quarta-feira, 2 de maio de 2012

PROFUNDOS SERTÕES - I - DUAS ALMAS PENADAS.

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“- Cemitérios gerais
que não toleram restos.
- Nem mesmo um pouco que se possa
encomendar ao céu ou ao inferno.
- Eles, todos os restos
da mesma forma tratam.
- Talvez porque os mortos que têm
não tenham tal resíduo, a alma.”
“in” Antologia Poética, “Congresso no Polígono das Secas (Ritmo Senador; sotaque sulista)”, João Cabral de Melo Neto, pag. 88.
Secura quente: impiedosa com os homens, com tudo: com os matos, com os bois e suas fêmeas vacas, com o bode de costelas pontudas à mostra, cozinhando ao sol, querendo escapulir pelo couro afora; impiedosa com a cabrita de tetas vazias e os cabritinhos filhos, famintos de leite, berrando méeee! méee! desafinados, agudos! e ao mesmo tempo socam, com a cabeça pequena, sem dó nem piedade, no limite de suas forças fracas, a teta murcha da mãe cabrita - teta mais parecida com um jenipapo maduro de tão enrugada, mole, oca por dentro, sem leite: seca, seca. Os olhos dos bois, das vacas, do bode, da cabrita e dos cabritinhos vigiam o córrego seco, poeirento, sem água: tudo seco e seco e quente, muito quente. E foi às margens do córrego seco que se amontou aquele bando de ossos, puro ossos, nada de carnes, ossos parecendo espadas enfiadas dentro de peles opacas, sem brilho – tanta sede – : cada bicho, filho de Deus, se assemelhando a um fantasma mal desenhados de torto; andam e olham devagar, economizando energias e buscam, passos lentos, solidários em sua miséria, a sombra da quixabeira. E cadê Deus? Deus não é sertão? Ali perto, encostado mesmo na quixabeira, só que na outra margem do córrego, solitários postes de cimento, quentes, enfiados no chão da terra há anos para cercar a casa da bomba que ia chupar águas ali daquele córrego para jogar longe, para quem dela necessitasse – homens, terras, vacas, cabritos e jegues, lavouras de milho e de aipim - : “tudo aguar e acabar, de vez, com as securas quentes do sertão”: palavras do engenheiro do governo, apressado de voltar logo, tanta quentura e silêncio: veio e voltou em um jipe preto da policia, vestido com calça azul, bonita, sapatos de tênis e uma camisa cor de rosa onde se via bordado um jacarezinho verde, boquinha aberta, pouco acima dos peitos do engenheiro.
Urubus! Se equilibrando nas pontas dos sete postes de cimento, enfiados ali sabe Deus há quanto tempo, naquele mundo de sol quente e de tristes mandacarus, para cercar com arames farpados a casa da bomba, agora, tão vazia quanto o córrego seco, sete urubus esperam comida, “que pode atrasar mas sempre chega”, assuntam eles entre eles mesmos dentro de suas roupas negras, cabeças encimando os pescoços cinzentos, enrugados, bicos curvos que nem do carcará. Quietos, pensativos, esperançosos de carniça comível, os sete urubus. E se fossem assustados, afugentados, tocados do alto daqueles postes de cimento colocados ali no meio do sertão pelo governo para cercar a casa de bombas, por alguma alma qualquer? Mas que diabo de alma é que poderia assustá-los ali naquele cerne ignoto do quente sertão de ninguém? Quem os assustaria? Oras, quem? tanto poderia ser um cabra ou um jagunço que por ali estivesse a passar, e cansado, enxergando a verde quixabeira sonhasse em desfrutar de sua sombra fresca ou então a cachorra Baleia, se ela tivesse resistido e não tivesse morrido de tiros de espingarda nas vidas tão secas do sertão. Delírios: e então o homem, Fabiano, e Baleia querendo descansar de suas retiranças na sombra da quixabeira, vendo os urubus negros iriam querer sumir com eles dali de perto de seu descanso: ele grita rouco “Choooo! Chooo urubus!” e a Baleia late fraco “Au! Au...” balança o rabo, mostra os dentes brancos na boca pequena e seca d´água. E os urubus, sem medo daquelas forças fracas do homem e da cadela, os dois – cachorro e homem - puro ossos, apenas por atávica obediência às ancestrais leis da natureza, deixam, contra suas vontades, o repouso equilibrado nas pontas dos setes postes de cimento e voam um voo quieto, calmo e silencioso, baixo, sem a força dos ventos que não sopram ali no sertão: tudo parado. E a Baleia, não fosse o cansaço e a fraqueza, latiria mais “Au! Ai! Au! Caimmm!” e, dentes à mostra, furiosa, correria querendo morder as sombras das aves que, projetadas pelo sol quente, dançam silenciosamente em cima do chão seco, assombreando e escurecendo ainda mais as bromélias rubras, os xique-xiques, as espinhudas cabeças de frade, os croás e as pedras arenosas daquele pedaço de sertão adusto. Mas, é bom que se diga: Baleia quer é descansar à sombra da quixabeira: e deita, enfiando a cabecinha pequena entre as patinhas e pensa: “careço de descanso para encompridar o fio da vida, esticado e fino”. Ela sabe e sente. E o homem? Fabiano assusta-se, e com razão, pois se a Baleia não estivesse economizando suas forças de viver e, se esquecendo de tudo, seguindo seu costume de sempre, se pusesse a correr, querendo caçar e morder as sombras dos sete urubus ele, homem crente em Deus, veria de perto – “com os olhos que Deus me deu e que Santa Luzia cuida e zela” - coisas do Demo, do capeta: “caduco, eu? a fome e a sede agora deram para tapear meus olhos, meus enxergares? Só pode ser coisa do capeta sete urubus voando no céu e aqui na terra quente de arder apenas cinco sombras? Ou será que contei errado?”; temeroso de estar caducando, esperançoso de ter se enganado, resolve testar se seus olhos  enxergavam com correção as sombras dos sete urubus afugentados e resolve tornar a contar, agora com a ajuda dos dedos das mãos; não quer errar aqueles números de urubus voando e suas sombras dançando no chão: números que não estão certos e, para não errar, vai contar não só com os olhos, logo ele sempre tão esperto e elogiado em contar cabritos e vacas, carecer agora da ajuda dos dedos das mãos para contar sombras de urubus. Então, viu uma sombra, marcou bem como sendo a primeira, encolheu o dedão grosso da mão esquerda e contou : UM; outra sombra agora em cima do xique-xique e o indicador encolheu-se junto do dedão e ele contou DOIS; e foi a vez do maior de todos os dedos se encolher fazendo cócegas na palma da mão e Fabiano contou TRÊS tão logo a outra sombra enegreceu a bromélia rubra, e depois foi a vez do "seu vizinho" perto do minhguinho e longe do indicador - que nunca se deve apontar para as estrelas porque nasce verrugas no rosto - se encolher e ele contou QUATRO e até que chegou o minguinho, pequeno, com a unha comprida boa de limpar o nariz de suas porcarias e uma sombra de urubu cobriu o croá e ele contou CINCO. Não mais sombras: Cinco. Só e apenasmente cinco sombras de sete urubus que sobrevoavam a quixabeira e a casa de bombas ao lado do córrego seco. Como pode? Não, não pode. De novo, agora tenso, medroso de sua caduquice – “não tenho assim tanta idade para caducar, só pode ser a fome” – recontou: CINCO sombras no chão e sete urubus voando e voando. Baleia dormia à sombra e o homem temeroso do que acontecia aquietou-se e os sete urubus com suas cinco sombras voltaram a se equilibrar nas pontas dos sete postes de cimento. Reequilibram-se nas pontas dos postes e se põem a cutucar, com os bicos curvos, as penas das asas, se asseando das poeiras e de outras sujeiras.
Baleia dormia e sonhava e, foi então meio sonhando e meio dormindo que ela espreguiçou-se toda, se esticou para tudo quanto é lado, falou: “num tá maluco não: contou direito com a cabeça e com os dedos da mão. O que tem é que neste bando de sete urubus, tem dois que comeram carniça humana, melhor dizendo, comeram os corpos magros de carnes de dois cabras mortos meio do no sertão, e de tão esfomeados que estavam de tanta ausência de comer, não perdoaram e comeram tudo, cada qual, até os corações do homens que fornecia as carniças e junto do corações engoliram, junto, suas almas. Corações e almas! E então, é por isso, só por isso, que estas duas almas penadas estão presas dentro daqueles dois urubus dali da beirada, os dois mais daquela ponta, também os mais quietos. E as duas almas penadas estão ali desde então que não se sabe quando, dentro deles: quietas, calminhas, escondidas, bem dentro do coração dos dois urubus, que desde aquele então de momento, são possuidores de duas almas: a sua própria, a alma que Deus deu a eles quando nasceram - horrorosamente feios: pelados de penas, olhos enormes querendo sair da cabeça - , de dentro de ovinhos brancos que passou a ter junto dela as almas dos cabras mortos.” Fabiano, para se distrair do medo, passou de novo a fazer contas: dois urubus, quatro almas, então os sete urubus somam nove almas: e usou , naquela nova conta, quase todos os dedos das duas mãos, faltando apenas um dedo para chegar nas dez almas. “E tem mais:” continuou Baleia, agora toda prosa de seus conhecimentos, “estes dois urubus, eu acho que pelo peso de carregar mais de uma alma em seu corpo, sofreram transmutações em seus corpos. Como assim? Um momento, calma, explico: o sol e seus raios quentes atravessa os seus corpos adentro, se enfiam por lá e não voltam para fazer sombra; fica igual a gente – cachorros, homens, árvores, montanhas - quando acontece o meio dia: o sol vem e se enfia pela nossa cabeça a dentro se esconde em nossos profundos, junto de nos nossos corações e de nossas almas e fica por lá esquentando e aproveitando do calor de nossos corações se esquece de voltar para gerar a sombra; e é por isso que o sol do meio dia é mais quente , quente de sol sem sombra, iguais destes urubus aqui de perto de nós, com uma diferença: é que neles, nestes dois urubus , o sol sem a sombra se esconde a qualquer hora do dia e os corpos dos urubus de duas almas, dos que não têm sombra, estão dia e noite a guardar todos os sóis dentro deles e toda a quentura do sol fica lá no meio das suas almas, esquentando as duas e guardando luz para, de noite, fazer brilhar, de dentro de seus olhos, uma lamparinazinha parecida com a dos vaga-lumes, que é assim que os urubus de duas almas orientam caminhos ou assustam os cristãos passantes. Carece ter medo não”.

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