em novembro, em uma quinta feira depois do feriado de quinze de novembro, entreguei o último painel para a companhia de aviação. Logo na segunda feira seguinte deixei meu carro no mesmo estacionamento que o deixo para expor meus quadros na feira da República e de lá fui até o Copan. Revi o prédio e tomei um café no Floresta. De lá fui até a loja da Air France, na São Luiz, de onde saí com minha primeira passagem internacional: São Paulo/Paris/Argel: classe econômica.”

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, nada consta. Primeira parte: O cine Aurora

Nem bem a mulher terminou a história de Angelina, veio ao palco um homem claro, cabelos crespos compridos, já grisalhos. Tinha lá seus um metro e setenta , ou um pouco menos, ficando mais para gordo do que para magro, vestido com roupas compradas, que até destoavam um pouco da simplicidade dos outros contadores: com isso tinha mais aquela cara e jeito de quem nasceu e se acostumou em cidade grande, pouco sol no rosto, conhecedor de livros, de cinemas...

Quieto em sua timidez pediu licença para contar sua história:

“Parece mentira: quase cinqüenta anos já se foram!

Foi por volta de 1964 que saí do interior para ganhar a vida aqui na capital. O grande sonho, que era viver de meus desenhos, ainda não se concretizava e a vida era, até então, sustentada por um emprego de Auxiliar de Departamento Pessoal em uma empresa “para-estatal”, no dizer do companheiro de tantos anos, o tão querido Pedro Paulo.

O trabalho no escritório fechado, datilografando fichas de admissão, era entediante e, desta forma, a ordem para que fosse eu o encarregado de ir ao DOPS buscar informações de candidatos a emprego foi, por incrível que possa parecer, recebida com radiante entusiasmo. Quando terminava o serviço no DOPS - ou mesmo antes de lá chegar - passava por um cinema da Rua Aurora, destes que funcionam das nove da manhã à meia noite, onde assistia filmes pornográficos, me masturbava ou encontrava parceiros para pequenas orgias sexuais.

O trabalho no DOPS era simples: entregava, em um guichê próprio, a ficha com o nome do candidato a emprego e, depois, era só aguardar: quando a mesma era borrada com um carimbo ”nada consta” o processo seletivo continuava; quando não era o carimbo “nada consta” a espera era sempre mais longa, mais demorada, e o espaço reservado da ficha era preenchido com uma Remington velha: “integrante do mr8, detido quando participava da greve dos ...” ou outros que tais; quando isso ocorria o processo seletivo era imediatamente encerrado para o candidato a emprego em nossa empresa e, como mais tarde Pedro Paulo me contou, em todas as outras empresas “para-estatais”.

Naquela tarde de setembro, na ficha de candidato a emprego que levava ao DOPS constava o nome de Pedro Paulo Damascena. Passei frente ao cine Aurora, pensei em entrar, mas o movimento estava fraco; resolvi primeiro ir ao DOPS cumprir minha obrigação: “primeiro a obrigação, depois a devoção” diria meu pai, a quem àquela hora, achei por bem obedecer.

Saí do DOPS com o envelope no bolso e fui direto para o cinema; a demora na devolução denunciava alguma coisa além do simples “nada consta”.

O curso de Belas Artes, que até então não me ajudava em nada para ganhar a vida, tinha suas utilidades: desenvolvi uma incrível competência em desenvolver colagens, manipulando fotografias ou gravuras, assim como abrir envelopes e os fechar sem deixar suspeita, e, com isso, alimentar perversas curiosidades.

E foi assim, naquela tarde de setembro, no banheiro do cine Aurora, que cuidadosamente abri o envelope para ler o “verdictum” com o qual o DOPS havia presenteado o Pedro Paulo. Nenhuma surpresa. Como havia previsto, baseado na demora da devolução, a velha Remington havia funcionado: “tem amigos e mantém contato com agentes comprometidos com a guerrilha urbana, foi presidente de Centro Acadêmico que liderou atividades de esquerda na Universidade e participa, regularmente, de reuniões do PC; há fortes suspeitas de liderar o grupo responsável pela impressão e distribuição de folhetos subversivos para sindicatos do ABC.”

Pensei na hora: “Pedro Paulo, se depender deste emprego, está ferrado”; o que era uma pena para moço tão bonito: alto, loiro, cabelos encaracolados, sorriso fácil e sensual escondido no meio do bigode e das barbas ruivas, dentes brancos e um enorme jeitão de bom rapaz.

Pena mesmo: “bem que poderia vir para o departamento de pessoal, trabalhar em treinamento, muito lindo” e assim pensando saí do banheiro para os escurinhos do cinema à procura de alguém disponível. Em um cinema com tanta gente “entendida” era fácil: todos atrás de sexo, quando na verdade, talvez, estivéssemos à procura de afeto.

Mas... Mãos à obra: todas estas teorias e falações bonitas eu aprendi depois com o Pedro Paulo; naquele dia e naquela hora o que eu queria era achar e agarrar um homem, o que não foi difícil. E, em um banheiro sujo e escuro do Aurora, mais uma sessão de sexo aconteceu.

Com dor na consciência pelo pecado cometido, saí do cinema decidido a me confessar no próximo domingo, antes da missa das nove. A atividade sexual em local tão impróprio do ponto de vista da comodidade, me deixava, sempre, extenuado. Entrei em um bar para um guaraná refrescante; ao gelo do guaraná que, gostosamente, refrescava minha garganta um outro se esparramou por todo o corpo: o envelope que levara ao DOPS não estava em meu bolso.

Deixei o restante do guaraná no copo, corri de volta ao cinema, comprei ingresso e fui ao banheiro que havia freqüentado há pouco: nada! Suava frio e me pus a rezar quando fui abordado por um senhor já idoso que me ofereceu dinheiro para um programa, mas percebendo meu estado, desistiu. Procurei pelo lanterninha e com sua ajuda buscamos o envelope entre as fileiras de assentos, no banheiro, nos corredores e não encontramos.

- “Talvez de madrugada na hora da faxina, o Senhor Alfredo encontre seu envelope. Pode deixar que eu falo com ele.”, disse, prestativamente o lanterninha.

Implorei:

- “Se ele encontrar, peça, por favor, para não abrir, é sigiloso; dou uma boa gorjeta se me devolverem”.

Saí do cinema sob o olhar lascivo do idoso senhor!

Agora era só rezar... Fui para a Igreja da Sé e, antecipando a necessidade de confissão, contei os pecados cometidos, mas omiti a história do envelope – afinal aquilo não era pecado - e obtive o perdão; com a alma mais leve fui para casa, um quartinho de pensão no Bexiga, e, para desanuviar ainda mais a alma me pus a pintar.

Dia seguinte cheguei cedo ao trabalho. Retirei, furtivamente, da pasta de um empregado, ex-padre, seu atestado com um “Nada Consta”, pedi autorização ao chefe para realizar serviços externos e saí à busca de uma empresa de serviços de cópias, onde pedi quatro fotocópias do documento.

De lá, com um fiozinho de esperança, corri até o Cine Aurora. E sobre aquele derradeiro fio de esperança, o bilheteiro jogou um balde de água fria: o envelope não havia sido encontrado. O senhor idoso estava por lá, procurou prosa, mas eu, movido pela frustração de não ter encontrado o envelope e pela ansiedade das providências a serem tomadas, fui grosseiro:

- “Quem gosta de velho é reumatismo”.

Ofendido o velho senhor respondeu com um olhar, antes tão lascivo, de pena e comiseração.

Saí rápido do Aurora.

No escritório, graças à minha habilidade e aos conhecimentos adquiridos na Escola de Belas Artes, a ficha de Pedro Paulo ganhou um “nada consta” e dois dias depois, numa quinta feira, fui o encarregado de entregar a ele a lista de documentos que teria que providenciar para seu registro como empregado na empresa em que trabalhava.

No domingo, na Praça da República - onde expunha meus quadros na “feira hippy”, recebi a visita de Pedro Paulo. Ele estava com um bando de amigos, todos barbudos, que, com ares compenetrados viram e, pelos comentários, gostaram de meus quadros: “pinturas com alto senso estético, embora pequem pelo total estado de alienação e descomprometimento para com a realidade”.

E eu ouvindo e pensando: será que vão comprar? Na verdade, sendo franco, não conseguia tirar o olho de Pedro Paulo, mas ele e sua turma, indiferentes, foram embora sem nada comprar e sem Pedro Paulo dar, ao menos, um sorriso, por menor que fosse. Só um rápido:

- “Tchau! Amanhã a gente se vê”.

- “Bofe”, pensei, mas não disse.

E foi só isso que de ruim aconteceu naquele domingo; logo depois vendi três quadros e concluí que só podia ser o Pedro Paulo que me dava sorte: ”três quadros vendidos em um só dia. Demais da conta de bom. Vou continuar pintando sem o tal comprometimento para com a realidade: bando de bofes! Uau!!!”, disse em voz baixa.

Saí da feira, guardei os quadros não vendidos no carro, almocei macarrão com frango e tomei dois guaranás. Estava radiante!

Semana seguinte Pedro Paulo foi admitido na empresa e começamos a nos encontrar na hora do almoço. Após dois meses de convivência resolvemos morar juntos.

Outro fato surpreendente ocorreu: eu havia sido o vencedor do concurso de uma empresa de aviação para desenvolver painéis que seriam usados para decorar suas lojas espalhadas em quase todas as capitais do país; isso exigiria, no mínimo, um ano de trabalho e mais dinheiro que receberia por uns cinco anos na empresa em que datilografava fichas de admissão: deixei o emprego; a isso devo acrescentar que meus quadros, expostos aos domingos na Feira da Praça da República, estavam vendendo razoavemente bem.

Mudamos para um apartamento maior, na São Luís.

E era lá que, durante o dia, enquanto Pedro Paulo trabalhava, eu pintava meus quadros e desenvolvia os painéis para a empresa de aviação. À noite saíamos, e quando não íamos ao cinema, Pedro Paulo recebia seus amigos barbudos: todos sabiam de nossa relação e a única exigência, imposta por Pedro Paulo, era que evitássemos a troca de carinhos na presença do grupo. Mas era em nosso apartamento que, sempre à noite, aquele grupo de barbudos se reunia, falavam muito, discutiam, liam e redigiam; eu pouco entendia e, de verdade, pouco me interessava por tão inflamadas discussões; o que e discutiam era, para mim, um mundo distante, incompreensível e eu aguardava, ansioso, o final das reuniões para, a sós, demonstrar meu afeto e perceber o amor que nos unia.

E a vida ia passando...

E foi assim, com a vinda passando e passando sem a gente perceber, ou dar fé o quanto ela passava, que, em uma semana qualquer de abril, Pedro Paulo teve que fazer uma viagem a trabalho; aproveitei para visitar duas lojas da empresa de aviação, no norte do país, onde o projeto estava se iniciando. Foi Pedro quem me levou ao aeroporto para, de lá, iniciar sua viagem pelo interior do Estado.

Voltei no sábado, como havia planejado, e estranhei não tê-lo encontrado no aeroporto à minha espera. Um frio enorme percorreu meu corpo: uma dor profunda e uma angústia indescritível se apoderou de mim. Tomei um táxi e fui para o apartamento que encontrei vazio.

Pedro Paulo sempre me recomendava que, por segurança, caso ele desaparecesse eu deveria silenciar-me por completo e não procurar por ele. Eu achava aquelas recomendações absurdas, incompreensíveis e sempre o questionava porque cargas d´água ele haveria de sumir? Que coisa mais absurda alguém desaparecer! Me alterava, elevava o tom de voz, prenunciando o fim da discussão, e, um pouco birrento, reconheço agora, dizia que se o motivo do desaparecimento fosse eu que achava mais adequado e correto ele me dizer, que não entendia e muito menos queria entender esta história de desaparecimento, e ponto final...

E agora não tinha a menor idéia do que fazer.

Mais de um mês se passou.

O desaparecimento de alguém que queremos bem é pior, muito pior, que sua morte na medida em que o desaparecimento não contempla a concretude definitiva da morte, que, de alguma forma, conforta. A indefinição do desaparecimento nos deixa como em uma montanha russa: alternam-se repentinamente os baixos momentos de profunda desesperança, com os picos da certeza do encontro próximo...

Em um domingo, na Feira da Praça da República, onde expunha meus quadros, recebi a visita do velho senhor do Cine Aurora. Pela maneira como iniciou a conversa devo ter demonstrado surpresa e estranhamento:

- “Por favor, fique tranqüilo. O que preciso lhe falar é sério e não tem nada a ver com o Cine Aurora. O que vou lhe dizer é bom e é também ruim e, por isso, peço que evite demonstrar seus sentimentos. Procure agir como seu eu estivesse interessado na compra de um quadro e que você quer vendê-lo. Se concentre nisso, por favor. Posso falar, está preparado?”, disse com a voz tranqüila, embora firme e severa, o velho senhor.

Olhei para a respeitável figura: tinha a doce expressão dos avós, estava elegantemente vestido em suas calças jeans, camisa pólo e com seus cabelos brancos bem penteados.

- “Claro, diga. O que o senhor tem a me dizer?”.

- “Conheço o seu Pedro Paulo, que é muito amigo de meu filho. Estão, ambos, presos no DOPS, acusados de subversão. Eu os visitei e estão bem, se se pode de dizer isso: estão vivos, o que já é uma graça.”, disse emocionado.

Tive certeza que aquele elegante senhor não mentia e procurei controlar minhas emoções:

- “Quero vê-lo, preciso visitá-lo. Como fazer? Faço o que o senhor me ordenar, mas preciso vê-lo hoje. Faça-me o favor!”.

Fui educadamente interrompido:

- “A gente almoça juntos e vamos ver o que se pode fazer. Agora faça de conta que estou comprando um de seus quadros. Venda-o pelo preço que vou te oferecer; meu endereço está junto com o dinheiro que vou te pagar; espero por você às treze horas.”, e, imediatamente apontou para uma de minhas telas favoritas perguntando pelo seu valor.

- “São dois mil reais. É uma tela...” fui, mais uma vez, delicadamente interrompido:

- ”Dou por ela mil e quinhentos reais em dinheiro, aceita?”, disse ao mesmo tempo em que tirava da carteira um pacote de dinheiro, com as notas presas por um clipe. “Não há necessidade de conferir o dinheiro. Está certo. Pode me embrulhar a tela? Tenho que ir, tenho fome.”

Peguei o pacote de notas, coloquei no bolso, embrulhei a tela e ao entregá-la ouvi:

- “Não tenha pressa em saber o endereço.Temos tempo porque moro perto: daqui até minha casa é um pulinho. Até mais.”

O pacote de notas, colocado no bolso, queimava minha perna, me incomodava, ardia. Mesmo assim, obedecendo ao pai do Hamiltom, aguardei um pouco, controlando a insuportável ansiedade de, finalmente, encontrar alguma coisa de concreto a respeito do tão querido Pedro Paulo. Por volta das onze e meia, não conseguindo mais suportar tanta ansiedade, embrulhei os quadros restantes e fui ao estacionamento onde os acomodei na porta malas da velha DKV.

E só então, sentei-me no banco dianteiro da perua, e tirei do bolso o pacote de dinheiro. Junto do monte de notas presas por um clipes, havia um papel com o endereço e uma foto de Pedro Paulo junto com seu amigo Hamilton. E eu emocionado, fiquei ali, absorto, chorando descontroladamente, confuso, sem saber realmente se chorava de felicidade ou de tristeza! Chorei muito, chorei em silêncio, um choro só meu, com soluços compridos que enchiam todo o corpo e lágrimas quentes que inundavam meu peito !