terça-feira, 29 de maio de 2012

PROFUNDOS SERTÕES–III–FOI QUANDO A OUTRA ALMA PENADA CONTOU DO ENCONTRO DAS MORTES!

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“A primeira vítima foi um cabo do 9. Morreu matando. Ficou trespassado na sua baioneta o jagunço que o abatera atravessando-o com o ferrão de vaqueiro. A onda assaltante passou sobre os dois cadáveres” - “in” Cunha, Euclides, Os Sertões, pag. 348

Me apresento: Fabrício do Cocobocó é o meu nome; cabra vaqueiro foi a minha profissão: conheci, quando em vida, todos os recantos destes sertões; sentia e podia recitar todos os seus cheiros das vezes tão santamente delicados, seus sabores agrestes, salobros e áridos de tanta secura, conhecia seus perigos para quem está vivo e suas belezas, sendo que estas, as suas belezas, costumo apreciar mesmo agora, sem vida viva que é como estou; sim, porque o sertão tem, para quem aprecia silêncios e noites estreladas, belezas que enchem a alma de felicidade, quase fazendo se esquecer das agruras das secas, das mortes e das doenças. Sertões! Mas como dizia: minha vida se baseava no trabalho de vaqueiro nas enormes fazendas e posses que iam além dos horizontes visíveis, propriedades do coronel Bartolomeu; terras e mais terras: sertões, planuras, chapadas, chapadões e gerais que eu, montado em animal valente, pernas vestidas com perneiras de couro de vaca, protendo dos espinhosos ju-etê, seguia a sina de vaqueiro: nos tempos de paz escanchado atrás das pegadas deixadas pelos garrotes, vigiando os rastros, rastreando as marcas deixadas nos matinhos dobrados, amassados, pegando garrotes fugidios ou rezes perdidas em vaquejadas trabalhosas de muita ajuda entre vaqueiros, noites de conversas do dia acontecido entre vaqueiros: se fala e se conta casos de amor, de assombrações, da caipora, de tudo até o sono chegar; quando os tempos não eram de paz, obedecia as ordens do patrão e aí seguia os rastros de cabras que mereciam as mortes por punhal ou pelas balas do bacamarte, matava e a cada morte fazia um risco no cabo de madeira do bacamarte: era meu jeito de contar os mortos por chumbo do bacamarte ou, quando se precisava de silêncio, pela lâmina afiada do punhal. Muitas mortes: mais de uma dúzia de riscos no cabo da bacamarte; sempre, é preciso se afirmar, sempre seguindo as ordens do Coronel: mortes por dinheiros, por invasões de pastos, por roubo de gado ou por causa da coragem ousada de alguém de bolir com suas filhas: tinha duas, muito iguais, flores de lindezas, princesas em suas brancuras, olhos castanhos esverdeados, sobrancelhas negras e contrastantes nos rostos claros da falta de bater sol, lindas, as duas, nos cabelos longos descendo as costas quase chegando nas alturas da bunda; demais de bonitas mas, aqui eu comigo mesmo, tinha medo até de pensar besteiras: vai lá que o Coronel, como dizia Chico Ema, sabe ler os pensamentos: Deus me livre e guarde! Nem nos pensamentos eu boli ou desejei as carnes brancas das filhas do patrão: Medo! Vontades menor que o medo. E foi chegado uns tempos que o coronel passou a ter interesses na Chapadas da Diamantina: de lá, da Chapada, se ouvia contar das minas de diamantes, das riquezas possíveis que rolavam meio as pedras redondas do rio Pati, um rio que corre depressa, cheio de água marrom, em cima das pedras redondas; rio Pati de muitas cachoeiras onde as águas quando caem espumosas tapeiam as vistas parecendo trocar a cor marrom pela branca; rio de muitos variados peixes bom de se comer: farturas! Na Chapada, tanto em Mucugê como em Andaraí, para onde patrão me mandou, meu trabalho era menos de vaquejar e mais de seguir rastros de cabras: sempre em obediência ao Coronel, e posso dizer que lá, por aquelas bandas fiz mais de uma meia dúzia de riscos na bacamarte: matados com tiros, matados com meu facão jacaré, com meu punhal afiado ou com a longa parnaiba que nada mais é que uma espada usada por nós os vaqueiros. Mortes nos sertões! Muitas! Demais de mortes! Estava vivendo assim, com muitas mortes, até que chega um dia quando eu estava na casa das mulheres da vida em Mucugê, recebi a visita de Estevão, cabra da mais inteira confiança do patrão: “Coronel mandou te chamar” e eu larguei as doçuras dos carinhos de Maria da Conceição e tomei rumo da sede. Longas distâncias, muitos pensares: "que quer o coronel de mim? tenho matado direito, sem deixar rastros, cumprido todas as mortes encomendadas; será que já me acha velho para os serviços que precisa? Será que ele pensa que a velhice já chegou e não presto mais para perigos? Que velhice que nada: Maria da Conceição diz que, na rede, quando me encosto em seus peitos, sinto seus lábios mais me assemelho a um garrote novo. Danada de bonita a Maria da Conceição: se fosse homem de parar e me conformar em viver em um lugar só, ter uma casa, me casaria com ela. Gosto dela! Mas, para saber mesmo o que o Coronel quer de mim, só chegando e palestrando: vou mais de antes é escutar e escutar, entender o que o coronel quer de mim: ouvir o capim crescer e não falar bobagens de comprometimentos. Quieto!” Viajei e viajei: apreciei mais andar nas noites claras de lua cheia que no dias de sol quente do agreste. Conhecia os caminhos, todos: rios secos, atalhos, evitei de passar nas terras dos inimigos do patrão, podiam querer vinganças. A lua cheia foi diminuindo, as noites foram ficando escuras, negras e tornei a viajar durante o dia: sol quente, cavalo cansado, a fome apertando os dois: comi calangos, periás e cortei palmas, retirei os espinhos e dei de comer ao cavalo. Cheguei na sede e o Coronel me recebeu na varanda. Li em sua cara, antes mesmo dele iniciar sua conferência, que eu tinha sua confiança: seu bigode não tremeu em riba da boca e ele não demorou a contar o que queria: “Fabrício, vaqueiro bom: preciso de seus serviços! Careço de um cabra como você: honesto e cumpridor de ordens, mas corajoso e sem medos de matar e morrer. Preciso que você tire esta roupa de vaqueiro e vista a roupa azul do Exército Nacional da República do Brasil; é isso vaqueiro Raimundo, porque somos hoje uma República, a monarquia se foi, rabo entre as pernas, fugida para o Portugal das Europas, de onde nunca devia ter saído, e preciso de você na defesa da República contra os perigos que corre pelas ações dos bandidos do Antônio Conselheiro em Monte Santo e em Canudos. E é para lá que eu quero que você vá agora cumprir outras tarefas. É o que quero e preciso.” Troquei de vestimentas: tirei o gibão e o chapéu de couro em troca de um boné e um blusão azul, de algodão, os dois largos, sobrando panos na cabeça e nos peitos; desvesti as luvas de couro e os guarda-pés e vesti calças azuis e uma botina de nome estranho: coturno: apertava os dedos, dificultava o andar. Deixei o cavalo e viajei de trem: junto de mim, outros soldados, todos de azul: louros alguns com conversas de difícil entendimento, manias estranhas, diferentes. Fomos, soldados da República, de trem. O trem parou estacionado em Queimadas: soube que nos começos era mais para eu rastejar meio das caatingas na procura dos rastros dos homens soldados do Antônio Conselheiro, nossos inimigos a partir daquele então, a partir daquelas ordens! Viva a República! E uma manhã o homem Capitão, branco de dar medo, bigodes enormes cobrindo a boca, quase chegando nas orelhas, calças largas parecendo saia de mulher ordenou em sua lingua um pouco diferente da minha: “você conhece o agreste, sabe das manhas dos bandidos: abre caminho, descubra atrás de que espinhos, de que matos e de que pedras eles se escondem”. E saí a procura, não mais de rezes e de cabras que boliam com a filha do patrão, mas sai, naquela hora atrás dos bandidos que queriam arruinar a República Federativa do Brasil. E foi então que nas gargantas do Cambaio encontro Quinquim do Caiaqui, todo emboscado: parecia um teiú marrom, roupas de couro, enfiado no meio das pedras, muito acima do Vaza Barris, apontando a espingarda de chumbo. Me viu. Vi que ele me viu! E a gente se viu caminhamos devagar, um pro lado do outro, pés pisando quietos igual o voo da coruja, olhos sem piscar, atentos, cada um em direção do encontro do outro sem medo nenhum: Viva Bom Jesus! Viva a República! Tão perto que cada um sentiu o cheiro do outro; uma pontada forte e vi minha barrriga abrir, meus buchos saltar fora do corpo, barriga abaixo, se arrastando e fedendo tudo de bosta: foi a força do corte do facão “jacaré” de Quinquim; Viva Bom Jesus! E então, eu, com os buchos de fora procurrei todas as forças que tinha e enquanto as merdas se esparramavam pelo corpo, sujando as calças azuis do Exército da República do Brasil, atravessei seu peito com a baioneta: Viva a República! Viva Bom Jesus! Viva a República...Viva Bom Jesus! Viva...E naquele dia não risquei meu bacamarte com mais aquela última morte. Morri! Morremos! Foi assim, não foi? Ainda se lembra, Quinquim?

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