domingo, 5 de julho de 2009

MUTIRÃO




Sábado, bem de madrugadinha!
Era uns tempos, aqueles, que tínhamos aulas aos sábados e as lidas na roça, também, aconteciam normalmente naquele dia: folga mesmo, das aulas e do pesado trabalho na roça, só aos domingos e dias santos guardados. Eu estava morando na casa de uma irmã para poder estudar e era uma alegria só ir para a casa dos meus pais naquele sábado com mutirão: faltar da escola, ver minha mãe e meus irmãos e por causa do mutirão, pensava, comer muito arroz doce ao meio dia.
Saímos de madrugada, bem cedinho, em dois animais: eu fui na garupa da égua Briosa, levando uma capanga com meu estilingue e uma roupinha nova que era para usar no baile da noite. Briosa era uma égua marchadeira, com a garupa tão gordinha que quase não precisava de colocar forro de tão macia. Meu cunhado ia no Brotinho: este um cavalo tordilho forte, trotador, assustado, de tudo refugava e, por isso, animal perigoso para crianças. Era lindo o Brotinho e me enchi de orgulho e medo quando, certo dia, fui autorizado e o montei para ir, sozinho, até a fazenda dos Polos para trocar milho por fubá.
Era cedo ainda, com o dia acabando de clarear, quando chegamos na casa de meus pais. Na chegada misturou, em mim, uma felicidade grande pelos carinhosos abraços de meus irmãos e de minha mãe, das lambidas do Vinagre – cachorro por demais de querido – com o espanto de ver tanta gente chegando no curral de casa, atrapalhando um pouco os afagos com os quais estava acostumado ser recebido.
Naquela manhã de sábado, dia de mutirão lá em casa, as atenções tinham que ser distribuídas...
Chegavam e chegavam pessoas pela estradinha: vinham a pé, a cavalo, sozinhos, com a família:
- “B’dia seu Juca”
- “B’dia cumpadre... e a comadre, porque não veio? Maria tava contando qüela promodi fazê o arroz doce”?
- “Lerdeza pura cumpadre...vem vindo atrás.”
E logo chegava outro e outro, todos se cumprimentando com sonoros e parcimoniosos “b’dias”; Vinagre latia, nervoso, com tanto movimento: “que será isso? de onde aparece tanta gente?” provavelmente devia estar pensando em sua cabeça de cachorro.
Entrei em casa.
Chegava da mina, onde tinha ido buscar água, um irmão, ano e meio mais velho que eu, o Homero. Rápido abraço e me convida:
- “Vamos na capoeira caçar...tá cheia de juriti por lá.”
Fomos.
No caminho até a capoeira passamos pelo córrego e enchemos a capanguinha com pedras negras e redondas, estas, sem dúvida, as melhores para, de estilingue em punho, acertar no peito as nossas futuras caças: rolinhas, sabiás, juritis, fogo-apagôs...já sanhaço, tisiu, beija-flor, alma de gato, pintassilgos e canarinhos era pecado matar. Só se matava o que se podia comer a carne.
E vem conversa:
- “O Tonho tá namorando a Maria...vi os dois na maior pouca-vergonha ontem atrás do cafezal... pai não sabe, então não conta para ninguém, viu?”, disse Homero.
-“Não conto...você sabe que não sou mixirica enredeira.”
De tudo sabia aquele meu irmão: de brigas, de afetos e desafetos, de intrigas, de namoros e de doenças... Ficava imaginando em como ele conseguia saber de tudo e o invejava; como invejava meu cunhado por conhecer todas as pessoas que encontrávamos. Sempre que íamos a cavalo por qualquer estrada, e quando lá na curva vinha um cavaleiro, ele sempre sabia quem era:
-“ Lá vem o Aníbal, do seu Chico de Barros.”
Não errava: os cavalos se cruzavam, respeitosamente paravam, cada um tirava o seu o chapéu e:
-“Dia Aníbal..como está seu pai, o Seu Chico?”
-“Dia seu Dari... pai tá bom...mandou chamar o senhor ir lá em casa, qualquer hora dessas, jogar truco.”
-“Vou sim; qualquer hora vou. Até mais, hoje estou com pressa, estou indo pro Alto Porã.”
Eu pensava: como sabe o nome de todos, a todos conhecem? Deve ser coisa de adulto e sonhava em ficar adulto logo. Já o Homero não era ainda adulto mas conhecia muito mais gente e sabia de todos os segredos.
Chegamos na capoeirinha. Estilingue em punho, agora era observar os pássaros e torcer para uma pedrada certeira. O tal bando de juritis, percebi, era invenção de meu irmão. Ficamos lá acocorados sob a copa de uma enorme aroeira a espera.
Eu era um excelente atirador de estilingue e bodoque.
Para caçar tínhamos que ficar imóveis, à espera do pouso, e procurar o ângulo que tornasse, por entre tantos galhos, possível a pedrada certeira, de preferência no peito dopássarinho. Enquanto não chegavam por lá as prometidas juritis mais conversa e alguns segredos que me estarreciam:
-“ O Feu vai roubar a Fia, esta noite no baile.”
Percebendo meu susto:
-“Ninguém sabe, só eu; vê então, se fecha esta boca. O pai da Fia, seu Chiquito, é briguento, vive com faca na cintura e você sabe que o Feu não tem medo de homem nenhum... Mas logo depois que ele cantar o Forró do Mané Vito, hoje a noite no baile, ele vai roubar a Fia.”
Feu, na verdade Alfeu, um de nossos irmãos mais velhos.
A chegada e o pouso de uma juriti no alto da aroeira interrompe a conversa. Silêncio absoluto. Paramos a conversa, os olhos fixos no pássaro e com passos pequenos e lentos, sem nenhum barulho, iniciávamos a busca de uma boa posição para disparar. O melhor era com o pássaro “de peito”: o alvo se tornava maior e a morte era certa...Estávamos, ali, quase sem respirar, buscando a melhor posição quando Homero, descalço, pisa em um espinho, desequilibra-se, força o peso do corpo no pé direito e os estalidos dos gravetos pressionados pelo seu pé afugentam a juriti.
Fico bravo:
-“Vocês estão espantando os passarinhos... estão ariscos demais. Já disse que não se atira a toa: só quando tem certeza que vai matar...”
-“Sou eu não...é o Zé do Biba que anda caçando por aqui.”
-“Para caçar passarinho tem que ter paciência. Atirar pedra a toa afugenta e eles ficam ariscos, duros de se ver de perto...”
Era a minha vingança: não sabia dos segredos das pessoas, das fugas, dos namoros e nem, como meu cunhado, conhecia e sabia o nome de todas as pessoas daquela furna enorme, mas na caça de passarinhos eu era o melhor.
Sentado sobre uma pedra , tentando tirar o espinho do calcanhar, mais assunto novo:
-“Já sei onde o Dito e o Luís Ernesto “vai” esconder uma garrafa de pinga para beber na hora do baile; sabe o pé de araticum que tem perto da mina? Pois então: bem debaixo dele.”
A informação, como sempre, seguida da orientação de que ninguém sabia daquilo, só ele, e que eu não deveria contar para ninguém.
A conversa foi, àquela hora, interrompida por um grito de nossa mãe que nos chamava para que fôssemos levar água para o pessoal que trabalhava no mutirão.
Para meu irmão estava preparado um latão de dez litros com água da mina. Para mim uma cabaça menor. E fomos até o cafezal do pé da serra, onde estavam a carpir, os convidados para o mutirão.
Cedo, de manhã, e o sol já ardia de quente naquele fevereiro de muito calor e pouca chuva.
Chegamos para servir água aos trabalhadores.
Em mutirão era assim: cada um pegava uma rua de café para carpir de seu início até o fim; o trabalho era entremeado de muita conversa, disputas, cantorias e piadas sujas, estas eram sempre contadas pela metade para não se falar besteira na frente de meninos pequenos; mas meu irmão sabia das coisas e assim resolvíamos fingindo que íamos mas, na verdade, orientado por ele, ficávamos deliciosamente excitados, ouvindo piadas e “causos” escondidos debaixo de um pé de café: quietos, mudos e sem mesmo poder sorrir aos seus finais jocosos.
No trabalho de carpir, naqueles mutirões, disputas, as mais diversas ocorriam: seu Biba disputava a velocidade de carpir com Arnaldo, apostando que aquele que vencesse, carpindo mais ruas de café até o final do dia, teria a preferência para tirar Sebastiana, filha do Jorge Ferreira, para dançar no baile que ocorreria logo à noite; isso porque, todo bom mutirão, além da comida farta e do arroz doce ao meio diz, tinha que ter baile animado e para isso meu pai havia convidado sanfoneiro afamado, tocadores de triângulo e de zabumba; já Alcindo apostava com Tim quem ficaria mais tempo mergulhado no fundo d´água, no poço da cachoeira, onde iriam tomar banho ao final daquela tarde, se preparando para o baile: o que ganhasse teria a preferência de dançar com Ercília... Assim, as disputas ocorriam e às vezes eram levadas a sério por demais e brigas ocorriam, mesmo, antes do baile e das pingas...
O almoço, lá pelas nove da manhã foram dois caldeirões de comida: um com arroz e galinha e outro com mandioca e carne seca. O pessoal deixou a carpição de café e foi até em casa almoçar. Cada qual se servia, procurava uma pedra em uma sombra para sentar e enquanto comiam conversavam: falavam do baile que teria à noite, das moças mais bonitas, das qualidades do Geraldo Sanfoneiro, que viria tocar, das músicas que pediriam para ele... Nesta hora do almoço, a presença das mulheres que haviam feito a comida impunha respeito e impedia piadas, conversas em voz alta e palavrões. E enquanto os homens almoçavam elas já iniciavam o preparo do arroz doce que seria oferecido lá pelas duas da tarde.
O clima era de festa e o ambiente era de uma alegria só.
De noite o baile!
Melhor impossível. Terreiro de casa limpo e varrido e o toldo armado com panos de colher café: estava pronto o salão de baile. Cadeiras e bancos de madeira colocados à beira do pano para que as moças e as mulheres pudessem sentar: umas aguardando, ansiosas, o pedido de dança, outras conversando, enquanto outras amamentavam seus filhos como os seios e a cabecinha do bebê protegidas por xales de crochê ou panos de chita. Os bancos e cadeiras eram também reservados aos mais velhos que proseavam, fumavam cigarros de palha, bebiam quentão e cochilavam quando o sono apertava.
Nós, as crianças, nos divertíamos dando soco nas costas das moças por trás dos panos de colher café que formava o toldo: nos deliciávamos com o susto que levavam e com os gritinhos que soltavam. Socávamos e fugíamos para o mato.
O sanfoneiro dá início ao baile.
Toca, acompanhado pela zabumba e pelo triângulo, Saudades de Matão. Os rapazes procuram, primeiro com o olhar as, moças e as tiram para dançar. E lá vão leves, ritmados, passos combinados rodopiando pelo terreiro de dança, sempre sob os olhares reguladores dos pais das moças.
Para os mais corajosos, escapar de tamanha vigilância, o recurso era fugir dançando mais para o meio do salão terreiro, e só ali, criar coragem para uma conversa mais ao pé do ouvido, um aconchegar mais os corpos, que voltavam à se distanciar assim que a música e o bom senso, a contragosto dos pares, definia como hora de voltar a dançar dando voltas pelas beiradas do terreiro.
Em uma certa hora, Alfeu, meu irmão, é convidado para cantar o Forró do Mané Vito. Muito bonito, moreno dentro de um terno de linho branco, não se faz de rogado, sobe em um caixote e afinado, com o corpo obedecendo ao ritmo da sanfona, inicia sua cantoria:
“Seu delegado, digo a vossa senhoria,
Que eu sou filho de uma família,
Que não gosta de brigá.
Mas trás antonti,
No forro do Mané Vito,
Tive que fazê bonito,
A razão vou lhe explicá...”
Homero me chama de lado:
- “ Não sei se você viu mas a Fia já saiu do terreiro de baile; daqui a pouco, você vai ver: sai o Feu. Vão fugir. Rincão, o cavalo do Feu, já está arriado e amarrado no pé de ipê, na beira da porteira.”
-“Será mesmo?”, digo eu e me ponho a observar.
Um advinho o meu irmão: obedecendo ao que me informou, vejo o Alfeu sair do terreiro de dança, entrar em casa à busca de quentão na cozinha e assoviando alto o Forró do Mané Vito, atravessar o quintal, rumo ao pé do ipê.
Uma ou duas horas depois as ausências são percebidas: sorrisos maliciosos, olhares furtivos, perguntas e insinuações enchem o toldo.
- “Cadê o Feu?”
- “Cadê a Fia. Onde foi parar a moça?”
Pai confabula com minha mãe: “Feu fez besteira, sei não. Isso vai dar encrenca.”
Seu Chiquito e dona Terezinha, pais da Fia, vão para casa, na esperança de que a filha esteja por lá. Moravam em uma casinha depois do córrrego, na direção oposta ao pé de ipê, à beira da porteira onde Rincão estava amarrado, esperando o casal de fugitivos...
O baile continuou até de madrugada!
No sábado seguinte outro baile: festa de casamento do Feu com a Fia.
Pude, outra vez, a faltar da escola, caçar juritis e, à noite no baile, dar socos nas costas das moças por trás dos panos de café que formavam o toldo de baile.
E mais uma vez Feu subiu ao caixote e, acompanhado da sanfona do Geraldo Sanfoneiro, cantou o Forró do Mané Vito.
Mairiporã, junho 2007.

2 comentários:

Morales disse...

Olá Orlando...sua história provocou em mim mais uma onda de nostalgia. Que saudade dos bailes das fazendas!

Quando moleques nos divertíamos com as "traquinagens" e quando crescíamos entrávamos na fila para disputar uma moça para a dança ao primeiro apito do baixo da sanfona!

Orlando disse...

Olá Tonhão,
Realmente eram bons os bailes na roça, tanto para "traquinagens" infantis comno para outras não tão infantis, não é mesmo?
Abração,
Orlando.