quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A pedra do VELHO DEITADO: uma história.

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“... Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão.” Dizeres proféticos escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos - "in" Euclides da Cunha, Os Sertões.

Impressiona a incrível semelhança da pedra negra, à beira da praia, com um homem deitado, em repouso; quanto mais se olha mais se vê o nariz pontiagudo, a boca, o tórax saliente, o umbigo e o braço estendido ao longo do corpo. Sua cabeça apóia-se em outra pedra, como em um travesseiro: dorme. As algas cobriram o peito de verde, trocando os pelos brancos da velhice pelo verde da eternidade.

Quando a maré-baixa chega a 0.1 fica todo mais visível, oferecendo uma visão perfeita, linda.

Me encantam as pedras negras da praia. Na infância via formas nas nuvens e lhes dava nomes: uma nuvenzinha era a vaca Surpresa, outra a égua Queimada, outras horas, mais de tarde, ao escurecer, via o Saci, a Mula Sem Cabeça e tinha medo.

Agora na velhice me fascinam as pedras da praia que em sua negritude, dureza e perenidade não mudam de forma como as nuvens, mas vestem-se e despem-se com a água salgada e rendada de espumas; a maré, ao subir, as encobrem lentamente, até desaparecerem e, também lentamente, com a baixa da maré, surgirem como que para se aquecer ao sol e tornarem-se referência e ponto de encontro dos namorados e amantes do mar.

A história da pedra do Velho Deitado é a que vou contar.

Quem a contou para mim foi Evilásio, que ouviu de seu pai, que ouviu de seu avô, de nome João Cocobobó:

- “Esta pedra é o meu avô.

Foi aqui que ele morreu, quietamente na água, protegido por uma baleia, que é esta outra pedra: é só prestar atenção para ver como ela cerca meu avô com seu corpo enorme, defendendo-o.

A história é verdadeira e dá para provar. Meu avô, que como já disse tinha por nome João do Cocobobó, seguiu seu pai para junto de Antônio Conselheiro, na vila de Canudos. Sua mãe havia morrido e ele se acostumado a viver, em um silêncio mudo, com o pai. Na vila de Canudos foi batizado por Antônio Beato que, em Canudos, como contou meu avô, era de tudo: sacristão, dizia a missa e tinha o privilégio de, junto com as beatas de azul, tomar refeições e orar junto com o Conselheiro.

Meu avô ganhou fama por tanto saber caçar: tatus, calangos, seriemas e peixes no Vaza-barris; também por isso ganhou clavinote e a confiança de Joaquim Tranca-pés para fazer trabalhos de vigilância e espiar as forças do mal que ameaçavam Canudos. Meu avô tinha, então, seus quatorze ou quinze anos: era muito pequeno, magro, quieto, sem nenhum pelo no rosto: parecia uma criança velha.

Com o cerco a Canudos, pelas tropas do mal, meu avô sabia dos perigos que corria e conhecia a morte: um seu amigo, também treinado para espiar, havia sido pego pelas forças do mal e ao ser assassinado com uma faca berrou: “Viva o Bom Jesus”; e posso afirmar, pois foi meu pai quem me disse, que este episódio está mais que provado, até escrito em livro que se lê nas escolas.

Quando o Conselheiro morreu quem a todos avisou foi Antônio Beato. Naquela noite meu avô foi destacado para ir até a estrada do Cambaio vigiar e contar o número de inimigos que chegavam e chegavam. O sino havia sido derrubado por balas de canhão e dias depois as torres da igreja forram ao chão.

Canudos foi invadida, destruída.

Meu avô, devido ao seu pequeno tamanho, apesar da idade de mocinho, ficou junto às mulheres, crianças e velhos. Seu pai tinha sido morto com um tiro no peito quando montava guarda em uma tocaia na estrada de Uauá.

Meu avô foi passado em revista, junto às mulheres e os velhos, mas nada foi encontrado: esperto e desconfiado, havia deixado sua garrucha, balas e uma peixeira escondidas em uma tocaia no alto da Favela.

Á noite meu avô fugiu. Conhecia a palmo toda a região. Durante uma semana, com as tropas do mal por perto, enfiou-se em uma caverna na serra do Cambaio e ali ficou dia e noite: de barulho se ouvia apenas seu respirar, às vezes o canto agudo das seriemas ou de um solitário trinca-ferro.

Aproveitou a chegada da lua quarto - crescente para começar sua viagem. Para onde? Ninguém sabia, nem Deus. Caminhava à noite: evitava assim, usando deste expediente, tanto as forças do mal que andavam pela região à caça de fugitivos de Canudos, como o sol ardente, que a tudo queimava. De comer? Bem, meu avô dizia que comia calangos, frutas de umbu e coquinhos de dendê. De beber? Água, quando achava, muitas vezes salobra, porque a sede é forte e não oferece escolha a quem a tem. Peregrinou sem rumo, guiado nos primeiros dez dias pelas estrelas e depois, quando se achou fora do perigo das tropas do mal, guiou-se pelo sol. Caminhou rumo ao Leste, sem saber o por que: puro instinto, “guiado por Deus”, disse meu avô a meu pai.

E viu, pela primeira vez, o mar. Encantou-se de imediato: maravilhou-se com sua grandeza, com suas cores que iam do verde claro ao azul escuro do céu, com as ondas que iam e vinham, batendo nas pedras incessantemente, sem se cansar, deixando, na areia, espumas que se assemelhavam às rendas de papel que as beatas faziam para enfeitar a igreja de Canudos em dias de prédicas do Conselheiro. Tudo lindo demais e, no ar, o cheiro o cheiro de sal que lembrava boas comidas e muita fartura!

Chegou à praia de tardezinha, viu tudo isso e buscou lugar para se esconder. Chegou a uma clareira ao meio de uma floresta de dendezeiros e, cansado, se ajeitou para dormir. Tirou da cintura a garrucha e dormiu com a peixeira atada, pelo cabo, com cipó, em uma das mãos, melhor dizendo, atada à sua mão esquerda: era canhoto. Acordou, com a lua ainda baixa, prenunciando início de noite, com barulhos e vozes na clareira. Nem abriu os olhos e se viu agarrado, preso por dois homens negros, altos, fortes: o maior pegou-o pelas costas, ergueu-o do chão; meu avô, suspenso no ar esperneava, gritava, dizia palavrões e pedia socorro a Deus, ao Antônio Beato e ao falecido Conselheiro. Berrou: “Me largue seu corno filho da puta, desgraçado do diabo” e a resposta veio logo: o negro forte, que o carregava pelas costas como se peso não tivesse, lhe deu um tapão no ouvido e ordenou que parasse de berrar como “um cabrito de merda”.

Ficou tonto e, ainda zonzo, foi atirado no centro da clareira da floresta de dendezeiros. Lá no centro da clareira se encontravam mais homens negros, reunidos em volta de uma mulher forte, gorda, toda de branco e de uma linda moça, também de branco. Flores e velas acesas enfeitavam uma colorida imagem. O negro forte que o carregara e lhe dera um tapão no ouvido disse ao grupo ali reunido, mas com o olhar na negra gorda:

- “Achamos este cabrito entocaiado na moita de dendê, mãe Onice”, sossegou por um pouco a fala e acrescentou: “só pode ser espía dos brancos.”.

- “Assente ele aí. Perigo nenhum: é uma pobre alminha perdida nos tempos, carece ter medo não.”, disse, com autoridade, a gorda Onice.

E, meu avô, acostumado às rezas e prédicas do Conselheiro e do Antônio Beato, na igreja dos Canudos, viu, sob o céu aberto, estrelado – sentindo-se protegido pela mãe Onice – uma nova liturgia, conduzida pela negra gorda, cujo corpo se agitava, e da garganta emitia estranhas palavras: “Tar tá ta ta... rrries, mozzz” enquanto virava e revirava os olhos. Mãe Onice perdia a serenidade bondosa da gorda face, trêmula, em transe: “ Se assentem todos... é chegada a hora... Zurrr... Ta trá to.. Rrrém, amém!”. E guiados por ela, rendiam, todos, graças a Oxossi, rei das matas, caçador imbatível.

Depois da cerimônia Mãe Onice levou meu avô com ela. Deu-lhe o que comer, para beber deu água limpa e clara e mostrou o paiol que tinha no fundo da casa, onde passou a dormir.

Desacostumado de família, de calor e carinho materno, meu avô era uma felicidade só; cedo se esqueceu de Canudos e de suas misérias.

Para não depender totalmente de mãe Onice ganhava sustento aprendendo ofício e ajudando na casa de farinha.

A barba teimava em não cobrir a cara e o corpo em fingir que era menino. Mas os pentelhos ralos foram surgindo, cobrindo a região do púbis e estranhos, indecifráveis e incontroláveis desejos anunciavam a meu avô sua mocidade. Mãe Onice, em um domingo, mandou matar uma galinha, limpou-a das penas em água fervente e depois com uma faca afiada cortou a borda superior do curranchinho, logo acima da cloaca da galinha, e deu ao meu avô: “Passe este sebo no bigode e na cara. Faz nascer e crescer barba para ficar com cara de homem.” Meu avô obedeceu. Como também comia carne de baleia, quando menos se viu, estava com o rosto pedindo navalha e o corpo crescendo a cada dia. Sonhava à noite que estava caindo do pé de coco e mãe Onice dizia: “ é porque você está crescendo; cada pulo deste na cama é um dedo a mais em seu tamanho”. Também sonhava com Dasdores, filha de seu Pitu, e acordava com a roupa suja e as pernas melando com grossa e malcheirosa baba.

Saiu da casa de farinha para trabalhar na queima do óleo de baleias: homem forte carregava os tachos quentes e respirava o mau cheiro da fábrica. E foi ajudando Zacarias no transporte do óleo da fábrica para as barcaças que se imaginou no mar caçando baleia. E assim se tornou ajudante de barco e depois mestre. Caçava baleias.

Casou com minha avó Rufina Dasdores.

Às tardezinhas, segurando a mão com minha vó e acompanhado dos filhos que chegavam, ia ver o mar.

Era diferente aquele mar que via ao entardecer - com as pessoas que amava - do mar que enfrentava durante o dia caçando baleias. Gostava mais deste mar, perto da areia branca, com peixinhos pequenos mordiscando o calcanhar das crianças que brincavam de nadar nos pocinhos, meio às pedras. De verdade, pensou meu avô, gostava de todo o mar: o que não gostava e o que o entristecia no mar de seu trabalho de mestre de barco baleeiro era a matança dos bichos: enjoou de ver o sangue das baleias mortas tingir de vermelho o azul da água do mar, enodoar as suas águas e suas carnes apodrecendo – fedidas – encher a praia de urubus famintos que pulavam e brigavam entre si e afugentavam os gaviões carcarás que vinham a busca de comida.

Certa feita, em alto mar, viu o que não podia: no horizonte uma enorme baleia mãe, que amamentava a filha; para lá teve, contrariado, que levar o barco e ver a baleia ser arpoada e ao receber na carne - no lombo, perto da cabeça - o enorme arpão, desesperada, chorar o canto triste de dor pela certeza da morte e da saudade que a morte lhe traria da filha.

Ajudou a descarnar a baleia, jogar os miúdos na praia: desta vez, sentiu enorme enjôo que o fez vomitar até as tripas chegarem à boca.

Triste recusou os pedidos da mulher e dos filhos para o rotineiro passeio à praia. Aquela tarde não queria companhia, precisava de solidão para se entender no mundo.

E foi só para a praia. No sagrado local em que ficava com a família a baleia filha chorava com seu canto desafinado e triste de saudades e de medo da solidão no gigante mar. E meu avô contou para meu pai: foi a primeira vez que chorou depois de homem feito.

Feriu propositadamente, com uma faca, o braço esquerdo, e foi, por isso, impedido de conduzir o leme do enorme barco baleeiro.

Mãe Onice faleceu.

Meu avô voltou a trabalhar na casa de farinha.

Seus filhos cresceram e nenhum foi autorizado a trabalhar com barco de caçar baleias. Dasdores morreu.

Me avô sabia, porque mãe Onice havia lhe contado dos perigos de se comer a delicada carne do baiacu. As peixadas de baiacu, muitas vezes, resultam na morte de todos os que saboreiam a nobre carne. “O perigo da morte é porque não tiram a pele, não limpam o peixe direito, mãe Onice?”, perguntou meu avô, enquanto ajudava mãe Onice preparar uma dúzia de baiacus que seriam servidos após uma cerimônia religiosa. “Nada disso: depende de quem faz. Se quem prepara pensa e quer a morte, o baiacu é um veneno só. Sua mãe Onice, não: gosta da vida e já preparou centenas de peixadas, todas elogiadas pelo seu sabor, e graças a Deus e a meu pai Xangô, em minhas peixadas de baiacu nunca houve morte, só vida, amor, meu filho.”, respondeu sorridente mãe Onice.

Meu avô se lembrou daquilo e resolveu.

Não foi trabalhar na casa de farinha e partiu com o barco pesqueiro de manhã: pescou cinco ou seis baiacus. Quis apenas um: os outros ofereceu à tripulação do pesqueiro, grato pela generosidade do passeio e da pesca. Recomendou que bebessem pinga na hora de preparar, que cantassem alegres músicas, pois assim, a carne do baiacu lhes traria felicidade, fartura na mesa e bons amores na cama..

Foi para seu canto preparar o baiacu; preparou a carne do baiacu no dendê e no leite de coco, como havia aprendido com mãe Onice; enquanto assistia a fervura da carne branca do peixe no dendê e no coco, pensava na morte.

Sozinho, à tarde, como sempre, vinha rezar aqui nesta praia. Era seu costume: já cansado e velho, sentava uma pedra a beira mar, rezava e esperava a maré subir até a água molhar seus pés.

Naquela tarde, enquanto tinha os pés salgados pela água do mar, enfeitados com pequenas espumas trazidas pelas ondas, meu avô comeu o baiacu que havia pescado e preparado.

Era uma tarde de março – época de marés bravias – e uma onda o levou.

Manhã seguinte, maré baixa, meio às pedras surge seu corpo que descansava deitado ao lado dos ossos da baleizinha.

O tempo passou e seu corpo virou esta pedra, que é meu avô.”

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