terça-feira, 17 de novembro de 2009

A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina


A preguiça triste de entender o mundo anda a me perseguir, parecendo não querer mais se desgrudar de mim. Não tenho forças sobre ela, que anda a me dominar, e, ainda bem, que o sol penetra forte sob as flores amarelas do ipê, aquece minha cabeça e meus ombros neste frio mês de agosto. Vou dividir, penso, estes últimos seis cigarros do maço de Continental com o Orozimbo, que chega em seu terno marrom, camisa azul com o colarinho puído, os punhos encebados e a gravata preta cobrindo o peito magro.
Começamos a fumar e leio para Orozimbo:
“– Cemitérios gerais
onde não só estão os mortos.
- Eles são muitos mais completos
do que todos os outros.
- Que não são só depósito
da vida que recebem, morta.”
Terminei a leitura e nem perguntei a Orozimbo se havia gostado. Sabia que a resposta seria um NÃO, assim mesmo, com letras maiúsculas. Sabia também, que tomaria rápido, de minhas mãos, a Antologia Poética, do João Cabral.
E foi mesmo o que aconteceu: em troca me passou sua Brochura com o Duque de Caxias enfeitando a capa.


MARIQUINHA PRECATA CONTA A MUDANÇA DE DURVALINA PAR O SERTÃO DO CEARÁ.


E nada do tatu-galinha aparecer para me levar de volta à luz. Assim me restou ficar andando e andando pelos fundões escuros do cemitério. Lá embaixo continuava úmido e dava pena dos anjinhos: espirravam muito os pobrezinhos, creio que por terem seus pequenos pulmões mais sensíveis ao frio e à umidade.
Depois de boas conversas com amigos mortos recentemente e outros nem tanto voltei para o cantinho da Mariquinha Precata que é onde mais gosto de ficar para conversar e ouvir suas histórias.
- Conte mais de sua irmã Durvalina, Mariquinha? pedi.
- Conto, Orozimbo. Mas você não acha que esta história da Durvalina está muito comprida, parecendo “O Direito de Nascer”?
- Você escutava O Direito de Nascer, Mariquinha? Gostava?
- Gostava muito. Não perdia um capítulo na Rádio Nacional. Assim que ia começar a novela eu ia ao alpendre, desrosqueava para apagar a lusinha vermelha, sinal de que eu estava ocupada em minha profissão de puta. No horário da novela não atendia. Naquele horário, só tinha uma vez na semana, e acho que era nas quintas feiras, que vinha o Seu Tonico me usar. Ele dizia que era a única hora que sua mulher, a Dona Alice, com os ouvidos e a mente grudados na Rádio Nacional, o deixava livre. Mas, veja bem Orozimbo, era já antes tudo combinado: deitava com ele, aceitava ele em minha cama para fazer uso de mim, mas com o rádio ligado na novela. Aí eu fingia movimentos e sons mas a minha atenção mesma, estava toda no Albertinho Limonta, em sua voz doce, linda. Seu Tonico terminava seus prazeres, enfiava sua calça de linho, punha o dinheiro do pagamento em cima do criado mudo e eu continuava a ouvir O Direito de Nascer e só acordava daqueles sonhos quando acabava o capítulo; aí sim levantava, me lavava e voltava ao alpendre rosquear e acender a pequena luz: a vida continuava, agora sem o Albertinho Limonta e a luz vermelha acesa era o sinal que estava livre para prestar meus serviços a outro freguês.
- Danada você Mariquinha...
- Mas Orozimbo, não vamos perder o assunto da história de minha irmã Durvalina, agora toda casada de papel passado.
Como ia te dizendo, e já te contei outra hora, lá se foi minha irmã Durvalina e seu marido, o peão João, cuidar da fazenda do patrão Sebastião, no sertão do Ceará, bem longe, muito longe. Pois foi ela, a Durvalina, quem me contou que gastaram mais de uma semana em cima do lombo de cavalo e do banco da carroça com a mudança, até a Fazenda Santa Generosa. A carroça, puxada pelo burro Zeloso, estava carregada: mais de um saco de farinha de mandioca, uns dois sacos de arroz, carne de sol salgada e seca, feijão, dois corotes de água, a trouxa com as roupas e as tralhas de cozinhar e comer; de vivo, na carroça, dois porquinhos, duas galinhas e um galo índio. Ao lado, curioso com a mudança, ia o Vinagre, cachorro de estimação do João, muito ensinado e ia também o Pangaré, cavalo grande, muito importante, alazão, acostumado com as lidas de gado. Durvalina e João viajavam mais tempo na carroça, outras horas iam montados no Pangaré e andavam também a pé quando o terreno era plano, sem morros e subidas fortes; mas a pé era mais de manhã, quando o sol castigava menos.
Chegaram na Fazenda Santa Generosa e se acomodaram, inicialmente, em uma tapera de pau a pique, à beira do morro do Chapéu, perto do córrego de Santa Luzia: descarregaram a carroça, soltaram o Pangaré, os porquinhos e as galinhas, armaram suas redes e ajeitaram a taipa do fogão.
Vida nova, longe de tudo e de todos.
João ia cuidar de mais de duzentas cabeças de gado, todas branquinhas, orelhas compridas, cara de assustadas com seus enormes olhos negros. Também roçou pasto e preparou a roça para a lavoura de mandioca, e ajudou Durvalina a bulir e remoer a terra para plantar a pequena horta, nos fundos da casa, perto do córrego. Durvalina, cuidava dos porcos, das galinhas, capinava e plantava a horta.
De noite eram amores, ela me disse. Era hora, também, ela me disse, de escolher os nomes dos filhos que viriam: João o dos meninos e ela das meninas: Romualdo, Cícero, Carlos, Paulo, Reinaldo...Rosa, Virgínia, Deolinda, Ana Maria...“Quantos filhos você quer ter, Durvalina? Eu quero pelo menos uns seis: três meninos e três meninas”, cochichava ao pé do ouvido, João. “Também quero muitos filhos, João. Até uns oito eu quero. O que Deus mandar eu aceito” respondia, também, com o hálito quente ao ouvido do marido. E dormiam pensando na família que teriam , no barulho e no choro das crianças, nas preocupações com seus estudos. “Teremos que voltar, Durvalina, aqui não em escola”. “Tem tempo, quando for hora a gente resolve, João”. E Durvalina voltava para sua rede, agora para dormir mesmo.
O primeiro São João passaram lá mesmo, sós, na Fazenda Santa Generosa. Ano seguinte àquele não: resolveram passar o São João na antiga fazenda. Aproveitaram para ver os parentes, dançar na festa de São João e Durvalina consultar benzedor famoso daqueles lados:
- “Porque não me embarrigo de filho, seu Eliseu?”, perguntou Durvalina.
- “Vocês tem tentado sempre? Faz quanto tempo?”, pergunta sério o benzedor Eliseu.
- “Afora os dias da regra, sempre, todas as noites Seu Eliseu?”.
Seu Eliseu receitou uma raizada e a esperança voltou.. Voltaram para a Santa Generosa: na garupa do Pangaré, Durvalina carregava cortes de chita, um chapéu novo do João e duas garrafas com a raizada.
- “Pedro, Fábio, Luís, Márcio....” dizia João. “Marta, Cristina, Lúcia, Aparecida...” continuava Durvalina; esta era a, de sempre, conversa dos dois abraçados em uma só rede, naquelas noites na Fazenda Santa Generosa.
No outro São João voltaram ao Seu Eliseu. “Só pode ser praga! Jogaram praga e secaram seu bucho, Durvalina. Pode ser coisa da patroa, de inveja. Procure Sinhá Benedita, negra velha que desmancha estes nós de mau-olhado. O meu saber termina aqui.”,
Na garupa do Pangaré, desta vez, Durvalina levava cortes de chita e novelos de linha grossa, dúzia e meia de velas brancas, uma dúzia de velas pretas, das grandes, um terço, ramos de cipó cabeludo: receita da Sinhá Benedita para acabar com o mau olhado que a patroa havia jogado no bucho de Durvalina, secando-o.
Resolveram prometer que dariam aos filhos nomes de santos protetores: “Antônio, José, Benedito, Pedro....Aparecida, Luzia, Isolda, Maria...”
- Me cansei Orozimbo. Você me desculpe ma cansei, por agora, quero contar mais não. Outra hora: passe aqui.
- Ta certo Mariquinha, vou ver se acho o tatu galinha por aí...assim que der volto para saber o resto
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