<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415</id><updated>2012-02-08T22:18:45.991-08:00</updated><title type='text'>Ofício: contador de histórias</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>72</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-5360796765379207705</id><published>2012-01-30T03:53:00.001-08:00</published><updated>2012-01-30T03:53:33.291-08:00</updated><title type='text'>A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ–III–A LUA DO HÖ</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-YTOzALUL0k4/TyaEuV1QtMI/AAAAAAAAANo/2LfPZCTPrMk/s1600-h/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520027rtoc%25255B2%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="2009 Caminho da fé 027rtoc" border="0" alt="2009 Caminho da fé 027rtoc" src="http://lh6.ggpht.com/-io0q3CzBHp0/TyaEvNsPzZI/AAAAAAAAANw/lTQfMCTqofo/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520027rtoc_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei com a chegada do sol e fui ao rio banhar-me.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Ali no rio, banhando-me, resolvi que aquela seria a lua do meu Hö, o rito de minha passagem. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tinha então que sair à procura de urucum tanto para arrumar tinta para pintar meu corpo como para fazer, com um galhinho fino e duro, um artifício e com ele furar minhas orelhas. E assim, pensando nisso, que sai meio sem rumo, margeando a beira do rio até que bem longe, por onde ainda não havia passado, foi que avistei uma lagoa todinha rodeada de densa mata. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Deixei a margem do rio para alcançar a lagoa. E nela vi, em seu fundo, traíras enormes nadando e procurando comida no fundo escuro, fazendo confundir seus corpos negros com a lama. Tentei e tentei flechar uma mas não consegui e penso, agora, que as flechas desviavam de rumo pela fundura da lagoa. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Desisti e saí pela mata que arrodeava toda a lagoa a procura de urucum. Os matos e os cipós espinhosos dificultavam o caminhar e o sol, por causa de tantas e copadas árvores, não conseguia chegar ao chão: sob o forte calor úmido meu corpo se derramava de suor. E, assim suado e receoso de me perder naquela mata quente e escura ou de ser picado por cobra, dei de cara com uma moita de timbó. Onde tem timbó não tem cobra e me veio uma coragem forte: me embrenhei pela moita de timbó adentro e clareou em meu pensamento: me perder? Impossível! Me perder do que? Não tinha de onde.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E continuei assim pensando e resolvi então que a minha janta seria a traíra teimosa que resistiu, na lagoa, às minhas flechadas. Colhi um feixe de ramos de timbó e sai da mata, disposto a, quando começasse a anoitecer, ir à forra com a traíra que há pouco que me vencera.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No caminho de volta para minha oca voltei a pensar em meu Hö. Comeria traíra, pintaria meu corpo com urucum e furaria minhas orelhas. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E fui para a margem do rio e com a fina ponta de uma flecha iniciei o doloroso processo de furar uma orelha. Na tribo de minha mãe essa era uma tarefa dos pais que executavam em seus filhos sem pena nem dó. Quando era necessário - por resistência do jovem pelo medo da dor - um tio ou um amigo , nunca uma mulher, vinha à ajuda do pai: agarrava o jovem pelos pelo pescoço e pelos ombros imobilizando-o para que o pai, com um ramo fino de urucum, furasse sua orelha; claro que para os mais velhos, aquela resistência do jovem, era já um sinal de que ele não seria um bravo guerreiro e que seria vencido nas lutas que teria que enfrentar pela frente, durante as cerimônias do Hö. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Eu, em meu Hö, não teria adversário para as lutas nem pai para furar minhas orelhas. Meu Hö seria, mais tarde eu viria a descobrir, a minha passagem para toda uma vida solitária. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Sem dó e sem grito peguei uma orelha, estiquei o tanto que dava e meti a flecha até atravessar: jorrou sangue que se misturava com a água clara do rio. Pequenas piranhas e lambaris, chamados pelo vermelho do meu sangue, vieram até a margem e, penso, beberam um pouco de mim naquela água tingida de vermelho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Doeu muito, mas não chorei, resolvido que estava a não mais chorar.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Voltei para a oca, comi araticum, restos da paca que assara e iniciei o preparo do timbó para a pesca da tarde: para isso, recolhi, perto da oca, duas pedras com as quais amassei bem os galhos de timbó para facilitar a saída do veneno que faria morrer a traíra da lagoa.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Ansioso, esperei que o sol iniciasse a se esconder à margem da lagoa. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;As traíras continuavam a nadar no fundo buscando comida para encher o seu corpo negro e liso. Entrei na lagoa e, quando a água chegou no peito, choqualhei e bati as varas amassadas de timbó nas águas da lagoa: fiz bastante barulho com os galhos de timbó e cantei canções que havia aprendido nas caçadas que havia feito com os meninos da tribo de minha mãe; nessas caçadas cantávamos canções que estes meus amigos haviam aprendido quando caçavam com seus pais. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Cantei alto!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;As águas da lagoa , surpresas em seu silêncio pela cantoria que eu cantava e pelo chocalhar dos galhos de timbó, acordaram e soltaram borbulhas e acordadas de seu não nada fazer, criaram pequenas ondas que chegavam às suas margens bolindo com os galhinhos e matinhos que a rodeavam. Estes, então, felizes, dançavam ao sabor da novidade das ondas que nunca haviam visto. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Uma traíra negra boiou na superfície da lagoa. Em minha pressa de apanhá-la, trunfo de minha vitória, escorreguei em um tronco e me afundei nas águas, agora borbulhentas, da lagoa. Como sabia nadar muito pouco bebi água. E assim, tossindo e vertendo água pelo nariz e pela boca, foi que agarrei a traíra que, meio morta, boiava sobre as águas borbulhantes e escuras da lagoa: para mim a negra e lisa traíra representava o troféu na vitória das lutas que não enfrentaria em meu Hö. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A traíra era enorme: negra, lisa, escorregadia, olhinhos pequenos e mostrava seus dois bigodes grandes que saiam de cado lado da boca cheia de dentes que pareciam serrote. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas foi então que - eu com a água chegando no meu peito, no fundo da lagoa - comecei a sentir em todo o meu corpo uma zonzeira e um desiquilíbrio: o mundo começou a girar em minha volta, as árvores entravam lagoa adentro, as traíras pulavam altas ondas, os galhos de timbó passaram a ter vida e, por conta própria, babavam uma baba pegajosa na água da lagoa e dentro de minha boca indo até minha garganta. Catei a traíra, e completamente aturdido, ajeitei o arco e as flechas em minhas costas e saí, bêbado de ter bebido água misturada com timbó, da lagoa em busca da margem do rio. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E tive o meu primeiro medo de morrer!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Chegue na pequena praia completamente exausto e tonto: meu corpo não obedecia meus pensamentos, e meus pensamentos eram incompreensíveis para mim. Deitei na areia com a traíra ao meu lado e deixei o mundo girar com mais força. Uma sede de água limpa invadiu meu corpo e, obedecendo ao que meu corpo pedia, me arrastei pela margem a procura de água. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Estava escuro: a lua do meu Hö era a lua nova.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Bebi água limpa do rio e me agarrei a um tronco de pita que, como eu, estava caído á beira d’água. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Dormi. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei, assustado, no meio do rio, agarrado ao tronco de pita que me ajudava a boiar. Meus pés não alcançavam o fundo do rio e sua forte correnteza me arrastava. Me afundei mais uma vez, bebi água e então, desesperado, me pus a nadar, batendo forte os braços e as pernas, fugindo sem saber do que, buscando uma margem que não sabia qual; procurava, agora, com todas as minhas forças e livre da tontura que tanto me havia atormentado, a margem mais próxima, não importa qual fosse, mas que levasse para longe de mim a morte, que mais uma vez eu via. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, agarrado ao tronco de pita, na escuridão da lua nova do meu Hö, nadei desesperada e fortemente até sentir meus pés tocando a terra. Exausto, me pus então em pé e caminhei para uma margem até encontrar terra firme, uma areia úmida onde me deitei e, como um cachorro amedrontado, me enrolei sobre mim mesmo, me arredondei em um buraco e adormeci. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei com o sol forte às minhas costas. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tinha comigo minhas flechas, meu arco e minha faca. Perdera a traíra, onde eu não sabia.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E me peguei a pensar em que lado do rio eu estava: do lado da tribo de minha mãe? ou do outro lado, o “meu” lado, o lado de lá?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Resolvi então em subir em um pé de buriti e lá do seu alto, perto das estrelas que furavam o teto do mundo, enxergando o mais longe que meus olhos pudessem, descobrir de que lado do rio em que eu me encontrava. E sorri ao pensar que poderia, no alto das folhagens do buriti, encontrar uma jovem ... &lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-5360796765379207705?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/5360796765379207705/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=5360796765379207705' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5360796765379207705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5360796765379207705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2012/01/historia-de-jurandir-sereburaiiia-lua.html' title='A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ–III–A LUA DO HÖ'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-io0q3CzBHp0/TyaEvNsPzZI/AAAAAAAAANw/lTQfMCTqofo/s72-c/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520027rtoc_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-9106553137594119515</id><published>2012-01-13T08:19:00.001-08:00</published><updated>2012-01-14T01:16:12.920-08:00</updated><title type='text'>A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ  -II -DO OUTRO LADO DO RIO</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-bTbNxvfO9bY/TxBZkdntb-I/AAAAAAAAANY/UwCeLZZSEs4/s1600-h/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520038retoc%25255B2%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor; padding-top: 0px; padding-right: 0px; padding-left: 0px; display: inline; background-image: none;" title="2009guaraqueçaba 038retoc" border="0" alt="2009guaraqueçaba 038retoc" src="http://lh4.ggpht.com/--u6o_Jq931o/TxBZk0ewkMI/AAAAAAAAANg/X-JZ6rFs-CQ/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520038retoc_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei do outro lado do rio. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Cabeça encostada aos joelhos, um braço sob o corpo e outro protegendo os olhos, todo redondo, curvado como um tatu-bola; olhei em volta, desconfiado, com os olhos sujos de remela. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Vi o outro lado do rio, longe, longe as ocas da tribo de minha mãe. A pequena praia de areia branca do outro lado estava vazia dos corpos dos homens que, sempre de manhã, iam lá banhar-se: estavam longe à procura de caças para as festas do Hö.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Continuei enrolado no buraco de areia, meio acordado e não querendo, de medo, acordar de vez. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Por fim o sol aqueceu forte minhas costas e resolvi abrir os olhos de vez. Não sabia se ia à prainha, tão perto, tomar o banho da manhã ou se ficava ali quieto esperando que, a qualquer momento, uma piroga atravessasse o rio à minha busca. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Foi todo um dia de angustiante espera. Nem mesmo a sombra da árvore com araticuns maduros que matavam a minha fome me davam descanso: pegava uma fruta e corria para a beira do rio, levando comigo seu perfume forte, esperando e olhando a outra margem vendo se enxergava a piroga que não aparecia.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Comi araticum, ananás, bacupari e cambucá. Sempre assim: colhia a fruta e corria para na praia esperando a piroga. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Chorei quase o dia todo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Ao final do dia cortei folhas de buriti e montei uma pequena oca onde dormi todas as noites daquela primeira lua que passei do outro lado do rio: só, isolado e choroso. Meus dias eram dias de angústia e de espera: a todo momento vigiava as margens na esperança de uma piroga que me levasse de volta para o outro lado. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Em um destes dias, para melhor enxergar todo o rio, subi em uma árvore de babaçu; era uma árvore que de tão grande chegava perto das nuvens e ficava muito acima das copas das outras árvores que moravam na margem do Rio das Mortes. Subi até o seu alto e de lá, quase chegando nas nuvens, olhando a outra margem e sem enxergar nenhuma piroga atravessando o rio a minha procura, foi que me lembrei, e fiquei temeroso, da história da moça- estrela. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Vou contar a história da moça-estrela. Um pequeno rapaz índio, dos tempos em que não havia Hö, subiu em um buriti e lá no alto de suas folhas encontrou uma linda jovem; os dois, encantados cada um pelo outro, desceram para a terra e, na esteira das folhas do buriti, fizeram amor. Gostaram tanto de fazer amor, e achando que era melhor se amar do que voltar para suas famílias, que o indiozinho e a moça-estrela resolveram não retornar para suas famílias.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Quando os pais do indiozinho deram por sua falta mandaram um seu irmão menor procurar o jovem enamorado. Seu irmão o encontrou com a moça- estrela, nas esteiras de buriti, se abraçando, sem querer voltar para casa. Seu irmão retornou para casa e contou o que viu aos seus aos pais que, dia seguinte, saíram a sua procura. Chegando ao local encontraram apenas o indiozinho sem a moça-estrela; Interrogado negou que estivesse com alguém, mas, mesmo assim, foi obrigado a voltar para junto de seus pais. Dia seguinte, chamou o irmão e pediu que o mesmo pegasse uma borduna para ir com ele para à floresta buscar embira. Caminharam, caminharam até achar uma palmeira, que no alto de suas folhas, se encontrava deitada a moça-estrela. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Então ele ordenou ao irmão: &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Não olhe para cima. Pegue a borduna e vá batendo com força no tronco desta palmeira e, ao mesmo tempo, vá cantando “aiwede pana, aiwede pana” que significa “cresce árvore, cresce arvore.” &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Enquanto o irmão batia no tronco da palmeira com a borduna o mais velho subiu até alcançar a moça-estrela. E o irmão bateu, bateu, bateu e cantou e cantou e a palmeira cresceu, cresceu, passou as nuvens e chegou ao teto do mundo. E foi lá, no outro mundo, que seu irmão amou, criou família e passou a viver.. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E naquele dia em que subi na árvore de babaçu para vigiar o rio, quando estava lá no seu alto, tudo vendo, enxergando até o infinito da selva, foi que tive um grande medo: “e se a árvore resolver crescer, crescer...” e, com medo, desci rápido, escorregando pelas folhas e galhos da árvore de babaçu e corri para a margem do rio onde continuei a vigiar e a vigiar para ver se alguma piroga chegava até a margem do lado de cá do Rio das Mortes.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Em uma manhã, já em outra lua, acordei com barulhos e sons na outra margem. Eram os adultos que haviam voltado da caça para a cerimônia do Hö. Apenas adultos se banhavam e cantavam canções para a festa do Hö: os indiozinhos já se encontravam reclusos na oca especial para cerimônia. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tive, então, naquela manhã, uma vontade grande de subir até o alto da árvore de babaçu. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Subi até o seu mais alto galho de onde tudo se via. E, lá no alto, perto das nuvens, me peguei olhando para o outro lado, para o cerrado e não mais para os lados da aldeia de minha mãe. Lembrei-me outra vez da história da moça-estrela mas não tive medo de que a árvore resolvesse começar a crescer e a crescer : “se ela crescer eu me encontro com a moça-estrela” e tive grandes desejos de mulher. Fiquei um tempão no alto do babaçu sonhando e vendo meu corpo que se iniciava a ser corpo de homem guerreiro.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Desci do babaçu e fui para o cerrado.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Lá encontrei moitas e mais moitas de canela de ema: retirei as suas bolotinhas que ficaram depois da florada e levei para perto da margem. Recolhi galhos e folhas bem secas de buriti e preparei uma pequena fogueira: coloquei no alto as bolotinhas de canela de ema para quando o sol ficasse bem quente aquecesse as bolotas oleosas da canela de ema, estourando-as e fazendo surgir o fogo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi assim que fiz a fogueira e que depois mantive acesa usando grossos tocos de angico que achei junto à margem e à beira do cerrado. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Fiz armadilhas para caçar pacas e matei, a flechada, uma traíra que encontrei em uma lagoa que margeava o Rio das Mortes. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era a lua do meu Hö. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E eu, solitário, resolvi que minha vida não estava do outro lado do rio.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Estava onde então? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Eu não sabia.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-9106553137594119515?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/9106553137594119515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=9106553137594119515' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/9106553137594119515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/9106553137594119515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2012/01/historia-de-jurandir-serebura-ii-do.html' title='A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ  -II -DO OUTRO LADO DO RIO'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/--u6o_Jq931o/TxBZk0ewkMI/AAAAAAAAANg/X-JZ6rFs-CQ/s72-c/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520038retoc_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-2093508224983179135</id><published>2012-01-04T09:15:00.001-08:00</published><updated>2012-01-13T08:26:30.214-08:00</updated><title type='text'>A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ - I  - A INFÂNCIA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-udeki9JOMSA/TwSJOCRu2MI/AAAAAAAAANI/jP9nl1GqL8k/s1600-h/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520065RETOC%25255B2%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor; padding-top: 0px; padding-right: 0px; padding-left: 0px; display: inline; background-image: none;" title="2009 Caminho da fé 065RETOC" border="0" alt="2009 Caminho da fé 065RETOC" src="http://lh6.ggpht.com/-gOS0WtOnP50/TwSJOnoHwkI/AAAAAAAAANQ/RwACy2PkcPo/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520065RETOC_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;“e é a partir dessa carência essencial, para livrar-se da ninguendade de não índios, não europeus e não negros, que eles se veem forçados a criar a sua própria identidade étnica: a brasileira.” Ribeiro Darcy, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, Cia. Das Letras, 2006. Pag. 118.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Então, o meu nome, quero dizer, o nome que, mais tarde, os padres resolveram me colocar é esse: Jurandir Sereburá. De antes disso era arãrãre, que significa beija flor, e eu era chamado assim por culpa de ser muito pequeno, preguiçoso de crescer e muito quieto, silencioso de conversas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Assim que eu nasci, e, pequeno até os dez ou doze anos, não tinha nome, nem pai. Sem pai, órfão, vivi toda minha vida: agora não reclamo mais, acostumei-me.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Foi assim: minha mãe, em um ano em que faltou comida na aldeia, saiu a procura de coco de babaçu e enxergou um branco português que estava pondo fogo no mato para fazer roça de milho; o português mostrou farinha e uma faca para minha mãe. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mais tarde minha mãe me contou que estranhou muito o corpo do português: todo peludo, inclusive nas pernas, parecendo uma emboaba, e quase não se via o sexo de tanto cabelo nas partes de baixo. Quando voltou para a aldeia com farinha na cuia, uma faca nas mãos e comigo na barriga, os maiores da aldeia obrigaram que ela, antes de fazer comida, lavasse as mãos. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mãe contou que durante toda a semana que havia encontado o português e trazido farinha e faca para casa procurou e procurou seu marido mas só encontrava a rede vazia: marido estava na rede de sua outra mulher. Nas outras noites seguintes minha mãe também procurou a rede, que continuava vazia de homem, só com seu cheiro, até que uma noite encontrou um sapo morto com a boca e o anus costurados, significando, com isso, que minha mãe só seria aceita na rede depois do primeiro sangramento. As luas se passaram e o sangramento não veio. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Então minha mãe pegava a cuia e ia até a roça do português buscar farinha. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E sua barriga cresceu e cresceu: eu, lá dentro, na quentura úmida de seu ventre, ouvia seu cantar e seus choros. Quando foi o tempo, em uma noite de lua cheia, ela foi até a beira do rio e eu nasci.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Por não ter pai cresci separado dos outros filhos de minha mãe. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Foi então que foi chegando os tempos do Hö que é a época da iniciação, em que os meninos são separados para a cerimônia, vivem reclusos por uns tempos, furam as orelhas para se tornarem guerreiros. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Como eu não tinha pai não tinha quem me orientasse nas feituras das flechas de tucum, negras e finas para se pescar peixes no bravo e correntozo rio e também ninguém para pintar meu corpo com urucum e carvão para as cerimônias do Ho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Eu chorava por isso.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mesmo assim, aprendi a fabricar flechas de tucum. Aprendi com outros meninos da tribo que tinham aprendido com seus pais: como que eu era excelente atirador e caçador os meninos sempre me convidavam para ir até a mata, à beira do rio buscar tucum para as flechas e matar pássaros e cotias que eram trazidos para juntar às farinhas de nossas refeições.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Uma noite na rede minha mãe me disse que a cerimônia do Ho estava para se iniciar: uma ou duas luas apenas e que assim, logo os guerreiros sairiam todos à caça de antas e capivaras para serem assadas nas festas do Ho. Passou uma lua e a tribo acordou um dia sem os seus guerreiros: apenas com as mulheres, velhos e crianças.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi nestes dias com a tribo só com os velhos, mulheres e crianças que o avô de meus irmãos chamou a todos, e eu também, para atravessar o rio de canoa: era hora de aprender a flechar dourados e mandis. Fiquei feliz e contente porque eu só podia ir junto com os meninos de minha idade em suas caçadas e pescarias quando não ia nenhum adulto. Mas naquele dia fui colocado na ponta da canoa, que atravessou o rio largo e fundo, cheio de piranhas e outros seres que à noite saiam de dentro das águas para roubar as roças de mandioca. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Eu sorria um riso de total felicidade e não entendia bem porque minha mãe chorava tanto e tanto com minha viagem de canoa até o outro lado do rio para aprender a matar dourados e mandis com flechadas de tucum para a festa do Ho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E a piroga, remada pelo avô de meus irmãos, ia vencendo as fortes correntezas do rio das Mortes; quando foi chegando no outro lado do rio o velho remador abriu sua enorme boca sem dentes, lingua negra de tanto mascar fumo de corda e berrou:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Pule, pule da canoa, que já chegamos”, e eu saltei e corri com a água nas canelas para a margem cheia de areia branca.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E vi que a canoa voltava para a outra margem. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Fiquei só e com medo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Chegou a noite e o medo aumentou: chorava por minha mãe, por uma rede que do seu alto me aliviasse dos perigos das cobras e de outros bichos que deveriam morar por ali do outro lado do rio. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Ao escurecer deitei na areia e imitei os cachorros da aldeia que se enrolavam , se enrolavam fazendo, com o corpo, um buraco na terra e lá dormiam. Fiz assim, igual: fingi de ser cachorro para não ter medo dos bichos e nem da escuridão.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E dormi.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O dia clareou com o sol iluminando primeiro o outro lado do rio e as ocas da tribo de minha mãe, os matos e só chegou um pouco depois aqui do outro lado e me esquentou. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E eu só, do outro lado do rio, com meus medos, minhas flechas de tucum, meu arco e a faca que minha mãe havia trazido junto com a cuia de farinha oferecida pelo homem branco quer punha fogo no mato para fazer roça.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-2093508224983179135?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/2093508224983179135/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=2093508224983179135' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2093508224983179135'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2093508224983179135'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2012/01/historia-de-jurandir-serebura-ia.html' title='A HISTÓRIA DE JURANDIR SEREBURÃ - I  - A INFÂNCIA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-gOS0WtOnP50/TwSJOnoHwkI/AAAAAAAAANQ/RwACy2PkcPo/s72-c/2009%252520Caminho%252520da%252520f%2525C3%2525A9%252520065RETOC_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4416603959603844561</id><published>2011-12-06T03:43:00.001-08:00</published><updated>2011-12-06T03:43:45.639-08:00</updated><title type='text'>PLUTARCO E AS OVELHAS</title><content type='html'>&lt;p&gt;&amp;#160;&lt;a href="http://lh5.ggpht.com/-uRv4joAv66k/Tt3_7L1PCXI/AAAAAAAAAM4/yBk90lAyC2k/s1600-h/DSC03914retoc%25255B2%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC03914retoc" border="0" alt="DSC03914retoc" src="http://lh5.ggpht.com/-LI6mjgzEp24/Tt3_8KmzfPI/AAAAAAAAANA/B87hxycNzsw/DSC03914retoc_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="right"&gt;&lt;i&gt;“O pensamento parece uma coisa a toa, &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="right"&gt;&lt;i&gt;Mas como é que ele voa,&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="right"&gt;&lt;i&gt;Quando começa a pensar”&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nesta caminhada pelo Caminho de Santiago conheci pelo menos dois velhos que, quando na ativa, tiveram como profissão ser pastor de ovelhas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;De um, o Sr. Pedro, hoje um velho gordo que produz lindos e poéticos cajados já falei. Teve um outro, agora “jubilado”, como gosta de dizer, mora atualmente em Madrid, mas pastoreou toda a sua vida na região de Catalunha. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No Caminho quando via ovelhas me lembrava destes dois pastores e como o “pensamento voa” vinha em meu pensamento uma história que tem pequenas ovelhas, meu irmão e um um primo distante em seu centro. Esta história ocorrreu quando eu era ainda menino, mas tem um outra história, com o mesmo tema, ou enredo, que li recentemente em algum livro.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Relembrar a história que se passou em minnha infância era fácil, bastava querer. Agora lembrar em qual livro eu havia lido uma história semelhante era mais dificil. Em qual livro? E eu passava, as vezes, manhãs, folheando em minha mente, livros e mais livros para descobrir em qual eu havia lido. Inventei uma brincadeira que era a de ir eliminando os livros que, com certeza, não foram neles que havia encontrado a história de pastores e ovelhas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;História de ovelhas e pastores? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;“Será que foi em algum livro do Thomas Mann? Creio que não. Como a história que li ocorreu quando Roma era um império e dominava a Europa devo ter lido no Declíno e Queda do Império Romano de Edward Gibon. Será? Mas pode ser também que tenha lido no História da Vida Privada...sei lá”; o que sei é que passava partes da manhãs, ou das tardes, tentando, como um detetive, descobrir em que livro eu havia lido esta história. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Vou então aproveitar e contar a história que eu , de certa forma, presenciei.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era uma tarde, quase noite quando chegou no sítio onde morávamos o Seu Chico Marangoni. Apeou de seu cavalo alazão, comprimentou o pai, a mãe, abençoou um meu irmão, seu afilhado, jantou conosco e logo depois, como era hora da Ave Maria, juntou-se a nós em volta do rádio de pilha e concentrado ouviu a Hora da Ave Maria na voz de Júlio Louzada, com direito, ao final, da Ave Maria de Gounod.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Logo depois da Ave Maria os mais velhos foram para a sala e os pequenos , com um simples olhar, mandados a dormir. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No ar, alguma novidade. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Não era tempo de visitas e o que viera fazer já ao fim do dia aqui em casa o Seu Chico e seu enorme bigode branco, que escondia, em parte, uma enorme verruga marrom escura na parte superior dos lábios e que o velho suavemente acariciava enquanto fumava seu cigarro de palha.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “ E então compadre , que boas novas trouxe o senhor aqui em casa?”, pergunta o pai.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Assunto meio difícil de falar, compadre. Vamos esperar comadre ir para cama, melhor não ter mulher por perto.”, responde, com a voz grave de barítono, o visitante.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Minha cama, no quarto dos fundos, junto a meus irmãos foi oferecida ao visitante. Eu dormiria junto a meus pais no quarto ao lado da sala onde os dois conversavam.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Prometi a mim mesmo lutar contra o sono , não dormir e ouvir quieto, quieto, fingindo dormir, o assunto sério que nem mesmo minha mãe deveria ouvir para, glorioso, no dia seguinte acordar conhecedor da novidade contada em segredo a meu pai. E assim fiquei como uma estátua na cama, deitado no colchão de palha que denunciava qualquer movimento. Meu pai e Seu Chico assuntavam no prelúdio do principal falando de vacas, da colheita de café, da seca brava, do preço do arroz... &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O sono forte cerrava, as vezes, meus olhos e eu acordava sobressaltado, medroso de ter perdido o assunto. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “ Vamos ao assunto, compadre Chico. Podemos?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Vamos sim. E o que ocorreu foi que Luizinho matou, juntamente com Roberto, um filhotinho de ovelha. E sabe porque, compadre? Imaginavam, os dois, que o filhote poderia ser filho de um deles ou dos dois: os mugidos do pequeno filhote, ao nascer, como depois me contou Roberto era por demais parecido com choro de nenê. “Chorava igual de criança humana, pai, e resolvemos que, por medo e vergonha do mal feito o melhor era mesmo matar o filhotinho. Madrugada, ainda escuro, carregamos o filhote até o córrrego e lá o matamos; depois de bem morto amarramos pedras em seu pescoço e jogamos no poço da curva da onça. Foi assim”, que me contou Roberto quando dei falta pelo filhote da ovelha no curral.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Virge Maria. Bom mesmo que Dira não esteja a escutar. E sabe compadre que o Luizinho voltou para casa nas férias e não me disse nada.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Explicando melhor: Luís, meu irmão, para poder estudar, morava , durante as aulas, na casa do Seu Chico, onde tinha, por perto, uma escola municipal. Tinha, à época, seus doze ou treze anos e alguns ralos fios de bigode e a voz misturando graves e agudos anunciavam mudanças no corpo e na mente.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Dormi. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei me sentindo o rei do mundo. Sabia o que nem mesmo minha mãe sabia.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No curral pai, Luizinho e o retireiro Biba lidavam com as vacas e seus bezerros enchendo os tambores com seu leite quente e espumante. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Encha esta minha caneca de leite, Luizinho. E rápídinho porque tenho fome.”, fui dizendo, todo autoridade, a meu irmão.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Faça o favor do que?”, repondeu Luizinho.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Favor nada. Estou mandando: encha de leite, e com bastante espuma, esta caneca, senão eu conto para todo mundo que você matou um filhote de ovelha do Seu Chico.”, reagi trepado na táboa do curral apontando a caneca.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “ Mariquinha enredeira de merda! Conte para quem você quiser sua mariquinha. Não vou tirar leite para você e pronto.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Pai vem em meu socorro, enche minha caneca de leite e manda eu de volta para a cozinha. Enquanto a mãe limpava meu bigode de espuma de leite, choro e conto a ela o segredo que havia escutado, mas ela já sabia. “Luizinho já reparou o mal que fez: não se fala mais nisso”.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Passei a manhã ensimesmado: não conseguia estabelecerrr uma relação entre choro do bebê, o berro do filhote da ovelha e seu assassinato e menos ainda, como todos sabiam de um segredo que só eu e o pai deveríamos saber. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Esta foi a história. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Chegando do Caminho de Santiago fui à luta para descobrir em que livro eu havia lido uma oura história com enredo parecido. Manhãs foram dedicadas a tão nobre e importante missão: livros no colo, café quente na xícara. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Não, decididamente, não foi em Montanha Mágica. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Busquei e folheei o Declinio e Queda do Imério romando e nada: não foi o Gibbon que escreveu a história que tinha, como já disse, ovelha e pastor como personagem. Pesquisei, folheando, a História da Vida Privada – do Império Romando ao Ano Mil e também não foi lá que li. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Onde então? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Lembrei-me de um livro que li há tempos chamado Férias Pagãs. Foi neste livro que descobri que o “carinho” educativo de senhores por jovens não foi privilégio dos velhos gregos e, sim, uma prática comum entre os romanos. Só pode ter sido lá que li. E como fazia bastante tempo que eu havia lido o Férias Pagãs tive que quase que relê-lo totalmente para descobrir que seu autor, Tony Perrotttet, não foi o quem contou a história que eu teimava em descobrir. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O agradável em tão importante missão de descoberta foi a prazeirosa releitura de livros até esquecidos e empoeirados na estantante. Descobria neles novos emaranhados mas não a história. Estava a desisitir: “Ser detetive não é o meu forte. Já sabia que se eu fosse médico, arquiteto e manobrista de carro eu passaria fome. Aagora mais uma profissão que me deixaria a ver navios: detetive”, pensava. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi por puro acaso que nesta desordenada e desorganizada busca dei com um Borges à minha frente. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Café quente nos lábios e, no colo, O Livro dos Seres Imaginários, mais específicamente o conto O Centauro :&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;“Na Ceia dos Sete Sábios, Plutarco conta com humor que um dos pastores de Periandro, déspota de Corinto, levara para ele numa sacola de couro uma criatura recém-nascida que uma égua havia dado o a luz e cujo rosto, pescoço e braços eram humanos e o resto equino. Chorava como uma criança, e todos acharam que era um presságio terrível. O sábio Tales olhou para ele, riu-se e disse a Periandro que realmente não poderia aprovar a conduta de seus pastores.”&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4416603959603844561?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4416603959603844561/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4416603959603844561' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4416603959603844561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4416603959603844561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/12/plutarco-e-as-ovelhas.html' title='PLUTARCO E AS OVELHAS'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/-LI6mjgzEp24/Tt3_8KmzfPI/AAAAAAAAANA/B87hxycNzsw/s72-c/DSC03914retoc_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4802453449813066365</id><published>2011-11-11T02:30:00.001-08:00</published><updated>2011-11-11T02:30:45.261-08:00</updated><title type='text'>O PÉ DE LIMÃO GALEGO</title><content type='html'>&lt;h4&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-X6LcBj1xlp4/Trz5UlixYOI/AAAAAAAAAMo/wD8qF_G9GOc/s1600-h/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520037%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="2009guaraqueçaba 037" border="0" alt="2009guaraqueçaba 037" src="http://lh3.ggpht.com/-zh1cw4I2qfo/Trz5U3RLryI/AAAAAAAAAMw/28Rd3rliiIo/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520037_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h4&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="right"&gt;&lt;i&gt;“limão galego,&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="right"&gt;&lt;i&gt;relô tá pego!”&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Em outras histórias já devo ter contado de minha amizade com Gilsom. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;De qualquer forma vou relembrar: conheci Gilson, na década 60, quando ambos, trabalhávamos como professores primários na região do Vale do Ribeira, em São Paulo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Àquela época, hoje não sei, havia uma enorme carência de professores primários na Região do Vale e muitos de nós, saíamos de nossas cidades, à busca de trabalho durante o ano todo naquela região. E foi assim, então, que Gilsom e eu nos conhecemos e nos tornamos amigos; éramos paulistas, porém de diferentes regiões: eu do norte do estado e ele da região de Campinas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Embora fosse apenas um ou dois anos mais velho que eu, Gilsom era mais maduro tanto intelectual quanto emocionalmente; lidava, e me ajudou muito nisso, de maneira inteligente e menos emocional com os revezes políticos trazidos pela ditadura militar implantada no país e que muito nos atormentava: acreditava que o sonho não havia sido destruído e que a luta apenas se iniciava: “a derrota realmente aconteceu nesta batalha, mas a guerra está em seu início.”, dizia. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Seu pai era diretor de Grupo Escolar, nome que era dado às escolas públicas responsáveis pela educação das crianças do primeiro ao quarto ano, em sua cidade natal e nos municiava, mensalmente, com livros e mais livros retirados por ele na Biblioteca Municipal daquela cidade. Atendia a pedidos nossos e também nos mandava, por conta própria, livros que julgava importante. E assim, em uma escola rural, meio a bananais e à margem do Ribeira de Iguape, li e reli, por iniciativa própria o velho Machado, Jorge Amado, Veríssimo, Raul Pompéia e por sugestão do pai de Gilsom , a quem conheci apenas por cartas, conheci Shopenhauer e Dostoiévski. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas o que mais importa aqui, nesta história é que Gilsom se dizia um “comunista biológico”; sim, a expressão “comunista biológico” é velha e no caso do Gilsom, o que ele queria dizer era que havia nascido e queria ter uma vida “comunista”. Era, então, ateu ou “materialista” como gostava de dizer, enquanto eu ainda lutava entre a crença em Deus e as possibilidades de um mundo mais justo, sem Ele, ou apesar Dele, como ironizava Gilsom.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nos dias de comemoração dos Finados, em Registro, os membros da colônia japonesa local realizavam uma cerimónia sensível, muito bonita e, até hoje, inesquecível. Construíam , em suas casas, centenas de pequenos barquinhos de papel com os quais homenageariam seus mortos. Na noite da véspera de Finados em cada barquinho era colocada e acesa uma vela e os mesmos eram delicadamente conduzidos até a margem do Ribeira para, depois, sob circunspectos cantos e orações, serem suave e cuidadosamente empurrados para a correnteza onde eram deixados para, a partir dali, fossem guiados e levados pelos espíritos dos mortos homenageados ao sabor da fraca correnteza do rio Ribeira de Iguape. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Eram por volta de oito horas da noite e estávamos, Gilsom e eu , no alto da ponte do rio Ribeira, vendo os pequenos barcos iluminados descerem vagarosamente o rio. Do alto da ponte os maiúsculos barquinhos de papel se assemelhavam a pequenas estrelas caídas no rio e que, docemente, se deixavam flutuar no caudaloso Ribeira de Iguape. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Atentos percebíamos um ou outro barquinho que ia à deriva apagando sua luzinha nas águas escuras e barrentas do rio.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A noite estava escura. Nuvens negras, prenunciando fortes chuvas, impediam a passagem do brilho das estrelas do céu: ficavam apenas, rio abaixo, as estrelinhas navegando com suas luzinhas frágeis, coloridas, trêmulas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Gilsom me disse:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Sabe que em julho passado, nas férias, passei frente à casa vazia de Dona Maria, mãe de um grande amigo meu, que havia morrido pouco antes e, por eu estar aqui em Registro, não pude ir ao seu enterro. Passei uma ou duas vezes frente à casa, agora totalmente vazia, e pensei em prestar-lhe uma homenagem. E foi aí que, frente a casa vazia, me dei conta que meu materialismo, minha descrença em outras vidas, minha certeza no FIM que a morte decretava, me impedia de render a homenagem que tanto queria; confesso que a visão da casa vazia à minha frente e a secura de minha alma me deixou triste, desprovido de amor, como que se tivesse ficado oco por dentro. Você com sua crença, com certeza, em uma situação desta, se sentiria melhor: rezaria e pronto.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Pingos grossos de chuva caiam pesados sobre nossa cabeça e, juntos com o vento forte, iam, a cada segundo, colocando os barquinhos iluminados à deriva, apagando-os. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E a escuridão se deu.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Um ou dois anos mais tarde nos separamos. Saímos, ambos, da região de Registro à busca de novas oportunidades como professores primários, que aquela época, era o que queríamos ser.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Um aperto de mão sincero, o acordo de longas cartas mensais, o meu compromisso em conhecer pessoalmente seu pai...Foi o nosso adeus.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Na secretária eletrônica um recado de Gilsom: seu filho havia conseguido o número de meu telefone nestes sites modernos e no recado gravado queria saber se eu era eu, ou seja, se era eu que havia trabalhado como professor em Registro e se era mesmo eu o professor que jogava bola, e bem, e nadava, muito mal, no Ribeira.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Telefonei para o número indicado e deixei recado: sim eu sou eu, não jogo mais bola e deixei a profissão de professor para trás.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Dia seguinte recebo um telefonema seu. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Morava no interior, havia casado, ficado viúvo, continuou sua carreira de professor primário e havia se aposentado como diretor. A mesma voz grave, as palavras cuidadosamente soletradas, todos os “esses” e os ”erres” bem colocados, o mesmo cuidado com a língua, acentuados pelo sotaque caipira do interior do Estado. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Semana seguinte, em uma terça-feira, logo de manha, cheguei em sua casa. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Não o esperava gordo e ele tinha até uma barriguinha; ele não me esperava careca e eu poucos cabelos tinha. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Meia hora depois nos sentíamos os mesmos amigos de sempre.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Gilsom continuava, segundo ele, um comunista biológico.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “E você? Agora velho, não pode mais ser de Juventude Católica nenhuma, não?” , referindo ao fato de eu pertencer, àquela época, aos movimentos da Igreja voltados pra os jovens. Explicando aos mais novos: naqueles tempos, a Igreja visando alcançar os jovens, liderava um importante movimento de agregação e luta. E conforme a condição do jovem o mesmo era incitado a participar do movimento com seus pares: assim tinha a JAC -Juventude Agrária Católica, a JEC que era dos estudantes, a JIC dos jovens independentes, a JOC dos operários, movimento ao qual eu participava e a JUC dos estudantes universitários. E Gilsom, brincando: “a que G você pertence agora? À GAC – dos geriatras aposentados católicos?” &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E nos pusemos a rir. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Pertenço, agora, à GA: Geriatria Ateia; me livrei da Igreja e de Deus.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Devagar com o andor: melhor Geriatria Agnóstica...dá para mudar. Ateia é muito definitiva”, disse rindo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Fomos até a Biblioteca Municipal, que agora tinha o nome de seu pai. Deu gosto de ver: frente a praça principal da cidade, em uma bela casa pintada de rosa, assoalho de madeira brilhando, estantes repletas de livros, uma bibliotecária bonita e prestativa. Emocionei-me! Fui até a estante de Literatura Brasileira e revi os livros do querido Machado, a obra completa de Jorge Amado e Érico Veríssimo e também escritores mais novos: Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira e mesmo os mais recentes: João Ubaldo, Milton Hatoum, Raduan Nassar. Tudo tão manuseado, tão limpo, tão sem cheiro de mofo, tão sem de traças.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Voltamos para sua casa e ele me contou:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Veja o que aconteceu comigo, um comunista biológico, materialista e tudo mais.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Morreu, há alguns anos, o meu sogro, com quem eu tinha grande amizade; ele deixou em seu minúsculo quintal uma verdadeira floresta de plantas. Era assim o velho: não resistia em ver uma muda, ou uma semente que ia plantando, e plantando e colocando em seu quintal que tudo cabia: cabia a jabuticabeira enorme, frutificando abundantemente todos os anos, cabia um imponente pé de coco da bahia, que, segundo meu sogro, por falta e de salinidade no ar, nunca produziu um único coco, tinha uma ameixeira, também infértil, dois pés de acerola, duas mudas adolescentes de jaca, um pé de amora e um primoroso pé de limão galego. Este sim, frutífero, perfumado em sua florada e em seu tempo de frutas. Produzia limões com bastante caldo, casca fina, cheirosos, fortes. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi então que resolvi homenagear meu sogro e trazer para meu quintal o seu pé de limão galego. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Minha pouca experiência em jardinagem e o afeto que tinha pelo limoeiro fez com que eu tivesse alguns cuidados. Assim, pedi e tive o apoio e orientação de um amigo de meu filho, engenheiro agrônomo que se comprometeu a nos orientar em como arrancá-lo do quintal sem judiar, sem colocar em risco sua saúde, garantindo um transplante saudável, sem nenhum perigo. Indicou-me, para realizar a operação um jardineiro de confiança e, orientados pelo engenheiro, realizamos o processo de transplante. E, ouça o que quero te dizer: não é uma coisa simples, bruta, de chegar e furar um buraco e tirar a planta. Foi uma operação cuidadosa, repleta de cuidados, muito respeito e pequenos truques: fizemos, primeiramente, um buraco fundo em volta de todo o limoeiro e jogamos serragem até tampar o buraco feito, molhamos bem, umedecendo a serragem e somente passados dois dias desta operação, é que fomos, cheio de cuidados e de cordas, retirar a árvore de seu local de origem. E ela foi retirada por completo, com suas raízes protegidas pela serragem, embalada em sacos de aniagem para ser carregada, sem nenhum perigo, até o local onde foi plantada, que é logo ali embaixo no meu quintal. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E aqui também todo cuidado: um enorme buraco redondo, maior que uma cova havia sido previamente preparado para o pé de limão galego: e o fundo do buraco, sua nova casa, foi coberto com serragem, areia, húmus de minhoca, esterco de gado, terra fofa e argila expandida. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Um verdadeiro “ninho” esperava a muda.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi quando, o jardineiro eu estávamos a colocar a muda no seu novo lar que algo ocorreu e que é bem difícil contar direitinho. O que houve? Imagine só: foi ao mesmo tempo que , tanto o jardineiro quanto eu, fomos tomados por uma emoção muito forte, por uma sensação de infinita felicidade, e , inexplicavelmente, os dois - eu e o jardineiro - pensamos e expressamos a mesma coisa:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Como ele deve estar feliz lá no céu!” e lágrimas correram sobre nossas faces. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era hora de voltar para casa e, ao despedir, lembrei-me de um versinho de Mário Quintana e o disse:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;“Deus tirou o mundo do nada.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;Não havia nada mesmo...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;Nem Deus!”&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4802453449813066365?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4802453449813066365/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4802453449813066365' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4802453449813066365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4802453449813066365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/11/o-pe-de-limao-galego.html' title='O PÉ DE LIMÃO GALEGO'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh3.ggpht.com/-zh1cw4I2qfo/Trz5U3RLryI/AAAAAAAAAMw/28Rd3rliiIo/s72-c/2009guaraque%2525C3%2525A7aba%252520037_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-8317644562984899551</id><published>2011-11-04T11:19:00.001-07:00</published><updated>2011-11-04T11:19:09.935-07:00</updated><title type='text'>Joachim</title><content type='html'>&lt;p&gt;&amp;#160;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh5.ggpht.com/-g0pgtRWW0GI/TrQsmcczAVI/AAAAAAAAAMU/rTaTCUFDu8w/s1600-h/DSC04271%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04271" border="0" alt="DSC04271" src="http://lh5.ggpht.com/-cGWzFF9FMYw/TrQsm9xldJI/AAAAAAAAAMY/R-xIk9vM3Uc/DSC04271_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;Era uma manhã de céu plenamente azul com o sol aquecendo as costas; olhei para o norte e avistei, bem lá longe, as montanhas cantábricas, descansando um pouco a mente de dias e dias - creio que foram uns cinco ou seis - caminhando pela “meseta”, onde predominou o retão. Na região da “meseta” só se enxergava a longa e infinita planície: para todo lado que você olhasse - seja para o norte, para o sul, para o leste ou para o oeste – o que se via era, até o horizonte a planície se encontrando com o céu: nenhuma montanha, nenhum morro, nem mesmo um pequeno bosque surgia à vista para oferecer um pouco mais de movimento á solidão dos páramos espanhóis. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi então naquela manhã que, ao enxergar, ao norte, as montanhas cantábricas e sentir o calor do sol às costas, o peso da mochila e a dor da bolha que havia se formado e que ardia no dedo minguinho do pé esquerdo deixaram de incomodar e me peguei, no Caminho de Santiago, cantando e cantando. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Assustei-me quando ouvi:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Que língua é esta em que está a cantar? Pergunto e já respondo um pouco: sei que é uma língua latina, mas não é espanhol e também não é português. Mas, antes, um bom dia e um bom caminho.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Bom dia. Estou cantando em português...”, não terminei a frase e fui interrompido.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Português? Mas não o de Portugal, não é mesmo?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E caminhei toda aquela manhã com o Joachim, da cidade de Hamburgo, sessenta e oito anos, alto como os alemães costumam ser, farta cabelereira branca sob o boné de abas largas e um enorme bigode, todo branco, retorcido em suas extremidades cobrindo os lábios superiores; me ative com atenção ao bonito rosto e percebi a pele alva, sem as manchas típicas de nossa idade, barbeada com esmero. Apenas as rugas denunciavam a idade em um rosto que revelava o dono: bem humorado, inteligente e um pouco desconfiado ou descrente dos mundos, dos homens, sei lá!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E ocorreu comigo uma situação estranha, irreal: enquanto parlamentava, olhava o rosto, as mãos e ouvia a voz metálica de Joachim senti, ou melhor, tive a certeza de que já o havia encontrado outras vezes, mas, onde?; já havia falado com ele e, mais que isso, uma sólida e forte amizade já havia ocorrido entre nós. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, por conhecê-lo, adivinhava as respostas que daria às minhas perguntas, previa suas esquivas a outras perguntas; conhecia, de há muito tempo, aquela voz. Mas, de onde?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Aquela situação me fez lembrar um amigo que disse-me, certa vez, em uma mesa de bar – temos que relevar o fato de já havíamos bebido bastante - que em uma sua primeira e única viagem à Índia reconheceu lugares, sentiu cheiros, como se já tivesse por lá, antes, passado. E passou? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E agora, já velho, vivido, confesso que me sentia incomodado com a situação em que me encontrava e desconfortável em obter, sem que Joachim desconfiasse, informações para confirmar nossos encontros anteriores; sentia-me como um padre fazendo perguntas capciosas na busca de pecados escondidos. Desconfortável, admito, mas incontrolável a necessidade de reconhecer, de saber com quem eu falava. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Joachim, tagarela, outra característica que confirmava minhas suspeitas, atende a minha pergunta:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Onde aprendi espanhol? Lendo, manuseando dicionários e ouvindo zarzuelas. Conhece zarzuela? Não? Oras, zarzuela é um gênero musical operístico espanhol, que infelizmente foi abafado pelo sucesso da ópera italiana ou francesa. Gosto muito. Já ouviu alguma? E não estranha, você, um alemão com o nome de Joachim?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Entendi sua resposta como uma pista para eu entender o que estava a ocorrer e fui firme:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Bem, posso dizer que já conheci outro alemão chamado Joachim, o primo de Hans Castorp; o soldado Joachim a quem Hans foi visitar em Davos, onde o mesmo se tratava de uma doença pulmonar...” &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Fui interrompido com uma gargalhada:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Sei, sei...Está é querendo me contar que leu a “Montanha Mágica, não? Um belo livro; também gostei muito. E já que você conhece o Joachim e o Hans Castorp eu te pergunto: conhece também o Adrian Leverkhün, do belíssimo Doutor Fausto, um outro filho da infinita família de Thomas Mann?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Percebi claramente, àquela hora, que Joachim sabia de minhas intenções e que minha busca a tão irreal encontro não o incomodava; talvez estivesse, pensei, tão curioso quanto eu em confirmar que eu era eu.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E claro que sua pergunta, investigando meu conhecimento sobre Adrian Leverkhün, foi intencional, forçando-nos a falar de música e, com isso, fazer com que nossas preferências musicais viessem à tona. E seu entusiasmo por Schöemberg o denunciou. Tive, a partir dali, a confirmação das certezas anteriores; agora a certeza era absoluta: conhecia, e muito, Joachim. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Sempre fui, e principalmente na mocidade, fascinado pelos contos e filmes que narravam as visões que as pessoas tinham nos desertos áridos e sem vida: nos infinitos areais ensolarados, com insuportável calor e sede profunda surgiam as visões de lagos, de águas claras, de odaliscas dançando com o umbigo à vista, o véu cobrindo o rosto e deixando desnudas as lindas e morenas pernas torneadas sob coqueiros verdes e suas sombras. Oásis na secura da vida. Mas, e agora, Deus do céu, aqui, em pleno páramo espanhol, o que está ocorrendo? Será que aos sessenta e sete anos, vou ter minha crença na descrença em outras vidas, em outras almas, colocada a prova? Será que, como um antigo cristão, um Paulo ou um Agostinho, terei, agora, a fé em minha vida ateia e materialista colocada em dúvida? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Impossível. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Meu amigo Dirsom faleceu já há quatro anos, no Brasil, em São Paulo; certeza absoluta: fui ao velório e ao seu enterro no Cemitério dos Ingleses, em Pinheiros. Revi amigos comuns em sua missa de Sétimo Dia, celebrada por um pastor anglicano, seu amigo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Como posso, então, reencontrá-lo aqui neste caminho de Santiago?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Joachim é Dirsom? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O mesmo bigode retorcido, a pele clara com pequeníssimas veias azuis desenhando figuras abstratas em seu rosto, o infinito entusiasmo por música, pelo estudo de línguas, sua eterna busca do belo? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas explicando melhor para não confundir aos que escutam esta história: conheci e me tornei amigo do Dirsom, há muito tempo atrás, ainda no início de minha vida profissional, coisa de mais de quarenta anos. À época, trabalhava em uma empresa estatal, e foi meu superior hierárquico quem falou-me do Dirsom, que conhecia e do qual tinha excelentes informações e lembranças e do interesse do mesmo em compor nossa equipe. Estava, Dirsom, voltando dos Estados Unidos, para onde tinha ido com a família, em exílio forçado pela ditadura militar que comandava o Brasil. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Entrevistei-o, falei dos projetos que alimentavam nosso trabalho e senti seu entusiasmo. Rimos muito, mais tarde, é claro, após a amizade tão construída, de sua necessidade de aproximar o papel aos olhos para ler, de sua miopia profunda e de sua quase cegueira que o impedia, como eu, de se deliciar dirigindo motocicletas por estradas e ruas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E também, além de míope, era daltônico e vou contar um episódio que ocorreu em seu processo seletivo. Tínhamos na empresa, um psicólogo baixinho, moreno, seríssimo e profundo crente nos testes que aplicava aos candidatos a emprego. Mandou me chamar à sua sala onde estava com Dirsom e todo compenetrado:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Olha este rapaz, o Dirsom, é daltônico, veja”, falava ao mesmo tempo em que pedia a Dirsom que, com o dedo indicador, seguisse os números que havia em uma colorida prancheta de papelão. E, Dirsom, obediente á ordem do psicólogo e às cores da prancheta “desenhou” o número dois; e “somente” ele via naquele emaranhado de bolinhas coloridas da prancheta o número dois que ele fazia com o dedo indicador. Enfim, “o candidato é daltônico, o que é um complicador do ponto de vista...”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Interrompi o psicólogo:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Ótimo: ainda bem que ele não é candidato a condutor de trens e, mesmo que o fosse, não há semáforos na linha. Há outro ponto que julga importante para eu levar em consideração?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Décadas depois deste episódio, do qual eu havia esquecido totalmente, o amigo o relembrou ao contá-lo ao maestro da orquestra que, por iniciativa de Dirsom, havia nos aproximado novamente para, juntos, desenvolver um trabalho que unia paixão pela música, uma certa experiência administrativa, fruto dos cabelos brancos do Dirsom e pela minha calvície, alguns poucos conhecimentos técnicos e uma alta dose de voluntarismo. Mas, o que importa, nesta história, foi o nosso reencontro neste trabalho; depois de mais de trinta anos a orquestra nos reaproximou fisicamente, reafirmou nossa antiga e sempre presente amizade em um prazeroso trabalho.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E mais surpresas ocorriam. Sabia de sua paixão pela música, mas não sabia que era um excelente pianista. E, soube dessa sua qualidade, não por ele, mas sim pelo “spalla” da orquestra: “Dirsom não se tornou músico profissional por absoluta falta de interesse”; e o inquieto amigo Dirsom, no momento, andava entusiasmadíssimo com o curso de violoncelo que andava a fazer. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas, mais surpresas! Em uma manhã, tomando café na sala da orquestra, sabendo do meu entusiasmo por Guimaraes Rosa perguntou-me a respeito do belíssimo e de certa forma inacabado conto “Meu tio o Iauaretê”. Estranhei a pergunta –Dirsom não se interessava por literatura brasileira - e obtive a resposta: teria que fazer a tradução do conto para o alemão. Estava terminando o curso de alemão no Instituto Goethe. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Prometi ajuda. Chego em casa e releio o conto. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Deus do céu, missão impossível: no conto são tantos os &lt;i&gt;“n’t”,&lt;/i&gt; tantos os &lt;i&gt;“pimenta, hã...Nhem? À-hã, é, tá escuro”,&lt;/i&gt; como traduzir isso para o alemão?, pensava. E, enquanto lia, mais duvidava: será que dá para traduzir &lt;i&gt;“Tá bom, dei’stá. Pesei que mecê queria ser meu amigo...Hum. Hum-hum. É. Hum. Iá axi. Quero canivete não”, &lt;/i&gt;ou ainda&lt;i&gt; “Muita pimenta, hã...Nhém? À-hã, é, tá escuro”&lt;/i&gt;, ou mesmo, mais simples, deve ser traduzir&lt;i&gt; “cê pode ficá aqui”. &lt;/i&gt;E, claro, nos divertimos muito com o índio Iauaretê rosnando, bravo, em alemão. Além do alemão, que, com esta tradução eu tinha certeza Dirsom dominava como poucos, tinha o inglês, o latim e fiquei pasmo quando, no caderno mensal da programação da orquestra, vi seu nome assinando a tradução do francês de trechos de uma ópera que seria apresentada pela orquestra e uma belíssima soprano eslava. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E agora vem o Joachim me dizer que aprendeu espanhol ouvindo zarzuelas e manuseando dicionários? E o timbre de voz: igual. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Acordei!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Já fazia mais de dois meses que havia chegado em casa, depois de ter percorrido o Caninho de Santiago, e foi a primeira vez que sonhei com o Caminho depois de tê-lo realizado. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Foi um bom sonho! &lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-8317644562984899551?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/8317644562984899551/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=8317644562984899551' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8317644562984899551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8317644562984899551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/11/joachim.html' title='Joachim'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/-cGWzFF9FMYw/TrQsm9xldJI/AAAAAAAAAMY/R-xIk9vM3Uc/s72-c/DSC04271_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-6037415718277467377</id><published>2011-10-19T08:38:00.001-07:00</published><updated>2011-10-19T08:38:10.646-07:00</updated><title type='text'>O SOLDAO JUGURTA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;i&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-0akKqFrPJ_U/Tp7u3zPe38I/AAAAAAAAAMA/zBwQx_B_8Kw/s1600-h/DSC04196%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04196" border="0" alt="DSC04196" src="http://lh4.ggpht.com/-qB-TPRmiYiY/Tp7u4SZ4MwI/AAAAAAAAAMI/77pJkaAquGU/DSC04196_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;i&gt;“ A verdade histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que aconteceu”; “in” Jorge Luis Borges, Pierre menard, autor do Quixote, Ficções, pag. 43.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;“Até que enfim chegou um ouvido e uma mente para escutar o que eu quero contar”, alegra o velho contador de histórias com a chegada do amigo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Conta.”, disse o amigo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Vou contar a história de Jugurta, o soldado que queria ser rei.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o velho começou a contar:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Jugurta, um celta, era um homem forte, alto, loiro, olhos infinitamente azuis e possuidor de uma coragem ímpar e um de inconfessável amor à guerra, à luta. Já tinha, aos dezesseis anos de idade, mais de um metro e noventa de altura, os peitos largos, os braços fortes e o corpo imberbe: pequenas penugens fantasiavam o futuro bigode e mesmo a na região pubiana os pentelhos teimavam em não nascer deixando mais visível e desprotegido o sexo. E foi graças a esta sua situação, digamos biológica, que sua fama começou a se estender por toda a região dos dácios. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Quando, ainda adolescente, Jugurta, obedecendo a tradição de sua tribo, saiu de sua aldeia para matar um não celta e trazer sua cabeça para apresentá-la aos anciões e guerreiros da sua tribo e com isso receber a tatuagem de guerreiro, Jugurta ficou sete dias e sete noites fora, apresentou-se apenas no oitavo dia ao entardecer, com sete cabeças cortadas, presas entre si pelos cabelos. Apresentou-as aos anciões e guerreiros de sua tribo, orou, massacrou-as para liberar suas almas e as levou para a floresta, oferecendo-as a Aracha, que sob a forma de gralhas, se alimentam da cabeça dos guerreiros mortos. Tatuado como guerreiro, ainda adolescente Jugurta, também pelo seu tamanho, força, coragem e amor à guerra foi recrutado para formar, junto aos homens de sua tribo, um destacamento guerreiro que planejava realizar incursões e saques ao acampamento dos invasores romanos. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E as repetidas e inusitadas vitórias nessas incursões, encheram os bárbaros celtas de orgulho, e fez com que, animadíssimos, estas incursões se tornassem cada vez mais frequentes e ao destacamento da tribo de Jugurta, liderados por Decébalo, juntaram-se desertores e assaltantes que a cada vitória e saque, se fortalecia frente a fragilidade encontrada nos acampamentos inimigos. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Decébalo e seu exército guerreavam, saqueavam, faziam reféns, extorquiam. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Uma noite, após fácil vitória e total destruição de uma pequena cidade cercada por um alto muro de pedra, na região da Gália, Decébalo reuniu seus homens fortes para falar do futuro. Todos oraram a Badba, deusa da guerra em forma de corvo, para que continuasse a protegê-los e, agradecidos, ofereceram vinte e sete cabeças inimigas. E depois da cerimônia falou aos seus homens: o que pensava, e queria, disse era “reunir todas as tribos das montanhas, superar suas rusgas e, unidas, fortalecerem-se para uma luta permanente completa expulsão dos invasores.” E Decébalo, com a autoridade de guerreiro vencedor, continuou:“ vamos agora, dar uma trégua aos inimigos, e buscar os chefes de todas as nossas tribos e reuni-los para com a união buscar a vitória definitiva até que os altiplanos sejam acrescentados às montanhas tornando-se tudo, altiplano e montanhas, um novo reino, o reino dos celtas”.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Jugurta foi escalado para encontrar os chefes das tribos das montanhas, perto do mar e trazê-los para a grande reunião, que aconteceria no próximo solstício de inverno. E Jugurta montado em seu cavalo e tendo Sencha como companheiro, cavalgou durante mais de três meses pelas montanhas e pelas praias na busca de tribos celtas. E a todas que encontrou procurou o chefe , os anciões, orou e com Sencha, iniciou a composição de uma nova história do povo celta. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o solstício de inverno chegou, com a noite mais longa do ano, o céu estrelado e a neve cobrindo as montanhas e as árvores. E naquela noite mais longa do ano, trinta e três chefes de trinta e três tribos celtas da Gália, pedindo a proteção de Badba, oraram, cada tribo oferecendo a trinta e três cabeças trazidas de inimigos de sua região. E aqueles chefes guerreiros palestraram, oraram e unidos por Badba, a deusa da guerra, se uniram. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Todos concordaram em que Decébalo se tornaria o rei do novo reino. E Decébalo, falando como rei, chamou Jugurta para o seu lado direito e disse:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Quando, vencedores formos, quando um só reino celta nascer, este ao meu lado, Jugurta , que a todos mostra sua beleza e coragem, será meu fiel praepositus.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Um silêncio sepulcral seguiu-se à fala de Decébalo. Todos os chefes olhavam ao corpo imberbe de Jugurta. A lua, no céu claro, sem nuvens, iluminavam o corpo forte e Jugurta se assemelhava a Oenghus, deus da juventude. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Decébalo, olhando lascivamente para Jugurta, exigiu sua aproximação e tocou-o nas nádegas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Com um único golpe de sua espada Jugurta decepou o pescoço de Decébalo, tomou-a pelos cabelos e, ainda jorrando sangue, ofereceu-a a Aracha. Depois, massacrou-a para liberar a alma, e disse:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “O rei serei eu. Cuidado, eu aviso: Aracha, a gralha que se alimenta da cabeça dos guerreiros está faminta, melhor alimentá-la com cabeças de inimigos. À luta.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E chefiados por Jugurta, que, encantado com a possibilidade de uma guerra permanente, os celtas iniciaram, depois de sete dias de preces, orações e sacrifícios, ataques e incursões aos mais fortes acampamentos inimigos. E a todos venciam. E pilhavam, e decepavam cabeças, e cobravam pertences, ouros e alimentos pela liberdade e fuga dos inimigos. Dois outros solstícios de inverno foram comemorados. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E as incursões iniciadas nas montanhas cantábricas e altiplanos gálicos chegaram aos Alpes. Jugurta, ainda jovem, era querido e procurava ser justo. Dividia os saques entre as tribos, negociava com os comandantes inimigos e sonhava chegar ao reino dos romanos. Já nos Alpes, cercaram e saquearam um fortificado acampamento e cidade inimiga, Jugurta se deu conta que estava cercado de inimigos. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Reuniu seus chefes guerreiros e ordenou: &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Vamos fugir todos. Vamos, antes, cortar nossos longos cabelos, pintar nossos corpos com tinta escura, até parecermos com os inimigos e vamos, cada um por si, acompanhados por Bardo e sua música, caminhar até a cidade onde mora o rei dos reis dos inimigos. Lá nos encontraremos para a grande batalha. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E todos fugiram. Bardo os acompanhava e com sua música enaltecia os feitos e a bravura dos celtas. E os bravos guerreiros se encontraram em Roma em um solstício de verão. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O sol ardia durante todo o longo dia! A noite demorava chegar. Quando chegou, protegidos pelos escombros de muralhas os guerreiros se reuniram. Jugurta falou:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Chegamos, finalmente, à casa do inimigo maior. Amanhã, ao longo de tão grande dia, assaltaremos o palácio e serei eu, Jugurta, tão belo como Oenghus, o rei de todos: dos amigos e dos inimigos. De Roma à Gália, dos Alpes ao mar Cantábrico: um único rei. À luta.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A amanhecer o dia Jugurta e os seus bravos guerreiros estavam cercados. Centenas, milhares de soldados romanos, alguns a cavalo, outros a pé, acompanhados por enormes e negros cães Mastim, cercavam a muralha e os escombros onde os celtas se escondiam. Um emissário exigiu a presença de Jugurta ao Palácio, onde o soberano romano o aguardava. Os bravos guerreiros celtas queriam a luta; crentes que suas almas integrariam outros corpos, assim que liberadas do corpo, não temiam a morte. Jugurta, no entanto, preferiu ir ter com o soberano.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E no suntuoso palácio, frente ao trono, recebeu a ordem:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Ajoelha!”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Jugurta ajoelhou-se.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o soberano:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;-“Agora, dispa-se!”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Jugurta despiu-se.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;-“Mata!”, ordenou o rei.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o corpo nu de Jugurta, transportado por dois nobres, foi solenemente devolvido aos guerreiros celtas que o levou até o alto de uma montanha, onde teve sua cabeça cortada e esmigalhada para liberar sua alma e a ofereceram a Badba. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Duas gralhas surgiram na árvore alta e observaram a cabeça esmigalhada. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Os guerreiros voltaram para as suas montanhas.&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-6037415718277467377?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/6037415718277467377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=6037415718277467377' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6037415718277467377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6037415718277467377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/10/o-soldao-jugurta.html' title='O SOLDAO JUGURTA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/-qB-TPRmiYiY/Tp7u4SZ4MwI/AAAAAAAAAMI/77pJkaAquGU/s72-c/DSC04196_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4087909291588892307</id><published>2011-09-26T12:31:00.001-07:00</published><updated>2011-09-26T12:31:44.485-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA  - 8–PAINEL DE MEMÓRIAS–2</title><content type='html'>&lt;p&gt;&amp;#160;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-t9P1WCVnE4Y/ToDTErF8VDI/AAAAAAAAALw/hEgRhhdLtcI/s1600-h/DSC04190%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04190" border="0" alt="DSC04190" src="http://lh5.ggpht.com/-xGs8R1L3Hbs/ToDTFmbCLEI/AAAAAAAAAL0/s93imwFhWJ0/DSC04190_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;CAMINHANDO COM CHUVA!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Detesto caminhar com chuva; gosto, mesmo, é do sol ardendo, da sombra das árvores, dos banhos nas cachoeiras, nos rios ou nos córregos!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E já que todas as minhas peregrinações, aqui no Brasil, foram realizadas sob o signo do sol ardendo, com direito a banhos em cachoeiras, que resolvi, nesta caminhada pelo norte da Espanha, usar o mesmo estratagema e com tal segurança confiança que nem mesmo capa de chuva eu levei.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Vou contar.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nas caminhadas realizadas pelo Caminho da Fé - que em seu trecho Águas da Prata – Campos de Jordão, fiz mais de uma vez – tenho sempre feito um acordo, ou um “trato” com o Padre Donizete para não chover. O trajeto original do Caminho da Fé - o nosso Caminho de Santiago tupiniquim - tem o início de seu percurso em Tambaú indo até Aparecida do Norte. Tambaú é uma pequena cidade situada ao norte do Estado de São Paulo e foi o palco na década 50 do século passado, de intensos e frequentes milagres do Padre Donizete. Dessa forma podemos dizer que o Padre Donizete e nossa Senhora da Aparecida são os “padroeiros” do belíssimo Caminho da Fé. Então é a ele - padre Donizete – a quem apelo e com quem faço um acordo: se ele ajudar e não chover durante a caminhada eu prometo uma coisa ou outra. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E esclareço que tenho cumprido a minha parte e o Padre Donizete a dele; em todas as caminhadas realizadas por aqui somente uma única vez choveu, e mesmo assim, muito muito pouco; e creio, mesmo, que o pobre coitado do Padre Donizete, ao atender o meu pedido de não chuva e os milhares e mais necessários pedidos de chuva, feito pelos lavradores da região, tem atendido aos dois: faz chover à noite. E nada melhor que caminhar sob o sol e saber que a terra está molhada, úmida, dando de beber as plantas, os rios, os córregos e as cachoeiras cheios, transbordando de tanta água. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas o Padre Donizete tem sido sempre muito exigente para definir o acordo. Explico: quando me proponho, por exemplo, rezar, toda noite, três ave-marias o padre não aceita e sempre exige mais: quer que eu reze um terço completo, ou que em um domingo eu vá à missa e confesse e comungue. Tem-se então um respeitoso processo de mercadejar entre o padre e este peregrino: explico ao padre que tenho que sair cedo o que me impede de ir à missa, que estou velho para caminhar com o sol muito ao alto e chegamos a um acordo: não vou à missa, mas rezo uns pares a mais de ave-marias, umas salve-rainhas e me comprometo a não ter maus pensamentos à noite. E não tem chovido durante minhas caminhadas: o bondoso e santo padre tem cumprido sua parte e, até mesmo, entendido pequenos deslizes e escorregões que, quase sempre, cometo às minhas promessas. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Por isso estranhei quando Santiago de Compostela aceitou, sem barganhar, minha primeira oferta que foi a de não ter maus pensamentos à noite em troca de não chover no Caminho. Santiago deve ser muito ocupado, pensei à época, face ao número de peregrinos no Caminho de Santiago ser infinitamente maior que o de peregrinos que caminham pelo Caminho da Fé, e a necessidade de atender a tantos peregrinos, falando diferentes idiomas, com pedidos os mais inusitados talvez faça com que a Santiago de Compostela não tenha muito tempo de mercadejar, aceitando logo a primeira oferta. Deve ser coisa, pensei, como a que ocorre em consultas com um medico particular e suas longas consultas, conversas, toques, estoque de perguntas, leitura dos exames, pesa e a tudo examina, do olho ao dedão do pé e a consulta em médicos de convênio: rápidas, pede-se logo um monte de exames e marca-se o retorno, para assim que os exames estiverem prontos, mas que está tudo bem, a saúde está boa, e até logo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas o que importa aqui é que realmente estranhei quando Santiago aceitou, de imediato, meu compromisso de não ter maus pensamentos à noite em troca de caminhar sem chuvas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Senti, mesmo, certo complexo de culpa pela facilidade que teria em cumprir minha parte no acordo, tendo em vista a minha idade, que, mesmo sem o peso de quilômetros e quilômetros de caminhada, tende a privilegiar o sono em relação aos maus pensamentos noturnos; e assim fui cumprindo, fielmente, minha parte no acordo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Quanto a Santiago, diferente do Padre Donizete, o mesmo parecia não ocorrer. Já em Pamplona, no quarto dia de caminhada, a notícia corria solta entre os peregrinos: previsão de chuva e mais chuva nos dias seguintes. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E eu não tinha capa de chuva. Compro uma ou confio no trato feito com Santiago? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E caminhar com chuva no Caminho de Santiago, com a temperatura a três ou quatro graus, com longos trechos sem nenhuma possibilidade de proteção sob uma árvore ou uma casa, enchia meu coração de medo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mesmo assim resolvo: não compro uma capa, pois se o tão tupiniquim padre Donizete sempre cumpriu o acordo o mesmo, com certeza, ocorreria como o europeu Santiago. De minha parte, nenhum deslize no prometido!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi então, em uma manhã, creio que saindo de Puenta La Reina em direção a Estella que o céu cobriu-se de nuvens negras, ameaçadoras. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Certeza de chuva. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Em uma “tenda” procuro, com um atendente prestativo, informações de onde eu poderia comprar uma capa de chuva, e o atencioso e prestativo rapaz desembestou a falar:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “ ?ddflakddf olkjfcefr? jejjj , dljdfd , industrial. Um momento!”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Explicando: o que está entendível na frase foi o que consegui compreender da apressada fala do atendente. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Que fazer? Pedi outro café duplo com leite e aguardar. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Pouco depois o rapaz aparece com um saco preto de plástico, destes de colocar lixo “industrial” – e ai entendi o sentido do industrial de sua fala – e gentilmente, com uma tesoura afiada faz um furo no fundo do saco onde colocaria minha cabeça, dois nas laterais, por onde passariam meus braços e assim, vestido de espantalho, caminhei sob fortes chuvas de Puenta de La Reina a Estella e de Estella a Los Arcos. E aquela capa de chuva improvisada me serviu por mais um ou dois dias de chuva forte. O percurso entre Los Arcos e Logroño foi realizado, felizmente, sob um céu azul e o sol brilhando no alto, aquecendo as costas durante toda a manhã. E, sob o sol, caminhei assobiando, cantando, feliz, esquecendo a falta de compromisso de Santiago para com o acordo feito. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Em Logroño, desconfiado, comprei, em uma loja do Serviço Municipal de Apoio ao Peregrino, uma capa de chuva verde com um enorme desenho da concha de vieira, símbolo do caminho, às costas. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-TrRkHA2imQk/ToDTHJ0ehZI/AAAAAAAAAL4/wskDYFuqyYA/s1600-h/DSC04266%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04266" border="0" alt="DSC04266" src="http://lh5.ggpht.com/-awCPcEAEtF4/ToDTH8yFkjI/AAAAAAAAAL8/DVubPBmxASc/DSC04266_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;ESCARGOT E IÇÁS&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A trilha, molhada pelas chuvas recorrentes, brilhavam, agora ao sol. E pequenos caramujos, sozinhos ou em pequenos bandos caminhavam devagar atravessado a trilha, deixando seu rastro luminoso feito de uma baba transparente. Bonitos e tinha que, muitas vezes, caminhar olhando para o chão para não pisotear os bichinhos com a bota barrenta e pesada.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Isso é escargot?”, perguntei ao Pablo, amigo e companheiro no caminho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Sim, são escargots. Depois das chuvas saem e costumávamos caçá-los, prendê-los em uma gaiola vazada por uma semana, sem comida, para que ficassem totalmente limpos: depois era cozê-los e, claro, comê-los. Muito bom.”.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nunca comi um escargot e não tenho vontade. Me causa certo mal estar pensar em comer a lesminha, parecendo um torresmo cozido, derretendo na boca. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Nojo?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Sim, um pouco de nojo, devo confessar, coisa de falta de costume, pois já comi içá.”. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era assim: também depois das chuvas, que ocorriam em outubro e novembro, se vigiava o céu para descobrir verdadeiras nuvens de içás e ira à caça. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Uma festa. Pai mandava e nós, ainda meninos, alegremente obedecíamos; nos juntávamos aos vizinhos, aos primos e, caçarola debaixo do braço, catávamos, sempre disputando quem enchia mais a caçarola de saúvas e sem dó, nem piedade, arrancávamos suas asas e depositávamos na caçarola. E elas caiam na caçarola feito uma bolinha de gude, ou uma jabuticaba marrom, só que com perninhas aflitas que não paravam de mexer, buscando a infrutífera fuga. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “E vocês comiam?”.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Depois, em casa, tira-se as perninhas e lava. Em uma frigideira, coloca-se bastante gordura de porco, aquece, joga sal nas bolinhas e frita. Uns gostam de comer com farinha de mandioca, meu pai gostava de jogar pimenta malagueta em cima da fritada e comia enquanto bebia goles e goles de pinga. As mulheres, sem o costume de beber pinga, comiam com arroz.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Sabe que até o Drummond, sim o Carlos Drummond de Andrade, comeu? E escreveu uma inesquecível crónica falando das tanajuras. Em sua história Drummond conta de um amigo, menino como ele, que à noite, após alegre caçada e haver saboreado uma boa quantidade de içás sonhou que estava a escolher uma enorme içá para arrancar suas asinhas quando a mesma foi se avolumando, avolumando, tornando-se cada vez maior e ameaçava - não me lembro de mais se conseguiu ou não arrancar seus braços para jogá-lo em uma frigideira cheia de banha de porco fervendo, fritá-lo e fazer uma paçoca. Cruz credo! &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E lembrei-me, naquele dia, vendo os escargots, dos popozinhos das tanajuras fritos na frigideira, estourando na boca sob a pressão dos dentes e da língua, soltando e esparramando na boca seus ovinhos, dos quais não me lembro de mais o sabor. Não sei se hoje, teria coragem de comer içás fritas, e muito menos de arrancar suas asinhas, e só para depois sonhar como o amigo do Drummond. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Melhor pão espanhol e queijo de cabra!&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4087909291588892307?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4087909291588892307/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4087909291588892307' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4087909291588892307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4087909291588892307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/09/o-caminho-de-santiago-de-compostela.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA  - 8–PAINEL DE MEMÓRIAS–2'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/-xGs8R1L3Hbs/ToDTFmbCLEI/AAAAAAAAAL0/s93imwFhWJ0/s72-c/DSC04190_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-9153975192404031846</id><published>2011-08-23T10:52:00.001-07:00</published><updated>2011-08-23T10:55:16.614-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - 8–PAINEL DE MEMÓRIAS -1 -</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O que vou contar é como se fosse um painel - não sei vai ficar bonito ou feio, embora gostasse de tê-lo alegre e vivo – de mosaicos coloridos, desiguais em suas formas, sem disciplina e método em sua seleção, agrupados displicentemente, um depois do outro, misturando cores, datas, pessoas, locais e sentimentos; o único elo que os une é serem, todos, frutos da memória da caminhada pelos nortes da Espanha.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-hAktFxw_K-8/TlPo4LFjd0I/AAAAAAAAALY/anOuV0pqosg/s1600-h/DSC04015%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border: 0px none; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; padding-top: 0px;" title="DSC04015" alt="DSC04015" src="http://lh6.ggpht.com/-5yxeGxG9TVM/TlPo4qXEeGI/AAAAAAAAALc/XUud4U94PsU/DSC04015_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" border="0" height="184" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O SOL ÀS COSTAS:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Deram sábios os peregrinos que, há séculos, sem o guia “El Camino de Santiago em Tu Mochila”, muito menos sem GPS, provavelmente sem mesmo uma mochila às costas, mas seguramente com um pesado cajado às mãos, que os protegia dos animais e os ajudava a vencer as fortes subidas ou longas e pedregosas descidas. Durante o dia era o sol que os guiava; à noite, provavelmente eram a lua e as estrelas, estrelas agrupadas e formando, aqui no norte da Espanha, acima da linha do Equador, desenhos diferentes dos que costumo contemplar em minhas caminhadas pelo Caminho da Fé ou da Luz. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Peregrinar pelo Caminho de Santiago, partindo de St-Jean-Pied-de-Port em direção a Santiago de Compostela é uma viagem, em uma linha reta imaginária, de Leste parra Oeste. E foi assim, observando o sol, que os remotos e fervorosos peregrinos, sem mapas e guias desenharam, fundamentados na lei da Economia das Probabilidades, o Caminho de Santiago de Compostela; a fé a movê-los em suas aventuras e o Sol e suas sombras como guias orientadores. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Ao caminhar do Leste para o Oeste, de manhã você tem o Sol às suas costas e sua longa sombra projetada para o Leste; e se você caminha buscando a direção de sua cabeça, o valor e a importância das setas amarelas, que apontam aos peregrinos a direção a seguir rumo a Santiago, desenhadas em árvores, pedras e muros, perdem em parte sua função orientativa. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;É o sol e a sua sombra que te guia e isso, no meu caso, ficava comprovado, quando às vezes, cansado, via uma seta amarela em uma árvore ou em uma pedra apontando para uma direção diferente daquela que o Sol me orientava: era então que, nervoso, tinha certeza que, ou havia algum obstáculo intransponível à frente - um rio, por exemplo -, ou estaria a dar uma volta desnecessária; e, quando se está cansado, creio já ter dito isso, qualquer quilômetro a mais faz diferença. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas, afirmo e retifico: ter o Sol aquecendo suas costas e sua sombra projetando a direção a seguir é reconfortante e nos leva a passeios e devaneios internos indescritivelmente prazerosos em sua primitividade. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-25_1Q_kC__M/TlPo7E-cLXI/AAAAAAAAALg/jJhEM1khbPw/s1600-h/DSC03906%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border: 0px none; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; padding-top: 0px;" title="DSC03906" alt="DSC03906" src="http://lh6.ggpht.com/-492fiE2JHuc/TlPo7xxnerI/AAAAAAAAALk/TYrgG-py_Q8/DSC03906_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" border="0" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;EM NOME DO PAI...&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Você já mudou de casa?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Se sim, sabe das dificuldades de adaptação nos primeiros dias que seguem à mudança. Onde está a pasta de dente? E a luz do quarto, acende onde? &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Agora imagine o que ocorre quando, a partir de certo momento, todas – eu digo todas – as suas coisas e pertences estão contidos em uma mochila. A escova de dente? Na mochila. Remédios de uso contínuo? Na mochila. Saco de dormir? Na mochila. E a cueca? Na mochila, oras, onde mais se poderia estar. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A mochila é a sua casa às costas.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Assim, principalmente nas primeiras manhãs, início da caminhada, com o organismo e o espírito ainda em processo de adaptação, a arrumação da mochila se torna um verdadeiro Deus nos acuda. Se arruma, se ajeita, e, ao final se vê que a fralda, usada como toalha, estava esquecida acima do beliche, e então, a mochila já fechada tinha que ser novamente aberta e, a qualquer custo, sem ordem nem cuidado se enfiava a fralda meio úmida sobre a camisa seca que seria a “muda” para a troca do dia. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, quase sempre, com a mochila novamente fechada vinha a dúvida: “será que não esqueci alguma coisa?” Uma operação “kafkaniana” era iniciada: verificar, reverificar e conferir os bolsos; com a mochila já às costas virar o corpo e olhar para o beliche desfeito para ver se não havia esquecido alguma coisa, voltar ao banheiro onde havia escovado os dentes, voltar ao beliche para remover o travesseiro do lugar e checar, novamente, se não havia esquecido alguma coisa debaixo... &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E era então um tempo que era gasto, muito ou pouco, não importa, e que passavam comigo dando volta e rodeando o beliche e a mochila, olhando estupidamente para os lados, para o alto e para baixo, se sentindo como um peru dando voltas em torno dele mesmo, abobalhado.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o pior: muitas vezes, após ter andado um quilômetro ou dois era assombrado pela dúvida: será que peguei, mesmo, no banheiro e coloquei na mochila a “nécessaire” com a escova de dente, pasta e aparelho de barbear? Para eliminar a dúvida - torcendo para que não tivesse que voltar ao albergue a procura da nécessaire – e continuar a caminhada com o espírito em paz era parar, abrir a mochila e, aliviado, ver que a nécessaire com a escova e pasta de dente estava espremida abaixo do saco de dormir; espremida, mas estava lá, e é o que importa. Fechava-se a mochila, aproveitava e bebia um pouco d água, colocava novamente a mochila as costas e seguia o caminho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Outra cuidado e preocupação eram com a, ou com o pochete – não sei se é masculino ou feminino esta palavra e prometo logo consultar o Houaiss e acertar a frase, isto se o corretor ortográfico, com ou sem minha permissão, não o fizer por mim - . Voltando ao assunto: era nesta pequena bolsa – seguramente pequena bolsa é feminino – que o passaporte, o "travelcheque", o cartão de crédito, a passagem de volta e uns trocados ficavam guardados; então, apesar da relativa segurança do caminho, diziam alguns peregrinos de que todo cuidado era pouco e por segurança, deveríamos ter a ou o pochete sempre presa ou preso à nossa barriga, mesmo a noite para dormir, o que não deixava de ser incômodo. Aprendi, na segunda ou terceira noite de caminhada, em Pamplona, com uma simpática italiana que o melhor para se guardar a pochete - enquanto não criar coragem de ir ao Houaiss ou o corretor automático de texto não de o ar da graça, vamos resolver , por nossa conta e risco que pochete é feminino, e fica assim: a pochete - à noite, na hora de dormir, era não deixá-la presa à cintura, como eu fazia, mas sim solta no fundo do saco de dormir. A pochete ficava aos seus pés, presa no saco com os eficientes zíperes que nos envelopavam dentro do saco, como uma múmia egípcia. E, verifiquei que era mesmo melhor: seguro e não incomodava o corpo durante o sono. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Outra coisa: e onde deixar os óculos quando se dorme no alto do beliche? Foi um holandês, com uma miopia de dar inveja ao Sartre, o autor da solução: guardava os óculos, junto com os chinelos, sob a cama debaixo: não havia perigo de ser pisoteado. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Na quarta ou quinta manhã, com o organismo e a alma já melhor adaptados, após a arrumação da mochila, buscava racionalmente imaginar que havia três coisas realmente importantes e com as quais eu deveria ter o máximo cuidado para não esquecer: meus óculos, a máquina fotográfica que levava a tiracolo e a pochete com os documentos e os dinheiros. E então, ao invés de ficar como um peru, dando voltas em torno de mim mesmo a procura de possíveis esquecimentos, colocava primeiramente a mochila às costas e checava com o apoio sensorial das mãos se os óculos estavam na testa, logo mais abaixo se a máquina estava pendurada no pescoço e mais abaixo ainda, acima do ventre, se a pochete estava presa na barriga. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi então que descobri que esta minha nova rotina de checagem havia sido confundida por peregrino japonês como uma persignação de minha parte: o pequeno e magro peregrino japonês imediatamente cerrou os olhos e, piedosamente, persignou-se.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-qA-zb5lOv18/TlPo9cUCpQI/AAAAAAAAALo/WAHPIj7Ams8/s1600-h/DSC04036%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border: 0px none; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; padding-top: 0px;" title="DSC04036" alt="DSC04036" src="http://lh5.ggpht.com/-Ew_sTWanRYw/TlPo-Kot_PI/AAAAAAAAALs/6EkQd27joZE/DSC04036_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" border="0" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;OS CORVOS &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Neste Caminho de Santiago de Compostela ouve-se menos cantar de pássaros quando comparado com as caminhadas que realizei aqui no Brasil: tanto no Caminho da Fé, como no da Luz.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No entanto, me encantou no Caminho de Santiago ouvir, pela primeira vez em minha vida, o Cuco. Havia dias em que caminhava horas e horas com um Cuco, me acompanhando ao longe, emitindo seu cantarzinho de tantas memórias. Mas como memórias se foi a primeira vez que ouviu o Cuco? Verdade: mas tinha na casa de um tio meu, um relógio de parede com uma longa corrente de dar corda dependurado, e o mais importante: de uma janelinha, nas horas cheias, saia o passarinho, gracioso, cantando Cuco! Cuco! As duas horas saia e cantava por duas vezes e assim sucessivamente; o melhor eram as doze horas: o Cuquinho saia mostrando a carinha, olhinhos negros e cantava por doze vezes o melódico Cuco! Cuco! Cuco!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Quando ia a casa deste tio de tudo eu fazia – tratava dos porcos, debulhava milho, buscava água na mina – para, em troca, ter o privilégio e autorização de ser eu o que daria corda no pequeno e delicado relógio. Para tal tinha que subir em uma cadeira, alcançar à argolinha da corrente e puxá-la até o seu final. Cumprida a deliciosa obrigação ficava à espreita aguardando a saída do cuco para anunciar a hora.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mudando de passarinho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No Caminho de Santiago tem e vi muitos corvos e seu cantar agudo, misto de um oboé um pouco mais grave que o sonoro instrumento e uma flauta de taquara rachada. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Villadangos Del Páramo é uma pequena vila, com aproximadamente seiscentos habitantes, próxima a León. Foi lá em Villadangos que vi e ouvi um bando de “cuervos”, provavelmente, em processo de acasalamento; voavam curto, rasante em volta de enormes eucaliptos cantando ao todos ao mesmo tempo em uma sinfonia que me parecia deliciosamente sensual. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Me livrei da mochila, achei uma pedra para sentar e ao som da sinfonia dos corvos e fiquei a lanchar: tinha reservado para o lanche pão rústico e queijo de cabra. Enquanto comia me lembrei, pela segunda vez no Caminho, do Carlos Saura. Aos mais novos uma informação: Saura, um sensível, belo e premiado cineasta espanhol dos anos 80. Em outro momento do Caminho, havia rememorado um de seus filmes ao avistar, em meio a um local totalmente isolado, uma belíssima e simples embora suntuosa residência. Veio à memória um de seus filmes, com a sempre presente Geraldine Chaplin no papel principal e a vida transcorrendo em uma mansão isolada do mundo; em uma das cenas mais fortes o “dono” da casa acaricia de um lado da vidraça os seios da empregada que, do lado de fora limpava as vidraças. Penso que este filme foi o Ana e os Lobos; mas o pão rústico, o queijo de cabra e aquela sinfonia de corvos me lembrou de outro clássico de Saura: “Cria cuervos”, belíssimo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A primeira vez que ouvi o cantar estridente de um corvo, foi também no cinema: um filme japonês, dos anos sessenta: “O corvo amarelo”, muito triste. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E mais uma recordação de Villadangos Del Páramo. Pedro Páramo é o título de um belíssimo conto romance do mexicano Juan Rulfo que li várias vezes e só agora, aos sessenta e tantos anos, quase setenta, aqui na Espanha é que vim saber que “páramo” é um planalto deserto; aliás, para os espanhóis, em sua maioria, é a região dos “tristes paramos”, embora para mim, em minhas lembranças estão mais para “solitários” páramos do que para “tristes”. Vejam que caminhar também é cultura e é o que sempre digo para justificar os gastos e os dias com minhas andanças!&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Aliás, continuando, ma s sem nada a ver com Santiago de Compostela. Na década setenta eu havia resolvido reler Sagarana, Grandes Sertões, Primeiras Histórias entre outros livros do Guimarães Rosa. Na livraria da antiga rodoviária, indo para Ribeirão Preto, comprei o Tutaméia do mesmo autor, com o propósito de ler para amenizar as cinco ou seis horas de viagem. Foi o que aconteceu: a viagem passou rápida. Na hora do almoço, á em casa, papo vem, papo vai minha mãe diz: “e foi então que seu pai, o Juca, vendeu o sítio que foi de meu pai, seu avô, por uma tutaméia”. Àquela hora, há mais de quarenta anos, me surpreendeu a precisão do sinônimo para tutaméia; agora confirma minha tese: viajar e caminhar é cultura: foi melhor que buscar no Houaiss, com o qual ando em débito e é na verdade, uma desculpa para inventar novos caminhos!&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-9153975192404031846?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/9153975192404031846/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=9153975192404031846' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/9153975192404031846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/9153975192404031846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/08/o-caminho-de-santiago-de-compostela_23.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - 8–PAINEL DE MEMÓRIAS -1 -'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-5yxeGxG9TVM/TlPo4qXEeGI/AAAAAAAAALc/XUud4U94PsU/s72-c/DSC04015_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-3296570668334466419</id><published>2011-08-11T10:07:00.001-07:00</published><updated>2011-08-11T13:58:43.054-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS - 7 - A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO–III–FINAL: O SONHO</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-LUqdqYVTPaQ/TkQM4YANABI/AAAAAAAAALQ/Gcb_KqEZZJ0/s1600-h/DSC04083%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04083" border="0" alt="DSC04083" src="http://lh6.ggpht.com/-gIV5lZEuXdc/TkQM5YR4-fI/AAAAAAAAALU/0ww-0YcVG44/DSC04083_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Cebreiro, uma pequena e por demais de linda aldeia medieval, com seus vinte e nove habitantes - “o Orlando está mesmo velho, agora deu de esquecer-se de escrever os mil na frente dos números”, dirão os mais apressados e eu respondo “não, não me esqueci, não: são realmente vinte e nove habitantes e não vinte e nove mil” - fica em um dos pontos mais alto do Caminho: quase mil e trezentos metros. E esta pequena aldeia possui uma muitíssima bem conservada igreja construída no século nove: toda de pedra, o que lhe dá um aspecto de solidez, parecendo querer confirmar sua perenidade, elegante com suas portas em arco, sua torre majestosamente simples, seus sinos de bronze badalando a cada hora do dia. Aliás, outra memória inapagável do Caminho são os sinos das igrejas teimando em nos contar, com suas badaladas, as horas do dia ou da noite; e assim, como nos tempos em que ouvia as badaladas do sino da igreja matriz da pequena cidade onde nasci ou mesmo, ouvindo pelo rádio o "dém", "dém", "dém" dos sinos do Mosteiro de São Bento anunciando à hora certa, me peguei, várias vezes, neste Caminho de Santiago, contando com a ajuda dos dedos das mãos as badaladas dos sinos e conferindo, mentalmente, qual era a hora do dia ou da noite em que eu estava a viver. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Do Albergue Municipal de Cebreiro construído em estilo montanhês, um pouco fora da vila, grande e confortável com mais de cem camas, a vista é belíssima; se vê, abaixo, um “mar” de montanhas: sinuosas, verdes, negras, recortadas por estradas, aqui e ali pingam brancas construções isoladas apontando que há vida naquela imensidão de mundo. Toda esta bela visão, me disse um velho peregrino japonês, que fazia o caminho pela segunda vez, é, normalmente, coberta, por uma grossa, branca e densa neblina, o que não ocorria naquele dia, àquela hora, em que tudo se enxergava, se via longe, quase o infinito. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Cheguei a Cebreiro após haver caminhado por volta de trinta quilômetros, distância entre esta vila medieval e Villafranca De Bierzo onde havia pernoitado; o cansaço, ao chegar a Cebreiro, se explica tanto pelos trinta quilômetros caminhados, como pela diferença de altitude entre estes dois pontos percorridos: mais de oitocentos metros. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Resumindo para não cansar e encompridar desnecessariamente a história: cheguei cansado a Cebreiro. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No Albergue Público, um banho restaura, em parte, as forças e o “menu do peregrino”, a nove euros, na Mesón de Anton, completa a restauração e me enche de ânimo para passear pela vila, conhecer a igreja e uma casa, do século IX, meticulosamente restaurada e que funciona como um “museu” antropológico, forçando nossa imaginação até a vida que levavam há séculos e séculos atrás os seus habitantes; e devia ser uma vida de permanente luta: de um povo em busca contínua por alimentos, na labuta para manter crepitando a lenha no fogão para cozinhar seus caldos e se esquentar durante os longos invernos gelados, cheios de neve.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Depois do passeio pela vila, voltei ao albergue disposto a cumprir a obrigação de lavar minhas roupas, mas, e mais uma vez tem o “mas” nestas minhas andanças, a preguiça, talvez fruto do cansaço, me levou para a cama: dormi e sonhei. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vou contar o sonho, que foi assim:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Encontrávamos, em meu sonho, Boadicéia, Carátaco, Kretzschamar com seu cachorro “Joselito” e eu sentados no chão, descansando sob a sombra de uma enorme uma enorme árvore; próximo a nós corria um caudaloso rio e ouvíamos deliciosamente concentrados, a Dança Ritual do Fogo, trecho primitivo e bárbaro do El Amor Brujo, de Manuel de Falla.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Percebi que mesmo durante tão concentrada audição, Joselito, por ser cachorro e por isso, talvez, não gostar de música, mostrava-se inquieto, e que em dados momentos não se continha em sua ansiedade e uivava, apontando com o focinho negro para as altas montanhas vermelhas, esburacadas em seus picos por cavernas imensas. E foi então que, inesperadamente, todos nós, ao mesmo tempo, pensamos a mesma coisa e fomos decididamente conduzidos até as cavernas pelo gordo Carátaco, com o cão Joselito à frente de todos.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Em meu sonho Boadicéia carregava seu enorme cajado, enfeitado com flores de todas as cores e tamanhos; Carátaco vestia suas roupas apertadas, a barriga querendo sair para fora, calçava sandálias de couro que deixavam à mostra seus dedos gordos e suas unhas compridas; o jovem suíço vestia-se como um típico peregrino: calças e jaqueta cinza da Solo, botas Salomon, e carregava, às costas, sua enorme mochila Deuter. Não lembro como eu me vestia, mas devia ser com uma das minhas duas “mudas” de roupa que usei para percorrer o Caminho. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E assim que chegamos às cavernas, parecidas com enormes bocas abertas no pico de uma enorme e gorda montanha vermelha, o dia se transformou em noite. E escureceu. Para nos aliviar da escuridão que parecia um breu, Boadicéia tirou de uma sacolinha de veludo, presa a sua cintura, toda bordada com lantejoulas, seis vaga-lumes, e ofereceu dois para cada um de nós. Tirou, depois, do fundo da mesma sacolinha de veludo bordada com lantejoulas, uma boa quantidade de lacraias e, com elas, fez um colar para o Joselito. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Para melhor entendimento do sonho que estou a contar vou precisar abrir parênteses e falar da diferença entre o que chamo de “lacraia” e o vaga-lume. Erradamente, agora eu sei, em minha infância chamávamos de “lacraia”, um besouro que é, na verdade, apenas outra espécie de vaga-lume. Explicando: caçávamos e brincávamos com dois tipos de vaga-lumes: um, o maiorzinho, que lembra mais um besouro compridinho e dispõe de dois “faróis” que permanecem sempre acesos à noite e outro, que chamávamos “lacraia”, mas vim, a saber, quando estudava no ginásio, que era também um vaga-lume; esta espécie, a “lacraia”, tem no abdome órgãos luminescentes que ficam a piscar. Tanto o vaga-lume com os dois faroizinhos na cabeça quanto o que ficava piscando na escuridão da noite, nós caçávamos balançando tições acesos e cantando: "vaga-lume tém tém seu pai t’áqui sua mãe também"; e assim enchíamos vidros com os vaga-lumes que tinham os faroizinhos na cabeça. Já “lacraia”, menor, que ficava piscando no escuro, e lembrava um marimbondo, pegávamos e esfregávamos com força o seu abdome em nossas camisas ou no peito e assim, escrevíamos nomes ou desenhávamos figuras que brilhavam à noite. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Os vaga-lumes maiores ficavam presos nos vidros por uns dias até que nossas mães, penalizadas com a sorte dos bichinhos, nos obrigavam a soltá-los no brejo, perto do cemitério; tinham, portanto, melhor sorte que as lacraias que eram espremidas e mortas para enfeitarmos nossos peitos ou nossas camisas com rabiscos que logo se apagavam a sua fosforescência. Fecham-se os parênteses.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E então, com a claridade dos vaga-lumes em nossas mãos e do pisca-pisca do colar de lacraias no pescoço de Joselito, fomos entrando na primeira caverna, guiados por Carátaco. Em fila indiana fomos nos enfiando caverna adentro e encontramos um enorme salão, com pé direito altíssimo, e que tinha em suas beiradas, junto às paredes da caverna, bancos de barro cobertos com almofadas de seda, convidando ao descanso. Joselito, agora, calmo, passeava pelo salão da caverna, tudo farejando, com seu colar de lacrais piscando, parecendo uma moderna árvore de natal. Kretzschamar sentou-se em uma beirada da sala e iniciou, ritualmente, a preparação um de seus cigarros que passou a fumar impregnando a sala com o cheiro amargo da fumaça de maconha, inebriando a todos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A sala da caverna cheia de fumaça e com o pisca-pisca dos vaga-lumes no pescoço do Joselito me fazia lembrar os antigos inferninhos da Rua Aurora. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Kretzschamar passou seu cigarro para Boadicéia, tirou de dentro de sua mochila uma flauta doce e começou a tocar. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E ao som da melodia simples, primitiva, Boadicèia se pôs a fumar, a dançar e a cantar: - - &lt;i&gt;“Meus avoengos se aventuraram do Reno até os sopés dos Pirineus; nem as tão altas e espinhosas montanhas os detiveram, e a Hispânia não resistiu à força e a coragem de nossos ancestrais germanos.”&lt;/i&gt; Dançava sensualmente, passos lentos, pronunciando cada palavra com os lábios abertos, dentes brancos à mostra, seios arfando no peito, obedecendo ao ritmo da melodia, pescoço erguido, olhar desafiador, convidando-nos à dança, à orgia. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Foi quando a melodia tão simples e primitiva da flauta do jovem suíço foi repentinamente substituída por outra melodia: esta pírrica, que com seu ritmo forte, inundou a caverna com sons de tambores e de tubas; Carátaco, contagiado pela música, levantou-se do banco e demonstrando uma agilidade incrível para corpo tão pesado e gordo iniciou uma dança estranha, bela, e cantou desafiando Boadicêia:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;- “Vocês germânicos e mouros tomaram e devastaram nossa terras, nossas casas, nossas mulheres, nossas vidas; nem a oferenda de todo nosso ouro e de nosso sangue foram suficientes para a sua retirada; e nos escravizaram, a nós e aos nossos filhos e aos nossos reis; mas Deus, fez surgir Roldan e El Cid, que conduzidos por um exército de anjos, nos libertou”&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E no meio do salão da caverna Carátaco e Boadicéia se uniam na estranha e sensual dança e foram, aos poucos e delicadamente, despindo de suas roupas, mostrando corpos tão diferentes em sua beleza: a esbelteza rígida do corpo de Boadicéia se misturando às gorduras das banhas do enorme corpo de Carátaco. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Boadicéia disse: “Carátaco: segundo um escritor português, quando a península se deslocou do continente e se transformou em uma enorme jangada de pedra, um grupo peregrinou por aqui, por perto dos Pirineus. E naquela longa viagem que empreenderam na jangada foi gerado uma criança, fruto do amor de um velho com uma jovem. E é o que quero, agora: um filho seu! E saiba que este seu filho não ficará os longos nove meses em meu ventre, mas sim e apenas os nove dias que faltam para eu caminhar até Santiago, onde a criança nascerá.” &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E abraçou fortemente a Carátaco que correspondeu ao seu abraço. Respeitosamente todos os vaga-lumes fecharam os olhos de seus faróis e a sala ficou iluminada apenas pelos piscares das lacraias envoltas no pescoço de Joselito. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O som de amor emitido pelos amantes misturou-se à fumaça e ao silêncio da flauta doce, agora muda no colo do peregrino alemão. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E um silêncio sepulcral tomou conta da sala: tão silêncio que era possível ouvir as batidas de nossos corações e os seus pulsares misturados às nossas respirações ofegantes. Descansados ficamos a ouvir o silêncio e a enxergar o breu da escuridão até o momento em que os vaga-lumes foram abrindo novamente seus faróis e a luz, no início fraca, inundou toda a sala e me vi a cantar:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;“Ai clariô ai ai clariô&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Ai clariô ai ai clariô&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Ai clariô ai ai clariô&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Purriba do lajedo o luá chegô”.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E enquanto eu cantava e assobiava e dançava a canção do Elomar, a luz da lua invadia a caverna forçando a todos a cerrar os olhos, tamanha a imensidão de claridade; e os vaga-lumes e as lacraias, que gostam da escuridão, voaram para fora da caverna e voltaram a acender seus faróis e seus pisca-piscas lá fora, indicando o caminho que deveríamos percorrer depois, na volta para a cidade. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E então foi que acordei com a intensa luz do sol das sete horas da noite invadindo as janelas do albergue e incendiando os meus olhos com sua claridade e calor. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Acordei, esfreguei os olhos, espreguice-me e assim acabou-se a história e morreu a vitória.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-3296570668334466419?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/3296570668334466419/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=3296570668334466419' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3296570668334466419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3296570668334466419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/08/o-caminho-de-santiago-de-compostela.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS - 7 - A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO–III–FINAL: O SONHO'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-gIV5lZEuXdc/TkQM5YR4-fI/AAAAAAAAALU/0ww-0YcVG44/s72-c/DSC04083_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4480353932677982248</id><published>2011-07-28T09:47:00.001-07:00</published><updated>2011-07-28T09:47:16.570-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -7- A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO -II- APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS: CARÁTACO.</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh6.ggpht.com/-j0adbp6GVzQ/TjGSj_zR3LI/AAAAAAAAALI/WBYdb_J4TyI/s1600-h/DSC04277%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04277" border="0" alt="DSC04277" src="http://lh4.ggpht.com/-sTHtZy8irro/TjGSkvZYLfI/AAAAAAAAALM/-JW0nIRsOdQ/DSC04277_thumb.jpg?imgmax=800" width="184" height="244" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Caminhamos juntos, Boadicéia e eu, por quase toda aquela manhã de catorze de maio. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Pouco falamos. Na maior parte da caminhada que fizemos juntos, o preenchimento do vazio do tempo foi concretizado com cada qual em seu mundo, observando flores, matinhos, riachos, ouvindo o canto agudo dos corvos, inventando, dentro de si, histórias fantásticas descomprometidas com a História e as verdades do mundo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi ela que me contou de seu nome: &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Boadicéia foi o nome de uma rainha britânica dos ícenos, região de Norfolk, que chefiou a revolta de seu povo contra os invasores romanos e suicidou ao saber-se derrotada. Desde os tempos imemoriais dos avôs de nossos tataravôs, ou mesmo antes deles, nossa família cultiva a tradição de dar este nome à primeira filha do casal; assim tenho primas e tias com este nome, que foi também o nome de minha avó paterna. Acredita-se, em nossa família, que ao homenagear a antiga rainha, dando seu nome á primeira filha, mantém-se a tradição guerreira de nosso povo, derrotado, mas heróico e renitente, desde muito antes, já em suas antigas batalhas contra os invasores romanos. Boadicéia, a rainha, que todos sabemos ter sido bela e justa, e de lá dos tempos de Antes de Cristo.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E a partir daquele momento, quando tomei conhecimento de sua origem, o seu som - Boadicéia - passou a ter outra melodia, em perfeita sintonia com a graça dos movimentos daquele corpo que o carregava. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Também, em uma de minhas outras manias, associei o som de Boadicéia ao canto dos corvos que, naquela manhã, excitados pelo processo de acasalamento, enchiam o vazio do silêncio naquelas terras espanholas do Caminho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E foi a luta de seus ascendentes, que passou a representar, para mim, a luta dos nativos e “bárbaros” contra os invasores que foi preenchendo o meu tempo e minha mente; e assim, vislumbrei lutas heróicas, surgiram lindas rainhas amazônicas em seus cavalos brancos ou pampas, suas lanças afiadas em defesa de seu povo. Foi toda uma manhã povoada de lutas e guerras heróicas ao lado de Boadicéia.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E aproveitei, em um momento de descanso das batalhas e lutas daquela manhã, para saber se ela conhecia a história de outro herói, o bravo Carátaco, um chefe guerreiro dos bretões, que por volta de 30 DC, conduziu seu povo na luta contra os romanos, e também, como Boadicéia, foi vencido, feito prisioneiro e levado para Roma onde, reconhecendo sua bravura, o imperador Cláudio poupou-lhe a vida.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Como não haveria de conhecer a história de Carátaco, que como a rainha Boadicéia, enfrentou os romanos que chamavam de “bárbaros” aos povos que dominavam e colonizavam.” &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Pois Boadicéia saiba que conheci em Los Arcos, o senhor Pedro Carátaco, hoje um tranqüilo aposentado que aproveita seu tempo para fazer lindos cajados, mas que foi pastor de ovelhas em sua vida profissional e tem o nome Carátaco a designar o ramo de sua família.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E Boadicéia pediu que eu contasse mais do Sr. Pedro e de seus belíssimos cajados. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, enquanto caminhávamos, eu fui contando a ela. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;De verdade, o que vou contar é uma mistura do que narrei a ela e do que, em voz alta ou baixa, não me lembro mais, contei a mim mesmo, ao perceber que, muitas vezes, enquanto eu contava o pensamento de Boadicéia não estava ali naquela história, mas em outros indecifráveis lugares. Contar coisas tem isso: é preciso perceber o que passa na mente de quem ouve a história e contar para você mesmo quando, no mundo de quem ouve, outras histórias estão a acontecer.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas foi mais ou menos isso que falei para ela e para mim, naquela manhã de catorze de maio:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Saí de Estella, ou Lizarra, em basco, e após ter caminhado por volta de vinte e dois quilômetros cheguei a Los Arcos, um povoado com pouco mais de mil habitantes. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Quando mais me aproximava da cidadezinha mais me impressionavam as montanhas vermelhas que, parecendo um muro, a cercavam, protegendo-a. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tendo que percorrer a cidade à busca do Albergue Municipal percebi que naquelas montanhas vermelhas havia cavernas que, mais tarde o Senhor Pedro contou-me, foram habitações e refúgios dos mouros, nos tempos em que estes haviam invadido a Espanha e, principalmente servido de refúgio quando da luta que tiveram para evitar sua expulsão. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E o Senhor Pedro, como era? Estava me esquecendo de contar: o Senhor Pedro é um homem alto, gordo em mais de seu um metro e oitenta, barriga brigando com os botões da camisa e da jaqueta, parece que querendo fugir corpo abaixo. Tinha, apesar de mais de setenta anos - “nasci no ano de trinta e cinco, primeiro filho de um casal de camponeses na região de Segóvia, longe daqui” - a cabeça coberta por fartos cabelos negros, olhos amendoados maliciosos e sensuais, barba feita, mãos enormes, pernas longas, gordas, o peito largo, viril. Poucas rugas escondiam, em seu rosto, a idade que disse ter. Quando se aposentou, mudou-se para Los Arcos e passou a produzir cajados, que vendia aos peregrinos, por um preço bem “acima do mercado” se se pode usar palavras tão administrativas aqui nestas histórias. Mas são belíssimos os seus cajados: retos, boa madeira, e, o mais importante, recheados com poemas, dizeres, nomes das cidades do Caminho. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “E por onde você iniciou seu caminho?”, perguntou-me o Senhor Pedro. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Por St. Jean Pied de Port, há mais ou menos uma semana.”, respondi.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Ah, por Santiago Pied de Port, na França?”, perguntou-me enquanto olhava seriamente para um grupo de peregrinos, observando, como me disse depois, a qualidade e a beleza de seus cajados. “Vejo se já vêm com estes cajados comprados na cidade, feitos em fábricas alemãs; estes dificilmente gostam e compram os meus”. “Mas, o senhor disse Santiago Pied de Port?”. “É a mesma coisa: Santiago, St. Jean, São Jaques, São Diego, São Diogo: o que vale é que os ossos do Santo estão lá em Santiago, isso para quem, como eu, acredita, claro”. “Mas, Senhor Pedro, me fale um pouco das cavernas nestas montanhas vermelhas, que como o senhor disse, eram habitadas pelos mouros. É isso mesmo?”. E o senhor Pedro contou-me que havia imensos corredores ligando as diferentes cavernas, que os mouros conheciam bem suas tortuosas e escuras ligações e lá viviam e sentiam-se protegidos dos espanhóis que resolveram expulsá-los para longe: “que voltassem para suas terras, que lá é o seu lugar, e nos deixassem aqui em paz.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E um de seus parentes daqueles tempos lutou contra os mouros, participando bravamente com os espanhóis em sua guerra pela reconquista de suas terras. Este seu ancestral era forte, grande e, “imagino mais magro que eu, senão não poderia lutar contra os mouros, andar a cavalo segurando sua lança, sob armadura de ferro: deve ter sido magro, mas com certeza, grande e com os peitos largos. Este meu parente lutou e lutou a luta dos espanhóis que vinham em seus cavalos e armaduras das montanhas lá do alto, dos lados do oceano Cantábrico, e foram os reais vencedores, expulsando os mouros de suas terras.” E, continuou o Senhor Pedro a me contar, que aquele seu ancestral, por ter sido considerado um herói pela sua bravura nas batalhas, teve direito, finda a guerra, a uma jovem moura, de lindos olhos negros e longos cabelos lisos que chegavam aos ombros cobrindo os seios formosos e fartos. E, como prêmio ao herói vencedor, foi-lhe dado o direito de usar a jovem moura, dormir com ela algumas noites e, passadas duas semanas, assim que apontasse no céu a lua minguante, levá-la ao sacrifício da morte. Mas este meu parente fugiu a cavalo com sua bela moura e para despistar os antigos companheiros da perseguição que sabia que aconteceria, ao invés de seguir em direção ao norte, para as montanhas, foi para o sul e chegou a Segóvia. E lá, naquelas desérticas terras, nasceram os Carátacos, que se especializaram na arte de pastorear. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “E sabe o porquê destes meus peitos grandes, que até parecem peitos de mulher?”, perguntou-me o Senhor Pedro, que continuou: &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Foi praga dos perseguidores que inconformados por não conseguir prender e matar meu mais velho ancestral resolveram dar-lhe outra forma de castigo. E assim, em uma noite de agosto, reuniram-se sob a orientação dos sábios druidas, e conseguiram de Cuchulain, filho do deus Lug, que derrotou e engravidou Aiffé, uma mortal amazona, a promessa de que todos os homens nascidos daquele foragido tivesse quando adultos, peitos enormes como os do mouro Ferragut, que pesava mais de uma tonelada e tentou sufocar com seus peitos o cavaleiro Roldan, mas não conseguiu, foi derrotado, vencido com seus peitos enormes, caídos sobre a barriga. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;“E conseguiram: todos os homens Carátacos, mas principalmente os primogênitos, têm peitos enormes, semelhantes aos de nossas mulheres.”&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4480353932677982248?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4480353932677982248/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4480353932677982248' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4480353932677982248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4480353932677982248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/07/o-caminho-de-santiago-de-compostela_28.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -7- A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO -II- APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS: CARÁTACO.'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/-sTHtZy8irro/TjGSkvZYLfI/AAAAAAAAALM/-JW0nIRsOdQ/s72-c/DSC04277_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-8478545773276309730</id><published>2011-07-22T11:35:00.001-07:00</published><updated>2011-07-28T09:15:41.319-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -7-  A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO  - I-  APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS: BOADICÉIA.</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh6.ggpht.com/-NJu9lJ9Aa0I/TinC2zxZtQI/AAAAAAAAALA/5bBqlUnec0s/s1600-h/DSC04268%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04268" border="0" alt="DSC04268" src="http://lh4.ggpht.com/-4-DrQCR0O8Q/TinC4PaKENI/AAAAAAAAALE/CSIqNllz_KQ/DSC04268_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Quero contar um pouco a fantástica história de Boadicéia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Estou a falar de uma mulher de seus quarenta e poucos anos, alta e magra, mas não aquelas magras esqueléticas tipo modelo; Boadicéia é magra, mas recheada de curvas e saliências, que diminuem um pouco a dureza da face e do olhar negro, desconfiado, desafiador. Seus longos cabelos grisalhos, soltos, lisos, pendentes, cobrem o pescoço delgado e emoldura a face com a boca bem feita, maçãs do rosto proeminentes, grandes olhos negros, delicadas sobrancelhas grisalhas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Uma linda mulher? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sim e não. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas digo que é impossível não se sensibilizar com a beleza estranha de Boadicéia, com seu corpo escultural, seu andar com passos delicados, corpo sempre ereto e o balançar ritmado dos quadris largos, sustentado por longas e bem torneadas pernas. Há, no entando, em momentos indefinidos, que uma expressão dura e máscula, traveste toda a beleza do corpo e do rosto severo, embora, extremamente delicado quando olhado com atenção maior. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A primeira vez que a vi foi, salvo engano, em Hontanas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Havia saído ainda madrugada, dia escuro, de Burgos, e andado por volta de trinta quilômetros até Hontanas, passando antes por Hornillos Del Camino. Cheguei a Hontanas por volta das duas horas da tarde: um pequeno povoado medieval, com menos de cem habitantes e que vive, do ponto de vista econômico, em função do Caminho de Santiago e seus peregrinos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Aproveito para abrir um longo parêntese. Uma de minhas principais motivações em fazer o Caminho de Santiago era a de conhecer e pernoitar em povoados medievais. Me fascinava, enquanto planejava a viagem ao Caminho, ou mesmo, quando cansado de caminhar nas dunas para fortalecer os músculos das pernas, eu vislumbrava a possibilidade de conhecer, conversar com os moradores, fazer as refeições e dormir nos pequenos povoados medievais que, até então, só conhecia através do soberano guia “El Ca mino de Santiago em Tu Mochila”. Pois Hontanas, em seu silêncio, no escuro de suas casas feitas de pedras, em suas ruas tortuosamente planejadas e em sua pequena igreja foi a concretização de tão sonhado desejo. Me alojei no albergue Municipal me preparando para realizar mais uma de minhas manias: penso que só realmente conheço um lugar se nele pernoito: foi assim com as belíssimas Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina. Acordar durante a noite e, na cama ou na rua, ouvir o silêncio, ver estrelas e a lua, ouvir pequenos estalos no telhado, ver ou ouvir os gatos miando a procura de amantes, os latidos dos cachorros defendendo suas propriedades, aquecem meu coração; enfim: acho que só conheço um lugar depois de nele dormir. E não é coisa de velho: sempre fui assim. Fecham-se os parentes. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E em Hontanas, ao sair do albergue a procura de um “menu Del peregrino”, vi chegar Boadicéia. Na maioria dos albergues do caminho há um local especial para guarda dos cajados e para o recolhimento das botas, neste caso para evitar o odor das mesmas nos aposentos. Boadicéia, primeiro tirou suas botas, guardou-as para só depois colocar seu cajado no local apropriado: juntou, então, aos tantos cajados que haviam sido depositados na caixa, um galho de árvore de mais de dois metros; seu cajado tinha uma forquilha na ponta, na qual uma flor amarela, que lembra um pouco nosso hibisco, havia sido amarrada. E então seu cajado, alto e comprido, com a flor na ponta da forquilha, despontava orgulhoso na companhia dos outros tão ordinários, simples e industriais cajados.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Feito isso entrou no albergue sem olhar para os lados; passou por mim, que ainda estava observando-a na porta, e não me viu, claro. Dirigiu-se ao “hospitaleiro”, apresentou sua credencial, que foi carimbada, pagou a taxa e subiu para o alojamento. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Esqueci um pouco a fome e a busca até um local com oferta do “menu Del peregrino”, e, curioso demais para minha idade, fui à mesa da recepção e, no livro de registro, descobri seu nome e sua nacionalidade. Sei que o que fiz é feio e pouco recomendável: o correto é matar a curiosidade perguntando à própria pessoa o seu nome, sua nacionalidade, travando amizade, falando de você, do país de onde veio, de onde partiu nesta caminhada; é assim que é mais educado, e é o que se espera de um peregrino, mas não foi o que fiz. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Ao fim do dia tornei a vê-la e vi Boadicéia transformada. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vestia-se como uma “hippie” dos anos setenta: bata indígena, saia longa de seda, sandália de couro e uma tiara na cabeça, segurando o cabelo repartido ao meio; e ali, naquele fundão de mundo, em pleno Caminho de Santiago, aquela figura tão hippie fez bem a minha imaginação, que voou para os festivais de Woodstock, para Jimi Hendrix, Joan Baez, Ravi Shankar, Janes Joplin e, como não podia deixar e ser, revivi as manhãs de domingo na feira hippie em nossa Praça da República. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Acordei de madrugada, como sempre, e me preparei para seguir o Caminho. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Uma hora ou mais, depois de minha saída, de Hontanas rumo a Castrojeriz, uma agradável surpresa: alcancei Boadicéia que estava a colher flores na beirada do caminho para fazer, com elas, um desenho no centro da trilha.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Cumprimentei-a e fui cordialmente convidado a colher flores para ajudá-la a completar a construção de seu desenho. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Colhi papoulas e lhe ofereci. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Boadicéia, então, terminou seu desenho: 14:05 &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Olhou o desenho, aprovou-o com um gesto e um sorriso e, estava tudo pronto, disse-me ela, para a primeira foto do dia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Retirou sua pequena e antiga câmera fotográfica do bolso da mochila e fotografou o seu calendário florido. Era o seu truque para, repetindo a mesma cerimônia todas as manhãs de seu caminhar, suprir a deficiência de sua ultrapassada câmera, que tão velha, não tinha o calendário automático embutido. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Assim que clareia o dia, disse-me, colho flores, pequenas folhas que uso para anotar, no caminho, o dia que se inicia.”, ao mesmo tempo em olhava a tela de sua máquina para ver a foto do dia quatorze de maio. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Aprovou e me informou, emocionada, que mais tarde, em sua casa, em seu distante país, ao rever as fotos, saberia o dia em foram tiradas.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-8478545773276309730?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/8478545773276309730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=8478545773276309730' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8478545773276309730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8478545773276309730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/07/o-caminho-de-santiago-de-compostela_22.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -7-  A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE BOADICÉIA E CARÁTACO  - I-  APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS: BOADICÉIA.'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/-4-DrQCR0O8Q/TinC4PaKENI/AAAAAAAAALE/CSIqNllz_KQ/s72-c/DSC04268_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-863920878590757817</id><published>2011-07-17T06:24:00.001-07:00</published><updated>2011-07-19T06:28:32.343-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS –6– OS PEREGRINOS DO CAMINHO</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-YH2o8ZUY7vM/TiLid7nmJ-I/AAAAAAAAAK4/AnDTI8y0OcA/s1600-h/DSC04002%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; MARGIN: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04002" border="0" alt="DSC04002" src="http://lh6.ggpht.com/-SgVKGOSmGO0/TiLiehhJL_I/AAAAAAAAAK8/A6PQ-vtZngE/DSC04002_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Já disse, ou penso ter dito, que se fosse possível reunir os peregrinos do Caminho de Santiago em um canto qualquer, teríamos uma cópia fiel da torre de Babel: são pessoas de todos os cantos deste mundão de Deus, de todas as idades, com todas as belezas e feiúras; alguns caminham só, outros acompanhados; há casais jovens, casais sessentões, enfim, de tudo se encontra naquele Caminho.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Comecei a observar estes diferentes tipos já no início da caminhada, em St. Jean Pied de Port, e agora, passado estes tempos, percebo que nos primeiros dez ou quinze dias de caminhada o humor está à flor da pele. A origem de tanto humor, penso, se deve ao imenso prazer que sinto ao caminhar, aliado ao fato de estar acompanhado de um grande amigo, de me encontrar em um país estranho, em um caminho belíssimo, comidas e paisagens nunca antes experimentadas, enfim, tudo novo, excitante.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;De tudo se ria, e - aproveitando o fato de falarmos, Pablo e eu, uma língua incompreensível para a maioria -, a todos apelidávamos: e os dois simpáticos alemães se transformaram em “fiscais do Kaiser”; teve a “freira”, o “espanha gordito”, e o “kaiser” propriamente dito. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O “Kaiser” era um alemão alto, rosto vermelho e suado, barba por fazer e sempre que o via, me lembrava a propaganda de uma cerveja na qual jovens cansados estão para desistir da empreitada quando um deles anima o grupo -” tem cerveja nos esperando” - e todos afirmam os passos, marcham com os joelhos altos, com os cajados firmes em direção ao local onde se encontram as cervejas geladas. Pois o Kaiser deveria ter, ao que parece, sempre – de manhã ou à tarde – uma caixa de cervejas esperando por ele. Caminhava sempre com os passos firmes, joelhos altos, cajado riscando as pedras do caminho e assim se ouvia seus passos firmes e compassados de longe; logo, logo estava o Kaiser a nos passar e, sem alterar seu caminhar, com a voz gutural dos alemães nos desejava “Bom Caminho” e lá se ia o Kaiser. Nos albergues era quieto, quase sempre se isolava, não saia para as praças e bares para tomar um café ou beber, nem mesmo com seus compatriotas; assim que chegava, arrumava sua cama, se enfiava dentro do saco dormir, ligava seu radinho e, deitado, ficava a ouvir notícias de sua terra. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E os “fiscais do Kaiser”? Eram também alemães. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A Espanha cresceu muito nos últimos dez anos e vive agora, do ponto de vista econômico, momentos de dificuldades. E foi então que resolvemos que dois peregrinos quarentões, eram “fiscais do Kaiser”. Quando éramos por eles ultrapassados ou o contrário, brincávamos: estão no Caminho a trabalho, fiscalizando a correta, ou não, utilização dos recursos do Mercado Comum. Muitas vezes, então, os “fiscais” não pareciam contentes com uma placa de sinalização ou com buracos no caminho, e, por isso, telefonavam para Ângela Merkel denunciando os espanhóis que, espertamente, haviam utilizado os recursos oriundos do Mercado Comum destinados a tampar os buracos e melhorar a sinalização do Caminho, para outros fins menos nobres. Claro, então, que a Merkel ligava nervosa para o Rodriguez Zapatero cobrando providências urgentes e este, nervoso com as eleições que se aproximavam, prometia porque prometia urgência na averiguação dos fatos e nas providências que, com certeza, o governo espanhol tomaria... “Paguem o que nos devem”, diziam os “fiscais”. E assim horas e horas se passavam, quilômetros e quilômetros eram percorridos em uma alegria infantil demais para dois avôs; mas o que se há de fazer?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E tinha a “freira”. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Gorda, baixinha, cabelos negros curtos, devia ter seus cinqüenta e poucos anos, a nossa “freira” fugia do padrão dos “uniformizados” peregrinos. Explico: a maioria dos peregrinos, inclusive nós, vestia-se com calças, camisas e jaquetas que, pelo pouco peso e facilidade de secagem após serem lavadas, são extremamente adequadas para caminhadas longas. Assim o Caminho de Santiago se torna um verdadeiro desfile de Kechuas, Salomon, Solo, The North Face, Curtlo e claro, das excelentes mochilas Deuter. E na contramão deste desfile, lá se ia, com seu passo lento, mas firme e seguro, a nossa “freirinha” vestindo sua saia rodada, com estampa escandalosamente floral, e que, saindo por debaixo da blusa preta e indo até os tornozelos, eliminava qualquer possibilidade de imaginar ou adivinhar que tipo de corpo, de pernas, de nádegas, ela cobria; nada de botas Salomon: usava sapatos de couro e meias de algodão, comuns, que cobriam suas pernas até onde chegava a saia. Um crucifixo de prata pendia no peito acima da blusa branca e sob a jaqueta negra; no rosto redondo um ar de pura bondade, um sorriso ingênuo, em suas faces coradas pelo frio e pelo sol. Caminhava firme, com poucos descansos e nos albergues tão logo preparava e saboreava seu jantar, se recolhia para dormir. Era, assim como eu, uma das primeiras a sair dos albergues, antes mesmo do dia clarear, e assim, nosso hábito de madrugadores fez com que caminhássemos juntos, em absoluto silêncio, sem nenhuma troca de palavras, alguns percursos do caminho. Um tipo humano original, a "freira" em sua total desconsideração pela moda e pelos modismos; indiferente mesmo ao sentido de “pertencer” - e aos seus símbolos - e, ao contrário da maioria, em sua pequena mochila não havia sido grudada a bandeira de seu país, e nem mesmo a sempre presente concha de vieira teve o privilegio de ser amarrada e ficar balançando para cá e para lá.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E teve também o “espanha gordito” e seu fiel escudeiro, o Sr. José, este um pastor de cabras aposentado que se orgulhava de ter uns tios que migraram para os Estados Unidos , com o emprego no ofício de pastor de rebanhos garantido. O “gordito” é um espanhol baixinho, cabelos grisalhos, e foram seus quilos a mais que deu origem ao seu apelido; muito alegre e falador, cioso de sua cidadania o “gordito” estava sempre disposto a denunciar eventuais desmandos nos albergues municipais. Portador de um problema cardíaco, segundo ele, muito sério, carregava em sua mochila um vidrinho com o remédio salvador e, sempre que podia, ficava o gordo peregrino explicando a todos que providências teriam que tomar em caso de um desmaio seu, providências “imediatas, antes mesmo de chamar o serviço de saúde do Caminho”: enfiar sob sua língua seus dois comprimidos salvadores. Ouvi várias vezes, para diferentes peregrinos, sua explicação, e egoisticamente, reconheço, sempre pedia a Santiago que se fosse pra o "gordito" desmaiar que o fizesse em momentos em que tivesse ao seu lado mais corajosos “paramédicos” do que eu. E Santiago me atendeu: pelo menos até onde vi no caminho o "gordito", não houve desmaios. Seu fiel escudeiro, o pastor de cabras aposentado se preocupava e cuidava do amigo. Me disse preferir levantar mais tarde, andar menos, mas não o fazia para poder acompanhar o amigo. Para isso levantava pelo menos uma hora mais cedo para sua cerimônia de ajeitar a, com certeza, mais bem organizada e invejada mochila do caminho. Era, o Sr. José, o único entre os peregrinos a dormir com um típico pijama de flanela, daqueles listrados de calça e magas compridas, e que era minuciosamente esticado, dobrado, transformado em um pacotinho perfeito e colocado em sua mochila. Repito: sua mochila, tão organizada era motivo de inveja a todos nós outros, simples mortais peregrinos, que ao contrário do velho espanhol, simplesmente enfiávamos “goela abaixo” nossas roupas e pertences em nossas desorganizadas mochilas.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas, claro, tivemos muitos outros tipos observados. Mas não se preocupem: vou apenas citar nomes ou apelidos sem contar mais histórias! Ainda no início, na fase do bom humor teve o casal da Namíbia, sempre querendo chegar à frente no albergue para escolher melhores camas; teve a bela e escultural romena, que pedia para eu cantar em português, orgulhosa da origem latina de nossas línguas; teve o velho canadense que se dizia amigo de um famoso treinador de vôlei brasileiro; a coreana que com todos se comunicava em uma única língua que sabia falar: o coreano; teve o simpático casal de franceses que resolveu me “adotar”, e, enquanto bebiam vinho e eu café, falávamos de ópera e de música...&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Já havia, até este momento aproximadamente uns trezentos ou pouco mais quilômetros, o humor já não estava mais tão à flor da pele e os tipos foram mudando: o japonês, de minha idade que fazia o caminho pela segunda vez; o jovem italiano que mora em Barcelona já há cinco anos e se mostrou apreciador e muito conhecedor de música popular brasileira e me contou a história dos motivos que levaram Almodóvar a convidar o Caetano para cantar, uma interpretação inesquecível, diga-se de passagem, em seu filme “Fale com ela”. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas chega um pouco de tipos... Cansa!&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-863920878590757817?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/863920878590757817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=863920878590757817' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/863920878590757817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/863920878590757817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/07/o-caminho-de-santiago-de-compostela_17.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS –6– OS PEREGRINOS DO CAMINHO'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-SgVKGOSmGO0/TiLiehhJL_I/AAAAAAAAAK8/A6PQ-vtZngE/s72-c/DSC04002_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-5631593050728606758</id><published>2011-07-06T11:28:00.001-07:00</published><updated>2011-07-06T11:28:55.965-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS–5–NAT KING COLE, DURANGO KID…</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-eRRV-80scSM/ThSpYm3t2rI/AAAAAAAAAKw/P2iy3ntwZkM/s1600-h/DSC04014%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="DSC04014" border="0" alt="DSC04014" src="http://lh6.ggpht.com/-KXf1ZWDq0eY/ThSpZZ3sufI/AAAAAAAAAK0/pBeO9ijhTVk/DSC04014_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;No silêncio e na solidão dos caminhos uma boa coisa é cantar ou assobiar.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tem dias em que se amanhece, sem saber por que, com uma música na cabeça que a todo momento a gente se vê assobiando ou cantando. Isso, às vezes, me satura e fico então procurando outros temas, outros autores, velhos sucessos. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nestas minhas andanças, agora, pelo Caminho de Santiago, por várias vezes estive com a Asa Branca, do Luís Gonzaga, na cabeça. Como não sei a letra completa da canção canto alguns trechos, assobio outros, e brinco comigo mesmo de imitar o Caetano, em uma gravação bem antiga, quando ele faz uns “nhaum, inhaum, inhaum” aos finais das estrofes, plagiando os cegos tocadores de sanfona do nordeste. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Pois então: em uma manhã, estava eu todo feliz e distraído com a minha Asa Branca quando fui surpreendido por um senhor australiano, que assuntou:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Mas que bela melodia”.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Fiquei surpreso: tem peregrinos que surgem do nada e aquele australiano foi um deles. Me recompus para responder:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “É uma canção muito antiga e popular em meu país.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Muito bonita a melodia e do que fala a letra?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Fala da seca em uma região do Brasil, da necessidade de migrar e do retorno ao local de origem quando volta a chover... Não resisti e tentei cantar, em uma tradução literal, a belíssima: “quando o verde dos seus olhos se espalhar na plantação... eu te asseguro.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E a conversa continuou: música, pobreza, migrações. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Logo depois nos separamos por culpa nossos caminhares, muito diferentes: ele rápido e eu com meus passos lentos, lerdos, atento e distraído com pequenas bobagens - uma borboleta, uma flor – ou com besteiras maiores, mais imponentes – o gelo ainda preservado no alto de uma cadeia de montanhas, a visão negra de um povoado medieval visto do alto de uma montanha. É assim que sigo o meu caminhar.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tem dias em que uma música que não gosto muito teima em me perseguir. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Busco uma solução: penso em um autor, Chico Buarque, por exemplo, lembro de uma música sua e me ponho a assobiar. Mesmo assim, tem vez que não dá certo. Nesta caminhada, por exemplo, tive, toda vez que usei esta estratégia, uma surpresa: iniciava a cantar ou assobiar a velha Banda e o meu canto ou meu assobio era, sem minha autorização racional, substituído pela Praça, do Carlos Imperial. Um parêntese:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;aos que não sabem, ou mesmo, pela idade, não conhecem nem uma das duas músicas relembro: “A praça” surgiu depois do sucesso da Banda e foi ironicamente chamada, por nós, de “A banda dos pobres”. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Continuando a história: o que acontecia era o seguinte: eu iniciava a cantar “estava a toa na vida, o meu amor me chamou... e o velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço...”, tão mais bonito, e quando dava por mim estava cantando “Eu hoje eu acordei-me com saudades de você...” Consciente do mau gosto, irritado comigo mesmo, parava de cantar a “praça”, me concentrava na voz de Nara Leão e continuava com a Banda: “e a moça feia apareceu na janela, pensando que a banda tocava prá ela...” e, outra vez, quando dava por mim estava a cantar: “a mesma praça, o mesmo banco, e o mesmo jardim, tudo é igual, mas estou triste...”. O único jeito de acabar com este conflito musical que ocorria dentro de mim era mudar radicalmente de assunto: e a “Truta” do Schubert, mostrava-se infalível nestas horas, até porque a região norte da Espanha é repleta de largos, pedregosos e caudalosos rios.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas vamos ao que interessa nesta história. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Além da briga da Banda com a Praça, outra briga que ocorreu nesta caminhada, foi entre uma música, cujo título não me recordo, mas que, na adolescência, e eu ouvia na voz afinadíssima e anazalada do Miltinho: “cara de gaiato, pinta de gaiato, roupa de gaiato, foi o que eu arranjei prá mim...” que, também, sem minha autorização, era substituída pelo: “A si pasam los dias; Y yo desesperado; Y tu, tu, tu, contestando; quizas, quizas, quizas” que em minha adolescência costumava ouvir na aveludada voz do Nat King Cole, em seu disco: “Nat King Cole canta em Espanhol”. Pelo menos, nesta briga, eu gostava das duas e não me irritava. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Estava, então, com meu castelhano capenga, cantarolando o “estás perdendo o tempo...”, quando me vi acompanhado, na segunda voz, por Diogo, um espanhol de minha idade, da região de Catalunha e com o qual havia feito amizade.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E cantamos: confesso que com Diogo funcionando como “spalla”: dava o tom, a altura, e afinadíssimo, contrapunha e cobria possíveis desafinados de minha parte. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, felizes, após finalizarmos o “concerto” em duas vozes, a céu aberto, nos pusemos a falar:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Mas Diogo, que bom que você sabe esta música. Gosta dela?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Muito, cantava sempre enquanto ouvia no rádio ou no toca-discos quando adolescente.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Eu também. E, aqui na Espanha, quem é que cantava? Lá no Brasil...”, não terminei porque fui interrompido por Diogo:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Nat King Cole! E meu primo tinha o disco, à época um enorme long- play...”, e aí foi minha vez de interromper:&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Não acredito... um LP de capa azul com a foto enorme do negro e sorridente Nat King Cole? Em casa, não tínhamos toca-discos e eu ia à casa de um amigo ouvir. E eu sempre pensei Diogo, que discos como o “Nat King Cole Canta em Espanhol” faziam sucesso apenas nos países da América Latina. Mas agora, vejo que não!”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E aí descobrimos que além de Nat King Cole havíamos à mesma época, nos encantando com a força da voz do mexicano Miguel Aceves Mejia: cantores fazendo sucesso junto a adolescentes espanhóis e tupiniquins.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “E no cinema?”, perguntei curioso. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Os meus filmes preferidos eram os de “cowboy”: Durango Kid, Roy Rogers, Hopalang Cassid e tinha aquele bigodudo, de cabelos bancos compridos, meu Deus do céu, não consigo lembrar seu nome agora, que coisa! E os seus?”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Parecido... não gostava muito do Roy Rogers porque deixava de matar índios para beijar a mocinha e cantar... mas gostava demais do seu cavalo, o Trigger. Meus preferidos eram os filmes do Durango Kid.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Eu, sempre que podia, ia toda semana ao cinema. Era bom demais”, disse Diogo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;-“ Eu também... E, penso que como vocês aqui na Espanha, batíamos os pés no assoalho do cinema e vaiávamos quando os nossos heróis se punham a beijar as mocinhas, a cantar...”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;- “Aqui também a mesma coisa: o que queríamos era ver índios mortos.”&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Gargalhávamos com nossas memórias e nos pusemos e a falar, desordenadamente, de como torcíamos no cinema enquanto o mocinho espancava ou, simplesmente, matava os bandidos ou os índios. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E nosso entusiasmo aumentava a cada comentário, que nos certificava da semelhança de nossas reações na Espanha e no Brasil; isso fazia com que nos atropelássemos a fala um do outro e outros peregrinos do Caminho de Santiago que passavam por nós não entendiam o entusiasmo de dois velhos falando ao mesmo tempo; e nós não estávamos apenas falando em voz alta, mas gesticulando, sonhando, absurdamente surpresos com tamanha coincidência no comportamento de jovens em tão distantes países. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E, neste louco entusiasmo, do que falamos?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Falamos de como eram os filmes, das tomadas de cena, de nossos delírios de maneira tão atabalhoada que e é impossível por ordem nestas falas, distinguir quem falava, o que cada um falava para mudar de parágrafo, colocar aspas para marcar os diálogos, enfim escrever conforme as velhas e respeitáveis regras. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Então vai assim. As tomadas de cenas nos antigos filmes americanos de “cow-boy” eram simples e usadas por diferentes diretores; no geral a tão desejada perseguição do bandido pelo mocinho era feita com a câmera posicionada em um local mais alto, o que possibilitava uma visão ampla que contemplava o mocinho, o bandido e pontos de referência para se calcular a distância entre um e outro na luta que empreendiam. A visão ampla era, em diferentes momentos, conforme a perseguição continuava, estrategicamente substituída ora por uma aproximação da câmera junto ao bandido e seu cavalo, mostrando sua face temerosa, seu rosto horrorizado, suas tentativas de olhar para trás a fim de calcular a que distância estava o mocinho, focava, às vezes, sua expressão de supremo esforço a exigir maior velocidade de seu cavalo, açoitando-o para isso, enquanto atirava, a esmo, para trás, visando ferir o mocinho; e a cada tiro que o bandido dava vaiávamos e aplaudíamos ao perceber que suas balas não atingido nosso herói; agora a câmera se deslocava e focava o sorridente mocinho - barba feita, dentes claros - e seu belo cavalo a todo galope que, sob nossos fortes apupos, abaixava a cabeça para escapar dos tiros e, vez ou outra, sacava seu revólver, sempre munido de infinitas e intermináveis balas, dava lá seus tiros, mas sem muito interesse em acertar. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O que iria mesmo ocorrer, e era o que queríamos, era a câmera mostrando a aproximação cada vez maior do mocinho, até o momento em que ele, de pé na sela saltava de seu cavalo sobre o bandido, derrubando-o e, no chão, aplicando-lhe uma tremenda surra. Eram nestes momentos que os cinemas, aqui e na Espanha, separados apenas pelo fuso horário, eram literalmente invadidos pelo pó levantados do chão pelo bater fortes nossos pés sobre o assoalho; ao pó acrescentávamos gritos, urros e assobios de aprovação e vaias para o bandido quando o mesmo, traiçoeiramente, tentava pegar, em um fundo falso da bota, uma faca para atirar em nosso herói; era então o momento em que o mocinho, alertado pelas nossas vaias e urros, pressentido o perigo, voltava-se para o bandido, sacava rapidamente seu revólver e com uma bala certeira tirava a faca de sua mão. Bandido desarmado, pois seu revólver já havia sido tomado, destruído ou estava no coldre do mocinho, ocorria mais uma seção de pancadaria: sob nossos delirantes aplausos, o mocinho aplicava a última surra no bandido, prenunciando o “The End”. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Os “The End” eram também previsíveis: depois da última surra, o mocinho ou punha o bandido, sem seu cavalo, a fugir ou gastava uma bala não para tirar a faca de sua mão, mas, apontada ao peito do inimigo, que caia morto com o sempre certeiro tiro. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Tanto eu quanto Diogo, o amigo espanhol, gostávamos mais quando o “The End” era precedido com o bandido a correr, fugindo a pé, sem seu cavalo por aquelas terras áridas, sob o sol forte, até quando, não se sabe.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Saíamos do cinema: os menores de calças curtas, invejosos dos maiores com suas calças compridas e mais invejosos ainda de um ou dois que, ricos, usavam as tão desejadas calças “rancheiras” LEE ou LEVIS. E, tanto aqui como na Espanha, os maiores iram para o “footing” no jardim frente ao cinema e os menores com suas calças curtas iam direto para casa, sonhando com o combinado para a manhã do dia seguinte: em vez de jogar futebol o encontro de toda a turma para brincar de “cow-boy”: matar índios, bandidos, fazer justiça. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era assim: na Espanha e no Brasil.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;The End.&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-5631593050728606758?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/5631593050728606758/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=5631593050728606758' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5631593050728606758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5631593050728606758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/07/o-caminho-de-santiago-de-compostela_06.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS–5–NAT KING COLE, DURANGO KID…'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-KXf1ZWDq0eY/ThSpZZ3sufI/AAAAAAAAAK0/pBeO9ijhTVk/s72-c/DSC04014_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-3380074816082127308</id><published>2011-07-01T09:20:00.001-07:00</published><updated>2011-07-01T12:16:48.060-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -4 -  COMOÇÕES</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/-VvJIEgtA3HY/Tg3ztPCKbUI/AAAAAAAAAKo/-NkgFDM-6KE/s1600-h/DSC04039%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04039" border="0" alt="DSC04039" src="http://lh6.ggpht.com/-QvLU8enCuqM/Tg3zt7rBUDI/AAAAAAAAAKs/u_YU5ec7eTo/DSC04039_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h1&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Uma amiga, curiosa, perguntou-me: “onde, no caminho, você sentiu o maior medo?”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Difícil saber. Medo, mesmo, de verdade, grandão, não tive. Medinhos menores, assim bem pequenos, tive alguns.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Uma vez, em uma ruela de um povoado medieval, vi-me cercado por vacas, garrotes e bezerros, todos brancos com manchas negras; e as vacas e garrotes vinham e vinham com seus passos lentos, ocupando toda a estreita ruazinha como se ela fosse só deles; caminhavam em direção contrária à minha e iam passando lerdamente, me observando, curiosas, com seus olhares negros e doces e balançando seus corpos pesados. Magro, me espremi no vão de uma porta e aguardei, sem medo agora, a passagem da boiada, que seguia obediente aos berros - HEEEHOOOO! - de um casal cinqüentão.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Nos caminhos da Fé e da Luz aqui no Brasil, passei, algumas vezes, medo de cachorro. Na Espanha, pelo menos na região do Caminho de Santiago, há pouquíssimos cachorros. E os que vi por lá, são cachorros do “primeiro mundo”, educadíssimos em suas coleiras, e em sua maioria, tal qual os cães do Jangada de Pedra, romance de Saramago, esqueceram de como é que se late. São, então, cães quietos, muito quietos: parece que nem mesmo abanam o rabo, tão ancestral e carinhoso costume de nossos cachorros tupiniquins. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Falando em cães: no início da caminhada, por uns dez dias, se não me engano, por várias vezes me encontrei com um suíço, moço de seus trinta e poucos anos, que fazia o Caminho acompanhado de seu cachorro. Pernoitava em uma pequena barraca, com lugar para seu cão e carregava às costas uma mochila enorme que além da barraca, tinha suas roupas, ração para o cachorro, muita cerveja e pão. Em seus descansos, ao lado do cão preto, bebia cerveja, fumava cigarros e outros que tais: falava pouco, embora educado e gentil. Me disse chamar-se Kretzschamar e tentou várias vezes, ensinar-me o nome de seu cão, mas creio que percebendo minhas limitações vocais e auditivas, o paciencioso suíço desistiu de me ensinar e eu feliz, de aprender; resolvi, então, chamar seu cão de “Joselito” em homenagem aos cães de José Saramago. Assim, quando encontrava Kretzschamar e seu cachorro de nome impronunciável, tal o enorme número de consoantes e tão poucas vogais, chamava seu cão pelo novo nome, e ao que parece “Joselito” gostou de seu apelido mais sonoro e demonstrou várias vezes seu apreço pelo novo nome, quando, em locais ermos, sob a sombra de uma árvore ou à beira de um riacho, ele, seu dono e eu parávamos para lanchar e descansar. Nestes momentos “Joselito” comia seus bocados de ração enfiado no meio das pernas do dono, eu, cá, comia minhas frutas, e Kretzschamar tomava cervejas, comia pão puro e de sobremesa enrolava e fumava seus cigarros, por aqui tão proibidos; pois nestas horas, ao ser chamado de “Joselito” e acariciado no meio das orelhas, o nobre cão abanava, com a força de um ventilador, seu rabo negro e me olhava agradecido por ter-lhe batizado com um nome tão pronunciável pelas gentes da terra dos Saramagos e dos Guimarães. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas estou desviando por demais do assunto. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Além dos grandes medos a curiosa amiga queria saber das comoções. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Foram vários os momentos comoventes: alguns levando a lagrimas, outros, aos arrepios da pele, ao perder o fôlego, a quase lágrimas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vou tentar obedecer à cronologia da viagem.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O previsto, naquela sexta-feira santa, era sair de Nájera e dormir em Santo Domingo de La Calzada: um percurso de vinte e um ou vinte e dois quilômetros pelo Caminho tradicional. Mas..., tem sempre um “mas” em qualquer história, se se desvia do percurso original do Caminho, rumo a sudoeste, e andando, por isso, uns dez ou doze quilômetros a mais, passa por San Millán de Cogolla, onde se encontram os monastérios de Suso e Yuso. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Imperdível: não seriam oito ou dez quilômetros a mais, que me faria perder a oportunidade de conhecer os monastérios, considerados, pela UNESCO, Patrimônio da Humanidade. Então, desviei-me da rota principal na esperança de – naquela sexta-feira Santa – encontrar vazios os magníficos monastérios. E aqui vem outro mas...&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas, como estava dizendo, havia caminhado uns seis ou sete quilômetros na nova rota quando em Lãs Canas, à esquerda da pequena estrada, uma monumental construção chamou-me a atenção: o belíssimo monastério Santa Maria de Canas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Eram por volta de nove e trinta da manhã, e resolvi descansar e lanchar no jardim frente à porta do Monastério. Estava a tirar a mochila das costas quando um rapaz de seus vinte e poucos anos estaciona apressadamente seu carro, e surpreendentemente rápido entra Monastério adentro sem nem mesmo se dignar a um Bom Dia, ou a um simples Ola; mas, e continuam os “mas” desta história, tão rápido e surpreendente com havia entrado o jovem espanhol retorna ao jardim, mas agora calmo, em pressa, todo conversador:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Caminhante? Brasileiro, puxa vida, que bom? Qual sua idade? Saiu da rota do caminho para visitar o Suso? Pois saiba, senhor peregrino, que nosso Monastério é tão lindo quanto os monastérios de Suso e Yuso, não quer visitá-lo?”, e enquanto falava saboreava, com longas de fortes tragadas, um cigarro. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Para resumir havia o problema de horário: no Monastério de Santa Maria de Canas, o horário de visitas iniciava a partir das dez horas, havia a distância que teria que percorrer a mais, e eu fui fazendo contas: gasto um tanto de tempo aqui, mais tanto tempo na estrada até San Millan de Cogolla, mais a visita aos monastérios... será que dá? Perder a visita aos monastérios de Suso e Yuso, nem pensar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A decisão de visitar o Monastério foi tomada em função da extrema delicadeza do rapaz e de seu supervisor, os quais, percebendo minha indecisão, me convidaram a entrar no Monastério antes do horário normal de visitas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Gentis ajeitaram um lugar para guardar minha mochila e me vi entrando no belíssimo monastério mastigando um enorme pedaço de pão rústico com queijo de cabra: meu lanche daquela manhã.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A limpeza do monastério, a luminosidade penetrando pelos vitrais, o pé direito altíssimo, a simplicidade da construção românica, um belíssimo altar para a celebração das liturgias das monjas cistercienses, e, - penso que o que mais me tocou - um excelente serviço de som, inundava de canto chão todo o ambiente. A tudo isso a surpresa do inesperado Monastério, a simplicidade majestosa da construção com enormes pedras negras à mostra, o silêncio absurdamente grande vedando todo e qualquer som a não ser o coral com canto gregoriano, a gentileza do rapaz em favorecer minha entrada fora de hora, sei lá o que mais: mas sei que meu corpo e minha alma foram impregnados de uma sensação de felicidade extrema, de uma abertura para o belo, para a simplicidade que, quando dei por mim, lágrimas corriam em minha face. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O pão rústico com queijo de cabra ficou esquecido na mão; a fome era outra e o canto alimentava a alma.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Coisa de velho? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Pode ser: mas, inesquecível.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E agora, passado mais de trinta dias de tão inesperada e comovente visita tenho que contar: eu julgava que por ser sexta-feira santa encontraria os monastérios de Suso e Yuso vazios, só para mim, um velho peregrino. Ledo engano: estacionamento lotado com enormes ônibus de turismo, filas imensas para visitas, o barulho infernal de turistas reduziram a visita aos monastérios a simples fotos externas. Cheguei, cansado, já de noitinha em Santo Domingo de La Calzada.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Outra comoção?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Esta eu vou contar, mas sem a garantia de detalhes geográficos. Efetivamente não me lembro o dia e, claro então, a cidade onde ocorreu. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Chovia bastante e era por volta do meio dia quando alcancei o ponto mais alto de uma pequena montanha onde havia um monumento extremamente simples, de concreto, lembrando uma agulha apontada para os céus, cercado por um pequeno jardim de pedras. À beira do jardim, frente ao obelisco, uma peregrina, mulher alta e forte, sobre a qual terei, necessariamente, que contar outra história, de joelhos frente ao monumento: lágrimas, misturadas aos pingos da chuva que caia, desciam pelo belo rosto. Na placa de bronze, ao pé da agulha de concreto, a explicação: uma homenagem do município aos mais de trezentos fuzilados, naquele alto da montanha, pela polícia de Franco: assassinados por sua resistência e luta em defesa da democracia. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E a bela, alta e forte peregrina, com seu rosto de pedra, chorava e chorava. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Também chorei, claro. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-3380074816082127308?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/3380074816082127308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=3380074816082127308' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3380074816082127308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3380074816082127308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/07/o-caminho-de-santiago-de-compostela.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -4 -  COMOÇÕES'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-QvLU8enCuqM/Tg3zt7rBUDI/AAAAAAAAAKs/u_YU5ec7eTo/s72-c/DSC04039_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-7450540439919842122</id><published>2011-06-15T15:07:00.001-07:00</published><updated>2011-06-16T12:35:47.884-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS - 3 - O ESTOURO DA BOIADA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/-kc-XQlW-R2A/TfktBBE5vvI/AAAAAAAAAKg/85Zu_ehjhFE/s1600-h/DSC03981%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC03981" border="0" alt="DSC03981" src="http://lh6.ggpht.com/-7n3BHlSvQbM/TfktCSwTAyI/AAAAAAAAAKk/0fKXLxp2vms/DSC03981_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mas, me conte: como e quando é que ocorre o estouro da boiada? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sabe-se lá, de repente, muito de repente, ou é um galho de árvore que, com a força do vento, balança mais forte, ou é uma codorna que, assustada, levanta um repentino vôo ou é nada mesmo que assusta um garrote que vira de lado e, medroso, desembesta a correr. Para que lado corre? Para onde Deus, e não o homem, manda. E toda a boiada vai atrás, desviando da rota, se enfiando em desconhecidas capoeiras, riachos, deixando os boiadeiros e seus cavalos e cachorros cansados com a lida de reacomodar a boiada no rumo certo.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Com pessoas é a mesma coisa.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vou contar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Cheguei a Logroño, uma cidade com mais de cem mil habitantes, no sétimo dia de caminhada. A sinalização do Caminho para encontrar albergues ou centros de orientação ao peregrino nas cidades maiores, como Logroño, deixa a desejar. Foi também, e isso é um mero acaso, naquele dia que encontrei uma das poucas informações erradas em minha Bíblia, o guia “El camino de Santiago em tu mochila”: o Albergue Municipal, sempre preferido, não estava fechado como informava erroneamente o guia, mas isso não tem importância para o entendimento da história, e estou contando mais por desabafo, penso. Aproveito, então para falar: uma coisa é você desviar-se da rota no início do dia, perder-se logo de manhãzinha, ir para o leste em vez de ir para o sul, e por isso, ter que andar um ou dois quilômetros a mais; se é logo cedo, de manhã, como disse, não afeta muito o corpo nem o humor, mas errar e, por isso, ter que andar mesmo que seja uns quinhentos metros depois de ter percorrido 29 quilômetros – distância entre Los Arcos, onde me encontrava a Logroño - afeta, e muito, o humor, o corpo, as penas, e as costas sob o peso da mochila. E foi o que ocorreu naquela tarde em Logroño: buscando um albergue privado, baseado na informação que o Municipal só abriria em maio, fui até o Centro de Orientação ao Peregrino. E lá, fico sabendo: o Municipal, face o feriado da Semana Santa, antecipou sua abertura e havia vagas no mesmo. Eu havia passado em frente o Albergue Municipal, que julgava fechado, e sabia que estava distante, mas não tinha o que fazer: caminho do Centro de Orientação ao Peregrino ao Albergue Municipal, onde me banho, e esquecido do cansaço e do mau humor, pernas para que se tem: saio para conhecer a cidade.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E é só aqui que começa, mesmo, a história. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Estávamos, eu e um bando de peregrinos, em um elegante bar, eu a tomar um duplo café com leite, quando, do nada, como o vôo da codorna que assusta o garrote no estouro da boiada, vem a informação: “todos os cafés, bares e restaurantes, estarão fechados amanhã e depois, com certeza, por ser quinta e sexta-feira santa”. Será? Pouco depois: não serão apenas os restaurantes e bares, mas também os pequenos quiosques que servem deliciosos cafés e saborosos “bocadilos” estarão fechados, e estes até no sábado. Será, mesmo? Não posso acreditar. Sim, e também albergues privados menores: o povo espanhol é muito católico e respeitam por demais a semana santa. Estamos fritos!&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Não: vamos nos precaver e comprar alimento para estes dois dias”, diz em alta e boa voz um velho “garrote” holandês. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Para não chatear e encompridar demais a história: acompanhado de um grupo de peregrinos, quando dei por mim, estava em uma loja de uma rede de supermercados com uma cesta nas mãos escolhendo e acondicionando pão de forma, queijo, frutas secas...Como já disse, repito aqui: o pão da Espanha é simplesmente delicioso: casca grossa, miolo úmido, enfim, o tipo de pão que me agrada. E eu enchendo a cesta com pão de forma branco, mole, provavelmente com o mesmo “sem-gosto” dos que, vez ou outra, como por aqui. E a boiada sem rumo, verdadeira torre de Babel a todo vapor: E este queijo que você comprou, será que não azeda? Levo outro queijo? As frutas secas estão muito caras? Pode-me dizer o que é maiz? Vou levar uma pequena garrafa de vinho para o jantar. E eu, quantas Coca light? E o peso da mochila? Peso não é nada: será que cabe na mochila tanta provisão? Cabe não, e o recurso será levar uma sacola com as comidas na mão. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E eu, parado no meio da loja do Supermercado, com uma pesada cesta cheia de provisões para dois dias, dei por mim que o que estava “pesando” mesmo em todo o meu ser era o pão de forma: aborrecia-me, e muito, ficar dois dias comendo pão de forma. Detesto pão de forma, ou como reclama o netinho Antônio quando se vê forçado a comer o que não gosta: “eu odeio couve-flor e amo lingüiça”. Então eu odeio pão de forma.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E foi aquele pão branco, provavelmente inodoro, sem sabor que me põe a pensar: o guia “El camino de Santiago em tu mochila”, minha Bíblia nesta caminhada, tão meticuloso, com certeza, informaria de possíveis “feriados” nos quais os albergues, restaurantes e quiosques teriam o hábito de fechar; e mais ainda, pensava de olho naquele pão branco, neste mundo de hoje em dia, com internet, comunicação “on line” caso situações como esta tivessem ocorrido nos anos anteriores todo mundo saberia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E, como se desse ma marcha ré no corpo, vou recolhendo toda a provisão da cesta e devolvendo nas respectivas prateleiras. O último a ser devolvido foi o pão de forma: coloquei-o em seu leito e, agradecido, saí do supermercado sob o olhar curioso de alguns peregrinos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Ei, senhor brasileiro, desistiu de comprar aqui? Está achando caro, é isso?”, pergunta o australiano.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A vontade era responder que eu não ia “levar merda de pão nenhum”, mas fui educado:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Olha, eu vou arriscar e torcer para que nem todos os bares e quiosques estejam fechados.”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Voltei para o elegante bar e se pudesse beber, teria bebido uma dúzia de garrafas de vinho, ou de cerveja, ou de vodka. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Tomei mais dois cafés com leite. O que fazer?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Dia seguinte encontrei quiosques, albergues, restaurantes e bares abertos: aproveitei e comi, no café da manhã, um enorme pão, casca dura e miolo úmido, com presunto cru.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E foi só este estouro da boiada que teve no caminho?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Não teve mais. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O Guia, sempre o Guia, recomenda que se leve fronhas para cobrir os travesseiros nos albergues tendo em vista piolhos e percevejos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Contando melhor.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na maioria dos albergues municipais é oferecido um lençol e uma fronha, descartáveis, feitos de um tecido semelhante àqueles que cobrem as camas de consultórios médicos e é sobre o colchão e travesseiro devidamente “embrulhados” que se ajeita o saco de dormir.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Nos albergues não oferece o protetor de colchão e travesseiro o saco de dormir é colocado diretamente sobre o mesmo. E é ocaso do Albergue Paroquial Apóstol Santiago, do povoado El Acebo, uma pequena vila com trinta e sete habitantes. Pois foi neste albergue, localizado ao lado de uma medieval igreja de pedra, que ocorreu o segundo estouro da boiada. No banheiro havia um quadro ilustrativo informando dos perigos e dos cuidados a se tomar no que diz respeito aos percevejos e piolhos: entre outros cuidados, verificar possíveis manchas de sangue no colchão.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Fui um dos primeiros da fila para alojar, seguido de um grupo de franceses. Eu, de banho tomado, estava me preparando para lavar roupa e depois passear pelo povoado quando um dos franceses foi ao banheiro, viu o quadro ilustrativo e “resolveu’’ que o albergue estava lotado de percevejos. Foi o vôo da codorna. Apressado, nervoso, saiu a procura de transporte, conseguiu, segundo ele uma Van com capacidade para nove pessoas e, literalmente, comandou uma verdadeira evasão de franceses do albergue. Partiram rumo a Rabanal Del Camino. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Vamos brasileiro?”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Não fui. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Ao fim do dia, na singela igreja medieval, houve uma cerimônia litúrgica, realizada pelos monges do Monastério Benedictino de San Salvador Del Monte Irago, com convite aos albergados para participar. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Canto gregoriano em uma igreja medieval é o que se pode chamar de alimento para a alma. O coro de monges, liderado por um jovem com voz levemente contralto, quebrou o silêncio sepulcral:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;-“Magnificat anima mea Dóminun ,&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Et exsultávit spiritus meus in Deo salvatore meo, &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;quia respéxit humilatáten ancillae sua.”&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E o canto, como uma seiva na dura árvore, penetra o corpo, inundando-o de uma felicidade indescritível. Encerrada a liturgia monástica da “Visperas del Domingo”, volto para o albergue e durmo com os anjos! &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E, melhor ainda, nada de percevejos!&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-7450540439919842122?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/7450540439919842122/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=7450540439919842122' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7450540439919842122'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7450540439919842122'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/06/o-caminho-de-santiago-de-compostela_15.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS - 3 - O ESTOURO DA BOIADA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-7n3BHlSvQbM/TfktCSwTAyI/AAAAAAAAAKk/0fKXLxp2vms/s72-c/DSC03981_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-1167118006563690126</id><published>2011-06-09T11:55:00.001-07:00</published><updated>2011-06-10T16:23:05.339-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -2- ALBERGUES</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh6.ggpht.com/-BOmBFQ6Sbug/TfEW_g7ahuI/AAAAAAAAAKY/gM4zRqUMYRI/s1600-h/DSC04074%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04074" border="0" alt="DSC04074" src="http://lh4.ggpht.com/-2oL5Qpv-870/TfEXCTDdQkI/AAAAAAAAAKc/guH5My3F010/DSC04074_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vou contar um pouco dos albergues do Caminho de Santiago. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Antes, como sempre, um pequeno intróito.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Em minhas andanças no Brasil, tanto no Caminho da Fé como no da Luz, a única experiência de dormir em albergue foi no Caminho da Fé: um charmoso e confortável albergue em Águas da Prata. Fiquei lá por duas vezes, mas em situações completamente diferente das encontradas nos albergues em que me alojei no caminho de Santiago. A primeira vez que fiquei alojado no Caminho da Fé, em Águas da Prata, estávamos em uns quatro ou cinco andarilhos, o que significa que o número de albergados era inferior ao número de quartos; sim: eu disse que o número de albergados era menor que o número de quartos e não de camas, veja bem. Na segunda vez, melhor ainda, já em um novo albergue, havia apenas eu; dormi só e fui orientado em onde esconder a chave do imenso casarão quando saísse na manhã seguinte.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No Caminho da Luz não há albergues. Em ambos os caminhos que eu havia feito - Caminho da Fé e da Luz – os pernoites são em pequenos hotéis, pousadas e mesmo casas de família em tudo diferente dos albergues que, por uns quarenta e tantos dias, freqüentei na aventura de andanças pelo Caminho de Santiago de Compostela. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vamos então aos albergues do Caminho de Santiago. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E começarei pelo início: St. Jean Pied de Port. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No Escritório de Turismo da pequena cidade, serviço da prefeitura local, veio a informação: o albergue municipal estava lotado; além de uma série de recomendações no que diz respeito à subida e descida dos Pirineus, prevista para o dia seguinte, uma concha de vieira –símbolo do caminho - foi oferecida junto a uma lista com endereço de albergues privados. Com a concha da vieira devidamente amarrada à mochila e a lista na mão se inicia a busca de um albergue para o pernoite.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E veio o primeiro: em um sobradinho minúsculo, subia-se pela escada onde se encontrava um quartinho retangular, com mais ou menos uns três metros de largura por uns seis ou sete de comprimento, no qual havia seis camas: quatro em dois beliches colocados junto a parede da esquerda e mais duas em outro beliche junto à parede em que havia a porta de entrada. Apertadíssimo e os beliches, de estrutura de ferro rangiam ruidosamente quando suas escadas eram utilizadas para acessar aos leitos que estavam acima. A mim coube uma cama no alto.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Deixei a mochila, como os outros andarilhos, perto da porta e, enquanto arrumava o saco de dormir sobre o colchão, matutava: e como fazer para trocar de roupa, me despir no alto de cama tão pequena e ruidosa, meio a gentes desconhecidas, falando línguas que não domino? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E a vida no albergue começou. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Um casal bastante jovem, que chegara pouco antes, começa a se despir. E o rapaz, mais rápido, só de cueca, perambulava pelo quarto: ia da cama à mochila, fuçava na mochila e ia ao banheiro localizado fora do quarto, do banheiro voltava à mochila e da mochila à sua cama. Nestas andanças, sempre que podia falava, em um idioma que eu não entendia, com sua companheira e trocavam agrados, como se aquele quartinho minúsculo fosse só dos dois e que ninguém mais houvesse por lá. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E eu, trepado no alto da cama, em dúvidas existenciais: desço daqui e tomo coragem de me despir para o banho? Não, o melhor seria ir de roupa até o banheiro, banhar-me, voltar de roupa e me trocar aqui no alto. Mas esta será uma operação difícil: para subir na cama, barulheira infernal dos ferros do beliche e no alto de tão diminuta cama não será fácil me ajeitar para trocar de roupa, ajeitar o saco de dormir, por para secar a fralda que levei para servir de toalha...&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Desço da cama, ainda em dúvida, quando a companheira do rapaz de cueca começa a se despir: a loira e alta moça estava a meio metro e de frente para mim, mas como se eu não existisse, começa a se despir: tira o agasalho e joga em sua cama, tira a blusa e as calças e coloca sobre sua mochila e, como seu companheiro, inicia o desfile de calcinha e soutien, como se nada houvesse naquele quarto a não ser os dois. Aproveitam para, nos esbarrões impossíveis de ser evitado – dado a exigüidade do corredor –, trocar carícias e chamegos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Eu estático! &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Tiro a roupa aqui ou no banheiro?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Resolvo que vou me despir e, todo corajoso, saio do quarto de cuecas e vou assim, meio desnudo, até o banheiro; mas e se a dona do albergue estiver na sala? Vai me ver só de cueca: ficará brava? Acho mais conveniente ir de calças. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Ao final resolvo: vou de cueca.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Vestido de cueca e sandália, protegido com a fralda que seria minha toalha por estes quarenta dias, crio coragem e saio rígido e duro pelo quarto em direção ao banheiro: coragem nenhuma nem mesmo para olhar para os lados; cai o sabonete quando havia alcançado a porta e penso, seriamente, em deixá-lo por lá mesmo.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No banheiro o doce alívio de fechar a porta, sentir-me trancado, sem olhos a me vigiar – como se houvesse olhos e interesse a me vigiar -; ossos, costelas, pernas à mostra, que vergonha! Mas o banho aumentou minha coragem: voltei para a cama menos rígido, vesti-me e saí à procura de um local pra jantar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E chega de ficar contando das vergonhas.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No Caminho há albergues e albergues! &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Alguns com camas muito próximas; outros com espaços maiores entre as camas, oferecendo um espaço maior para, principalmente no escuro das manhãs, ajeitar as coisas na mochila, sem incomodar os vizinhos.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Via de regra o “regimento” dos albergues são parecidos, assim como o valor do pernoite, quando não são gratuitos. Em sua grande maioria há tanques para lavar roupas, varais para secar assim como, pagando dois euros, máquinas de lavar e, por mais três euros, máquinas de secar: valores cuja única forma de burlar era rateá-lo entre três ou mais peregrinos que, cooperativamente, juntavam suas roupas para lavar e secar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Em todos os albergues do Caminho uma mesma orientação: não se é permitido ficar no albergue por mais que uma noite, a não ser em casos extremamente excepcionais - orientação médica para repouso face a inflamações nos joelhos, pernas, acidentes ou outras doenças - e também a ordem de prioridade de pernoitar: primeiro os caminhantes com suas mochilas, depois os caminhantes que usam serviços de transporte de mochilas, depois os ciclistas e só depois os que fazem o caminho de ônibus ou carro. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No início da caminhada, nas conversas iniciais entre os diferentes albergados havia, quase sempre, uma preocupação em relação ao ronco noturno. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Uma jovem romena, se não me engano em Zubiri, perguntou-me se eu roncava. Percebi, naquela hora que jamais tinha ouvido o verbo “to snore”. Respondi um pouco mal humorado que eu não ouço meu ronco enquanto durmo, mas que minha mulher sempre diz que ronco. “Então, devo roncar.”, disse. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E me pus a pensar: já havia aprendido que “bocadillo” é sanduíche, “jubilado” é aposentado e que “to snore” é roncar. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Grandes progressos: caminhar também é cultura.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-1167118006563690126?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/1167118006563690126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=1167118006563690126' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/1167118006563690126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/1167118006563690126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/06/o-caminho-de-santiago-de-compostela_09.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -2- ALBERGUES'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/-2oL5Qpv-870/TfEXCTDdQkI/AAAAAAAAAKc/guH5My3F010/s72-c/DSC04074_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-2697210658142522132</id><published>2011-06-03T09:23:00.001-07:00</published><updated>2011-06-14T10:44:04.450-07:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -1–OS JOVENS E A PUETA DEL SOL</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh6.ggpht.com/-QflHY4s1VtM/TekKbOKQQQI/AAAAAAAAAKQ/vO3pcQV7t0A/s1600-h/DSC04388%25255B3%25255D.jpg"&gt;&lt;span style="font-size:+0;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;img style="BACKGROUND-IMAGE: none; BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-TOP: 0px" title="DSC04388" border="0" alt="DSC04388" src="http://lh6.ggpht.com/-6L-Ht_oQOHE/TekKb2g5dkI/AAAAAAAAAKU/ZkCZoveGBM4/DSC04388_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; FONT-STYLE: italic"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Dedicado ao Antônio, à Catarina e ao Francisco: netinhos queridos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Foram por volta de 760 quilômetros percorridos em mais de trinta dias de andanças pela região norte da Espanha e um tiquinho de nada da França; a andança pela França, na verdade, foi mais para botar banca e dizer que se Aníbal e seus elefantes venceram os Alpes eu, com o peso da mochila, subi, desci e “atravessei” os Pirineus. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O resultado, então, são histórias para contar, memórias a resgatar, cheiros e paladares que teimam reviver, amizades feitas que são mentalmente revisitadas, ventos, montanhas, albergues, casas de pedra...&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Por onde começar? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Pelo início diria meu tio Olímpio, quando eu, ansioso, iniciava uma história pelo meio, ou pelo fim, tornando-a incompreensível: “comece pelo começo: é sempre assim que se conta, sem nenhuma pressa, uma história”. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Desta feita não vou acatar: iniciarei pelo fim. Começarei esta história por Santiago de Compostela, final da caminhada, e não por St. Jean Pierre de Port, onde iniciei esta aventura. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Cheguei, cansado, claro, a Santiago de Compostela onde fiquei, por dois dias, alojado no elegante Albergue do Seminário Menor. E foi em um passeio na Plaza Mayor que vi, encantado, jovens com seus celulares acampados em pequenas barracas Kechua, montadas sob o sol ardente no meio de tão ampla e interminável praça. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Antes de continuar um pequeno parêntese. Não li jornal e não acessei a internet durante o percurso do Caminho e as ligações telefônicas que fiz para o Brasil foram feitas para matar a saudade da família. Fiquei, então, mais desinformado do que costumo ser e o mundo, indiferente à minha ignorância, continuou girando. Fecham-se os parênteses.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A curiosidade a respeito dos jovens acampados em plena Praça Maior durou pouco: “são jovens estudantes que protestam contra os políticos e contra os bancos. Combinaram tudo pela internet”, interrompeu-me o Sr. Oto, um velho alemão, mochila ainda às costas, com o qual havia me encontrado algumas vezes durante o caminho. O convite para um café e a garantia de uma boa prosa calou mais forte que a curiosidade em relação a tão inusitado acampamento.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A viagem de Santiago de Compostela para Madri foi em um trem noturno. Saí de Santiago às 22h30min horas e cheguei a Madri às 08h05min da manhã seguinte.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E é aqui, na estação ferroviária, que de verdade começa esta história. Depois de um café me dirigi ao Serviço de Atendimento ao Cliente da Rede Ferroviária onde fui atendido por um funcionário mal humorado:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Estou chegando de Santiago de Compostela e gostaria de saber se há, nesta estação, um serviço de orientação ao turista; preciso de ajuda para escolha de acomodação.”, educadamente falei.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Não há”, respondeu sem retirar o olho da tela do computador em sua frente.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “E o senhor poderia me dizer onde encontro este serviço?”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Não.”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Indignado com tamanha indelicadeza, estava ainda a imaginar como faria para obter a informação que necessitava quando fui abordado por um jovem rapaz:&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “O Serviço de Orientação ao Turista está na estação Puerta Del Sol. Lá o senhor encontra as informações a respeito de albergues, pensões e hotéis”, disse o rapaz ao mesmo tempo em que solicitava a sua companheira um mapa do metrô para me orientar. A mesma não tinha o mapa e eu agradeci ao rapaz informando que conhecia mais ou menos o metrô e que não se preocupasse. “Estação Puerta Del Sol, não se esqueça”, e correu para alcançar a namorada apressada.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No metrô ajeitei-me, com a mochila às costas e o mapa sobre as pernas para estudar as conexões que teria que fazer. Na estação seguinte à qual eu havia tomado o metrô senta ao meu lado um jovem e começamos a nos falar. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;“Puerta Del Sol? Na estação Novos Ministérios o senhor desce e pega a linha dois, vermelha. Se não me engano é a quarta estação em direção a Las Rosas. Cuidado com esta máquina fotográfica: a Puerta Del sol está lotada de gente por causa do movimento dos estudantes.”, disse solícito o jovem rapaz.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Em Santiago de Compostela estavam acampados, protestando na Praça Maior. Fiquei sabendo que o movimento foi combinado pela internet. É isso mesmo?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Sim, é isso mesmo. Mas aqui, em Madri, o movimento está muito forte.”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “E os estudantes protestam contra o que?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Somos contra os políticos corruptos e contra os bancos que nos roubam. Cuidado com esta máquina, a praça está cheia. Adeus!”, falou enquanto descia em uma estação para tomar outro rumo. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Eram um pouco mais de nove horas da manhã quando desci na Puerta Del Sol. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Impossível de se ver o calçamento da praça: todos os seus mínimos centímetros estavam ocupados por barracas, cartazes e jovens: uma imensidão de jovens que falavam, cantavam, dormiam, tocavam violão, namoravam. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na verdade o Serviço de Orientação ao Turista fica na Praça Maior e fui orientado em como lá chegar. Fui atendido por uma bonita e sorridente funcionária. A bela moça ao ver um velho com cara de cansado, mochila às costas, resolveu por sua conta e risco que meu lugar seria um albergue. Forneceu-me a lista dos albergues – poucos – da cidade e orientou-me para que eu telefonasse para verificar onde encontraria vaga: “Telefone público o senhor encontra na Porta do Sol”, disse a sorridente e tão bela funcionária.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;De novo na Porta do Sol e eu, com dificuldade para manipular o telefone público tão cheio de possibilidades: carregar cartão, enviar MSN, fazer uma chamada; e eu bem que tentei e tentei, queria apenas fazer e tão somente fazer uma chamada para um albergue. Novamente sou socorrido por um jovem: este agora de longos cabelos enrolados, daqueles que lembram os jovens baianos. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sorte minha: havia vaga em um albergue, o primeiro da lista que havia escolhido, dado sua proximidade com o Metrô. Mas antes de tomar o Metrô para ir ao albergue passeio, maravilhado, pela Porta do Sol: tanta juventude, tantas barracas, o sol forte no céu azul encheram-me de forças, sumiram com meu cansaço fazendo com que eu me sentisse como que embriagado por intensa felicidade.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Voltei à Porta do Sol à tarde.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A praça fervia. Em uma barracas ofereciam água aos passantes, em outra - a Barraca das Artes – os participantes tinham pincel, papel e cartolina para fazer cartazes, em outra “bocadilhos” de queijo eram oferecidos, em outra – extrema luxúria – duas belíssimas estudantes faziam e ofereciam chá de ervas, pode? ; bem no meio da praça corria solta uma barulhenta assembléia: “Palavra de ordem” pensei saudoso das assembléias que havia participado quando jovem.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E como os jovens gostam de falar. Orgulhoso do movimento o estudante de arquitetura comenta sua repercussão: “em toda a Europa o movimento é notícia na TV e mesmo nos grandes jornais, tanto é assim que em Londres e em Paris já há acampamentos com o nosso.”. Realmente era grande o número de repórteres e de câmeras de TV pela praça. E o que é que vocês reivindicam? “Somos contra a corrupção, contra as eleições que ocorrerão amanhã na Espanha e contra os Bancos que nos esfoliam a todos.”, informou-me o estudante de enquanto terminava de fazer mais um cartaz, no qual ao lado de uma caricatura, chamava os políticos de filho de uma certa coisa. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na tarde seguinte voltei à praça. Já mais descansado, me permiti enfiar-me na fila dos voluntários do dia e, face a possível dificuldade que teria em relação ao idioma, me escalaram para cortar pão para fazer sanduíches. Fui, então, conduzido até a barraca dos lanches onde havia uns cinco jovens voluntários e fui recebido, carinhosamente, com um avô. Cortei pão, separei queijo e conversei a tarde toda.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na praça não se podia beber álcool, os namoros deveriam se limitar ao que se faz em público, todas as drogas proibidas, apenas o cigarro permitido. Às margens dos quiosques que existiam na praça foram marcadas com uma fita impedindo que se acampasse para não prejudicar o acesso do público aos seus serviços. Não sei de onde aparecia tanto pão, tanta água, tanto papel; os jovens, e a sua internet, conseguiram até banheiros químicos que foram colocados na praça.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O resumo do resumo: a Praça do Sol era uma verdadeira aula de cidadania e humanidade: alegre, respeitosa, colorida, barulhenta e silenciosa. E o sol, astro maior, sob um céu azul, iluminava até as nove horas da noite aquela imensidão de ternura, de afeto e de cidadania. Inesquecível.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;No domingo as eleições ocorreram e o partido governista – o socialista PSOE – foi duramente derrotado pelo PP.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na segunda voltei à praça a procura dos meus “netos” amigos e não os encontrei na barraca de sanduíches. Sofia, a minha amiga do dia anterior me viu e gritou: “Ei! Avô “padeiro” – é que eu, que no dia anterior havia ensinado aos “colegas” da barraca de como se fala e escreve padaria e padeiro em português, ganhei, em troca, o apelido de “avô padeiro”, não abuelo, vejam bem - estou hoje na barraca de comunicação, não quer ir lá para conversar um pouco?”, perguntou-me.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Claro que fui.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “E o resultado das eleições, te chatearam?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- “Não. Para nós, estudantes, quem quer que ganhasse seria a mesma coisa. São dois partidos que se revezam ambos com políticos corruptos, atrelados com os bancos, sem nenhuma ética e compromisso verdadeiro com as pessoas e com a coisa pública.”, respondeu serena e, a meu ver, com sinceridade a meiga Sofia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “E porque hoje você não está mais em nossa padaria?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- “Todos nós, diariamente nos revezamos, mudamos de setor. Assim, ninguém fica perto ou seduzido por possíveis poderes. O poder corrói, pensamos, e tem que ser democraticamente distribuído. Acreditamos e praticamos isso. Concorda avô padeiro?”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Fiquei comovido. Não há como não concordar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na terça feira, no avião, de volta para casa me é oferecido um jornal; pego o El Mundo: fazia uns quarenta dias que não lia jornal. No El Mundo toda a Espanha se restringia às eleições que haviam acontecido no Domingo: eleições, eleições e eleições. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Folheio insistentemente e chego à página 18 onde um quarto de página era dedicado ao movimento dos estudantes. A foto de um jovem sonolento, abrindo a boca, encabeça a manchete: “El ocaso de Sol”. O texto, irônico, afirma que a “sede” da soberania nacional que havia se instalado na Puerta Del Sol estava em franco processo de desaceleração. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Triste e comovido recortei a página 18 do El Mundo com a foto do jovem sonolento. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Da janela do avião via que o sol, astro maior, brilhava sobre as nuvens que cobriam toda a Espanha.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-2697210658142522132?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/2697210658142522132/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=2697210658142522132' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2697210658142522132'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2697210658142522132'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/06/o-caminho-de-santiago-de-compostela.html' title='O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS -1–OS JOVENS E A PUETA DEL SOL'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/-6L-Ht_oQOHE/TekKb2g5dkI/AAAAAAAAAKU/ZkCZoveGBM4/s72-c/DSC04388_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-3729572160868132879</id><published>2011-02-10T04:48:00.001-08:00</published><updated>2011-02-10T11:46:03.420-08:00</updated><title type='text'>HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: OUTRA HISTÓRIA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TVPer2ldkbI/AAAAAAAAAKI/4IzJNB0XQ3A/s1600-h/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20009%5B2%5D.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" title="2009 Caminho da fé 009" border="0" alt="2009 Caminho da fé 009" src="http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TVPeslVzN0I/AAAAAAAAAKM/W2xkpSKqKvE/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20009_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acordei com o clarão que, junto ao assustador estampido de trovão, invadiu a barraca. Tenho medo de raios e trovão. Para fugir do medo forcei a mente a pensar na conversa que havia tido com o Beato Gastão: havia sido um sonho? Será que ocorreu mesmo? Se foi sonho até que foi bom, não foi ruim. O último sonho ruim que tive foi um sonho no qual sonhei que havia sonhado. Explicando melhor: sonhei que uma pessoa muito amada havia morrido, deixando minha alma angustiada, em frangalhos. Ainda no sonho acordei, aliviado, na cantina do escritório onde trabalhava e comentei com o pessoal: “puxa vida, tive um sonho horrível esta noite: sonhei que meu pai morreu? Que coisa mais triste!” O pessoal do escritório estava em roda tomando café, fumando cigarros, fazendo hora para iniciar o trabalho. Um deles, famoso por não ter papas na língua me disse: “Você não sonhou não, ele morreu mesmo.”, e minha alma retornou ao estado de agonia. Aí acordei de verdade e acordar depois de um sonho ruim é a felicidade tão buscada e da qual muitas vezes temos dúvida se existe ou não, se é sonho ou se é o impossível. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Senti que a chuva ia se amainando e a Bivac havia dado conta do recado: continuava seca, sequinha, por dentro, a brava barraca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltei a dormir.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acordei outra vez com a voz de tenor do Beato Gastão:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “T’acordado peregrino? Assustado, como eu, com o trovão? Cruz credo, São Jerônimo, Santa Bárbara a Virgem, Deus me livre e guarde!”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acompanhei o Beato Gastão em seu pedido a Santa Bárbara e fiz o sinal da cruz três vezes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim, acordado, Beato Gastão. Quer conversar?”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Vamos, sim. Gostei muito de palestrar com você. Posso entrar”?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Claro. Há espaço bastante na barraca, a casa é sua.”, respondi e ao mesmo tempo abri bem os olhos, conectei meus ouvidos e parei de respirar para perceber a mínima mudança que viesse a ocorrer dentro da pequena Bivac. Os pingos da chuva se tornaram tão diminutos que quase não dava para ouvi-los e os raios e os trovões, felizmente, tinham ido embora de vez. Sem a luminosidade intermitente dos raios a escuridão era plena: a barraca era um breu puro. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Continuei com todo o corpo atento até ouvir:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Quer mesmo escutar? Sabe que em meu estado acabei de vez com a pressa de contar as coisas passadas. Esqueço da vida quando falo, canto e rezo.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não tenha pressa Beato. Gosto de ouvir. Me conte de você e também quero que, quando tiver vontade, cante.”, respondi, o que era bem verdade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Pois então: o Beato que me ordenou e me deu esta túnica marrom, este cinto de corda e este santo crucifixo que carrego em meu peito, com quem trabalhei por anos e anos, me disse que era chegada a hora de nossa despedida. Tinha uma missão para mim: era para eu seguir caminho até uma pequena vila, depois das veredas do Jequitinhonha, pois lá careciam de meus serviços. E eu obediente, fui: foram dias e dias, caminhando, até chegar a Venda Nova.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E o que é que acontecia em Venda Nova? Quer saber? Pois então, já te conto. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;É que lá em Venda Nova as pessoas se reuniram, construíram uma igrejinha e perto do pequeno amontoado de casas, em uma Curimatá, passaram a criar vacas e cabras, a plantar aipim, abóbora e melancia. Todo mundo ajudava todo mundo: mulheres, homens, velhos, e mesmo crianças se ajuntavam em mutirões para fazer fartura: se dinheiro não corria, fome também não havia; para todos tinha leite, queijo qualho, abóboras, milho, feijão, maxixe, cajus, melancias, quiabo.&lt;br /&gt;E foi aquele ordeiro povo de Venda Nova que resolveu me chamar, que era para eu ajudá-los nas rezas, nas orações e na organização das procissões até a cruz, no alto do morro, para clamar por chuva. Foi para isso que me chamaram; eu fui, e este passou a ser meu ofício em Venda Nova.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resolveram, também, naqueles mesmos tempos, chamar Dasdores para ensinar a ler e a escrever a todo cristão de Venda Nova, fosse pequeno ou grande. De verdade, mesmo, os pequenos eram obrigados a ir aprender, de manhã, na salinha perto da igreja. Já os grandes iam se queriam, à noite, na mesma sala. E foi aí que acabei de aprender a ler. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dasdores era uma morena sacudida de forte: cabelos pichainhos sempre envoltos por lenços coloridos, dentes brancos e limpos de cáries, ombros largos, braços delicadamente fortes, seios rijos e fartos, pernas curtas e grossas. O sorriso permanente, a voz clara, doce e a delicadeza com que ouvia a todos fez de Dasdores a princesa de Venda Nova. Todos a respeitavam: suas palavras e conselhos eram ouvidos e, obedientemente, seguidos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em um final de tarde de domingo estávamos reunidos frente a igreja para orar e agradecer a Santa Bárbara as grossas chuvas que haviam caído banhando as plantações e averdejando os pastos. Puxei um terço e todos me acompanharam na reza e depois pediram para eu cantar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Então eu abri a Missão Abreviada e cantei: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;“Lança a foice afiada e vindima os cachos da vinha da terra, porque maduras estão suas uvas.O anjo lançou sua foice à terra e vindimou a vinha da terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue que atingiu até o nível dos freios dos cavalos pelo espaço de mil e seiscentos estádios.”&lt;/i&gt; &lt;i&gt;Apocalipse, 14.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois do canto as pessoas foram cada qual procurando o caminho de casa. Dasdores me acompanhou até perto do quartinho onde eu morava, e ao se despedir e dar boa noite confabulou comigo em voz baixa:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “O seu Deus está sempre tão bravo. O meu não: carinhoso, amoroso.”, e, confesso que aquelas suas palavras me deixaram atordoado, marcado. Fui deitar sentindo-me zonzo, parecia embriagado, a cabeça girava, os pensamentos não seguiam a ordem que eu queria, desobedeciam-me; a doce voz de Dasdores “o seu Deus está sempre tão bravo. O meu não: carinhoso, amoroso” repetia dentro de mim, e por mais que eu mudasse de assunto comigo mesmo, teimava em voltar, me deixando encabulado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dias depois, fiquei bastante em doente. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O defeito que tinha na coluna, de nascença, e me obrigava a andar igual a um orangotango se agravou e minhas costas e braços doíam sobremaneira. Juntou a isso uma gripe e forte febre causada pela garganta inflamada. Dasdores cuidou de mim. Matou umas sete daquelas vespas feiticeiras, que não têm asas, e fez chá para eu tomar. “Santo remédio para a garganta: beba e amanhã a garganta já estará boa para cantar de novo”, disse enquanto me passava a caneca com o, para mim, estranho chá.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De manhã apareceu em meu quartinho com uma travessa de comida coberta com um pano de prato todo bordado: pedaços de melancia, favos de jaca mole, queijo, leite de cabra, aipim e uma caneca de café margoso. Vinha tudo bem ajeitadinho no prato de louça que até parecia uma flor de tantas cores. “Coma. Está muito fraco Beato Gastão; onde já se viu: dá quase para se ver suas costelas debaixo da túnica. Tem que viver homem, Deus gosta de filhos fortes. Estou indo para a escola e volto com a merenda. Até mais Beato Gastão”. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei só com prato colorido de comidas em minha frente e foi aí que percebi, ou me dei conta, de que eu só comia para viver: havia, há tempos, perdido o paladar, o prazer de diferenciar um prato do outro, de apreciar o doce sabor de um umbu, de brincar de furar e chupar o pó seco e amarelo do jatobá, de colher no pé e, sob a sombra, deliciar-me vagarosamente com o bacu pari madurinho. Nem mesmo a gabiroba, antes tão querida, o veludo, a mangaba eram, agora, fontes de prazer. O que havia comigo?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma semana se passou com Dasdores cuidando de mim e eu sentia que me recuperava. Uma manhã, na hora do almoço, Dasdores me trouxe uma marmita com cortado de palma e carne de sol. Cuidou para que a carne marronzinha envolvesse o verde ferrugem do cortado de palma. “Pros olhos e pra a barriga Beato Gastão: sirva-se.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E eu, gulosamente, saboreei, sob o olhar feliz de Dasdores, toda a marmita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nem bem terminei de comer, ainda me deliciava ainda com o sabor forte da carne de sol com o cortado de palma, Dasdores falou:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “ Hoje sou eu que quero cantar, posso?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim, Dasdores, nunca te ouvi cantar. Cante.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Então Dasdores, pegou sua Bíblia, procurou, procurou e cantou:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;- “ Ah! Beija-me com os beijos de tua boca!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Porque seus amores são mais deliciosos que o vinho, &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;e suave é a fragrância de teus perfumes;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;o teu nome é como um perfume derramado: por isso, amam-te as jovens.” Cântico dos Cânticos, 2,3.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei mudo: tinha vergonha de ter ouvido o que ouvi, e imaginei mesmo que Dasdores estava inventando, e não lendo tudo aquilo: "sem-vergonhice pura, falta de respeito com um beato". Mas ao mesmo tempo não deixava de estar inebriado com a beleza de sua voz, com seu sorriso simples e afável, com seu perfume de mulher. Aflito perguntei, encarando-a nos olhos:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “De onde você tirou estes versos, Dasdores? Que versos são estes? Em minha Missão não tem isso, estou certo. Sua Bíblia não é do Demônio? Me diga Dasdores.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não Beato. São versos do Cântico dos Cânticos e minha Bíblia é tão de Deus quanto a sua Missão Abreviada. Só que a minha é completa e contempla as falas de um Deus bondoso, amante de seus filhos, caridoso e respeitoso! Gosto mais deste Deus, mais humano, mais parecido com a gente aqui da terra!”, respondeu séria, Dasdores.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não sei o que pensar, mas quero ficar só.”, e Dasdores, atendendo ao meu pedido, recolheu a marmita, ofereceu-me água e se foi. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei só, com minha timidez, em meu quartinho: a solidão é, para os tímidos, não só a libertação, mas a proteção e o conforto necessários e suficientes para lidar com a vida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hora do jantar volta Dasdores: trouxe um prato de mungunzá. E foi ela que puxou assunto:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Beato: se Deus não quisesse o amor entre os homens e as mulheres teria criado o mundo de um jeito em que a gente germinaria igual às plantas, com o vento ou os pássaros esparramando as sementes. O amor, irmão, é obra de Deus.”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Estou confuso Dasdores. Tenho, e você sabe muito bem, procurado levar uma vida de orações e castidade, mas me sinto, por dentro, como uma ossada de vaca morta pela seca em plena caatinga. Já viu a secura de uma ossada meio a areia e ao sol quente? Pois se já viu, como afirma com seus olhos, é assim que me sinto por dentro. Seco! Esturricado”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Olhe mais a vida, as plantas, os bichos e menos sua Missão Abreviada irmão. A vida é curta e, mesmo acreditando em uma vida futura, não podemos sacrificar a vida presente. É o que penso. E penso também que você deveria tomar amanhã cedo um banho: seu corpo fede, você tem carrapatos sugando seu sangue: além de sujos trazem doenças e te enfraquecem. Banhe-se no córrego: suas rezas trouxeram chuvas e o córrego está cheio de águas limpas e frias.” &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ficamos mudos depois desta fala.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Vou cantar irmão, e este canto será o meu Boa Noite e o meu durma com Deus:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;“A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim... &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Vinde, portanto! Aproveitemos-nos das boas coisas que existem!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Inebriemos-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!”Sabedoria, 2:5 e 2:6&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei só!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Manhã seguinte, logo cedinho, antes mesmo do sol nascer, fui para o córrego me banhar. Levei comigo sabão de pedra e bucha. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estava ainda escuro quanto tirei a túnica e, nu, entrei devagar no córrego. Os pés foram os primeiros a sentir o frio da água. Continuei córrego adentro até as águas tocarem o meu ventre. Afundei, então, todo o corpo n’água, prendi a respiração e fiquei ali, submerso, quieto, me deliciando com a água que envolvia meu corpo em maternal abraço. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltei para margem em busca do sabão e da bucha. O dia clareava. Passei sabão por todo o corpo: desde a cabeça até os pés uma espuma branca cobria o corpo e então passei vigorosamente a bucha retirando a espuma, verificando cada parte do corpo, examinando se tinha carrapato ou não, massageando-me com a bucha, retirando com os dedos e unhas os carrapatos redulegos que encontrava em meu corpo. Havia vários e o local de onde eu os retirava sangrava e coçava. E fui me lavando, lavando. Voltei ao meio do córrego, mergulhei todo o corpo n’água e as espumas sumiram correnteza abaixo. Voltei para a margem e, novamente, me ensaboei, me esfreguei com a bucha e retirei um ou outro carrapato que havia ficado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resolvi lavar a túnica antes de colocá-la em meu corpo, agora tão limpo. Lavada dependurei-a para secar no galho de um umbuzeiro. O dia agora estava claro com o sol saindo forte por detrás do morro da cruz. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E eu nu, banhado, iluminado pela claridade me examinava, me sentia, me tocava, me conhecia e minhas mãos ousaram tocar partes antes nunca tocadas. Tive a clareza de que todas aquelas partes eram minhas, do meu corpo e que deviam ser respeitadas, limpas, tocadas, amadas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltei para a vila com a túnica molhada. Passei por um pé de maçaranduba recolhi duas frutinhas, descasquei-as com as unhas e perfumei-me com o seu o óleo no peito e na face. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Cheguei em meu quartinho e encontrei na porta a travessa coberta com o pano de prato bordado. Dentro havia favas de jaca mole, dois cajus, queijo qualho, uma caneca com leite de cabra e uma com café forte, margoso. Mais que fome senti vontade de deliciar-me com os sabores, com as cores, com o frio e com o quente daquelas comidas, tão delicadamente ordenadas na travessa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sentei-me para comer com a travessa sobre os joelhos e percebi a falta que fazia Dasdores. Queria ela ali perto, com sua voz, com seu sorriso, dividindo comigo as favas da jaca mole, tomando na mesma caneca o leite de cabra e o café margoso. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chorei de tristeza e de felicidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em um domingo tomei coragem e me ofereci para tomar café em sua casa e Dasdores, prontamente, aceitou. Fomos: sua casa era pequena, muito limpa, e me lembro bem de uma canequinha com flores sempre-vivas sobre a mesa, o fogão de lenha aceso, muita ordem em todos os cantos e um cheiro de limpeza. A mesa estava coberta com uma toalha de chita com flores vermelhas e azuis e na parede a imagem de Santa Izildinha. Dasdores ficou preparando o café e eu sentei-me em um banquinho frente à porta da rua. O leite de cabra estava na panela sobre a chapa do fogão e Dasdores encheu duas canequinhas, feitas com lata de massa de tomate, e colocou sobre a mesa. “Vamos tomando o leite enquanto faço o café. Gosto de café forte, você também?”, perguntou enquanto bebericou um pouco de leite de cabra, e deixando a canequinha sobre a mesa voltou para o fogão. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;As duas canequinhas com leite de cabra estavam pousadas sobre a mesa, e eu não tive dúvidas: bebi na canequinha de Dasdores, e me senti como se estivesse roubando um beijo. Procurei colocar meus lábios exatamente no local onde ela havia tocado com seus lábios grossos e meu corpo estremeceu ao dar aquele primeiro beijo: rápido, roubado, intenso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dasdores voltou e colocou sobre a mesa com as duas canequinhas com café, cujo cheiro inundou a sala.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E eu me sentia fora de mim, exaltado, sentindo-me como nunca antes havia sentido, tomado de emoções nunca antes experimentadas e que me deixaram atordoado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Indiferente, muito calma, Dasdores sentou-se, pegou a canequinha com leite de cabra, olhou desconfiada para mim e bebeu. Penso que cerrou os olhos ao tocar a canequinha, mas não sei, peregrino, te juro, se foi sonho meu ou se ela realmente cerrou os olhos e tocou em meus lábios na canequinha de leite de cabra. Não sei, até hoje não sei, e vivo esta eternidade em dúvida, mas sempre torcendo para que Dasdores tenha, naquele momento, cerrado seus lindos olhos negros.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tomei rapidamente o café margoso e pedi licença para sair: “barriga cheia, pé na areia” disse, desculpando-me, mas não conseguia permanecer tão perto e tão longe de Dasdores. Meu coração parecia querer sair pela boca fora, meus pensamentos fugiam do controle, meus lábios tremiam e minha respiração acelerava descontroladamente. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saí rápido e fui para o córrego. Abri a Missão Abreviada para ver o caminho a seguir, e me vi cantando e chorando à beira do córrego, sob a sombra do umbuzeiro:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;- “Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” Apocalipse, Epílogo da segunda parte, 5.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu corpo nasceu para a dor e não para o amor, concluí.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltei para a vila e procurei por Dasdores. Encontrei-a na sala de aula.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Dasdores, quem pegou as sete vespas feiticeiras que você usou para fazer o chá para minha dor de garganta?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Três ou quatro meninos responderam ao mesmo tempo:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Eu sei onde tem Beato. Quer? Quantas?”&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Preciso de quatorze vespas, para hoje ainda.Quem pega para mim?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Eu! Eu! Não eu! Não, eu é que pego!”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dasdores colocou ordem: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Ta bom, Marsílio e Eurípides vão vocês pegar as vespas desta vez. Peguem umas quatorze, enfiem em uma latinha, fechem a boca da lata com pano e tragam para o Beato. Cuidado com cobras.” &lt;/p&gt;&lt;p&gt;À noite fui para a beira do córrego com a latinha e as vespas. Peguei a primeira com cuidado, coloquei-a perto do braço e apertei seu abdome: senti a primeira ferroada e imediatamente meu coração acelerou. Logo peguei outra, apertei da mesma forma e tomei a segunda picada: a palpitação do coração aumentou, e eu comecei a suar. Continuei forçando as picadas até chegar à décima terceira vespa. Meus olhos foram se fechando, mas eu continuava vendo canequinhas de lata de massa de tomate e os lábios de Dasdores e assim, com visões, desmaiei e não acordei do desmaio: morri.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi Dasdores que no dia seguinte descobriu meu corpo e ocupou-se das obrigações do caixão, das rezas e do enterro no cemitério perto da igrejinha; o padre mais perto de Venda Nova se recusou a dizer a missa de sétimo dia pelo motivo forçado de minha morte e por isso ando a vagar por até não sei quando, por esta eternidade. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora descanse peregrino. Você tem um longo dia pela frente. Boa caminhada!”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Obrigado, Beato Gastão. Foi bom te ouvir. Até uma outra vez.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A manhã estava chegando. As nuvens se foram, o sol apareceu forte entre as serras da Mantiqueira. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Me pus a caminhar logo cedo. Tinha ainda uns seis ou sete dias de caminhada pela frente e em todos aqueles dias seguintes da caminhada me lembrava, vez ou outra, do Beato Gastão. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sua Dasdores me levou a pensar no simbólico do imaginário coletivo e, principalmente, em uma mitologia iraniana, da qual soube pela primeira vez em um conto do Borges, e cujo nome, por mais que tentasse, não conseguia me lembrar. Outra coisa que me intrigava era o uso da formiga feiticeira: no norte do Estado de São Paulo a vespa assassina do Beato Gastão é, ou era, pelo menos, muito usada para feitiçarias terrenas, voluptuosas. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chegando em casa, depois de abraços, café quente, muita prosa jogada fora não resisti, fui à busca, e encontrei, a palavra que não conseguia me lembrar: masdeísmo, da mitologia iraniana, encontrada no conto “O asno de três patas” em “O livro dos seres imaginários”, de Borges, como já disse. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quanto à vespa feiticeira, negra, sem asas, e com suas belas faixas amarelas fantasiando seu abdome, fui ao google e achei:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “O termo Formiga-feiticeira é a designação comum a diversas espécies de vespas do gênero Dasymutilla, família Mutillidae, especialmente as fêmeas ápteras, que têm aparência de formiga e são geralmente pretas, aveludadas e com vistosas manchas vermelhas, amarelas ou brancas.”&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-3729572160868132879?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/3729572160868132879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=3729572160868132879' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3729572160868132879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3729572160868132879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/02/beato-gastao-outra-historia.html' title='HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: OUTRA HISTÓRIA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TVPeslVzN0I/AAAAAAAAAKM/W2xkpSKqKvE/s72-c/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20009_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-725055472771699695</id><published>2011-01-15T09:40:00.001-08:00</published><updated>2011-03-03T09:13:51.065-08:00</updated><title type='text'>HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: PRIMEIRA HISTÓRIA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh3.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TTHcEJeh0qI/AAAAAAAAAJ8/z-VWSYZsUZI/s1600-h/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20025%5B2%5D.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" title="2009 Caminho da fé 025" border="0" alt="2009 Caminho da fé 025" src="http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TTHcE4zws3I/AAAAAAAAAKA/zyT2xE7miWM/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20025_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O primeiro encontro com o Beato Gastão foi fruto de iluminada coincidência, se pode chamar ao ocorrido de coincidência. Foi assim: eu me encontrava enfiado na Serra da Mantiqueira em mais uma de minhas peregrinações pelo Caminho da Fé. Naquele dia o planejado era caminhar uns vinte e poucos quilômetros e pernoitar em uma isolada pousada para peregrinos, na serra das Limas, meio à belíssima Mantiqueira, mas o pensado e matutado não ocorreu por culpa de uma cachoeira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eram quatro horas da tarde, mais ou menos quando revi a belíssima cachoeira da Surpresa, distante uns cem metros da trilha que me encontrava. Não era a primeira vez que passava pela Surpresa; a cachoeira sempre me encantava, mas por um motivo ou outro não ia até ela banhar-me. “Escute: você tem seus sessenta e tantos anos, chegando aos setenta, pense nisso: a vida é curta!”, assoprou em meu ouvido o vento fresco naquele dia tão quente. As águas claras e límpidas, o silêncio absoluto - exceto o cair das águas nas pedras e um canto aqui e outro ali do bem-te-vi que me acompanhou no caminho por todo o dia - forçou a decisão. E assim me esqueci, deliciosamente, da vida: tinha lanche o suficiente para uma refeição noturna e uma minúscula barraca Bivac para o pernoite. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O sol já se punha quando, pesarosamente, saí do banho; coloquei a roupa no corpo, a mochila nas costas e saí à procura de um local para o pernoite: esperava encontrar, para armar a Bivac, uma paineira para poder ver as estrelas entre suas folhas, ou a margem de um córrego para dormir ao som de suas águas correntes. A noite estava chegando e logo depois de uma curva na trilha surge uma pequena e abandonada capelinha à margem da estrada: decidi que seria ali o pernoite.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vou, como sempre, abrir um parêntese na história, mas desta vez acho que vale mesmo a pena. Para os que não conhecem a Bivac é uma marca de barraca típica para andarilhos. Pequena, leve e para melhor entender: quando armada lembra mais um caixão de defunto do que as redondas e confortáveis barracas utilizadas pelos que gostam de acampar. É uma barraca para dormir, na qual nem sentar-se com algum conforto se consegue. E antes de fechar o parágrafo: a primeira vez que vi a palavra Bivac foi em Os Sertões, onde Euclides da Cunha usa como verbo: os soldados “bivacaram”. Agora sim fecham-se os parênteses e vamos à história do Beato Gastão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao fundo da pequena igrejinha havia um gramado plano e foi lá que armei a Bivac. Lanchei o que havia de disponível, bebi água e me preparei para dormir. Havia caminhado por volta de uns dezoito a vinte quilômetros, o banho na cachoeira relaxou meu corpo por demais e o sono me levou para dentro da barraca. Nuvens negras e clarões de relâmpagos anunciavam as típicas tempestades que ocorrem no dia de Reis.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dormi.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ouvi uma voz:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Oi de casa, peregrino! Dorme ou está acordado?”, meio sonado, não sabendo se havia sonhado ou se alguém havia, realmente, me chamado atentei meus ouvidos:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Acordado, peregrino?”, agora com certeza de ter ouvido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim, quem é?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sou o beato Gastão e trago a paz nas palavras do Senhor.”, respondeu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Continuei deitado em minha barraca; estava cansado e não estava entendendo se o que ocorria era um sonho ou se havia alguém naquele fim de mundo, em plena escuridão e, além do mais, sob torrencial chuva.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Está vindo de Tambaú?”, perguntou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tambaú é o início do Caminho da Fé, rota dos peregrinos, que vai daquela cidade até Aparecida do Norte. No meu caso faço o Caminho da Fé em seu trecho mais belo do ponto de vista geográfico: inicio a caminhada em Águas da Prata e vou até Campos de Jordão; mas, aprendi nestas caminhadas, que quando argüido o melhor e mais cômodo é responder que faço o caminho tal como ele foi idealizado, ou seja, de Tambaú a Aparecida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-“Sim, saí há uns dez dias de Tambaú e vou, com a graças de Deus, até Aparecida.”, respondi. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Devo minha fala a um milagre do Padre Donizete, de Tambaú, que Deus o tenha, Santo homem.”, falou o Beato, e complementou: “Você visitou a sala dos milagres?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não, não visitei. Bonita?”, disse preocupado em não encompridar a mentira e ser pego de calças curtas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim: uma sala repleta de muletas, cabeças de cera, rosários, crucifixos, botas; muitos que alcançaram a graça de um milagre do Santo Padre Donizete, retornavam a Tambaú para colocar uma lembrança da graça alcançada; outros já deixavam lá as muletas até então necessárias para poder andar e que depois da graça recebida, sem mais utilidade prática, ficavam ali em uma demonstração de fé; meu pai mandou fazer uma cabeça de cera e voltou a Tambaú e a colocou lá na sala. Comigo foi assim: até os treze anos eu não falava, tinha a língua grossa, dura e presa; aconselhados por uma beata de minha região, fomos a Tambaú e graças a Nossa Senhora de Aparecida e ao Padre, minha língua desenrolou, e saí de lá falando, matracando, feliz. Enquanto eu exercia o dom da fala minha mãe chorava e rezava de felicidade. É muito bom poder falar”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim, é uma dádiva: nos torna mais humanos.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Gosto muito de falar, contar e cantar...está cansado para ouvir?”, perguntou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não, estou desperto. Pode falar, Beato...”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Gastão...Beato Gastão é o meu nome. Nasci pelos lados do vale do Jequitinhonha, norte de Minas, já perto da Bahia.Em casa era meu pai, minha mãe, Dona Terezinha, uma irmã mais velha, muito linda, depois tinha eu e um irmão caçula, o Odilom. O nome de meu pai era Chiquito. Nasci com muitos problemas e dificuldades: além da língua grossa e presa que me impedia de falar e cantar, até a graça alcançada em Tambaú, eu era torto, corpo curvado com os braços pendentes ao lado corpo: “parece um orangotango quando anda, este nosso filho”, dizia meu pai. “Que isso Chiquito, está ofendendo um filho de Deus, Cruz Credo.” Mas, realmente, pela minha sombra percebia que quando andava me assemelhava a um macaco. Também não conseguia segurar o mijo e vivia com as calças molhadas, fedendo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas como te dizia antes, depois da graça recebida pude falar e cantar. Não poder cantar sempre foi um motivo de tristeza para mim enquanto tinha a língua enrolada e dura. Lembro bem de minha mãe cantando para mim enquanto me gestava em sua barriga e também não posso esquecer as tardes que, quando o rádio tinha pilha nova, ouvíamos a Ave Maria do Júlio Louzada: eu me encantava com a música que iniciava e terminava o programa, gostava mais até do que a reza propriamente dita. Mas até o milagre não podia falar e muito menos cantar, embora, internamente, eu cantasse e falasse.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “E você é Beato, desde quando? A partir do milagre que te deu voz?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Não. Resolvi ser Beato desde o dia que pela primeira vez eu vi, quando rezávamos uma novena e molhávamos a cruz pedindo chuva, o Beato Jeremias, que foi ordenado Beato pelo milagroso e santo Beato de Ibiapina, fundador de uma ordem de beatos do sertão. Logo depois de me ouvir cantar na novena pedindo chuva, Beato Jeremias abriu sua &lt;i&gt;Missão Abreviada Para Despertar os Descuidados, Converter os Pecadores e Sustentar o Fructo das Missões&lt;/i&gt; e, solenemente, passou a ler: “&lt;i&gt;ninguém podia aprender esse cântico, a não ser aqueles cento e quarenta e quatro mil que foram resgatados da terra. Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens”Apocalipse, 14.3 &lt;/i&gt;. E assim que terminou a leitura Beato Jeremias disse: Gastão você é um eleito! E naquela tarde, depois de mais de seis meses de seca choveu tanto quanto chove aqui agora. Resolvi seguir Beato Jeremias em sua peregrinação santa: ajudava-o em seus mutirões para construir igrejas nas mais afastadas vilas e nas plantações de roças comunitárias onde a fome destruía vidas e espalhava doenças, matava crianças e velhos.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um clarão acompanhado de forte estrondear de trovão iluminou a barraca, cegando os olhos e encobrindo e calando a voz do Beato Bernardo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Percebi que, quando o Beato voltou a falar, sua voz não era a mesma: demonstrava insegurança, medo. Como sempre tive um medo atávico por raios e trovões entendi, de início, o tom angustiante de voz, denunciando temor do Beato; refeito do susto não conseguia me dar conta do medo do Beato e perguntei:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “A alma carrega os medos para o além?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Sim, carrega.”, respondeu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Só os temores e as dores? Também os amores?”, sem muito pensar, perguntei&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Vamos parar um pouco esta nossa palestra. Estou assustado.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A chuva continuava a cair torrencialmente e, felizmente, a velha Bivac resistia firme e forte, permanecendo seca, sem respingos em seu interior. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dormi novamente.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-725055472771699695?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/725055472771699695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=725055472771699695' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/725055472771699695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/725055472771699695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2011/01/historias-do-beato-gastao-primeira.html' title='HISTÓRIAS DO BEATO GASTÃO: PRIMEIRA HISTÓRIA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TTHcE4zws3I/AAAAAAAAAKA/zyT2xE7miWM/s72-c/2009%20Caminho%20da%20f%C3%A9%20025_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4227848454309587378</id><published>2010-12-12T16:24:00.000-08:00</published><updated>2010-12-17T06:10:29.384-08:00</updated><title type='text'>A pedra do VELHO DEITADO: outra história</title><content type='html'>&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;&lt;a href="http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TQVoSEtrzwI/AAAAAAAAAJw/KG4njwpFmtY/s1600-h/DSC03824%5B2%5D.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT-WIDTH: 0px; DISPLAY: block; FLOAT: none; BORDER-TOP-WIDTH: 0px; BORDER-BOTTOM-WIDTH: 0px; MARGIN-LEFT: auto; BORDER-LEFT-WIDTH: 0px; MARGIN-RIGHT: auto" title="DSC03824" border="0" alt="DSC03824" src="http://lh4.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TQVoTJHSESI/AAAAAAAAAJ0/8loRo4MP_zo/DSC03824_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;“Quero ser feliz&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;Nas ondas do mar&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;Quero esquecer tudo &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;Quero descansar.” &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;i&gt;Manuel Bandeira, Antologia Poética. &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aprendi a gostar da pedra do Velho Deitado. Não me cansa ver a cabeça negra, com seu longo e afilado nariz, ser vagarosamente tragada pelas ondas para, horas depois emergir meio às brancas espumas: tornou-se um amigo que, silenciosamente, ameniza a solidão que a velhice sempre traz consigo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Rodeando a pedra do Velho Deitado pequenas lagoas se formam: são negras em seu piso de pedras e verdes em suas águas límpidas. São nestas lagoas que muitos pescadores caçam não só pequenas iscas para seus anzóis, mas também, com artesanais e pontiagudos arpões, belas lulas e polvos feios com seus olhos enormes e tristes. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Entre os pescadores de perto da pedra do Velho Deitado destaca-se Barsanufo: um negro esbelto em seu corpo de mais de setenta anos, peito e cabeça totalmente cobertos de pichainhos brancos, como se aqui fosse Europa ou Estados Unidos e tivesse caído neve sobre o velho pescador. Mas isso é bobagem: onde já se viu nevar em praia tão quente para esbranquiçar a cabeça do Velho Deitado e a do Barsanufo? Quem cobriu de branco a cabeça do Barsanufo e de verde o peito do Velho Deitado foi o tempo, foi a idade chegando, chegando.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas, voltando ao assunto: Barsanufo é considerado, aqui pelos lados da pedra do Velho Deitado, o melhor e o mais sábio nas artes da pesca, o que conhece a melhor isca para cada tipo de peixe, o melhor horário para pesca de cada espécie, o momento certo da fisgada. Em dias em que a maré baixa é de manhãzinha, coloca-se de pé sobre o peito do Velho Deitado, e com as mãos sobre os olhos, para se proteger do sol, vigia as ondas, olha, reolha e descobre onde os peixes estão. E aí, só, com suas varas e seus anzóis vai à caça.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Gosta de pescar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-"Peixe para levar para casa e comer é o budião branco o que mais gosta. Tem o budião azul, mas este só se pesca em águas profundas." Para Barsanufo, na beira praia, no raso do mar, melhor peixe para se pescar e comer é o budião.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu o conheci quando limpava um budião de quilo e meio que havia acabado de pescar. Ao seu redor, enquanto limpava o budião, fez-se uma rodinha: um cinquentão goiano que passeava na praia, um jovem moreno, todo queimado de sol, com os braços tatuados e eu. Barsanufo concentrado na operação de limpeza do budião não nos via, ou fingia não nos ver: com uma faca afiada raspava as escamas, cortava o peixe pela barriga e retirava suas vísceras. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O goiano teimava em comprar o peixe: queria, por que queria levá-lo para fritar em sua casa, alugada para suas férias beira-mar. A cada investida do goiano, Barsanufo respondia: “é para comer em casa, com a família.”; “você pesca outro e leva para casa, me vende este. Quanto quer?” insistia o goiano, “ é para o almoço, comer coma família.”, encerrou o assunto Barsanufo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando o goiano, mal humorado, desistiu de comprar o budião, o rapaz queimado de sol e eu já pensávamos em seguir nossa caminhada pela praia, Barsanufo disse sério:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Tem gente que come assim. Já eu não. Dos que levo para comer em casa, tiro as baratas do saco das baratas.” E enquanto falava, com sua faca afiada, fez um pequeno furo logo acima do olho do budião, tirou a pele e encontrou uma pequena cavidade – o “saco das baratas” – da qual retirou, com a ponta da faca, pequenas baratinhas do tamanho de um grão de arroz, brancas, leitosas. Umas cinco ou seis: todas vivas, espertas, espremidas como sardinha na lata, no saco das baratas. Repetiu a operação acima do outro olho do budião e mais uma leva de pequenas baratas foram retiradas e jogadas em um pequeno pocinho, perto da cabeça do Velho Deitado. No pocinho as baratinhas nadavam, ágeis, rápidas, parece que felizes, meio a tanto espaço encontrado, apertadas e comprimidas que estavam até então no saco das baratas. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;No mar as baratinhas e no ar certo mal estar; a rodinha se desfez: o goiano, sem nada dizer, saiu; o rapaz moreno, queimado de sol, disse: “e a gente acaba comendo barata e, sem nada saber, acha gostoso.”, e eu a olhar as baratinhas no pequeno poço: buscavam minúsculas locas e lá se enfiavam e sumiam, aparecendo vez ou outra expulsas pelos sirizinhos pretos, donos da loca. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Barsanufo, em um outro dia, me disse: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “ Só os budiões têm o saco das baratas. Tem um tipo de corvina, rara aqui, que tem uma pedra acima dos olhos; dizem os mais velhos que a pedra da cabeça da corvina é um santo remédio para curar dente de crianças e para segurar filho na barriga de mulher que têm dificuldade de sustentar criança no bucho. Agora as baratinhas do saco das baratas do budião é o seguinte: o budião as come no mar e elas vão para o saco das baratas, onde se protegem.” &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu, calado, ouvia Barsanufo, que continuou:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“ Os mais velhos contam a história do negro Rufino, ainda dos tempos da escravidão, que foi quem iniciou e a poucos ensinou o feitiço que sabia fazer com as baratinhas brancas do saco das baratas dos budiões. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quer que te conto? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quer? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Bem, já que quer, e tem tempo para escutar, foi assim:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Rufino era um preto baixo, avesso às lidas do trabalho, viciado em mulher. Gostava do amor e exercia fortes poderes sobre as mulheres que queria possuir e as mulheres, enfeitiçadas, não resistiam à sua magia. Era assim que fazia: ficava vigiando a mulher desejada, observando onde a mesma desaguava. Em antes, nos tempos de Rufino vivo, contam os mais velhos, as mulheres usavam desaguar na praia, deixando sobre a areia branca uma pocinha úmida de mijo. E Rufino fazia então seu trabalho: recolhia a areia úmida de urina, punha em uma latinha com água do mar e lá colocava as baratinhas dos budiões que pescava; as baratinhas se infiltravam, como minhocas, na areia do mijo e faziam a mágica: a mulher, dona do mijo, se apaixonava por Rufino.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Interrompi Barsanufo: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;-“ Sabe que coisa parecida acontecia nos sertões de Minas, só que com formiga cabeçuda, que eram presas em caixas de fósforo com terra úmida de mijo de mulher. Os mais velhos contam que funcionava: era tiro e queda.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Barsanufo continuou: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Pois então, aqui nesta praia, viveu e se enamorou por muitas e muitas mulheres o negro Rufino. Trabalhar não gostava, namorar queria sempre e demais. Esparramou filhos pelo mundo: filhos com negras gordas e novas, filhos com negras magras e mais velhas, filhos com moças virgens até encontrá-lo e com mulheres casadas e, assim Rufino esparramava amor nas mulheres e ódio e vontade de vingança nos maridos traídos e nos pais que tiveram suas filhas descabaçadas e engravidadas por ele. Mas estes nada podiam fazer: Rufino, diziam, tinha acordo com o CAPETA, com o DEMO. Em troca de sua alma a COISA protegia seu corpo de facas, de balas, de punhais e até mesmo de pauladas; assim, Rufino não era, em qualquer luta, jamais ferido e vencido. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E vivia assim: para o amor. Só prejudicava as pessoas quando namorava e possuía mulher dos outros, ou fazia filhos em meninas novas, que tinham que depois de parir sustentá-los, pois amava os filhos mas não os criava. Conta-se que mesmo o xixi de Sinhazinhas brancas, como as baratinhas do saco das baratas do budião, foram, às escondidas, recolhidos e colocados em sua latinha com água do mar junto às mágicas baratinhas. E assim, graças aos encantos de Rufino, da filha mais velha do senhor do engenho nasceram dois meninos mulatos e da filha do administrador da casa da farinha nasceram Jonas e Ernestina, também mulatos. Correu, em seu tempo, o boato de que a repentina viagem para a Europa da filha do Governador foi por motivo de filho de Rufino na barriga e que na Europa, parece que na França, onde tirou o filho do bucho, refez o himem para poder voltar e casar virgem com Espósito, filho do Coronel Moreira Cezar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chegou hora em que Rufino adoeceu, picado pelo barbeiro. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ficou com o coração grande, fraco. Rufino, mal podendo falar, dizia que seu coração tinha ficado grande, aumentado até encher o peito, dificultando a respiração e impedindo de ir à pesca do budião, era inchaço de amor, que não tinha doença ruim mas uma doença boa de se morrer.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E contam os mais velhos que todos - maridos traídos, pais de moças virgens por ele descabaçadas e mães de seus filhos, mulheres negras e gordas com seus seios grandes como um mamão, mulheres negras e magras com seios pequenos como uma doce e saborosa manga, mulheres brancas como as baratinhas do saco do budião, todas as mães de seus filhos – enfim todas as almas vivas desta praia e das de perto, compareceram e respeitosamente prestaram homenagem, cobrindo de flores e velas o corpo morto Rufino enrolado em branco lençol de algodão. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E foi aqui, nesta praia, em um silêncio em que se ouvia até o murmúrio das menores ondas roçando as pedras e a areia, que, atendendo ao seu último pedido, foi enterrado, junto às baratinhas do saco do budião. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Seu corpo virou esta pedra do Velho Deitado que é o negro Rufino”.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4227848454309587378?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4227848454309587378/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4227848454309587378' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4227848454309587378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4227848454309587378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/12/pedra-do-velho-deitado-outra-historia.html' title='A pedra do VELHO DEITADO: outra história'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh4.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TQVoTJHSESI/AAAAAAAAAJ0/8loRo4MP_zo/s72-c/DSC03824_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-8460535526547128178</id><published>2010-12-02T04:12:00.001-08:00</published><updated>2010-12-02T08:20:50.060-08:00</updated><title type='text'>A pedra do VELHO DEITADO: uma história.</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TPeNGSIs-YI/AAAAAAAAAJo/7tYDqLDKhZc/s1600-h/DSC03823%5B2%5D.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" title="DSC03823" border="0" alt="DSC03823" src="http://lh6.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TPeNHYj1jxI/AAAAAAAAAJs/o9cFNE2EfTQ/DSC03823_thumb.jpg?imgmax=800" width="244" height="184" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;“... Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão.” Dizeres proféticos escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos - "in"  Euclides da Cunha, Os Sertões.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Impressiona a incrível semelhança da pedra negra, à beira da praia, com um homem deitado, em repouso; quanto mais se olha mais se vê o nariz pontiagudo, a boca, o tórax saliente, o umbigo e o braço estendido ao longo do corpo. Sua cabeça apóia-se em outra pedra, como em um travesseiro: dorme. As algas cobriram o peito de verde, trocando os pelos brancos da velhice pelo verde da eternidade. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando a maré-baixa chega a 0.1 fica todo mais visível, oferecendo uma visão perfeita, linda. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Me encantam as pedras negras da praia. Na infância via formas nas nuvens e lhes dava nomes: uma nuvenzinha era a vaca Surpresa, outra a égua Queimada, outras horas, mais de tarde, ao escurecer, via o Saci, a Mula Sem Cabeça e tinha medo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora na velhice me fascinam as pedras da praia que em sua negritude, dureza e perenidade não mudam de forma como as nuvens, mas vestem-se e despem-se com a água salgada e rendada de espumas; a maré, ao subir, as encobrem lentamente, até desaparecerem e, também lentamente, com a baixa da maré, surgirem como que para se aquecer ao sol e tornarem-se referência e ponto de encontro dos namorados e amantes do mar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A história da pedra do Velho Deitado é a que vou contar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quem a contou para mim foi Evilásio, que ouviu de seu pai, que ouviu de seu avô, de nome João Cocobobó:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Esta pedra é o meu avô. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi aqui que ele morreu, quietamente na água, protegido por uma baleia, que é esta outra pedra: é só prestar atenção para ver como ela cerca meu avô com seu corpo enorme, defendendo-o.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A história é verdadeira e dá para provar. Meu avô, que como já disse tinha por nome João do Cocobobó, seguiu seu pai para junto de Antônio Conselheiro, na vila de Canudos. Sua mãe havia morrido e ele se acostumado a viver, em um silêncio mudo, com o pai. Na vila de Canudos foi batizado por Antônio Beato que, em Canudos, como contou meu avô, era de tudo: sacristão, dizia a missa e tinha o privilégio de, junto com as beatas de azul, tomar refeições e orar junto com o Conselheiro. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu avô ganhou fama por tanto saber caçar: tatus, calangos, seriemas e peixes no Vaza-barris; também por isso ganhou clavinote e a confiança de Joaquim Tranca-pés para fazer trabalhos de vigilância e espiar as forças do mal que ameaçavam Canudos. Meu avô tinha, então, seus quatorze ou quinze anos: era muito pequeno, magro, quieto, sem nenhum pelo no rosto: parecia uma criança velha. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com o cerco a Canudos, pelas tropas do mal, meu avô sabia dos perigos que corria e conhecia a morte: um seu amigo, também treinado para espiar, havia sido pego pelas forças do mal e ao ser assassinado com uma faca berrou: “Viva o Bom Jesus”; e posso afirmar, pois foi meu pai quem me disse, que este episódio está mais que provado, até escrito em livro que se lê nas escolas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando o Conselheiro morreu quem a todos avisou foi Antônio Beato. Naquela noite meu avô foi destacado para ir até a estrada do Cambaio vigiar e contar o número de inimigos que chegavam e chegavam. O sino havia sido derrubado por balas de canhão e dias depois as torres da igreja forram ao chão. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Canudos foi invadida, destruída.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu avô, devido ao seu pequeno tamanho, apesar da idade de mocinho, ficou junto às mulheres, crianças e velhos. Seu pai tinha sido morto com um tiro no peito quando montava guarda em uma tocaia na estrada de Uauá. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu avô foi passado em revista, junto às mulheres e os velhos, mas nada foi encontrado: esperto e desconfiado, havia deixado sua garrucha, balas e uma peixeira escondidas em uma tocaia no alto da Favela. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Á noite meu avô fugiu. Conhecia a palmo toda a região. Durante uma semana, com as tropas do mal por perto, enfiou-se em uma caverna na serra do Cambaio e ali ficou dia e noite: de barulho se ouvia apenas seu respirar, às vezes o canto agudo das seriemas ou de um solitário trinca-ferro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aproveitou a chegada da lua quarto - crescente para começar sua viagem. Para onde? Ninguém sabia, nem Deus. Caminhava à noite: evitava assim, usando deste expediente, tanto as forças do mal que andavam pela região à caça de fugitivos de Canudos, como o sol ardente, que a tudo queimava. De comer? Bem, meu avô dizia que comia calangos, frutas de umbu e coquinhos de dendê. De beber? Água, quando achava, muitas vezes salobra, porque a sede é forte e não oferece escolha a quem a tem. Peregrinou sem rumo, guiado nos primeiros dez dias pelas estrelas e depois, quando se achou fora do perigo das tropas do mal, guiou-se pelo sol. Caminhou rumo ao Leste, sem saber o por que: puro instinto, “guiado por Deus”, disse meu avô a meu pai. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E viu, pela primeira vez, o mar. Encantou-se de imediato: maravilhou-se com sua grandeza, com suas cores que iam do verde claro ao azul escuro do céu, com as ondas que iam e vinham, batendo nas pedras incessantemente, sem se cansar, deixando, na areia, espumas que se assemelhavam às rendas de papel que as beatas faziam para enfeitar a igreja de Canudos em dias de prédicas do Conselheiro. Tudo lindo demais e, no ar, o cheiro o cheiro de sal que lembrava boas comidas e muita fartura!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chegou à praia de tardezinha, viu tudo isso e buscou lugar para se esconder. Chegou a uma clareira ao meio de uma floresta de dendezeiros e, cansado, se ajeitou para dormir. Tirou da cintura a garrucha e dormiu com a peixeira atada, pelo cabo, com cipó, em uma das mãos, melhor dizendo, atada à sua mão esquerda: era canhoto. Acordou, com a lua ainda baixa, prenunciando início de noite, com barulhos e vozes na clareira. Nem abriu os olhos e se viu agarrado, preso por dois homens negros, altos, fortes: o maior pegou-o pelas costas, ergueu-o do chão; meu avô, suspenso no ar esperneava, gritava, dizia palavrões e pedia socorro a Deus, ao Antônio Beato e ao falecido Conselheiro. Berrou: “Me largue seu corno filho da puta, desgraçado do diabo” e a resposta veio logo: o negro forte, que o carregava pelas costas como se peso não tivesse, lhe deu um tapão no ouvido e ordenou que parasse de berrar como “um cabrito de merda”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ficou tonto e, ainda zonzo, foi atirado no centro da clareira da floresta de dendezeiros. Lá no centro da clareira se encontravam mais homens negros, reunidos em volta de uma mulher forte, gorda, toda de branco e de uma linda moça, também de branco. Flores e velas acesas enfeitavam uma colorida imagem. O negro forte que o carregara e lhe dera um tapão no ouvido disse ao grupo ali reunido, mas com o olhar na negra gorda:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Achamos este cabrito entocaiado na moita de dendê, mãe Onice”, sossegou por um pouco a fala e acrescentou: “só pode ser espía dos brancos.”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Assente ele aí. Perigo nenhum: é uma pobre alminha perdida nos tempos, carece ter medo não.”, disse, com autoridade, a gorda Onice.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, meu avô, acostumado às rezas e prédicas do Conselheiro e do Antônio Beato, na igreja dos Canudos, viu, sob o céu aberto, estrelado – sentindo-se protegido pela mãe Onice – uma nova liturgia, conduzida pela negra gorda, cujo corpo se agitava, e da garganta emitia estranhas palavras: “Tar tá ta ta... rrries, mozzz” enquanto virava e revirava os olhos. Mãe Onice perdia a serenidade bondosa da gorda face, trêmula, em transe: “ Se assentem todos... é chegada a hora... Zurrr... Ta trá to.. Rrrém, amém!”. E guiados por ela, rendiam, todos, graças a Oxossi, rei das matas, caçador imbatível.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois da cerimônia Mãe Onice levou meu avô com ela. Deu-lhe o que comer, para beber deu água limpa e clara e mostrou o paiol que tinha no fundo da casa, onde passou a dormir. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desacostumado de família, de calor e carinho materno, meu avô era uma felicidade só; cedo se esqueceu de Canudos e de suas misérias. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para não depender totalmente de mãe Onice ganhava sustento aprendendo ofício e ajudando na casa de farinha. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A barba teimava em não cobrir a cara e o corpo em fingir que era menino. Mas os pentelhos ralos foram surgindo, cobrindo a região do púbis e estranhos, indecifráveis e incontroláveis desejos anunciavam a meu avô sua mocidade. Mãe Onice, em um domingo, mandou matar uma galinha, limpou-a das penas em água fervente e depois com uma faca afiada cortou a borda superior do curranchinho, logo acima da cloaca da galinha, e deu ao meu avô: “Passe este sebo no bigode e na cara. Faz nascer e crescer barba para ficar com cara de homem.” Meu avô obedeceu. Como também comia carne de baleia, quando menos se viu, estava com o rosto pedindo navalha e o corpo crescendo a cada dia. Sonhava à noite que estava caindo do pé de coco e mãe Onice dizia: “ é porque você está crescendo; cada pulo deste na cama é um dedo a mais em seu tamanho”. Também sonhava com Dasdores, filha de seu Pitu, e acordava com a roupa suja e as pernas melando com grossa e malcheirosa baba.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saiu da casa de farinha para trabalhar na queima do óleo de baleias: homem forte carregava os tachos quentes e respirava o mau cheiro da fábrica. E foi ajudando Zacarias no transporte do óleo da fábrica para as barcaças que se imaginou no mar caçando baleia. E assim se tornou ajudante de barco e depois mestre. Caçava baleias.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Casou com minha avó Rufina Dasdores. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Às tardezinhas, segurando a mão com minha vó e acompanhado dos filhos que chegavam, ia ver o mar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era diferente aquele mar que via ao entardecer - com as pessoas que amava - do mar que enfrentava durante o dia caçando baleias. Gostava mais deste mar, perto da areia branca, com peixinhos pequenos mordiscando o calcanhar das crianças que brincavam de nadar nos pocinhos, meio às pedras. De verdade, pensou meu avô, gostava de todo o mar: o que não gostava e o que o entristecia no mar de seu trabalho de mestre de barco baleeiro era a matança dos bichos: enjoou de ver o sangue das baleias mortas tingir de vermelho o azul da água do mar, enodoar as suas águas e suas carnes apodrecendo – fedidas – encher a praia de urubus famintos que pulavam e brigavam entre si e afugentavam os gaviões carcarás que vinham a busca de comida. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Certa feita, em alto mar, viu o que não podia: no horizonte uma enorme baleia mãe, que amamentava a filha; para lá teve, contrariado, que levar o barco e ver a baleia ser arpoada e ao receber na carne - no lombo, perto da cabeça - o enorme arpão, desesperada, chorar o canto triste de dor pela certeza da morte e da saudade que a morte lhe traria da filha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ajudou a descarnar a baleia, jogar os miúdos na praia: desta vez, sentiu enorme enjôo que o fez vomitar até as tripas chegarem à boca. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Triste recusou os pedidos da mulher e dos filhos para o rotineiro passeio à praia. Aquela tarde não queria companhia, precisava de solidão para se entender no mundo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E foi só para a praia. No sagrado local em que ficava com a família a baleia filha chorava com seu canto desafinado e triste de saudades e de medo da solidão no gigante mar. E meu avô contou para meu pai: foi a primeira vez que chorou depois de homem feito. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Feriu propositadamente, com uma faca, o braço esquerdo, e foi, por isso, impedido de conduzir o leme do enorme barco baleeiro. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mãe Onice faleceu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu avô voltou a trabalhar na casa de farinha. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Seus filhos cresceram e nenhum foi autorizado a trabalhar com barco de caçar baleias. Dasdores morreu. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Me avô sabia, porque mãe Onice havia lhe contado dos perigos de se comer a delicada carne do baiacu. As peixadas de baiacu, muitas vezes, resultam na morte de todos os que saboreiam a nobre carne. “O perigo da morte é porque não tiram a pele, não limpam o peixe direito, mãe Onice?”, perguntou meu avô, enquanto ajudava mãe Onice preparar uma dúzia de baiacus que seriam servidos após uma cerimônia religiosa. “Nada disso: depende de quem faz. Se quem prepara pensa e quer a morte, o baiacu é um veneno só. Sua mãe Onice, não: gosta da vida e já preparou centenas de peixadas, todas elogiadas pelo seu sabor, e graças a Deus e a meu pai Xangô, em minhas peixadas de baiacu nunca houve morte, só vida, amor, meu filho.”, respondeu sorridente mãe Onice. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu avô se lembrou daquilo e resolveu. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não foi trabalhar na casa de farinha e partiu com o barco pesqueiro de manhã: pescou cinco ou seis baiacus. Quis apenas um: os outros ofereceu à tripulação do pesqueiro, grato pela generosidade do passeio e da pesca. Recomendou que bebessem pinga na hora de preparar, que cantassem alegres músicas, pois assim, a carne do baiacu lhes traria felicidade, fartura na mesa e bons amores na cama.. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi para seu canto preparar o baiacu; preparou a carne do baiacu no dendê e no leite de coco, como havia aprendido com mãe Onice; enquanto assistia a fervura da carne branca do peixe no dendê e no coco, pensava na morte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sozinho, à tarde, como sempre, vinha rezar aqui nesta praia. Era seu costume: já cansado e velho, sentava uma pedra a beira mar, rezava e esperava a maré subir até a água molhar seus pés. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Naquela tarde, enquanto tinha os pés salgados pela água do mar, enfeitados com pequenas espumas trazidas pelas ondas, meu avô comeu o baiacu que havia pescado e preparado. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era uma tarde de março – época de marés bravias – e uma onda o levou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Manhã seguinte, maré baixa, meio às pedras surge seu corpo que descansava deitado ao lado dos ossos da baleizinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O tempo passou e seu corpo virou esta pedra, que é meu avô.”&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-8460535526547128178?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/8460535526547128178/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=8460535526547128178' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8460535526547128178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8460535526547128178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/12/pedra-do-velho-deitado-uma-historia.html' title='A pedra do VELHO DEITADO: uma história.'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TPeNHYj1jxI/AAAAAAAAAJs/o9cFNE2EfTQ/s72-c/DSC03823_thumb.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4193064961192803082</id><published>2010-11-21T08:50:00.001-08:00</published><updated>2010-11-22T01:03:16.543-08:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, Nada Consta. Final: O DOPS.</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://lh4.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TOlN6pAUujI/AAAAAAAAAJg/wgnkoqUCe0c/s1600-h/DSC03813%5B3%5D.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; DISPLAY: inline; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" title="DSC03813" border="0" alt="DSC03813" src="http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TOlN7HNLTWI/AAAAAAAAAJk/-3NeYjNnrBU/DSC03813_thumb%5B1%5D.jpg?imgmax=800" width="331" height="249" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;A reunião dos contadores de história estava se encerrando. Uma senhora de cabelos grisalhos, com um papelzinho na mão, acompanhou o contador da última história ao centro da arena e, antes dele iniciar sua história, tomou a palavra e disse:&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;- “Contadores de histórias: estamos nos finalmentes deste encontro. O nosso adeus - ou até breve – fica por conta do que vou ler, copiado do livro “Viver para contar” de Gabriel Garcia Marques: &lt;strong&gt;“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;E a que seria a última história do encontro teve seu início:&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“No bilhete, junto com o dinheiro da compra do quadro, escrito com letras de quem fez curso de caligrafia, elegantemente tombadas à direita, vinha o endereço: Edifício Copan, Rua...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E lá fui eu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei se já ocorreu com algum de vocês o que aconteceu comigo. Pois então: do estacionamento, onde deixei o carro e meus quadros, até o Copan, para onde, esperançoso me dirigi, tem por volta de um quilômetro, pouco menos, pouco mais e eu, posso garantir, nada vi, nada ouvi, nada senti em todo o percurso. Quando dei por mim estava tocando a campainha do apartamento 1360. Ocorrência inédita e explico o porquê: tenho o hábito, atávico, de frente a qualquer percurso me por a pensar, a refletir e a calcular, em uma tola tentativa de prever o que poderá ocorrer aos finais destes pequenos destinos. E sempre foi assim. Me lembro - e não lembro-me, como teima em corrigir este desobediente micro - que quando ainda no Ginásio, onde, por causa de meu diminuto tamanho, sentava na primeira fileira, o que significa que de minha carteira até a mesa da professora era coisa de uns três ou quatro passos, e, mesmo assim, ao ser sorteado para a chamada oral, o percurso naquele ínfimo espaço que separava minha carteira da mesa da professora se alongava a ponto de se a chamada fosse de latim eu recordar a primeira declinação: nominativo -a, genitivo - ae, dativo - ae, acusativo -an, vocativo - a e ablativo - a; ou mesmo os difíceis: hic, haec, hoc; já quando a chamada oral era feita pela lindíssima professora de Geografia, esquecia sua beleza morena e tinha tempo para relembrar, naquele pequeno percurso, os afluentes do lado esquerdo do rio Amazonas. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas, para não encompridar demais esta história: cheguei sem saber como, sem nada pensar ao apartamento do pai de Hamilton, amigo do Pedro Paulo; lembro ainda hoje do apartamento: grande, ventilado, limpo, mobiliado com móveis claros e com as coisas em seus devidos lugares; nas paredes belos quadros pintados a óleo e suaves marinhas de aquarela. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estava ansioso e tenso. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Optei, educadamente, por um guaraná ao invés da cerveja oferecida; não queria beber: precisava da consciência clara, arguta, e tinha claro que um copo de cerveja sempre me levava a outro, e a outro e a outro até a língua crescer dentro da boca, aumentando a dificuldade de falar e entender com clareza, e a liberação, ao extremo, da libido. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Quando posso ver Pedro?”, perguntei de imediato.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Penso que esta semana, mas antes, por favor, tenha paciência: temos muito o que conversar. Meu nome é Danilo e posso saber o seu? Havia entendido pelo Hamilton e pelo Pedro que seu nome era Romeu, mas não bate com a assinatura do quadro. Qual é o seu nome?”, perguntou o Sr. Danilo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Me chamo Romeu mesmo, nos quadros assino meu sobrenome: Rios.”, respondi com má vontade. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E o Sr. Danilo, calmo e simpático, colocou seu copo de cerveja sobre uma pequena mesa e enquanto bebericava:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Desculpe-me, é que são tantos os nomes e cognomes dos amigos de meu filho que às vezes me perco. Mas Romeu é o seguinte: Pedro Paulo é contra sua visita ao DOPS e vou tentar explicar seus motivos: ele teme, e tem lá suas razões, que sua visita seja interpretada pela polícia política com sua adesão à causa que o levou à prisão e, ainda, segundo ele, causa à qual você se mostra indiferente; assim, segundo seu raciocínio você poderá, ao visitá-lo, se comprometer, sofrer perseguição, ser preso, torturado, o que, para ele não seria ainda mais injusto do que o fato porá si só injusto. Por outro lado caso a visita seja encarada pelo pessoal do DOPS como afetiva, caso você insista, o preconceito quanto à relação afetiva ente dois homens poderá deixar Pedro Paulo em uma situação pior da qual já se encontra: à atual tortura física será acrescida a tortura moral e é por que Pedro acha que você não deve ir visitá-lo. Está me entendendo?”, perguntou Sr. Danilo ao ver minha expressão de incredulidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Quando posso ir visitá-lo?”, perguntei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na quarta-feira seguinte, por volta do meio dia, me encontrei com o Sr. Danilo na Rodoviária. Ele se vestia de modo informal e elegante; eu mudei radicalmente minha maneira de vestir: deixei no armário minhas roupas extravagantemente coloridas que foram trocadas por calças jeans velha e surrada, camiseta branca da Hering e sandálias da Bierkestoken; enfim, nada a ver comigo aquelas roupas que, penso, me deixavam tristes, um pouco amargo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Nada de toques e emoções!”, repetiu, em voz baixa, com as palavras sibiladas entre os dentes, o Sr.Danilo quando adentramos ao DOPS. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pedro Paulo estava magro, branquíssimo, barba mal aparada, e na face uma expressão de dor profunda; ao meu abraço respondeu, sem conseguir se conter, com um forte gemido de dor: tinha suas costelas quebradas. Seus lábios estavam inchados, havia escoriações em sua face e dois dentes haviam sido quebrados pelas mãos fortes e pelo soco inglês de um dos inquisidores. Eu havia levado uma boa quantia de sementes de abóbora torradas, pois sabia que o trabalho de retirar suas sementes com os dentes era calmante, fazia o tempo passar, o pensamento voar, fazendo bem a quem estava preso. Me senti culpado por não ter previsto a impossibilidade do meu tão querido Pedro Paulo não poder usar desta terapia: sua boca estava ferida, maltratada. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mesmo assim nosso encontro foi comovente: estava vivo e, como sempre, esperançoso; contou-me que se sentia fortalecido em relação ao que acreditava ser sua missão, que o medo havia passado e que havia aprendido a suportar, com dignidade, as torturas. “Você se lembra que vimos “O caso dos Irmãos Naves,” no Belas Artes? Meio parecido.” disse tentando me confortar, creio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Apertei suavemente sua mão na despedida e prometi voltar tão logo fosse possível. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- “Visita encerrada.”, assim aos berros, fomos convidados, o Sr. Danilo e eu, a nos retirar. Saímos juntos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sr. Danilo, bondoso, convidou-me para um guaraná no bar da Rodoviária; e lá, antes do guaraná oferecido fui ao banheiro público chorar: e chorei, chorei e chorei, e aquele choro convulsivo, sentado em uma privada de banheiro público, escondido não sei de quem, e, talvez, de mim, colocou minha alma para fora. Me senti vazio, inútil e com uma única certeza: viver não valia a pena. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sr. Danilo me esperava no bar. Já havia pedido sua cerveja e no balcão um guaraná me esperava. Tomei todo o guaraná em um gole, pedi uma cerveja, depois outra, depois outra, e outra até sentir que a língua enchia minha boca, com as salivas grossas e amargas impedindo-me de falar fluente e corretamente. E, assim, bêbado, apoiado pelo Sr. Danilo, tomei um táxi e fui para casa e lá, livre, continuei a chorar e a chorar e a achar, mesmo, que viver não valia a pena.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Minha habilidade em desenhar com as duas mãos ao mesmo tempo, esquerda e direita, era motivo de admiração mesmo entre os talentosos alunos da Escola de Belas Artes. Explicando melhor: eu podia, ao desenhar um rosto, por exemplo, iniciar pelo pescoço e enquanto a mão esquerda traçava o lado esquerdo do rosto a mão direita, simultaneamente, desenhava o lado direito; e assim, fazia o mesmo com os olhos, nariz... Fazia sucesso com esta brincadeira que era feita tanto na lousa, com giz, como também usando os antigos e hoje em desuso pincéis atômicos, com os quais, nas grandes folhas coladas nos cavaletes do álbum seriado, desenhava rosto dos professores, caricaturas de políticos, de colegas, de jogadores de futebol.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sabia também que a mais fácil maneira de falsificar uma assinatura era iniciar sua cópia pelo fim. Resumindo: unindo meu talento em desenhar com ambas as mãos e falsificar à confiança que Pedro Paulo e seus companheiros depositaram em mim, passei a ocupar parte do meu tempo em um trabalho de falsificação de passaportes, carteiras de identidade e outros documentos para militantes políticos. Embora, principalmente no início, Pedro Paulo, por motivos ideológicos, fosse contrário a minha participação neste trabalho, reconheço hoje, que graças a este meu talento ajudei muitos de seus amigos, e, também de desconhecidos, ligados ao grupo, que precisavam de documentos especiais para sair do país, ou para, mesmo aqui no Brasil, viver na clandestinidade. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para realizar estes trabalhos eu era sempre apoiado por Francano: um jovem “arte finalista” extremamente habilidoso. Francano usava muletas, tinha a perna esquerda infinitamente menor que a direita, fumava de dois a três maços de Continental por dia, usava uma barba rala e bigodes ainda mais ralos; ele mesmo dizia que tinha um time de futebol de cada lado - referindo-se aos “vinte e dois” fios de bigodes que teimavam em deixar a desnudo a parte superior de sua boca suave, sempre pronta ao sorriso franco, mostrando dentes claros, perfeitos. Francano, que falava o tempo todo, me introduziu no vocabulário do grupo ao qual pertencia e admirava; suas conversas me faziam lembrar as reuniões de Pedro Paulo e seus amigos em nosso apartamento: eram conversas recheadas de “campesinato, burguesia nacional, guerrilha urbana, reeducação, luta armada, lumpemproletariado...”. Tornei-me seu amigo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em um sábado chegou um novo passaporte sobre o qual eu deveria trabalhar. Meu trabalho consistia, entre outras coisas, em falsificar as assinaturas das autoridades e “copiar” a assinatura de quem seria beneficiado pelo novo documento. Em minha última visita ao DOPS percebi que Pedro Paulo estava barbeado e com os seus longos cabelos cortados. Estranhei e ele, percebendo, me disse: “logo me verá assim”; não entendi, mas em ambiente tão impróprio para perguntas achei por bem dar o não entendido por entendido. Agora estava claro: o passaporte a ser produzido em nome de Sérgio Manreza seria para Pedro Paulo utilizar; ele estava ali, na foto, sem barba, cabelos cortados rente; também reconheci sua letra na assinatura que deveria usar e eu deveria falsificar. Dedução: provavelmente Pedro estaria para ser libertado e quando isto ocorresse iria para outro país ou viver na clandestinidade com outro nome. O fato de estar falsificando o passaporte, e não a carteira de identidade, indicava fuga para outro país. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei comovido: falsificar o passaporte da pessoa querida foi um ato de extrema gentileza da direção do grupo, que desconsiderou as severas e minuciosas normas de segurança, sempre sugeridas e, por todos, obedientemente acatadas; para mim, tal ato, foi de uma generosidade e solidariedade ímpar, demonstrada por pessoas que corriam permanente risco de vida em função do que acreditavam, mas que, em atos como este, apontavam a riqueza humana e os valores que regiam suas vidas e, principalmente, uma prova de extrema confiança a um alheio às suas causas. A falsificação do passaporte de Pedro, significou no momento e significa até hoje coerência com valores universais e até hoje me comove e ao qual me sinto grato.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fui instruído, pelo Sr. Danilo, a solicitar visita ao DOPS apenas quando ele voltasse a me falar. Dois meses se passaram sem visitas a Pedro Paulo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em uma manhã de domingo, recebi, na feira da Praça da República, a visita do Sr. Danilo. Discretamente olhou meus quadros, apontou um e disse: “Quero este. Pode embrulhá-lo para mim?”. Não tive dúvidas: iniciei, rapidamente, o trabalho de acondicionamento do quadro enquanto o Sr. Danilo retirava do bolso um pacotinho de notas presas por um “clipes”. Não aceitou a oferta de gratuidade: “Posso pagar e, ademais, junto ao dinheiro você terá boas surpresas, penso que até melhores que o dinheiro”, disse enquanto saia. Não houve, desta vez, recomendação para que eu aguardasse tempo algum para “contar” o dinheiro. Peguei o bolinho de notas e junto a elas, preso pelo clipes, o envelope que eu havia perdido no banheiro do cinema da Rua Aurora um com um endereço anotado no verso. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Havia combinado de almoçar com o Francano e soube por ele que Pedro Paulo e seu amigo Hamilton haviam sido libertados, graças, principalmente, aos esforços desenvolvidos pelo arcebispo de São Paulo e que, fugitivos, estavam na Argélia. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Entendi, então, o estranho endereço escrito com a elegante letra do Sr. Danilo. Era o endereço de Pedro Paulo na Argélia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nunca, até então, havia feito uma viagem internacional e meu projeto, quando pensava nessa possibilidade, era sempre a Holanda. Sonhava, quando pensava ou falava no assunto, em conhecer a Holanda, suas tulipas, seus moinhos e sua Amsterdã tão liberal. Nestes devaneios sempre comprava passagens, de primeira classe, pela Air France, na viagem comeria salmão e beberia champagne.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em novembro, em uma quinta feira depois do feriado de quinze de novembro, entreguei o último painel para a companhia de aviação. Logo na segunda feira seguinte deixei meu carro no mesmo estacionamento que o deixo para expor meus quadros na feira da República e de lá fui até o Copan. Revi o prédio e tomei um café no Floresta. De lá fui até a loja da Air France, na São Luiz, de onde saí com minha primeira passagem internacional: São Paulo/Paris/Argel: classe econômica.”&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4193064961192803082?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4193064961192803082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4193064961192803082' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4193064961192803082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4193064961192803082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/11/agape-ou-historia-das-historias-1968.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, Nada Consta. Final: O DOPS.'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/_u90WwMnTNpY/TOlN7HNLTWI/AAAAAAAAAJk/-3NeYjNnrBU/s72-c/DSC03813_thumb%5B1%5D.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4256142169625767460</id><published>2010-08-10T10:41:00.000-07:00</published><updated>2010-08-10T10:54:02.246-07:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, nada consta. Primeira parte: O cine Aurora</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TGGRFfxMV4I/AAAAAAAAAIo/KgWLgOociL4/s1600/2009guaraque%C3%A7aba+035.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TGGRFfxMV4I/AAAAAAAAAIo/KgWLgOociL4/s320/2009guaraque%C3%A7aba+035.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503839743236659074" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Nem bem a mulher terminou a história de Angelina, veio ao palco um homem claro, cabelos crespos compridos, já grisalhos. Tinha lá seus um metro e setenta , ou um pouco menos, ficando mais para gordo do que para magro, vestido com roupas compradas, que até destoavam um pouco da simplicidade dos outros contadores: com isso tinha mais aquela cara e jeito de quem nasceu e se acostumou em cidade grande, pouco sol no rosto, conhecedor de livros, de cinemas...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Quieto em sua timidez pediu licença para contar sua história:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;“Parece mentira: quase cinqüenta anos já se foram!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Foi por volta de 1964 que saí do interior para ganhar a vida aqui na capital. O grande sonho, que era viver de meus desenhos, ainda não se concretizava e a vida era, até então, sustentada por um emprego de Auxiliar de Departamento Pessoal em uma empresa “para-estatal”, no dizer do companheiro de tantos anos, o tão querido Pedro Paulo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;O trabalho no escritório fechado, datilografando fichas de admissão, era entediante e, desta forma, a ordem para que fosse eu o encarregado de ir ao DOPS buscar informações de candidatos a emprego foi, por incrível que possa parecer, recebida com radiante entusiasmo. Quando terminava o serviço no DOPS - ou mesmo antes de lá chegar - passava por um cinema da Rua Aurora, destes que funcionam das nove da manhã à meia noite, onde assistia filmes pornográficos, me masturbava ou encontrava parceiros para pequenas orgias sexuais.&lt;span style=""&gt;    &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;O trabalho no DOPS era simples: entregava, em um guichê próprio, a ficha com o nome do candidato a emprego e, depois, era só aguardar: quando a mesma era borrada com um carimbo ”nada consta” o processo seletivo continuava; quando não era o carimbo “nada consta” a espera era sempre mais longa, mais demorada, e o espaço reservado da ficha era preenchido com uma Remington velha: “integrante do mr8, detido quando participava da greve dos ...” ou outros que tais; quando isso ocorria o processo seletivo era imediatamente encerrado para o candidato a emprego em nossa empresa e, como mais tarde Pedro Paulo me contou, em todas as outras empresas “para-estatais”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Naquela tarde de setembro, na ficha de candidato a emprego que levava ao DOPS constava o nome de Pedro Paulo Damascena. Passei frente ao cine Aurora, pensei em entrar, mas o movimento estava fraco; resolvi primeiro ir ao DOPS cumprir minha obrigação: “primeiro a obrigação, depois a devoção” diria meu pai, a quem àquela hora, achei por bem obedecer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Saí do DOPS com o envelope no bolso e fui direto para o cinema; a demora na devolução denunciava alguma coisa além do simples “nada consta”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;O curso de Belas Artes, que até então não me ajudava em nada para ganhar a vida, tinha suas utilidades: desenvolvi uma incrível competência em desenvolver colagens, manipulando fotografias ou gravuras, assim como abrir envelopes e os fechar sem deixar suspeita, e, com isso, alimentar perversas curiosidades. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E foi assim, naquela tarde de setembro, no banheiro do cine Aurora, que cuidadosamente abri o envelope para ler o “verdictum” com o qual o DOPS havia presenteado o Pedro Paulo. Nenhuma surpresa. Como havia previsto, baseado na demora da devolução, a velha Remington havia funcionado: “tem amigos e mantém contato com agentes comprometidos com a guerrilha urbana, foi presidente de Centro Acadêmico que liderou atividades de esquerda na Universidade e participa, regularmente, de reuniões do PC; há fortes suspeitas de liderar o grupo responsável pela impressão e distribuição de folhetos subversivos para sindicatos do ABC.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Pensei na hora: “Pedro Paulo, se depender deste emprego, está ferrado”; o que era uma pena para moço tão bonito: alto, loiro, cabelos encaracolados, sorriso fácil e sensual escondido no meio do bigode e das barbas ruivas, dentes brancos e um enorme&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;jeitão de bom rapaz. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Pena mesmo: “bem que poderia vir para o departamento de pessoal, trabalhar em treinamento, muito lindo” e assim pensando saí do banheiro para os escurinhos do cinema à procura de alguém disponível. Em um cinema com tanta gente “entendida” era fácil: todos atrás de sexo, quando na verdade, talvez, estivéssemos à procura de afeto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Mas... Mãos à obra: todas estas teorias e falações bonitas eu aprendi depois com o Pedro Paulo; naquele dia e naquela hora o que eu queria era achar e agarrar um homem, o que não foi difícil. E, em um banheiro sujo e escuro do Aurora, mais uma sessão de sexo aconteceu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Com dor na consciência pelo pecado cometido, saí do cinema decidido a me confessar no próximo domingo, antes da missa das nove. A atividade sexual em local tão impróprio do ponto de vista da comodidade, me deixava, sempre, extenuado. Entrei em um bar para um guaraná refrescante; ao gelo do guaraná que, gostosamente, refrescava minha garganta um outro se esparramou por todo &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;o corpo: o envelope que levara ao DOPS não estava em meu bolso. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Deixei o restante do guaraná no copo, corri de volta ao cinema, comprei ingresso e fui ao banheiro que havia freqüentado há pouco: nada! Suava frio e me pus a rezar quando fui abordado por um senhor já idoso que me ofereceu dinheiro para um programa, mas percebendo meu estado, desistiu. Procurei pelo lanterninha e com sua ajuda &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;buscamos o envelope entre as fileiras de assentos, no banheiro, nos corredores e não encontramos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Talvez de madrugada na hora da faxina, o Senhor Alfredo encontre seu envelope. Pode deixar que eu falo com ele.”, disse, prestativamente o lanterninha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Implorei:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Se ele encontrar, peça, por favor, para não abrir, é sigiloso; dou uma boa gorjeta se me devolverem”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Saí do cinema sob o olhar lascivo do idoso senhor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Agora era só rezar... Fui para a Igreja da Sé e, antecipando a necessidade de confissão, contei os pecados cometidos, mas omiti a história do envelope – afinal aquilo não era pecado - e obtive o perdão; com a alma mais leve fui para casa, um quartinho de pensão no Bexiga, e, para desanuviar ainda mais a alma me pus a pintar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Dia seguinte cheguei cedo ao trabalho. Retirei, furtivamente, da pasta de um empregado, ex-padre, seu atestado com um “Nada Consta”, pedi autorização ao chefe para realizar serviços externos e saí à busca de uma empresa de serviços de cópias, onde pedi quatro fotocópias do documento. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;De lá, com um fiozinho de esperança, corri até o Cine Aurora. E sobre aquele derradeiro fio de esperança, o bilheteiro jogou um balde de água fria: o envelope não havia sido encontrado. O senhor idoso estava por lá, procurou prosa, mas eu, movido pela frustração de não ter encontrado o envelope e pela ansiedade das providências a serem tomadas, fui grosseiro: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Quem gosta de velho é reumatismo”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Ofendido o velho senhor respondeu com um olhar, antes tão lascivo, de pena e comiseração.&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Saí rápido do Aurora. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;No escritório, graças à minha habilidade e aos conhecimentos adquiridos na Escola de Belas Artes, a ficha de Pedro Paulo ganhou um “nada consta” e dois dias depois, numa quinta feira, fui o encarregado de entregar a ele a lista de documentos que teria que providenciar para seu registro como empregado na empresa em que trabalhava. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;No domingo, na Praça da República - onde expunha meus quadros na “feira hippy”, recebi a visita de Pedro Paulo. Ele estava com um bando de amigos, todos barbudos, que, com ares compenetrados viram e, pelos comentários, gostaram de meus quadros: “pinturas com alto senso estético, embora pequem pelo total estado de alienação e descomprometimento para com a realidade”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E eu ouvindo e pensando: será que vão comprar? Na verdade, sendo franco, não conseguia tirar o olho de Pedro Paulo, mas ele e sua turma, indiferentes, foram embora sem nada comprar e sem Pedro Paulo dar, ao menos, um sorriso, por menor que fosse. Só um rápido: &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Tchau! Amanhã a gente se vê”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Bofe”, pensei, mas não disse. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E foi só isso que de ruim aconteceu naquele domingo; logo depois vendi três quadros e concluí que só podia ser o Pedro Paulo que me dava sorte: ”três quadros vendidos em um só dia. Demais da conta de bom. Vou continuar pintando sem o tal comprometimento para com a realidade: bando de bofes! Uau!!!”, disse em voz baixa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Saí da feira, guardei os quadros não vendidos no carro, almocei macarrão com frango e tomei dois guaranás. Estava radiante!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Semana seguinte Pedro Paulo foi admitido na empresa e começamos a nos encontrar na hora do almoço. Após dois meses de convivência resolvemos morar juntos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Outro fato surpreendente ocorreu: eu havia sido o vencedor do concurso de uma empresa de aviação para desenvolver painéis que seriam usados para decorar suas lojas espalhadas em quase todas as capitais do país; isso exigiria, no mínimo, um ano de trabalho e mais dinheiro que&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;receberia por uns cinco anos na empresa em que datilografava fichas de admissão: deixei o emprego; a isso devo acrescentar que meus quadros, expostos aos domingos na Feira da Praça da República, estavam vendendo razoavemente bem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Mudamos para um apartamento maior, na São Luís. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E era lá que, durante o dia, enquanto Pedro Paulo trabalhava, eu pintava meus quadros e desenvolvia os painéis para a empresa de aviação. À noite saíamos, e quando não íamos ao cinema, Pedro Paulo recebia seus amigos barbudos: todos sabiam de nossa relação e a única exigência, imposta por Pedro Paulo, era que evitássemos a troca de carinhos na presença do grupo. Mas era em nosso apartamento que, sempre à noite, aquele grupo de barbudos se reunia, falavam muito, discutiam, liam e redigiam; eu pouco entendia e, de verdade, pouco me interessava por tão inflamadas discussões; o que e discutiam era, para mim, um mundo distante, incompreensível e eu aguardava, ansioso, o final das reuniões para, a sós, demonstrar meu afeto e perceber o amor que nos unia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E a vida ia passando...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E foi assim, com a vinda passando e passando sem a gente perceber, ou dar fé o quanto ela passava, que, em uma semana qualquer de abril, Pedro Paulo teve que fazer uma viagem a trabalho; aproveitei para visitar duas lojas da empresa de aviação, no norte do país, onde o projeto estava se iniciando. Foi Pedro quem me levou ao aeroporto para, de lá, iniciar sua viagem pelo interior do Estado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Voltei no sábado, como havia planejado, e estranhei não tê-lo encontrado no aeroporto à minha espera. Um frio enorme percorreu meu corpo: uma dor profunda e uma angústia indescritível se apoderou de mim. Tomei um táxi e fui para o apartamento que encontrei vazio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Pedro Paulo sempre me recomendava que, por segurança, caso ele desaparecesse eu deveria silenciar-me por completo e não procurar por ele. Eu achava aquelas recomendações absurdas, incompreensíveis e sempre o questionava porque cargas d´água ele haveria de sumir? Que coisa mais absurda alguém desaparecer! Me alterava, elevava o tom de voz, prenunciando o fim da discussão, e, um pouco&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;birrento, reconheço agora, dizia que se o motivo do desaparecimento fosse eu que achava mais adequado e correto ele me dizer, que não entendia e muito menos queria entender esta história de desaparecimento, e ponto final...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E agora não tinha a menor idéia do que fazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Mais de um mês se passou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;O desaparecimento de alguém que queremos bem é pior, muito pior, que sua morte na medida em que o desaparecimento não contempla a concretude definitiva da morte, que, de alguma forma, conforta. A indefinição do desaparecimento nos deixa como em uma montanha russa: alternam-se repentinamente os baixos momentos de profunda desesperança, com os picos da certeza do encontro próximo... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Em um domingo, na Feira da Praça da República, onde expunha meus quadros, recebi a visita do velho senhor do Cine Aurora. Pela maneira como iniciou a conversa devo ter demonstrado surpresa e estranhamento:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Por favor, fique tranqüilo. O que preciso lhe falar é sério e não tem nada a ver com o Cine Aurora. O que vou lhe dizer é bom e é também ruim e, por isso, peço que evite demonstrar seus sentimentos. Procure agir como seu eu estivesse interessado na compra de um quadro e que você quer vendê-lo. Se concentre nisso, por favor. Posso falar, está preparado?”, disse com a voz tranqüila, embora firme e severa, o velho senhor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Olhei para a respeitável figura: tinha a doce expressão dos avós, estava elegantemente vestido em suas calças jeans, camisa pólo e com seus cabelos brancos bem penteados. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Claro, diga. O que o senhor tem a me dizer?”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Conheço o seu Pedro Paulo, que é muito amigo de meu filho. Estão, ambos, presos no DOPS, acusados de subversão. Eu os visitei e estão bem, se se pode de dizer isso: estão vivos, o que já é uma graça.”, disse emocionado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Tive certeza que aquele elegante senhor não mentia e procurei controlar minhas emoções:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Quero vê-lo, preciso visitá-lo. Como fazer? Faço o que o senhor me ordenar, mas preciso vê-lo hoje. Faça-me o favor!”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Fui educadamente interrompido:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “A gente almoça juntos e vamos ver o que se pode fazer. Agora faça de conta que estou comprando um de seus quadros. Venda-o pelo preço que vou te oferecer; meu endereço está junto com o dinheiro que vou te pagar; espero por você às treze horas.”, e, imediatamente apontou para uma de minhas telas favoritas perguntando pelo seu valor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “São dois mil reais. É uma tela...” fui, mais uma vez, delicadamente interrompido:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- ”Dou por ela mil e quinhentos reais em dinheiro, aceita?”, disse ao mesmo tempo em que tirava da carteira um pacote de dinheiro, com as notas presas por um clipe. “Não há necessidade de conferir o dinheiro. Está certo. Pode me embrulhar a tela? Tenho que ir, tenho fome.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;Peguei o pacote de notas, coloquei no bolso, embrulhei a tela e ao entregá-la ouvi:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;- “Não tenha pressa em saber o endereço.Temos tempo porque moro perto: daqui até minha casa é um pulinho. Até mais.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;O pacote de notas, colocado no bolso, queimava minha perna, me incomodava, ardia. Mesmo assim, obedecendo ao pai do Hamiltom, aguardei um pouco, controlando a insuportável ansiedade de, finalmente, encontrar alguma coisa de concreto a respeito do tão querido Pedro Paulo. Por volta das onze e meia, não conseguindo mais suportar tanta ansiedade, embrulhei os quadros restantes e fui ao estacionamento onde os acomodei na porta malas da velha DKV. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;E só então, sentei-me no banco dianteiro da perua, e tirei do bolso o pacote de dinheiro. Junto do monte de notas presas por um clipes, havia um papel com o endereço e uma foto de Pedro Paulo junto com seu amigo Hamilton. E eu emocionado, fiquei ali, absorto, chorando descontroladamente, confuso, sem saber realmente se chorava de felicidade ou de tristeza! Chorei muito, chorei em silêncio, um choro só meu, com soluços compridos que enchiam todo o corpo e lágrimas quentes que inundavam meu peito ! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Tahoma;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4256142169625767460?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4256142169625767460/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4256142169625767460' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4256142169625767460'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4256142169625767460'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/08/agape1968-nada-consta-primeira-parte-o.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: 1968, nada consta. Primeira parte: O cine Aurora'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TGGRFfxMV4I/AAAAAAAAAIo/KgWLgOociL4/s72-c/2009guaraque%C3%A7aba+035.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-6275813238186819156</id><published>2010-07-04T14:10:00.000-07:00</published><updated>2010-07-04T14:22:21.446-07:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: ANGELINA</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TDD5olURggI/AAAAAAAAAIg/YlmEspq4zX0/s1600/2009+Bahia+157retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5490162421371863554" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TDD5olURggI/AAAAAAAAAIg/YlmEspq4zX0/s320/2009+Bahia+157retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Eis que surge, no centro da arena, uma mulher para contar uma história!&lt;br /&gt;Surpresa geral: até o momento apenas homens haviam participado como contadores.&lt;br /&gt;Nair, era o seu nome. Aparentava ser uma matrona com seus sessenta anos, forte, cabelos grisalhos, vestido de algodão sobre o bonito corpo gordo. Quadris largos, seios salientes, sobrando pelo colo, orgulhoso dos filhos que haviam tirado dali seu alimento. Os cabelos grisalhos, levemente ondulados, cobriam os ombros. Tinha uma voz doce e suave, comum às mezzo sopranos.&lt;br /&gt;Inicia, sorridente, sua história:&lt;br /&gt;“Pois bem pessoal, quero contar a vocês a história da Angelina.&lt;br /&gt;Esta história eu ouvi, pela primeira vez, ainda menina moça, contada em uma noite fria, ao calor da fogueira em uma festa de São João. Quem a contou foi Dócio, um cego gordo, com enormes papadas sob o queixo. Mais tarde, tornei a ouvir esta história, desta vez contada pelo Diquinho, um meu primo distante, também muito bom contador de histórias. Não houve grande diferenças entre a história contada pelo cego Dócio e pelo primo Diquinho.&lt;br /&gt;Vou, agora, contar para vocês.&lt;br /&gt;Angelina era a primeira filha de um dos casais de italianos que, como nós, viviam em pequenos sítios nos pampas do sul do país. A maioria destas famílias, premidas pela miséria, imigraram do sul da Itália, e, aqui, plantavam e cultivavam videiras, faziam vinho e vinagre, criavam porcos e bois; todos católicos, crentes e após as missas dominicais, quando havia padre para celebrá-las, se reuniam para, saudosos, contar as venturas e memórias da Sicília, tão brava, tão longe e, agora, tão somente em seus sonhos.&lt;br /&gt;Angelina era uma menina forte; na escola se destacava pela facilidade de aprender as letras; em casa, pequena, já cuidava dos porcos, dos irmãos menores e tecia na roca.&lt;br /&gt;Mas o que a todos instigavam e a tornava motivo de admiração e curiosidade eram seus poderes de adivinhação. Assim: se um bezerro sumia, Angelina tinha a resposta, sabia em que pasto e sob a sombra de qual árvore se escondia o fugidio bezerro. Mesmo no desaparecimento de pequenas coisas, em grande parte por culpa da desordem típica dos imigrantes italianos e da simplicidade de suas moradias, era Angelina que, consultada, como São Longuinhos, indicava corretamente o local onde se encontrava a perdida agulha de tricô da nona, o sumido canivete do nono ou a faca afiada da mãe...&lt;br /&gt;E até casos mais difíceis, ou no mínimo mais delicado, como a história do porco, um cachaço que tinha sido castrado recentemente e colocado para engorda pelo seu tio Alfredo. E não é que o enorme porco sumiu! Fugir não era o que se podia imaginar:como pular a cerca do chiqueiro com tamanho peso e gordura? Impossível, concluiu a família reunida. Só podia ter sido roubado. E Angelina, consultada, denunciou quem havia feito tão condenável ação. Foi de seu pai a pergunta:&lt;br /&gt;- Sabe do porco que tio Alfredo capou para engorda Angelina? Sumiu o danado.&lt;br /&gt;- Foi o Agnaldo que levou, respondeu sem pestanejar.&lt;br /&gt;Susto maior não poderia. Logo o Agnaldo, filho do velho senhor Baltazar, amigos de mesa e de jogos, teria cometido tal crime?&lt;br /&gt;Pois tinha.&lt;br /&gt;E a longa amizade que havia entre as famílias, comprovado o ocorrido, estremeceu; e mesmo dentro da família dos Baltazar, vergonhosa do ocorrido, muitas desavenças aconteceram.&lt;br /&gt;Mas voltando a Angelina!&lt;br /&gt;Seu poder de adivinhação, ganhou fama e, como tocada pelo vento, fugiu do domínio das famílias italianas, avançou por outros sítios até chegar aos ouvidos de Frei Marcos, pároco em vizinha comarca. E veio, então, a primeira condenação: quando o bondoso, porém severo padre, chegou até a pequena comunidade para batizar os pequenos rebentos e realizar a primeira comunhão da criançada, proibiu Angelina de receber o Santo Sacramento da Hóstia Santa .&lt;br /&gt;- É pecado grave. Essa menina está com o diabo no corpo! justificou Frei Marcos.&lt;br /&gt;E por estar com o Demo no corpo, Angelina foi proibida de a de fazer a primeira comunhão, apesar de saber de cor e salteado a Salve Rainha, o Creio em Deus Padre, recitar sem erro os Dez Mandamentos, enfim, apesar de ter sido, sem sombra de dúvida, a melhor aluna no catecismo.&lt;br /&gt;E, com isso, Angelina passou a sofrer dor imensa; inocente e ingênua: “e o meu vestidinho branco, de organdi, tão lindo, para o dia tão esperado de, com ele e de grinalda, receber, toda de branco o Corpo de Cristo? Vai ficar sem uso, dependurado?”, lamentava quieta enquanto trabalhava a roca.&lt;br /&gt;Tanta dor, muita dor! Ter o Diabo no corpo era, pra ela, a pior das doenças, a mais triste das sinas.&lt;br /&gt;A primeira comunhão, perdida esta oportunidade, só ocorreria no próximo ano, quando novamente Frei Marcos voltaria à pequena comunidade para batismos e a cerimônia do Sacramento da Comunhão. E para não acontecer outra proibição, antes de partir, o padre se ofereceu para exorcizar seu corpo e tirar dali o Capeta.&lt;br /&gt;Angelina, convocada, compareceu até a casa de Dona Cecília para o ritual. As portas foram fechadas, as luzes apagadas, sobrando apenas, no oratório, em um canto da sala, uma trêmula chama de vela:&lt;br /&gt;- Tem algum espírito presente?, declama em voz respeitosa e grave Frei Marcos.&lt;br /&gt;E, imediatamente, o corpinho de Angelina tem inícios de convulsão, retorcendo-se todo; seus olhos parecem saltar da órbita, com o branco tomando o espaço do que antes eram das negras pupilas; no rosto uma expressão de pânico e dor enquanto balbuciava, entre gemidos, incompreensíveis palavras!&lt;br /&gt;- “Vá-te embora Satanás. Liberte o corpo deste anjinho. Vá-te demônio! Em nome de Cristo, vá-te.”, ordenava, com voz segura, Frei Marcos.&lt;br /&gt;E o corpo da pequena Angelina, todo suado, foi vagarosamente voltando à sua normalidade: foram diminuindo, aos poucos, os tremores e os retorcimentos, cessaram de sair de sua boca, que ainda espumava, palavras incompreensíveis enquanto os olhos voltavam ao brilho normal: Cruz Credo!&lt;br /&gt;E após o ritual, por ordem de sua mãe, familiares e vizinhos foram proibidos de pedir socorro e adivinhações a Angelina e a menina proibida de, caso solicitada, realizá-las. Mesmo as simples e tão corriqueiras seções para São Cipriano, para adivinhar o sexo das crianças das mulheres grávidas foram proibidas. E no início, sob o impacto da negativa da primeira comunhão e do ritual de exorcismo estas ordens foram rigorosamente cumpridas e vigiadas, mas, com o passar dos dias a vida voltou ao seu normal.&lt;br /&gt;E Angelina, mesmo vez ou outra realizando inocentes ou mais complexas adivinhações, passou o ano sonhando em receber o Corpo do Senhor, em fazer sua primeira comunhão com o vestidinho branco de organdi.&lt;br /&gt;Chegou a hora e no confessionário, confirmam-se as dúvidas de Frei Marcos: a menina continuava possuída e mais uma vez proibida de receber o Santo Corpo de Cristo. Houve um outro ritual de exorcismo, e, para manter a família alerta do perigo de nova invasão do Demo no corpo da menina, Frei Marcos passou um castigo: escrever, diariamente, pela manhã, no caderno de caligrafia, com as letras bem definidas: &lt;strong&gt;&lt;em&gt;"SENHOR JESUS: LIVRAI E PROTEGEI MEU CORPO DO SATANÁS".&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;E o ano foi se passando com o exercício diário de caligrafia, com pequenos rituais de adivinhação invocando São Cipriano - usando uma chave presa no Evangelho - , e alguns pedidos de adivinhação impossíveis de serem recusados...&lt;br /&gt;Foi então que, na noite que antecederia sua confissão para realizar a sua primeira comunhão, Angelina teve um pesadelo terrível. Sonhou, se é possível chamar isso de sonho, que, estava toda de branco, com sua grinalda de tule e as mãos postas sobre o peito, pronta para receber Hóstia Santa; e foi aí que, ao se aproximar do altar e ajoelhar-se, abrir suavemente a boca, e, como havia sido orientada por dona Cecília, colocar delicadamente a ponta da língua para fora, para, respeitosamente, receber a Santa Hóstia teve início seu martírio: ao receber a Hóstia Santa, sentiu primeiramente sentiu um gosto forte de sangue e a Santa Hóstia crescer sob sua língua, transformando-se em uma esponja úmida que tomava a boca toda que começou a sangrar, vertendo sangue peito abaixo, manchando de vermelho o vestido de organdi, suas mãos postas e o terço que tinha entre elas. Acordou na manhã seguinte febril e com uma rigidez facial que a impedia de pronunciar palavra qualquer; não pode se confessar e, mais uma vez, participar da cerimônia da primeira comunhão.&lt;br /&gt;Frei Marcos, desta vez, não se ofereceu para o ritual de exorcismo.&lt;br /&gt;Desesperançada Angelina passava o tempo na roca, tecendo. E, junto à roca, teve início as primeiras visíveis e terríveis aparições. A primeira aparição visível aconteceu assim:&lt;br /&gt;Sua mãe tinha a diária rotineira obrigação de levar, até a plantação de uvas ou outra roça onde os homens labutavam, as marmitas com o almoço do marido e dos tios. Era sua tarefa. E na volta para casa, após o cumprimento da obrigação, tinha o hábito de, antes de entrar em casa, sentar-se no banco sob o pé de amora e ali enrolar um cigarro e deliciar-se com profundas tragadas. “É a hora do meu descanso, de ficar comigo mesma. Gosto muito.”, dizia.&lt;br /&gt;E foi um dia então que Angelina, orientada pela luz que o sol fazia entrar na porta do celeiro onde ficava a roca, calculou que já era hora de sua mãe estar voltando da plantação de uvas com as marmitas, que teve sua primeira aparição. Em um misto de sonho e pesadelo, viu que, naquele dia, sua mãe não parou para fazer o cigarro de palha, passou indiferente sob a sombra da amoreira, entrou em casa, deitou em sua cama e logo depois morreu.&lt;br /&gt;E Angelina, assustada, correu para o terreiro de frente da casa e viu que sua mãe vinha da roça com as marmitas vazias às mãos. E a pequena, que torcia e rezava para que sua mãe obedecesse à rotina do cigarro de palha sob o pé de amora, horrorizou-se ao vê-la não parar sob a sombra amiga, entrar em casa à procura de sua cama e deitar. Logo após ouviu os gritos desesperados da avó: “Acudam: Lourdes morreu. Deus do céu, acudam!”&lt;br /&gt;Seu pai, temeroso pelo fato das normais mudanças que ocorriam no corpo da menina, transformando-a em mulher, achou por bem mandá-la viver sob os cuidados de uma irmã, que tinha filha moça e, por ser mulher, poderia melhor cuidar de Angelina. Não se sentia preparado para tal educação.&lt;br /&gt;E, na casa da tia, Angelina viveu a realidade das histórias dos livros que havia lido a respeito das temerosas e ciumentas madrastas: desprezada pela tia e transformada em criada servil pela prima; seu único refúgio era a roca, onde tecia e deixava a vida passar.&lt;br /&gt;Mocinha passou a ser importunada pelo tio:&lt;br /&gt;- Pode ser ou está difícil, Angelina? perguntava o tio, olhar lascivo, ao passar sob a janela do celeiro onde ficava a roca.&lt;br /&gt;- Tá difícil, respondia temerosa.&lt;br /&gt;E veio a segunda aparição:&lt;br /&gt;Seu tio passava sob a janela fumando seu cigarro de palha e fez a habitual pergunta à qual Angelina respondeu: Pode ser. E os corpos nus se misturaram com os fios tecidos na roca; soluços, gemidos de prazer e de temor quebraram o silêncio sepulcral do celeiro. E Angelina, sob o pesado corpo do tio, viu, na janela, sua tia que, horrorizada, a tudo observava.&lt;br /&gt;E imediatamente após sua visão ouviu os passos de seu tio se aproximando:&lt;br /&gt;- Pode ser ou está difícil Angelina?&lt;br /&gt;- Pode ser tio.&lt;br /&gt;E, a partir dali, sua vida que era difícil tornou-se insuportável.&lt;br /&gt;Pelo acontecido a tia impôs castigo: isolamento total no celeiro; as refeições passaram a ser levada até a janela na pequena marmita de alumínio e, como castigo, copiar até encher toda a folha de papel de embrulho: &lt;em&gt;&lt;strong&gt;“EM MEU CORPO MORA O DEMÔNIO&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;” .&lt;br /&gt;As visitas do tio passaram a ocorrer com maior freqüência e, imediatamente após casa visita, sua tia aparecia na janela com uma folha de papel de embrulho, com uma frase escrita no alto, que deveria ser copiada até preencher toda a folha.&lt;br /&gt;Angelina sentia-se só. Sua solidão era amenizada com os exercícios de caligrafia e com a roca. Para passar o infinito e interminável tempo Angelina passou a brincar com as letras assim como brincava com a roca. A solidão tornava-se, desta forma, suportável com as folhas de papel de embrulho se acumulando ao lado dos fios de lã tecidos na roca.&lt;br /&gt;Dias, semanas, meses e anos foram passando. Sentia saudades de ouvir palavras e de emitir o som de sua voz. Passou a cantarolar em voz cada vez mais baixa até cantarolar apenas para dentro de si, em sua mente. Esquecia os sons, as palavras. E mesmo as únicas palavras que ouvia do tio querendo seu corpo foram sendo economizadas. Do inicial: “Pode ser ou está difícil Angelina”, passou para “pode ser ou está difícil?”, economizando o Angelina, para ficar apenas no “pode ser?”.&lt;br /&gt;Em um domingo ouviu vozes, falas e cantos misturados ao som da sanfona. Eram as reuniões familiares. Algum aniversário provavelmente.&lt;br /&gt;Outra visão: Seu tio bêbado de pinga e de vinho, chegou até a janela e com a voz pastosa dos bêbados : “pode ser?”, entrou no celeiro, tomou Angelina nos braços, deitou-a no colchão de palha, que era sua cama e a possuiu. Levantou-se, abotoou as braguilhas das calças e deixou o cigarro aceso ao lado da cama. Saiu, como sempre, pelas portas do fundo do celeiro, deixando-a aberta, de onde veio uma rajada de vento que deu brilho á pequena faísca do cigarro,tomou conta do colchão de palha, alcançou os fios da roca e os papéis de embrulho. Em segundos o celeiro tornou-se em uma labareda única queimando tudo e todos.&lt;br /&gt;Logo após esta sua visão seu tio chegou à janela, pernas cambaleando de bêbado, e, sem aguardar resposta para o “pode ser” dito em voz pastosa adentrou-se no celeiro e colocou-a na cama...&lt;br /&gt;Saiu pelas portas do fundo do celeiro e Angelina abotoou o vestido em sua parte superior, cobriu os seios, arrumou a saia sobre as pernas, pegou o terço nas mãos, deitou e esperou o calor do fogo.&lt;br /&gt;A tia, como sempre, chegou até a janela com o papel do castigo e viu a labareda já alta consumindo e alimentando-se das palhas do colchão, dos fios da roca, dos papéis de embrulho e do corpo de Angelina.&lt;br /&gt;Atirou pela janela, para o centro da labareda, o papel de embrulho com o cabeçalho: &lt;em&gt;&lt;strong&gt;“ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS”&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-6275813238186819156?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/6275813238186819156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=6275813238186819156' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6275813238186819156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6275813238186819156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/07/historia-de-angelina.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: ANGELINA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/TDD5olURggI/AAAAAAAAAIg/YlmEspq4zX0/s72-c/2009+Bahia+157retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-7344597282204902245</id><published>2010-05-26T00:14:00.000-07:00</published><updated>2010-05-29T01:49:27.900-07:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: IVO, O ESCULTOR.</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S_zLKOCj20I/AAAAAAAAAIY/HVVRsqGHnp4/s1600/Agosto2008+050retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5475474623403645762" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S_zLKOCj20I/AAAAAAAAAIY/HVVRsqGHnp4/s320/Agosto2008+050retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tão logo o velho mineiro terminou de contar história do Encantador de Cobras, posicionou-se na arena um homem moreno, pequeno, atarracado, lábios grossos, músculos salientes aparentes sob a camiseta branca. Tinha olhos negros, sobrancelhas espessas e bem delineadas, dentes perfeitos, brancos e os cabelos  encaracolados como os dos anjinhos dos antigos santinhos, só que escuros.&lt;br /&gt;Voz clara, forte em um timbre suave de baixo-tenor.&lt;br /&gt;“Meu nome é Osvaldo, e quero contara a história do Ivo, o escultor.&lt;br /&gt;De imediato devo confessar a dificuldade que estou encontrando de contar esta história. Desde a hora que saí de casa, no interior de São Paulo, até chegar aqui, pensei e repensei inúmeras vezes em como contá-la e agora, comigo aqui no centro da arena ainda não conclui qual seria a melhor e por isso, já peço desculpas.&lt;br /&gt;Vou começar pelo começo, e tentar ser o mais compreensível possível, em respeito ao Ivo e também, claro, aos senhores aqui presentes.&lt;br /&gt;Penso que a minha mochila e as minhas leves vestimentas devem ter denunciado minha condição de andarilho. Sim, conheço a palmo quase todo este país de Deus, andando, caminhando, dormindo em minha barraca, comendo grãos, frutos secos, bebendo água nas fontes e nos córregos, tomando banho nos mares e nos rios.&lt;br /&gt;E foi assim, em uma de minhas inúmeras caminhadas que, por mero acaso, reencontrei o dono desta história.&lt;br /&gt;Iniciando então devo dizer que somos, o Ivo e eu, de uma pequena cidade do interior do Estado de Minas Gerais. Crescemos protegidos pela verde e negra Serra da Mantiqueira: verde de manhã ao nascer do sol e negra quando o mesmo se esconde, determinando uma sombra fresca, protetora, que, aliada ao vento sul, prepara as noites frias, que exigem, de janeiro a janeiro cobertores tecidos com lã de carneiro.&lt;br /&gt;Os estudos na pequena cidade, pelo menos até então, limitavam-se, aos que queriam e podiam, ao antigo Ginásio. Ivo estudava um ano em minha frente e nos tornamos amigos. A bem da verdade eu era um dos poucas pessoas com quem se relacionava. Para a maioria da cidade Ivo era uma figura por demais “neurastênica” e para nossa professora de português, nosso herói apresentava traços de misantropia.&lt;br /&gt;Nossa convivência era cordial, pacífica, silenciosa, pouco afetiva e mutuamente respeitosa. Sua competência para com a arte da escultura era, desde àquela época, inquestionável, unânime mesmo entre os outros artistas da pequena cidade e região que, maravilhados com sua arte, libertavam-se de mesquinhos ciúmes, esqueciam aspectos realmente sombrios de sua estranha personalidade e maravilhavam-se com sua arte.&lt;br /&gt;Terminado Ginásio, fez vestibular nas Escolas Nacionais de Belas Artes do Rio de Janeiro e de São Paulo e foi aprovado em ambas. Optou pelo Rio de Janeiro. Após isso passou a vir à nossa pequena cidade apenas em suas férias até que seus pais mudaram-se para São Paulo quando suas visitas e seu contato rarearam por completo.&lt;br /&gt;Retornou apenas quando terminou o seu curso no Rio, como que surgindo do nada... Aconchegou-se na única e pequena pensão que havia na cidade e o encontrei no jardim frente à Igreja; nosso encontro foi cordial, afetuosos embora, como sempre, Ivo evitava qualquer tipo de manifestação externa de carinho. Continuava quieto, mudo mesmo, com seus olhos oblongos voltados para o horizonte; usava, agora, longas costeletas o que lhe rendeu, de imediato, o apelido de D. Pedro I.&lt;br /&gt;Combinamos de nos encontrar, no clube, na manhã seguinte. Foi lá, ao lado da piscina, que após horas de silenciosa convivência Ivo me disse que lhe haviam oferecido duas bolsas de estudo na Europa e que entre Portugal e Alemanha havia optado pela Alemanha. Repetiu duas vezes o nome da escola onde iria estudar e percebeu que eu não entendia. Quando lhe perguntei, maravilhado, se falava alemão, Ivo respondeu:&lt;br /&gt;- Sei falar Bom dia. Caso tenha sede não sei como pedir um copo d´água. Melhor: não vou lá para conversar.&lt;br /&gt;Continuou em seu silêncio até o momento em que chegava ao clube, passando por nós, o time de futebol de salão da cidade. À frente do grupo o enorme Taíde, famoso por sua força física, resistência e também pela inquestionável habilidade como jogador. Ivo perguntou-me:&lt;br /&gt;- É o Taíde?&lt;br /&gt;- Sim, Ivo, é o Taíde, ou se quiser o Marrucão seu velho apelido.&lt;br /&gt;- Verdade: havia me esquecido de seu apelido. Continua o mais forte da cidade?&lt;br /&gt;- Sim, continua sendo o mais forte.&lt;br /&gt;Repentinamente Ivo levantou se do banco onde estávamos acomodados e, sem mais, dirigiu-se até o local onde estava o pessoal do futebol de salão, e ao aproximar-se do Taíde, calmo e com voz suave disse:&lt;br /&gt;- Você continua sendo o mais forte? Quero brigar com você.&lt;br /&gt;Realmente não estávamos, em nossa cidade, habituados àquele tipo de briga. Para nós uma briga sempre começava por algum motivo, fútil ou não, mas tinha que haver um motivo: seja lá alguma desavença oriunda de qualquer tipo de ofensa tipo xingar a mãe ou roubar a namorada, enfim, uma briga nunca se iniciava do nada. Era sempre partir de uma questão que se formava a roda e começava a briga; agora assim do nada, só do frio das palavras, nunca havia ocorrido.&lt;br /&gt;Mas ocorreu. Taíde aceitou o desafio, colocou se de pé em posição de defesa com os dois braços colados ao peito, punhos cerrados, olhos atentos. Ivo, imitou-o. Dois enormes corpos em posição de luta, próximos um do outro; não havia fúria, não havia raiva e também quase não houve tempo: Taíde afastou um passo, viu a imobilidade do adversário e acertou-lhe bem ao meio do nariz um potente soco. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sangue no ar e Ivo foi-se ao chão.&lt;br /&gt;Em briga tão inusitada nem houve necessidade dos sempre presentes “deixa disso”. Taíde foi para a quadra de futebol de salão e eu corri a enfermaria à busca de algodão para colocar no nariz ensangüentado do amigo.&lt;br /&gt;Estancado o sangue Ivo levantou-se e voltou para a pensão.&lt;br /&gt;Tornei a vê-lo na manhã seguinte: mala às mãos na plataforma da estação ferroviária; tinha o rosto inchados e a região dos olhos toda roxa acusando a força do murro recebido. Fiquei ao seu lado, aguardando o trem, e após longo silêncio Ivo disse-me:&lt;br /&gt;- Foi bom: não senti nenhum medo.&lt;br /&gt;Chegou ao trem e Ivo não aceitou o abraço que lhe ofereci.&lt;br /&gt;Anos, décadas se passaram.&lt;br /&gt;Ivo, provavelmente na Europa, em sua carreira de escultor e eu, deixando de lado meu sonho de escritor, tornei-me fiscal do IBGE até aposentar-me por um motivo qualquer e iniciar esta vida de andarilho.&lt;br /&gt;E foi como andarilho que vim a conhecer um belíssimo parque estadual no litoral do sul do país. Minha curiosidade em relação a este parque, além da beleza natural, dizia respeito ao cultivo de uma tradição: a cultura do Fandango.&lt;br /&gt;Mas vamos deixar isso de Fandango de lado. Após três dias acampado em uma longínqua praia, alimentação à base de grãos, o organismo pediu comida quente o que me levou à cidade sede do parque. À procura de comida e de informações sobre o fandango descobri uma escola, sede de um trabalho comunitário que orientava artesões locais a, utilizando recursos da região, produzir artefatos para suprir a renda familiar. E ali naquela escola, entre tapetes de sisal, utilitários feitos com folhas de palmeiras da região, tarrafas, tapetes, surge uma pequena escultura de argila; um calafrio percorreu todo meu corpo ao vê-la: as formas elegantemente orgânicas, abstratas e de uma delicadeza ímpar denunciavam o autor: só podia o Ivo.&lt;br /&gt;Toquei-a emocionado.&lt;br /&gt;Percebendo meu vivo interesse pela escultura surge a “mestre” das oficinas: uma senhora já cinquentona, pele clara, português elegante, delicada. Soube depois que era professora aposentada, filha de austríacos, eximia na arte do tear, casada com um senhor português. Ao aposentar-se, aliou sua competência e experiência profissional, com sua habilidade no tear e passou a, voluntariamente, coordenar as oficinas de formação dos caiçaras da região em diferentes capacitações. Ao ser questionada pelo autor da escultura disse-me:&lt;br /&gt;- O autor, cujo nome é Ivo, é um homem de nossa idade, formado por importante escola no Brasil e chegou, mesmo, a estudar na Europa. Chegou aqui no parque vindo do nada e realizou aqui algumas oficinas: é um escultor profissional, delicado, competente, mas pessoa de trato difícil, personalidade controvertida. Me parece uma pessoa sofrida, que ama a solidão e aqui no parque relaciona-se, com alguma dificuldade, apenas comigo e com Otávio, meu marido, que semanalmente leva até a ilha onde vive, em uma modesta cabana, comida e víveres que garantem sua sobrevivência.&lt;br /&gt;Nossa conversa foi interrompida pela presença de uma jovem morena, bem vestida, olhos negros e amendoados como de nossos índios e um corpo escultural sob elegante vestido de malha. Dona Astrid, a professora com a qual estava a conversar, toma as vezes de anfitriã e apresenta-me:&lt;br /&gt;- Senhor, esta é Clarice, assistente social, responsável pelos projetos que garantem a sustentação dos cursos aqui em nossa escola. Clarice este senhor é um turista e interessou-se sobremaneira pela escultura do Ivo.&lt;br /&gt;- Boa tarde, senhor. Sim, o trabalho do Ivo encanta pessoas sensíveis. Mas é homem de difícil trato, não cumpre os compromissos. E já me colocou em situações realmente difíceis.&lt;br /&gt;- Verdade? O que meu amigo lhe aprontou?, perguntei.&lt;br /&gt;- Nem te conto! Veja só. Veio aqui visitar nossa escola nada menos que o governador. Viu uma aula do Ivo, gostou de seus trabalhos e encomendou três esculturas. Pagou pela que estava em exposição e pediu mais duas que ofereceria a autoridades da UNICEF. E foi a partir daí que iniciou minha luta. Ivo, alegando ora um motivo, ora outro, simplesmente não realizava as esculturas encomendadas pelo governador. Posso garantir que fiz de tudo, usei de todas as artimanhas, e nada de esculpir o solicitado.. E como você deve estar percebendo fiquei na pior. Semana si, semana não, era cobrada pela mulher do governador em longos telefonemas. Fui, pessoalmente, várias vezes até a tapera do escultor, trouxe-o uma vez até aqui rogando que fizesse as obras encomendadas, e nada. Mudo, mudo, sempre intolerável e irritantemente mudo...quando se dignava a abrir a boca dizia que havia feito a escultura mas que não havia gostado e que, por isso, havia destruído.&lt;br /&gt;- Ele é realmente muito exigente, disse, meio sem pensar, mas intuitivamente, colocando-me, já em defesa do amigo.&lt;br /&gt;- Um louco. Doido varrido. Mas...vocês são amigos? Como o conheceu? É também artista plástico? Faz esculturas?, perguntou-me.&lt;br /&gt;- Não, não sou artista plástico. Conheci o Ivo quando adolescentes, antes dele ter ido para Rio estudar; nascemos na mesma cidade.&lt;br /&gt;- A mulher do governador continua me cobrando as esculturas. Nossa escola depende de favores. Você poderia interferir? Não poderia pedir ao seu amigo que as faça? Se quiser mando um canoeiro ainda hoje levá-lo até a cabana de seu amigo - falou, denotando na fala, um fio de esperança.&lt;br /&gt;A ansiedade da assistente social causou-me mal estar. Para ganhar tempo disse que gostaria de almoçar, que estava com fome e que não sabia se queria ou não visitar meu amigo.&lt;br /&gt;- De qualquer forma, Astrid, você tem autorização de contratar canoeiro para levar este senhor até a cabana do escultor. Agora tenho que ir; tenha um bom dia e prazer em conhecê-lo. De qualquer forma veja o que pode fazer por mim, ou melhor, por mim não, mas pela nossa escola, e nos deixou , caminhando a passos largos em direção ao carro.&lt;br /&gt;Ligou o carro, saiu apressadamente e, reconheço, deixando, para mim, o ar mais leve.&lt;br /&gt;Dona Astrid continuou a conversa:&lt;br /&gt;- Um pouco apressada, quer resolver as coisas a seu modo, mas é pessoa honesta e decente. Quanto recusa do Ivo, creio, é que seu amigo não resiste,ou não admite cobranças. Criou e vive em um mundo todo seu, isento de responsabilidades, de cobranças, de julgamentos; vive o seu mundo que privilegia o relaxamento total da consciência, onde reina o esquecimento, a imobilidade e a ausência do tempo. Penso que, em sua “doença”, se assim posso assim falar, é feliz. Quer vê-lo?&lt;br /&gt;- Sim, quero, respondi.&lt;br /&gt;Quem me levou até Ivo foi o Sr. Otávio, marido de astrid. Fomos em um pequeno bote.&lt;br /&gt;Sr. Otávio, aproveitando a viagem, levou víveres comestíveis para Ivo. Foram mais de duas horas de viagem pelos canais de mangue que predominam na região.&lt;br /&gt;Chegamos a uma praia erma e ao longe a pequena cabana, na qual deduzi, Ivo vivia. O pequeno bote estacionou a uns cem metros da cabana. Frente à cabana, junto ao mar, vi Ivo: enorme, cabelos já brancos, moreno de sol; de joelhos ao chão trabalhava, na areia da praia, uma enorme escultura. À aproximação do barco, levantou-se colocando em posição de defesa, mas ao reconhecer o Sr. Otávio voltou ao trabalho de esculpir.&lt;br /&gt;Senhor Otávio aproximou-se:&lt;br /&gt;- Boa tarde, Ivo. Trouxe um amigo seu aqui.&lt;br /&gt;- Sei, é o Osvaldo, respondeu sem nos olhar, mantedo os olhos fixos nas mãos firmes talhando a areia grossa, úmida.&lt;br /&gt;Emocionei-me.&lt;br /&gt;Sr. Otávio deixou os alimentos em uma caixinha de isopor e retornou.&lt;br /&gt;Fiquei ao lado do amigo escultor vendo-o trabalhar a areia dando-lhe formas inimagináveis.&lt;br /&gt;- Você está bem, Ivo?, ousei perguntar.&lt;br /&gt;- Só fico bem trabalhando. São as únicas horas em que me esqueço, esqueço as realidades do mundo. Realizo aqui os meus sonhos. Já sei bem as fases da lua e a tábua das marés: trabalho sempre de forma que logo após o término da escultura com suas ondas o mar as consuma.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E voltou ao trabalho que havia sido interrompido pela nossa palestra.&lt;br /&gt;Estava esculpindo, já a terminar, um jovem fauno.&lt;br /&gt;A maré subia e percebi que as ondas se aproximavam mais e mais de nossos pés.&lt;br /&gt;Ivo convidou-me para comer.&lt;br /&gt;Comemos grãos, em silêncio total, enquanto as águas solapavam, primeiramente, os pés do belo fauno de areia...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-7344597282204902245?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/7344597282204902245/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=7344597282204902245' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7344597282204902245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7344597282204902245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/05/agape-ou-historia-das-historias-ivo-o.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: IVO, O ESCULTOR.'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S_zLKOCj20I/AAAAAAAAAIY/HVVRsqGHnp4/s72-c/Agosto2008+050retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-8455195423425040749</id><published>2010-04-04T05:17:00.000-07:00</published><updated>2010-04-04T12:11:17.156-07:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: O ENCANTADOR DE COBRAS!</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S7iD_S6v32I/AAAAAAAAAIQ/Vd5Y0lCpqbw/s1600/2009+Caminho+da+fÃ©+068retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5456256071992598370" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S7iD_S6v32I/AAAAAAAAAIQ/Vd5Y0lCpqbw/s320/2009+Caminho+da+f%C3%A9+068retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;E a ágape dos contadores de histórias continuou noite adentro sob o céu estrelado e com uma enorme lua gorda e brilhante. Um ventinho frio cortava a arena convidando os contadores a aproximarem os corpos para confortar do frio.&lt;br /&gt;Um outro contador de se apresentou.&lt;br /&gt;Era um homem de estatura média, gordo, com a barriga estufando a camisa de flanela com mangas compridas, olhos claros de um azul meio acinzentado; tinha os cabelos grisalhos, lisos, caídos sobre a testa, encobrindo as rugas salientes, marcas da idade e, talvez, dos sofrimentos e das alegrias que tivera na vida.&lt;br /&gt;Apresentou-se, um pouco tímido, diga-se de passagem, anunciando seu nome – Arlindo Maringone - , e nos informou, platéia atenta e curiosa, que nascera, há mais de setenta anos, no interior de Minas Gerais, divisa com Goiás, em um planalto de cerrados e algumas veredas com elegantes buritizais.&lt;br /&gt;Bonito seu sotaque de mineiro, seu dialeto tão próprio, carecendo às vezes de ir fundo na atenção de ouvir e pensar para traduzir suas palavras. Atento, quando o Arlindo percebia na platéia as dificuldades de seu palavreado, gesticulava, fazia careta, sorria, torcia a boca, fechava os olhos e, com estes tantos gestos, facilitava o entendimento de sua fala.&lt;br /&gt;“Lá onde nasci, prosseguiu Maringone, não tinha os benefícios da luz elétrica, da água encanada e do asfalto. Era todo um mundo de solidão, de excessiva quietude, de muitas pouquíssimas palavras. Os fins de dia e seus entardeceres eram tristes, prognosticando a escuridão da noite. E foi lá, no sítio do Baguaçu, que nasci e depois, homem feito, vivi a vida de casado com minha mulher Lourdes; não tivemos filhos, e só, vivia cuidando de uma roça de dois mil e poucos pés de café bem embaixo do pé da serra; também, numa espraiada situada mais ao norte do sítio, nos tempos das chuvas, plantava milho e feijão das águas e, na época da seca, semeava e colhia arroz; no sítio tinha, também, margeando o entorno do morro do Chapéu, um bom pasto forrado de capim gordura, suficiente para criar de vinte a trinta cabeças de gado mais uns poucos cavalos e a mula Serena.&lt;br /&gt;Era assim que me ocupava e os dias iam passando devagar.&lt;br /&gt;Foi então que em um ano, que hoje não me lembro mais, me foge o seu número, que aconteceu das cobras matarem, com suas picadas venenosas, duas vacas, três novilhas e pequenos bezerros. No pasto, campo do cerrado, sempre teve muitas cobras mas, de antes do ocorrido que estou a contar, nunca havia acontecido, graças ao bom Deus, mais que uma ou duas mortezinhas em todo o ano. Pois vejam: naquele maldito ano, do qual estou a contar, só no mês de setembro, as cobras deram fim a dois bezerros, uma novilha e, pior de tudo, mataram a Esperança, vaca de minha mulher, que estava mojando, prestes a parir mais um bezerro, que pobrezinho, morreu mesmo antes de nascer.&lt;br /&gt;Para ser fiel com a verdade, não posso negar que sempre houve cobras por lá.&lt;br /&gt;E bastante!&lt;br /&gt;Tanto que um primo meu, menino da cidade, pouco conhecedor dos perigos da roça, foi mordido por uma cascavel quando, inocente, mesmo tendo ouvido o “creshshsh” de seu guizo continuou em sua lida de catar, para comer, doces gabirobas na moita. Nem preciso contar o triste fim do que aconteceu com este meu primo: morreu de dor e de inchaço pelo veneno forte. Meu pai matou a cobra e descobriu, pelos anéis de seu guizo, sua idade de treze anos, mesmo tempo em anos, do primo que vitimara com seu veneno forte. Se encontrava também, nos pastos e no cafezal, além das cascavéis e das jararacas, enormes surucucus, que gostavam mais de ficar quietas, escondidas nas margens do riozinho, espreitando as rolinhas e juritis que iam beber água fresca; também se via por lá a temida urutu, aquela que tem a cruz na testa, e a veloz capitão do mato, só que esta, por não ser venenosa, não causava medo de dores e de morte.&lt;br /&gt;Mas, voltando ao assunto da história: naquele ano já tinha perdido mais de três novilhas, dois bezerrinhos, uma outra vaca e a Esperança, todos finados por mordidas de cobras.&lt;br /&gt;Para acabar com tantas mortes a solução que me veio à cabeça seria buscar, longe, bem longe, na Gruta da Onça, o Senhor Sudário, famoso curador e benzedor.&lt;br /&gt;Falei com Lourdes e fomos.&lt;br /&gt;Pelo menos três dias, no lombo do cavalo, foram gastos na viagem de casa até o Taquari, casa dos pais de Lourdes; de lá, onde ficou minha mulher, foi mais um dia e meio até a Gruta da Onça, onde ficava, à beira de um córrego, a tapera do Senhor Sudário.&lt;br /&gt;Era lá que ele vivia: só, ensimesmado com suas rezas, barba por fazer, cabelos longos. Alto, tinha a pele escurecida e enrugada, um olhar sereno, mas severo, exigente, argüidor, sempre teimando em inquirir o que é que a gente queria com ele. O Senhor Sudário, só com o poder de seu olhar, punha a gente a falar o que ele queria, obrigava a gente a dizer o que vinha fazer naquele recanto, que necessidades e urgências possuía para vir buscar o seu auxílio.&lt;br /&gt;Só falava o estritamente necessário, economizando palavras; era assim o Senhor Sudário e como disse antes, apenas pela força de seu olhar, lhe falei dos acontecidos no meu sítio, da ferocidade das cobras naquele ano e que carecia de seu auxílio de benzedor.&lt;br /&gt;- “Ta com dois cavalos? Posso ir amanhã. O caso urge.”, falou com sua voz cavernosa, profunda, que causava receio, mesmo sendo eu já homem adulto e experiente em desavenças.&lt;br /&gt;Dormimos em sua tapera esperando o dia clarear.&lt;br /&gt;Ordenou, ainda de madrugada, o caminho que faríamos e disse que não levasse Lourdes: “pode sangrar nestes dias e, mulher sangrando, atrapalha benzedura.”&lt;br /&gt;No caminho de nossa viagem tentei buscar conversa, mas não tive respostas. Seu olhar ordenava silêncio: nem mesmo o Bom Dia! ao acordar e a Boa Noite! ao anoitecer.&lt;br /&gt;Silêncio de palavras na quietude total.&lt;br /&gt;Chegamos, depois de quatro dias de silenciosa viagem, ao Sítio do Baguaçu.&lt;br /&gt;- “Sem descanso. O assunto carece urgência.”, disse tão logo chegamos .&lt;br /&gt;-“Aceita um café? Posso coar.”, perguntei.&lt;br /&gt;O curandeiro não aceitou o café oferecido.&lt;br /&gt;- “Preciso, para os benzimentos, de uma carcaça de vaca, morta por mordida de cobra; as orações, os terços e as encomendas, que mandarão para longe, as cobras deste lugar, serão feitos junto à cruz de um humano morto por picada de cobra. S´imbora logo.”, ordenou.&lt;br /&gt;Nem bem disse e saiu à minha frente a passos largos, seguros, confiantes. E milagrosamente, sem saber como ocorria, o Senhor Sudário, como que me guiando, caminhou em direção ao córrego, logo abaixo da cachoeirinha, onde, eu sabia, havia a carcaça da Soberana, uma enorme vaca zebuína, morta há uns dois anos por uma urutu. Recolheu a carcaça e, sempre à minha frente, encaminhou em direção à cruzinha que homenageava o local da morte de Edinho, o primo da cidade que havia sido morto por uma cascavel enquanto colhia gabirobas, como já contei.&lt;br /&gt;Não sei se vocês conhecem pastos de cerrados, mas se não, saibam que os mesmos são recortados por trilhos feitos pelo gado e cavalos em sua busca por água e capim. São inúmeros os trilhos que se cruzam, formam encruzilhadas e, para quem não conhece, folrmam verdadeiros labirintos. Aqui no meu sítio do Baguaçu, não era diferente e caminhar pelos trilhos, passar adentro pelas capoeiras de mato sem se perder era ofício dos nascidos no local. Então, por isso, o que sentia ao ser guiado tão corretamente pelo Senhor Sudário, pelos trilhos dos pastos do meu cerrado era de muito difícil compreensão. Deveria estar eu a guiá-lo e o contrário era o que acontecia, Deus do céu.&lt;br /&gt;E fui atrás de seus passos largos até chegarmos à cruz.&lt;br /&gt;Lá o Senhor Sudário depositou, aos seus pés , a carcaça, deu um passo atrás e argüiu-me:&lt;br /&gt;- “Daqui de onde estou, de que lado nasce o sol?”&lt;br /&gt;Apontei a direção e o velho curandeiro posicionou-se , de forma a ficar com suas costas para a nascente e, com seu facão, a partir dos pés da cruz traçou, riscando forte e fundo, uma enorme cruz ao chão, cuja cabeça seguia em continuação dos pés da cruz de madeira.&lt;br /&gt;Terminada a feitura da cruz no chão, silenciou-se, fechou os olhos por alguns instantes e disse:&lt;br /&gt;- “É hora de tomar uma resolução para onde quer que eu mande embora as cobras.”, e apontando para o poente continuou: “Para lá sei que mora seu inimigo, mas não é bom, tocá-las para aquelas bandas...para onde você quer mandar?”.&lt;br /&gt;“Até dos meus inimigos, que guardo em segredo até de Lourdes, o velho curandeiro tem ciência”, pensei.&lt;br /&gt;Urgia decidir. Ao sul havia as furnas dos Ferreiras, lugar ermo, sem plantação e casas de moradia. Dizia-se, mesmo, que nos bem antes era habitado por bugres, que, temerosos pela quantidade de cobras que havia no local fugiram para os Altos do Chapadão, onde passaram a viver.&lt;br /&gt;O melhor, pensei, seria devolver à furna dos Ferreiras as amaldiçoadas cobras.&lt;br /&gt;Apontei a direção desejada e, imediatamente, o Senhor Sudário iniciou um outro traçado, unindo os braços e a cabeça da cruz que havia riscado no chão, formando um desenho parecido com um caixão de defunto.&lt;br /&gt;Terminado o desenho no chão, tirou do embornal um novelo de barbante e iniciou rezas de incompreensíveis orações; seus os olhos foram ficando vesgos, tortos, a boca soltando grossa espuma, enfim, endemoniando-se o homem. Com o barbante fez uma cerca sobre o traçado feito com o facão, para cercar as cobras deixando apenas um vão que ficava, justamente, nos pés da cruz de madeira. A cruz seria o vigia para impedir o retorno das amaldiçoadas cobras.&lt;br /&gt;Durou, a cerimônia, tempos, para mim, indefinidos.&lt;br /&gt;- “Pronto. Quando quer que elas se vão? Quer agora ou mais de tarde?”&lt;br /&gt;Atordoado por tantas novidades achei melhor acudir que elas fossem um mais tarde: precisava descansar de tamanhas tonturas.&lt;br /&gt;- “Agora, se puder, quero um café”, falou em voz baixa.&lt;br /&gt;Voltamos para casa e coei café. O velho curandeiro ficou fora, perto do curral. Coado o café levei o bule e duas canequinhas e sentamos para beber. Seus olhos indicavam que continuava a não querer prosa: almejava silêncio.&lt;br /&gt;E nem bem sentamos em uma pedra para bebermos o café ouvi, ao longe, um assobio forte tal e qual fazem os ventos em meses de chuva brava, como aqueles que vêm antes das chuvas de dezenove de março, a das enchentes de São José, e ele:&lt;br /&gt;- “São elas, já estão indo e que o diabo as carreguem!”, disse ao mesmo tempo em que fez o sinal da cruz.&lt;br /&gt;Nem bem terminou de beber a segunda canequinha, levantou-se, assoou forte o nariz, cuspiu no chão um cuspe preto e ordenou:&lt;br /&gt;- “Encilhe o cavalo para mim. Já tou´indoimbora. Sozinho.”&lt;br /&gt;Obedeci e enquanto arreava o cavalo o sibilo da fuga das cobras tornou-se mais próximo, atravessou o pasto em direção do cafezal, passou pelos fundos do quintal, ao lado do pequeno córrego e foi sumindo em seu tinido agudo para as bandas da furna dos Ferreiras.&lt;br /&gt;- “ E quanto lhe devo pelo serviço?”, perguntei.&lt;br /&gt;- “Tem paçoca de carne seca, já pronta? Tenho uns quatro dias de viagem de volta até minha tapera.”&lt;br /&gt;Quando voltei com a matula de paçoca o curandeiro já estava montado.&lt;br /&gt;Seus olhos permitiram apenas:&lt;br /&gt;- “Que Deus o ajude, minha benção.”&lt;br /&gt;- “Abençoado está. Inté.”&lt;br /&gt;E tocou o cavalo em direção à porteira. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-8455195423425040749?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/8455195423425040749/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=8455195423425040749' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8455195423425040749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/8455195423425040749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/04/o-encantador-de-cobras.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS: O ENCANTADOR DE COBRAS!'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S7iD_S6v32I/AAAAAAAAAIQ/Vd5Y0lCpqbw/s72-c/2009+Caminho+da+f%C3%A9+068retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-3642866327818449117</id><published>2010-03-12T12:22:00.000-08:00</published><updated>2010-03-12T14:21:46.714-08:00</updated><title type='text'>ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S5qi8EDf4OI/AAAAAAAAAII/qLA0f91D22s/s1600-h/2008+maio+tecidos+004retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5447845852022300898" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S5qi8EDf4OI/AAAAAAAAAII/qLA0f91D22s/s320/2008+maio+tecidos+004retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E assim, logo que o sol se despontou atrás do morro do Chapéu, todos foram chegando: de mansinho, quietos mas curiosos, olhos acesos e ouvidos atentos, mergulhados para dentro de si como que preparando a mente e os sentidos para ouvir histórias e mais histórias.&lt;br /&gt;Muitos eram velhos e a idade era sinalizada pelas barbas brancas nos homens e pelos cabelos grisalhos nas mulheres, algumas com cabelos longos, trançados, adornando a cabeça como uma coroa, coisa de muito antigamente, que não se usa mais; mas chegavam também jovens rapazes e moças: lindos em sua juventude, em seus dentes brancos à mostra em permanentes sorrisos, na força de seus corpos ágeis.&lt;br /&gt;Alguns, principalmente os mais jovens, traziam pesadas mochilas às costas enquanto outros puxavam, pelas alças, pequenas malas com rodinhas, que lembravam pequenos carrinhos com os quais haviam, certamente, brincado na infância.&lt;br /&gt;Eram todos contadores de história!&lt;br /&gt;Foram chegando e, cada um ao seu jeito, se acomodando. A arena ao ar livre, sob o céu azul, agora repleto de estrelas e com a lua cheia, gordona, tão enorme em sua claridade que era possível ver os rostos, os corpos e mesmo as mãos daquela horda de sonhadores.&lt;br /&gt;Sim, sonhadores, pois não sei se você sabe, mas contar histórias, é, de certa forma, indignar-se com a realidade: é criar uma memória não de fatos - estes muito pouco importantes – mas, antes, gestar uma memória de fantasias, de sonhos, daquilo que o contador confia ser o melhor que deveria ter acontecido.&lt;br /&gt;Resumindo, amigo leitor, no final das contas, ou melhor, no frigir dos ovos, o contador de histórias é um crédulo de que a memória do mundo pode ser corrigida, alterada, moldada sempre que a realidade não se mostra compatível com seus sonhos. Pois então, ali, naquele mundão sem fim, silêncio absoluto, todos, por dever e prática de ofício, sabiam que no momento de contar uma história, ocorre com seu contador uma metamorfose que o liberta da crua realidade e suas limitações que empobrecem as possibilidades de esculpir o mundo.&lt;br /&gt;As regras eram poucas, muito poucas. Cada um contava a história que queria e todos ouviriam silenciosa e respeitosamente, pois a história contada era também sua história.&lt;br /&gt;A ágape dos contadores deveria funcionar ininterruptamente, enquanto houvesse história a ser contada: uma espécie de palimpsesto oral onde cada história apagava a outra em um movimento contínuo, infinito.&lt;br /&gt;O primeiro a contar uma história foi um velho homem, com seus setenta e tantos anos: magérrimo, bastante calvo, barba feita, boca pequena, olhos oblongos negros - lúcidos em seu brilho –, mãos longas - próprias para pianista -; apresentava, enquanto narrava, movimentos largos e ágeis e, ao que parece, incontroláveis à racionalidade de sua mente, mas obedientes, sim, ao anseios de suas histórias.&lt;br /&gt;Disse que, se tivesse título, gostaria que sua história fosse chamada de MISTO.&lt;br /&gt;Sua história:&lt;br /&gt;“Amigos: eu nasci no interior do meu Ceará tão querido, ao meio da caatinga, sob o calor forte do perene sol e pouquíssimas suavizantes sombras.&lt;br /&gt;Meu pai tinha por lá uma fazenda onde vivíamos: ele - Seu Francisco-, meu pai, Dona Zulmira, minha mãe, eu, Gilberto e mais três irmãos: Paulo, André e Júlio. Minha mãe, um verdadeiro poço de carinho, dizia não entender direito porque logo eu, que de todos os seus filhos era o que mais gostava de falar, era gago. Mas mesmo gago, desde cedo, gostava muito mesmo de falar, de contar.&lt;br /&gt;Chegou então uma hora que me mandaram para capital estudar. Naqueles tempos havia, pelos lados onde eu nasci, um meio de transporte muito característico e que hoje não tem mais. Chamado de “MISTO” e era, como o nome diz, uma transmutação de caminhão metamorfoseado em ônibus: aumentava-se a boléia a ponto de que a mesma abrigasse, feito ônibus, de oito a dez pessoas sentadas em duros bancos de madeira e, claro que com isso diminuía a carroceria, mas não tanto a ponto de impedir que nela fosse transportadas dúzias de galinhas com suas perninhas amarradas com cipó, cabritos que berravam todo o tempo - reclamando, talvez, do calor e da sede -, quietas e pesadas sacas de arroz, gordas sacas de feijão de corda e pacotes e mais pacotes de doces rapaduras.&lt;br /&gt;Era em um misto que eu viajava da fazenda do pai até a capital para onde fui mandado morar para os necessários estudos.&lt;br /&gt;Em uma destas idas, voltando para capital depois de boas e longas férias, que me acomodei à boléia do misto, ao lado do Senhor Edmundo, meu padrinho de crisma, levando na carroceria caixas e mais caixas com dúzias de queijo coalho que minha mãe havia feito. Tantos queijos eram regalos e deveriam ser distribuídos, assim que chegasse à capital, para tios e tias, uns dois para o padre, Freio João, que foi quem me batizou e grande apreciador dos queijos de minha mãe; outros para o diretor do Ginásio, o senhor Everton, que os recebia sempre sisudo, e não agradecia; um para o Juiz de Direito, Doutor Moacir, e outros para os amigos do pai, e neste caso havia uma lista, escrita em papel jornal, pelo pai, com os nomes e na frente o número de queijos que eu deveria entregar a cada qual, sem revelar as outras entregas para não fomentar ciúmes entre os amigos, dizia, severo, meu pai: “nada dizer ao outro quantos queijos você entregou para o Pedro ou para o Rodolfo; diga simplesmente: Seu fulano: ta aqui o queijo, ou os queijos, que minha mãe fez e o pai mandou para o senhor, entendeu?”, “entendi, meu pai”, respondia,  enquanto pensava em Alterar a lista de modo a reservar um ou dois para minha professora predileta, Dona Rose, que, lindíssima em sua pele clara e olhos azuis sob os óculos redondos com aro de tartaruga, dava aulas de português.&lt;br /&gt;Mas como ia dizendo, íamos em nossa viagem: eu na boléia e, na carroceria, os queijos com as galinhas, cabritos e as sacas de mantimento.&lt;br /&gt;E foi então que, depois de umas seis horas de viagem, na divisa do município de Parambu, o misto foi parado pelo fiscais que, mal humorados, voz alta de comando, de imediato ordenou que o mesmo se acomodasse pouco mais à frente, sob a sombra de um juazeiro, para “poder melhor revistar tudo e todos, sem sobrar nada”, dizia um dos fiscais, o de de avental banco, escoltado por dois soldados com suas espingardas, ou fuzis, não me lembro mais, apontados para o alto em posição de sentido.&lt;br /&gt;Eu tinha, à época, uns quatorze ou quinze anos: tímido, gago e medroso destes negócios de soldado, ainda mais armados.&lt;br /&gt;E os fiscais e seus soldados, subiram na carroceria e esquecendo as galinhas, cabritos, sacas de arroz e rapaduras implicaram com os meus queijos: “Porque que tantos? Vai vendê-los? Se vai vendê-los, como penso, eu te pergunto rapazinho, seus queijos foram devidamente vistoriados pelo posto de saúde lá de seu município? Onde está o certificado de higiene?”&lt;br /&gt;E eu gago. Nervoso, mais gago ficava: como responder a tantas perguntas, feitas ao mesmo tempo, rápidas, em voz alta - autoritária - pelo fiscal de avental branco e sobrancelhas espessas, vigiado pelos soldados armados de espingardas de cano longo ou fuzis, não sei bem distinguir, esta é a verdade.&lt;br /&gt;Impossível, com minha gaguice aumentada pelo atávico medo que tinha de soldados, responder, argumentar, explicar para quem os queijos seriam oferecidos, mostrar a lista com os nomes dos amigos do pai que seriam agraciados com tão perfumado regalo, berrar alto que minha mãe era a melhor queijeira de todo o interior do Ceará, que todos os queijos coalhos que levava nada mais eram que inocentes presentes.&lt;br /&gt;Só, temeroso, pensava; a gagueira impedia-me a fala.&lt;br /&gt;E os fiscais e seus áulicos ameaçaram, caso se eu continuasse teimando em não responder às suas perguntas, jogar, ali mesmo na caatinga, os queijos, e o “fariam estritamente dentro da lei, pois saiba rapazote, que o que você está fazendo é crime: transportar perecíveis sem a devida inspeção; saiba, frangote, que isso é o mesmo que contrabandear alimentos, que dá pena de cinco anos...”&lt;br /&gt;E eu, gago, sem tempo e forças para defender-me e a meus queijos: “que joguem os queijos para os ratos da caatinga, mas Deus do céu, que não me prendam; se eu ficar cinco anos preso vou ter que faltar tantos dias das aulas no Ginásio que vou acabar repetindo de ano, e meu pai vai ficar bravo porque eu lhe prometi que nunca repetiria, que só teria boas notas”, pensava.&lt;br /&gt;Aí surge meu padrinho Edmundo:&lt;br /&gt;- “Mostre a ele sua carteira de estudante, Gilberto! Você é um estudante com carteira e tudo; mostre ao fiscal que logo, logo, neste fim de ano, antes do Natal, você vai se diplomar no Instituto de Educação Dom Bosco. Vamos, menino, ´mbora , tire logo a carteira do embornal”.&lt;br /&gt;Mais sereno por não precisar falar, tirei do fundo do embornal a carteira de estudante e, timidamente, ofereci-a. E nas mãos enormes do fiscal ela se apresenta, viva, com sua capa azul, com meu retrato três por quatro na primeira folha, todo sério, com a assinatura do diretor, Senhor Everton, bem legível com sua letra um pouco tombada à direita, com boas notas mensais, fora um quatro e meio em matemática e de outro em trabalhos manuais, com a parte das presenças não apontando nenhuma falta durante todo o ano.&lt;br /&gt;Devidamente vistoriada a carteira me é devolvida e eu a acomodo no fundo do embornal; aproveito para a acariciá-la com os dedos, em uma retribuição pelo feito: a danada da carteira azul de estudante salvou-me a mim e aos meus medos, respeitou minha gagueira, salvou os queijos coalhos feitos por minha mãe e, mais que isso, delicada, tornou-me homem àquela hora.&lt;br /&gt;Perdi o medo.&lt;br /&gt;E agora aproveitando já que o assunto é “misto” vou contar uma história acontecida em outra viagem, também indo de minha casa para a capital e tendo, mais uma vez, ao meu lado o padrinho Edmundo...&lt;br /&gt;Agora eu tinha uns dezesseis anos e estava no científico. Já era um rapazinho com as barbas querendo apontar, sujando as faces, cultivava um bigodinho ralo - penugens claras e finas acima dos lábios - e tinha a voz em mudança, motivo de ironia pela professora de canto orfeônico, que frente às diferentes e contraditórias entonações quando solfejávamos no coral, comentava : “tem um galinho cantando no coral?”.&lt;br /&gt;O que quero dizer é que era já um rapaz. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ao meu lado, na boléia do Misto, viajavam duas meninas, lindas, usando, ambas, vestidos de organdi bordados, pequenos e rijos seios, feito pequenas laranjinhas forçando, para fora, os botões da blusinha branca.&lt;br /&gt;E eu, ao lado, viajava quieto e tímido em minha gaguice, ou disfemia, como preferia a professora Rose, vestido com minha roupa nova de ir à missa. Entre o brim caqui de minhas calças e o organdi branco do vestido da linda menina sobrava por volta de um palmo de madeira de banco duro.&lt;br /&gt;Queria, mas faltava coragem, aproveitar os solavancos do misto para encostar minha perna na perna da que estava ao meu lado direito e diminuir aquela, para mim, absurda distância ente os tecidos caqui de minhas calças e o organdi de seu vestido. E se a cada solavanco a distância diminuía, a coragem de uma aproximação total não era suficiente. A uma certa hora ficou uma coisa que era nada mais que dois dedinhosde distância entre nossas pernas, e quase não se via a madeira dura do banco separando os tecidos de nossas roupas.&lt;br /&gt;Até que chegou a hora: em uma curva, onde o misto passava sobre o leito de um córrego seco, um buraco provocou um solavanco forte no duro misto, que fez sua vez e ajudou-me a vencer a timidez; nossas pernas se encostaram e misturou o brim caqui com o organdi branco.&lt;br /&gt;Senti o calor de sua perna junto a minha. Mudo, coração saindo pelas ventas, imóvel, penso: “Deixo assim, tão gostoso, encostada a minha perna? Será que ela está concordando com minha sem-vergonhice? E se ela, descontente e brava, resolve contar para o motorista desta minha ousada pouca-vergonha?”.&lt;br /&gt;Foram, penso, coisas de uns dois segundos com nossas pernas aquecendo-se mutuamente. Medroso, voltei à posição de antes do solavanco, e com as pernas desencostadas, dois dedinhos separando o organdi do caqui, me pus a pensar: “Será que ela percebeu? Será que, como eu, gostou?”.&lt;br /&gt;Olho firme no espaço entre os tecidos: uns dois dedinhos de madeira a separá-los.&lt;br /&gt;Veio um próximo solavanco, e com ele, um novo, mais forte, corajoso e demorado contato de pernas: “Se deixou encostar é porque está gostando”, pensava.&lt;br /&gt;Temeroso de ser descoberto olhei para meu padrinho; queria verificar se ele estava vigiando minha pouca-vergonha; morreria de vergonha, com certeza, se levasse dele um pito por tamanha safadeza de minha parte. Mas meu padrinho, quieto, olhava para os lados da paisagem seca e parecia, mesmo, que eu, para ele, nem existia.&lt;br /&gt;Outro solavanco, este menor, mas agora eu mais atrevido, fiz colar, novamente, minha perna na  da linda menina de vestido de organdi: e desta vez com tempo suficiente para sentir sua firmeza, sua quentura; meu coração teimava em querer sair do peito, fugir pela boca, ir para onde, não sei, talvez lá pelos meios da caatinga quente e rude.&lt;br /&gt;E assim, juntamente com o coração querendo sair pela boca, palpitando célere, que, inesperadamente e na pior hora possível, surgiu uma dor de barriga enorme, cólicas intestinais insuportáveis a exigir rápidas medidas de alívio ou o pior aconteceria.&lt;br /&gt;Tive que agir rápido: conhecia meus intestinos, minhas fraquezas. Vou até o motorista e , envergonhado, peço um tempo para cumprir minhas necessidades urgentíssimas.&lt;br /&gt;- “Logo ali na frente tem uma moita de gabiroba. Agüenta até lá. Aqui neste ermo de caatinga não tem como você fazer o seu serviço. Bebeu leite cru no curral da fazenda?”.&lt;br /&gt;E eu, penas cruzadas, temendo o pior, aguardei ansioso a capoeirinha de gabirobas!&lt;br /&gt;Chegou e, felizmente para minha timidez, o esconderijo ficava a uns quarenta metros da beira da estrada: sons que certamente ocorreriam, seriam inaudíveis, dada a distância dos passageiros.&lt;br /&gt;Dirigi-me, o tão rápido como minha situação permitia, pois correr seria desastroso, à moita de gabiroba; a vergonha da inusitada situação aliada ao perigo de que algo poderia ocorrer me fazia perder os sentidos.&lt;br /&gt;Protegido pelas ralas folhas das gabirobas, aliviei-me!&lt;br /&gt;O pior já passara! Agora era pensar em como retornaria ao misto e enfrentaria a menina de vestido branco de organdi. Com certeza, não teria coragem, mesmo que mil e um solavancos ocorressem, de encostar minhas pernas nas suas até o fim da viagem; não ousaria perguntar seu endereço na capital e nem mesmo seu nome descobriria.&lt;br /&gt;Bem que a mãe sempre dizia: “este menino tem dois problemas, pobrezinho: gagueira e intestino fraco”.&lt;br /&gt;Eu lá a pensar. O motorista tocou a buzina do misto para apressar-me! O “fommm! Fommm! Fom!...” rouco do misto invadiu a caatinga. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E o intestino resolveu voltar a funcionar: cólicas agudas aliadas a sons escandalosos que eram emitidos independentes de minha vontade, quanto mais tentava segurá-los mais as cólicas chegavam ameaçadoras, dolorosas, terríveis...&lt;br /&gt;Quão bom seria se faltasse pouco para chegar a capital: faria o resto da viagem a pé, diria, como desculpa, que precisava caminhar, que era uma penitência para pagar mortais pecados cometidos, ou mesmo, menos trágico, promessa feita para passar de ano; excelente idéia, penso: mesmo longe tenho certeza que o melhor é chegar até a capital a pé... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;De qualquer forma terei que informar isso ao padrinho e ao motorista: mas aí será um tempo curto, logo o misto vai embora e eu fico quieto com minhas vergonhas...&lt;br /&gt;- “Fom! Fommmm! Fommmmmmm!” chamava furiosamente o misto.&lt;br /&gt;- “ `Mbora, cagão!” berrou o motorista.&lt;br /&gt;E os intestinos a funcionar!&lt;br /&gt;Interminável e interminavelmente dolorosa a situação em que me econtrava, agachado atrás da rala moita das gabirobas, querendo morrer: “Até morte deve ser melhor que passar a vergonha que estou passando e que só vai piorar quando eu entrar no misto.”&lt;br /&gt;E a caatinga foi mais uma vez invadida por mais um sonoro “Fomm!” só que este curto, sem repetição, e me pareceu que interrompido pela voz de meu padrinho.&lt;br /&gt;Silêncio nas caatingas; dava para ouvir  ao longe o pio lamuriante do anu preto.&lt;br /&gt;Urgia de mais tempo para pensar em como entrar no misto.&lt;br /&gt;Sem solução a solução era enfrentar.&lt;br /&gt;Me ajeito e volto ao misto e subo em sua boléia sob o olhar dos passageiros. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Meu padrinho me recebe:&lt;br /&gt;- “Senta Gilberto. Fez tudo o que precisava? Está aliviado?”&lt;br /&gt;Gago, nervoso, não deu tempo para responder que sim.&lt;br /&gt;Me preparava para sentar e ele continuou:&lt;br /&gt;- “Você ouviu a buzina, menino?”&lt;br /&gt;- “Sim, padrinho eu ouvi, mas...”, iniciei, gaguejando, minha justificativa pela demora, mas fui mais uma vez interrompido pelo padrinho:&lt;br /&gt;- “Tinha nada que buzinar este puto...? Sabe o que eu disse a ele?”&lt;br /&gt;- “Não, padrinho, não sei o que o senhor disse.”&lt;br /&gt;- “Eu, meu filho, me emputeci e berrei alto: pare com esta buzina, seu corno, deixe o menino cagar.”&lt;br /&gt;A menina de vestido de organdi branco ajeitou cuidadosamente a saia de seu vestido, oferecendo o lugar próximo a ela.&lt;br /&gt;Sentei-me.&lt;br /&gt;Percebi havia sentado deixando coisa de um palmo de distância entre o caqui de minhas calças o organdi de seu vestido. Logo um pequeno solavanco diminuiu uns dois dedos a distância.... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-3642866327818449117?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/3642866327818449117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=3642866327818449117' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3642866327818449117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3642866327818449117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/03/agape-ou-historia-das-historias.html' title='ÁGAPE OU A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S5qi8EDf4OI/AAAAAAAAAII/qLA0f91D22s/s72-c/2008+maio+tecidos+004retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4246222813876592828</id><published>2010-01-20T05:06:00.000-08:00</published><updated>2010-01-20T07:33:16.268-08:00</updated><title type='text'>Gambeva ou Manditinga?</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S1cCeeBF4OI/AAAAAAAAAIA/McYhzKj8hQ0/s1600-h/2009guaraqueÃ§aba+009retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428810598295396578" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S1cCeeBF4OI/AAAAAAAAAIA/McYhzKj8hQ0/s320/2009guaraque%C3%A7aba+009retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Margoso é uma pequena vila, incrustada, feito um presépio, no meio do verde das árvores e do negro acinzentado das enormes e pesadas rochas da serra do Alto Porã. Foi lá, no Margoso, que encontrei o Seu João de Barros e Dona Lúcia, sua mulher.&lt;br /&gt;Ele, Seu João, muito magro, costelas à mostra sob a camisa de algodão, com uma verruga enorme, marrom, pouco acima dos bigodes grisalhos e logo abaixo dos olhos brilhantes, vivos, azuis. Seus cabelos, brancos, passado do grisalho, quase não se vê, enfiados, sempre, sob o chapéu de camurça. Conta suas histórias com a voz grave, melodiosa, que parece sair do fundo do peito, bolindo, para cima e para baixo, com o pomo de Adão no pescoço escuro marcado pelo sol; nas pausas de suas histórias, fazendo o papel de vírgula, seu dedo minguinho alisa a verruga e os olhos azuis se fecham , saboreando o intervalo silencioso, ganhado tempo para pensar nos fins de suas histórias.&lt;br /&gt;- “Margoso, de antes, era bem diferente. No lugar desta, agora, igreja branca com sino e tudo, o que tinha, mesmo, era uma pequena capela; mais embaixo, a duas quadras da praça, onde se tem o Grupo Escolar era a escolinha municipal, que foi onde encontrei Lúcia, minha mulher de há mais de cinqüenta anos. E sabe o senhor que foi na antiga capelinha que nos casamos? Pois foi: Lúcia, sempre muito bonita em seu vestido branco de organdi, eu com paletó de gabardine, gravata apertando o pescoço e o padre, solenemente paramentado, dando sua benção. No final do casamento, junto e mesmo depois dos cumprimentos, no jardim frente à porta da igreja, teve fogos e foguetes; e se quer saber mais ainda doutor, eu digo que também que foi nesta casa, onde estamos agora tomando café com leite e comendo bolo de fubá que sempre vivemos e criamos nossas filhas? Faz já muito tempo isso tudo. Nossas vidas... Daqui do Margoso até a cidade mesmo, com cartório, banco, cadeia e outras coisas se gasta mais de quatro horas se for a cavalo, e umas duas se for de trator, jipe ou caminhão, pois, sabe, doutor, que automóvel com seus luxos, ainda não passa por aqui: estrada com muitos buracos, subidas fortes e curvas perigosas feitas para desviar dos negros e profundos tembés rochosos, que arrodeiam toda a serra. Pois eu fui lá, na cidade, durante toda a minha vida, duas vezes e por necessidade pura: uma vez fui para acertar, no cartório, a papelada do sítio que herdei de meu pai e outra vez chamado pelo juiz para ser testemunha em júri no fórum da cidade: crime de morte. E foi só: por demais não gosto e penso que não careço de ver mais longe que do Margoso. Para mim, daqui do alto da serra do Alto Porã, dá para enxergar o longe, bem longe e já está bom demais.”&lt;br /&gt;Cheguei em Margoso - e veja só quem lê esta história: se realmente eu contasse imitando direitinho a fala do pessoal de Margoso, teria escrito que cheguei "no" Margoso, mas deixa isso para lá - ao fim do dia, quase noite, depois de andar uns trinta e poucos quilômetros, em mais uma de minhas intermináveis caminhadas pelo interior de Minas Gerais. A casa de Dona Lúcia e Seu João é o pouso indicado aos andarilhos que se aventuram por aquela região; lá se encontra cama limpa, banho, comida caseira e muita prosa. Para aproveitar a luz do dia, que ainda tinha, fui, antes mesmo das prosas, para o tanque no quintal, coberto com folhas de palmito, com uma torneira de água clara e farta, escova de piaçava, bola de sabão de pedra, feito com soda e mamona; carecia lavar as botas e as meias imundas de tanto pó, a bermuda e a camiseta marcadas pelo suor do dia quente e pelas alças da pesada mochila.&lt;br /&gt;Dona Lúcia, bem falante, é fisicamente, o oposto do marido: cheia de carnes recheando e dando formas arredondadas ao corpo, seios abundantes, quadris largos no alto de suas pernas curtas e grossas. Bonita e, pela tintura dos cabelos e pelas unhas esmaltadas, vaidosa em seus mais de cinqüenta anos. Rigorosa e prestativa, ao ver meu pouco caso em lavar as botas e a camiseta toma meu lugar:&lt;br /&gt;- “Posso lavar para o senhor? Acho melhor...”, disse ao mesmo tempo em que recolhia do varal a camiseta que, embora lavada teimava em mostrar manchas escuras provocadas pelo suor, pó e atrito com as alças da mochila; e enquanto lavava:&lt;br /&gt;- “Amanhã vai ser dia de festa na igreja. É dia da Padroeira e vai ter quermesse com leilão de prendas logo depois da missa rezada pelo padre. Por que não fica? Gosta de festa?”&lt;br /&gt;Me comove, na verdade me fascina, festas singelas, sem cheiros de modernidade! Uma outra vez, também em uma pequena cidade de Minas, numa dessas festas tive a oportunidade de saborear, em plena praça da igreja, uma canja de galinha cozida em enorme panela de ferro, servida com fartura em prato fundo; e foi assim, com o prato cheio de canja repousado no colo, uma colher, um banco de jardim, lua e estrelas ao céu, o zunzum de gentes falando ao redor e mais ao fundo, de dento da igrejinha, a voz do padre dizendo a missa, com a sopa aquecendo a garganta e o estômago, que me lembrei do que diz uma amiga que se tornou cozinheira famosa: canja é uma comida que fortalece a alma.&lt;br /&gt;Mas para não encompridar mais ainda está história: aceitei imediatamente ao convite, acertei o preço de mais um almoço, uma jantar e uma noite na pousada da Dona Lúcia e foi assim, por causa de uma festa na igreja, que passei em Margoso um domingo ensolarado e quente.&lt;br /&gt;Acordei cedo e dei de cara com o Seu João na sala, os olhos grudados em uma televisão com imagens em branco e preto e o som quase no zero para não fazer barulho, provavelmente preocupado em não me incomodar. Na tela um programa rural falando de pescaria de fieira.&lt;br /&gt;E você, leitor, já ouviu falar de pescar de fieira? Deixando de lado a preocupação em esticar mais ainda esta história , vou contar. Muito simples: é um tipo de pesca possível de ser realizada apenas em pequenos córregos pedregosos, onde haja fartura de gambeva e pequenos mandis, melhor dizendo, manditingas. O instrumento de pesca, em vez da tradicional vara e anzol, é uma forquilha tirada de qualquer árvore, não precisa ser de jabuticabeira ou de goiabeira, as melhores para forquilha de estilingue, e linha destas de costura, sendo melhor as mais grossas, número cinqüenta, se não me engano. Pois então, pega-se as minhocas, bastante, e com a ajuda de uma agulha, “costura-as” na linha, como que vestindo-a, tendo sempre o cuidado de deixar pontinhas para, nelas, as gambevas ou manditingas “mamarem” para serem fisgadas. E assim, depois de vestida de minhocas, é que se amarra a linha nas pontas do Y da forquilha, fixando-a bem. Depois , acertado o poço onde será realizada a pescaria, vai-se até alguns metros acima do mesmo e com enxada ou um pequeno enxadão joga-se bastante terra na água turvando-a ponto de impedir que as gambevas, ou manditingas, com seus olhinhos miúdos e negros, enxerguem o pescador, seu algoz. Tomada estas precauções vai-se à pesca propriamente dito: mergulha-se a fieira com as minhocas nas águas barrentas do poço e depois de alguns segundos ergue, silenciosa e suavemente, a fieira acima do nível da água; a fieira vem, então, carregada de gambevas ou manditingas dependuradas, que, sentindo a falta d´água caem em uma bacia ou peneira colocada sob a forquilha. Pega-se o bastante para a mistura de uma refeição, porque mais não precisa: tanto gambeva como a manditingas fritas são deliciosas, tenras, carne branca sob a pele escura, sem escamas.&lt;br /&gt;Voltando a nossa história, percebo que tirei o sossego do Seu João que, ao me ver de pé, imediatamente desliga a televisão e:&lt;br /&gt;- “Bom dia! Estou indo à padaria buscar pão. Em um momento já estou de volta para o café.”&lt;br /&gt;- “Posso ir junto?”, pergunto por perguntar, e o acompanho rua abaixo.&lt;br /&gt;- “ ´dia seu João.”&lt;br /&gt;- “ ´dia seu André. Hoje, tem andarilho aqui em casa; então quero seis pãezinhos; manteiga já temos e o leite trouxe do sítio, não carece.”&lt;br /&gt;- “Tá certo...vai na quermesse, seu João?”&lt;br /&gt;- “Ocha se vou, e o senhor aqui do lado, o andarilho, também. Viu o programa de pesca na televisão seu André?”&lt;br /&gt;- “Vi sim, pesca de fieira; e olhe que deu sorte pelo tanto de gambevas que o danado pegou.”&lt;br /&gt;- “Gambeva, não, seu André, foi manditinga.”&lt;br /&gt;- “Me pareceu gambeva, seu João: pele negra, barbatana comprida. A manditinga ...”&lt;br /&gt;Seu João desconversou:&lt;br /&gt;- “Bem, ta´qui o dinheiro do pão, tenho que ir; mas foi manditinga, sim, conheço bem peixe.”&lt;br /&gt;No caminho de volta por duas vezes Seu João resmungou em voz baixa:&lt;br /&gt;- “Foi manditinga ..., conheço bem de peixe.”&lt;br /&gt;No café da manhã, além dos pãezinhos, leite, café amargo, bolo de fubá e banana da terra frita. Enquanto comíamos, os três, conversávamos. E o Seu João, insistindo:&lt;br /&gt;- “Pois então Lúcia, na televisão hoje teve pesca de fieira; se lembra o tanto que a gente pescou de fieira no córrego do Bom Jesus. Lá se pegava gambeva, mas no programa de hoje o que pescaram foi manditinga.”&lt;br /&gt;- “Para mim tudo igual: parecido demais, difícil de saber. O que sei é que gosto delas fritas, depois de passadas no fubá.”&lt;br /&gt;- “Bem diferentes. A gambeva tem a pele mais...”&lt;br /&gt;E agora quem desconversou foi dona Lúcia:&lt;br /&gt;- “Tá bom João, mas é muita precisão. E o bolo de fubá, está de seu gosto? E o senhor andarilho, pronto para a quermesse?”&lt;br /&gt;Depois do café saí a caminhar pela vila do Margoso. Em um banco do jardim, frente à igreja, fico assistindo o movimento das pessoas terminando de montar as barraquinhas para a quermesse.&lt;br /&gt;A praça, pequena, vai se povoando das gentes do lugar. As mulheres em seus vestidos de domingo, os homens, todos de chapéu, com camisas bem passadas, botinas limpas de barro, crianças pelas mãos...Fila de mulheres, dentro da igreja, para a confissão. Os homens de fora, esperando a hora da missa começar.&lt;br /&gt;Conversam:&lt;br /&gt;- “Acho igual ao Seu João, que foi manditinga o que pescaram na fieira; pele mais clara que gambeva.”, fala do alto de seu mais de um metro e oitenta o seu Ricardo, fazendeiro e velho morador do Margoso.&lt;br /&gt;- “Acho não. Sei que a manditinga tem a pele mais clara, pois daí é que vem seu nome, tirado do tupi: mandi + -tinga (tupi 'tinga 'branco, claro'), mas a da pesca de hoje na televisão foi gambeva, mesmo.”, replica, garboso em sua profissão de professor de português, o Álvaro.&lt;br /&gt;Nisso o padre, sai à porta da igreja e chama a todos para a missa que vai começar.&lt;br /&gt;Bom ir logo porque depois da missa vai ter quermesse com leilão de muitas prendas: frango assado, bolo, garrafas de vinho e, segundo, Dona Lúcia, até uma paca assada pela mulher do seu Higino. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bom demais.&lt;br /&gt;Missa rezada e a praça, de novo, torna-se toda povoada das diversas pessoas: pais, mães, filhos, solteiros, casados, moças e rapazes e até dos soldados e do vice-prefeito que vieram, de jipe, da cidade, prestigiar a festa da padroeira.&lt;br /&gt;Fogos e foguetes. Bum! Bum! Rolinhas voam assustadas!&lt;br /&gt;Começa o leilão das prendas para arrecadar fundos para a pintura da igreja.&lt;br /&gt;Dona Lúcia, amiga do padre, inventa um jeito e me coloca como a pessoa que, ao lado do leiloeiro, segura a prenda para que a mesma fique no alto, mais à vista de todos.&lt;br /&gt;E o leiloeiro com sua voz forte, sonora:&lt;br /&gt;- “E aqui, a primeira prenda, um frango assado, todo recheado, oferta da família Santana. Quanto me dão por este delicioso frango?”&lt;br /&gt;E eu lá, com a obrigação de erguer o frango desfilando-o bem visível aos interessados.&lt;br /&gt;- “Damos dez.”, responde um grupo sentado em uma das mesas, com garrafas de cerveja abertas, alegres, falantes.&lt;br /&gt;- “Quinze”, responde o outro grupo, “cobrimos com quinze, e vamos, nós, comer este frango.”&lt;br /&gt;E o leiloeiro:&lt;br /&gt;-“Quinze, oferece o pessoal da mesa à nossa esquerda. E é só? Quem dá mais?...&lt;br /&gt;- “Vinte...damos vinte, para comer agora, com a cerveja gelada.”, grita alto o pessoal da primeira mesa, na qual estava o Seu João.&lt;br /&gt;E a disputa correu solta: deu para perceber que na mesa do Seu João estavam os que achavam que o peixe pescado na fieira foi manditinga e, na outra mesa, os que defendiam que havia sido gambeva, o peixe pescado.&lt;br /&gt;Era o que dava para ver, do alto do coreto, junto ao leiloeiro, segurando o cheiroso frango assado, ainda quentinho, envolto em papel celofane .&lt;br /&gt;- “Vinte..” grita o leiloeiro e, com seu martelinho improvisado, batendo forte sobre a mesa, “dou-lhe uma!...Vinte! E dou-lhe duas...”&lt;br /&gt;- “Vinte e cinco, nós é que vamos comer”, cobre a oferta, Seu João.&lt;br /&gt;- “Trinta! Comam manditinga, que nós vamos comer é frango”, responde a mesa do pessoal da gambeva.&lt;br /&gt;E o leiloeiro:&lt;br /&gt;- “Trinta! Trinta! Trinta!...Quem dá mais? Dou-lhe uma, trinta! Dou-lhe duas. Trinta! Trinta pelo frango! E dou lhe....Quem dá mais? Ninguém? É pouco, o frango vale, quem dá mais? Ninguém? Então dou-lhe três! Quem come o frango é pessoal da gambeva.”&lt;br /&gt;E enquanto, batia forte o martelo na mesa, ordenou para que eu entregasse o frango ao pesssoal da mesa com o lance vencedor.&lt;br /&gt;Então: Viva a gambeva, e acabou –se!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4246222813876592828?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4246222813876592828/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4246222813876592828' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4246222813876592828'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4246222813876592828'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2010/01/gambeva-ou-manditinga.html' title='Gambeva ou Manditinga?'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/S1cCeeBF4OI/AAAAAAAAAIA/McYhzKj8hQ0/s72-c/2009guaraque%C3%A7aba+009retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-6299272403049966325</id><published>2009-12-20T02:40:00.000-08:00</published><updated>2009-12-20T11:03:17.327-08:00</updated><title type='text'>FIQUEI VELHO!</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sy4AFzIJnlI/AAAAAAAAAH4/gNikq9Ld40A/s1600-h/2009+Caminho+da+fÃ©+069retoc..jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5417267501397024338" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sy4AFzIJnlI/AAAAAAAAAH4/gNikq9Ld40A/s320/2009+Caminho+da+f%C3%A9+069retoc..jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Fiquei velho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz tempo, que fiquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, na biblioteca de uma colônia de férias, caiu-me às mãos um enorme ensaio da Simone de Beauvoir , A VELHICE, livrão pesado que compete, em grossura e número de páginas, com OS SERTÕES do nosso Euclides ou mesmo com A MONTANHA MÁGICA do Mann. Não li todo o ensaio e só posso compará-lo com as obras aqui citadas, apenas pelo volume... Mas, me recordo que uma das anotações da autora a respeito da velhice é a que sempre pensamos que a idade chega aos outros e não a nós, e naqueles dias em que lia o ensaio, pensei que aquela conclusão talvez fosse influência do companheiro Sartre: “o inferno são os outros”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas chega à gente, sim!&lt;br /&gt;Quero dizer, se você não morre cedo, a idade e a velhice chegam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cada um vai descobrindo a sua chegada de um modo.&lt;br /&gt;Rubem Alves, em uma crônica, há tempos na Folha, fala de sua - agora - “implicância” em ser fotografado de perfil: a papinha ou a barbela, que nas fotos de perfil aparece abaixo do queixo, para ele, sinaliza o envelhecimento.&lt;br /&gt;Um bom amigo, me disse, que se surprendeu no dia em que, no metrô, uma bonita jovem ofereceu-lhe o lugar e, depois, feliz pela prática da boa ação, olhou carinhosamente para ele com olhos de neta. Sorte, disse-me ele, a bela moça não ser “escoteira” e agradecer a boa ação diária com os dois dedinhos no alto da face dizendo em voz alta: “Sempre alerta”.&lt;br /&gt;Moro em uma casa aqui na Serra da Cantareira e tive, durante alguns anos, como vizinho, um chileno educadíssimo, amante de bons vinhos, de fotografia e de uma boa prosa. Victor é o seu nome. Pois bem: ele tinha uma sobrinha, com pouquíssimo tempo de Brasil, àquela época com uns cinco ou seis anos, falante e graciosa com seu rostinho emoldurado pelos negros e lisos cabelos, parecendo uma indiazinha. Em uma tarde estava a podar plantas no jardim quando ouvi Camila, a sobrinha de Victor, aos berros em seu quintal, ao lado da piscina. Chorava alto e dolorosamente.&lt;br /&gt;Depois descobri: sua tia “aproveitou”, enquanto Camila dormia, e saiu para realizar pequenas compras; ocorre que a nossa indiazinha deve ter acordado mais cedo que o normal em seu sono vespertino e se viu só na enorme casa, com um medo enorme dos tucanos que berravam no alto da paineira, medo da solidão, de não ter a tia a oferecer-lhe leite com Nescau, nem os primos para jogá-la de roupa e tudo na piscina... Assim berrava e berrava a pequena chilena!&lt;br /&gt;Resumindo: me muni de uma escada, pulei o muro, fui até o quintal do vizinho e, com o apoio da mulher, “salvamos” a pequena Camila que ficou conosco até a chegada da tia. Em casa imediatamente se acalmou, ficou toda prosa, tomou leite, comeu bolo, e, a partir dali, tornou-se visita freqüente às tardes sempre pedindo bolo de chocolate, sua paixão. Mas voltando à velhice, assunto desta história: sempre que lhe perguntavam sobe o ocorrido naquela tarde, Camila dizia: “fiquei com muito medo e chorei até que um velhinho pulou o muro e veio me salvar.”&lt;br /&gt;E agora de volta aos bancos azuis do metrô.&lt;br /&gt;Estava indo da Sé para a República quando uma jovem ofereceu seu lugar a um senhor que, junto comigo, estava sem local para sentar.&lt;br /&gt;O velho agradeceu a gentileza:&lt;br /&gt;- “Obrigado, estou bem, e, também, desço na próxima” e olhando para mim: “Não quer sentar?”&lt;br /&gt;- “Também, quero não. Desço na República, obrigado, não vale a pena.”&lt;br /&gt;Travamos ali uma amizadezinha:&lt;br /&gt;- “Quantos anos você tem?”, perguntou-me.&lt;br /&gt;- “Sessenta e três”, o que dá para concluir que esta nossa historia no metrô ocorreu já há bastante, ou sendo generoso, algum tempo.&lt;br /&gt;- “Mas você está bem, parece forte. Tenho sessenta e sete, fiz agora, no dia seis do mês passado.” E para seus sessenta e sete, realmente, o velho era saudável e se equilibrava firme, braços erguidos com as mãos segurando forte na alça de apoio do vagão do metrô. Assim estávamos os dois, próximos, dependurados no apoio do vagão: ambos magros, bastante calvos e as com as nossas enormes orelhas cheias de pelos abanando e ocupando razoável espaço naquele vagão do metrô. Com certeza, caso houvesse alguma jovem mulher no vagão, estaria olhando para nós como dois simpáticos e fortes vozinhos.&lt;br /&gt;- “Mas o senhor está muito bem aos seus sessenta e sete”, disse.&lt;br /&gt;- “Sim, estou bem, forte e cada dia mais feio. Tenho espelho lá em casa, me vejo todas as manhãs e o mesmo não me deixa mentir. Bem, desço aqui no Anhangabaú. Tchau!”&lt;br /&gt;E desceu rápido, passos firmes, ombros erguidos sem nenhum sinal de corcunda no corpo magro...Feio.&lt;br /&gt;Mais uma história. Foi em um almoço onde o prato principal era uma deliciosa feijoada. Entre os participantes desse almoço, um senhor, velho como eu, talvez uns dois ou três anos a mais, o que em nossa idade é zero, muito diferente de quando se tem treze anos e encontra um “menininho” de dez, que achamos insuportável em sua infantilidade. Voltando a este velho: me disse que praticava yoga, era vegetariano, não comia carne e ficou, realmente, um tempão frente a enorme panela da feijoada, catando grãos de feijão e um pouco de caldo que misturou ao arroz e couve; nada de carne, toucinho, costelinha defumada e, nem mesmo, um pedacinho de carne-seca.&lt;br /&gt;Fez seu prato e sentou-se a meu lado para comer e conversar. Assunto principal: velhice. E eu tomando coca light em homenagem a diabetes e ele com sua feijoada vegetariana!&lt;br /&gt;Mas era forte, saudável e um pouco falante demais o meu vizinho de mesa.&lt;br /&gt;Não perguntei, mas descobri sua idade:&lt;br /&gt;- “Tenho sessenta e oito anos, mas me sinto como se tivesse vinte, não vejo nenhuma diferença”, disse, iniciando a conversa enquanto, ao mesmo tempo, dirigia um olhar lascivo para a jovem e morena garçonete que ajudava nas tarefas de por a mesa.&lt;br /&gt;Eu um pouco sem paciência:&lt;br /&gt;- “Eu me sinto bem aos meus sessenta e cinco, mas muito diferente de quando tinha vinte anos.”, respondi.&lt;br /&gt;E ele:&lt;br /&gt;- “É mesmo? Por que?”.&lt;br /&gt;E eu:&lt;br /&gt;- “Bem...há muitas coisas que fazia aos vinte as quais não faço mais”, respondi.&lt;br /&gt;E o velho falador, que não tirava o olho da garçonete morena, quase a desnudando em público:&lt;br /&gt;- “Verdade? Ah, comigo não! O que você não faz agora e que fazia quando tinha vinte?”, desafiou-me enquanto continuava a desnudar a garçonete que, agora, à luta com a travessa de couve, era obrigada a curvar-se, deixando parte das belas pernas à mostra.&lt;br /&gt;- “Não jogo futebol como jogava”, disse.&lt;br /&gt;A conversa foi encerrada. Comemos em silêncio: eu a feijoada e minha coca light e ele, agora calado, o seu prato de arroz, caldo de feijão e couve.&lt;br /&gt;E só para terminar cuidando para que esta historinha não fique tão longa como o ensaio da Simone de Beauvoir - atenção ao “tão longa”, pois longe de mim querer competir com a velha francesa em profundidade, qualidade na escrita e competência - vou contar de uma vez quando voltava de uma caminhada de dez dias pelo Caminho da Luz. Cansado da caminhada, após desembarcar na estação Rodoviária do Tietê, pegar o metrô e depois um ônibus até o ponto final, já no pé da serra, tomei um táxi para subir a Cantareira até minha casa; e foi aí, neste percurso pela estradinha da serra, que conversa vai, conversa vem: "Mas onde mesmo o senhor foi? Quantos dias andou caminhando no meio do mato? Dormiu em barraca?" . Enfim, satisfeitas as primeiras curiosidades, o taxista deu-me tempo para, por minha livre e espontânea vontade, dizer:&lt;br /&gt;- “Gosto muito de caminhar, ficar só comigo mesmo por alguns dias no meio do mato. A gente, quando está envelhecendo, precisa disso.”&lt;br /&gt;E o velho motorista de táxi, agilmente:&lt;br /&gt;- “Envelhecendo não: já somos velhos.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-6299272403049966325?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/6299272403049966325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=6299272403049966325' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6299272403049966325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6299272403049966325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/12/fiquei-velho.html' title='FIQUEI VELHO!'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sy4AFzIJnlI/AAAAAAAAAH4/gNikq9Ld40A/s72-c/2009+Caminho+da+f%C3%A9+069retoc..jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-7438471000930232348</id><published>2009-12-04T10:45:00.000-08:00</published><updated>2009-12-06T10:21:41.353-08:00</updated><title type='text'>EREMITAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxlZHjxwa8I/AAAAAAAAAHw/7q75xKx07Rk/s1600-h/caminho+da+luz022retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411454413660253122" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxlZHjxwa8I/AAAAAAAAAHw/7q75xKx07Rk/s320/caminho+da+luz022retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Não sofro pela solidão; já é bastante esforço alguém tolerar a si mesmo e as suas próprias manias.” Jorge Luís Borges, “in” O livro de areia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Não sei se com vocês, mas, em mim, a figura do eremita sempre exerceu um fascínio inexplicável. Ainda criança, via do curral de casa, ao longe, o Morro do Baguaçu que tinha ao seu pé, uma arredondada mancha amarelo avermelhada contrastando com o verde da vegetação ao seu redor e o negro de suas rochas; era a, para mim, inatingível, caverna do bugre Brechó: “é lá que mora o Brechó, negro de uma só perna, feroz e hábil na luta e na briga tamanha a facilidade que tem em manusear sua muleta”, dizia Antônio, um de meus irmãos. “Pode ir lá?”, perguntava e a resposta era sempre um “só vai quem gosta de morrer”. Aquilo me intrigava; o amarelo avermelhado da gruta e a sempre presente interrogação de como seria a vida do Brechó em sua caverna ao pé do morro. O que e como ele comia? Onde dormia? Será que, à noite, não tinha medo de onça? E também pensava no que o Brechó fazia para passar o tempo lá, tão só.&lt;br /&gt;Mas foi então, com meus sessenta e tantos anos, já até meio esquecido do Brechó e do Morro do Baguaçu, que fui me embrenhar para conhecer um parque estadual do sul do país: seus cânions, cachoeiras, rio caudaloso, longas caminhadas foi o que me tirou do sossego de casa para a uma viagem, até lá, de mais de oito horas de carro. A uns dez quilômetros para chegar à pequena cidade onde permaneceria - sob intensa chuva, mau sinal para o que eu planejava fazer - uma placa aponta para uma pequena estrada calçada de pedras: a sede do parque estava há quatro quilômetros, à direita. Tomo a estradinha pedregosa, estreita, da qual se via, logo “lá em baixo” a casa que, imaginei, deveria ser a sede do parque; vista do alto, a pequena casa branca, com o grande cânion ao fundo era de um encanto assustador.&lt;br /&gt;A uns quinhentos metros da sede, encontro Carlos - depois vim saber, um guia - que, em trabalho voluntário, estava a consertar o mata-burros, vítima das fortes enxurradas causadas pelas chuvas da semana. De dentro do carro trocamos os tradicionais: “Oi, tudo bem?”, “Sim tudo bem, fora a chuva?”, “É ali, naquela casa, a sede?”, “Sim, é ali mesmo”, “Obrigado, tchau”, “Tchau”. Na sede obtenho as informações e os mapas dos passeios possíveis de serem realizados sem guia, e daqueles que, necessariamente, teria que ter o apoio de um guia credenciado; quando me despeço para ir para a pousada, sou tímida e educadamente solicitado pelo guarda-parque a oferecer uma carona para Carlos.&lt;br /&gt;Abrindo parênteses. Tenho, acentuada com a idade, com certeza, uma boa dose de birra dos guias com, via de regra, seus discursos “científicos”; não tenho mais, talvez nunca tenha tido, o mínimo interesse em saber se a tão amiga e esbelta “embaúva” chama-se “cecropia pachystachya” e que é, a pobre coitada, uma planta dióica; o que quero é ver a embaúva, relembrar o tanto de bicho preguiça que vi alimentando-se de suas bananinhas, rememorar a serra da minha infância coalhada de suas folhas prateadas... Enfim, o que quero em minhas andanças é sossego e não saber; o que quero é vislumbrar-me, me emocionar com o vazio, com o silêncio das palavras a salientar o canto dos pássaros ou o assoprar dos ventos. Fecham-se os parênteses.&lt;br /&gt;Carlos, o guia, é um homem alto, com mais de um metro e oitenta, magro, pernas longas, jovem em seus trinta e poucos anos, rosto claro marcado pelo sol, cabelos fartos, tímido, educado, fala mansa. Enquanto conversamos Carlos me orienta a chegar até a pousada e, com um certo desânimo em relação ao tempo, se propõe a, caso o mesmo melhore, realizar comigo, no dia seguinte, uma caminhada que daria uma visão geral do parque, do cânion, e, de sobra, duas ou três cachoeiras: oito horas de duração entre caminhada, descanso, lanche e banhos de cachoeira. Isso, claro, se o tempo mudasse, e ao se despedir:&lt;br /&gt;- “O pessoal da pousada tem meu telefone. Se o tempo estiver bom, é só pedir que eles me ligam. Daqui da pousada em casa são dois ou três minutinhos. Obrigado pela carona e boa noite.”&lt;br /&gt;- “Boa noite, Carlos. Se o tempo estiver bom, te ligo.”&lt;br /&gt;Inacreditável, parece mesmo mentira, mas o dia amanheceu sem nenhuma nuvem, com o céu azul à mostra e o sol brilhando forte, aquecendo as árvores molhadas e úmidas.&lt;br /&gt;À caminhada, pois!&lt;br /&gt;Ao fim da tarde, depois da subida, por trilha, do poço da última cachoeira do dia, com mais de duzentos metros de altura, exaustos - eu, pelo menos - Carlos propõe:&lt;br /&gt;- “Vi que anda bem. Assim, se quiser, amanhã a gente pode descer o cânion, contornar o rio, visitar a cabana de um eremita que vive isolado no parque; lanchar junto à cabana do eremita, retornar e lá por volta das quatro da tarde, tomar um café reforçado na casa de uns colonos amigos. Andando bem, lá pelas seis da tarde estaremos de volta na pousada. Caminha-se uns trinta e pouco quilômetros, ida e volta, e o eremita que vamos visitar, se o senhor quiser ir, é o meu pai.”&lt;br /&gt;As palavras “visitar um eremita” boliram fundo com a minha curiosidade.&lt;br /&gt;Impossível não ir. Acertamos quanto ao lanche a ser levado, horário de saída - “temos que sair bem cedo” - e fui deitar pensando na figura do eremita: cabelos longos, barbas grisalhas, peito desnudo, calcanhares calejados nos pés descalços?&lt;br /&gt;Saímos às seis horas: mochila com lanche, água, um potente binóculos – que se tornou a paixão do Carlos – e uma disposição enorme alimentada pela beleza do cânion, pelas rochas esculpidas em suas encostas, pelo rio tão lá em baixo com suas águas correndo forte entre pedras formando pequenas quedas e pela ansiedade de encontrar o eremita. Durante a caminhada não tocamos no assunto do eremita, pai de Carlos.&lt;br /&gt;Já havíamos alcançado os fundos do cânion e caminhado há mais de uma hora margeando e ouvindo bem de perto o barulho das águas do rio quando, assim que atravessamos um pequeno córrego pedregoso, com águas límpidas e claras, com muitos lambaris à vista, Carlos aponta:&lt;br /&gt;- “É ali, a cabana do eremita, meu pai.”&lt;br /&gt;Na pequena clareira uma pequena cabana, com as paredes de bambus amarrados e justapostos muito próximos uns aos outros, vedando a entrada da água das chuvas e a cobertura feita com folhas de uma palmeira típica da região, também caprichosamente executada; as paredes de bambus tão justapostos e a cobertura com as folhas da palmeira conferiam, à pequena cabana, ares de um “bunker” com um pé direito de mais ou menos dois metros de altura e com uma área de, no máximo, oito metros quadrados, contemplando a cozinha e a sala e quarto. Vista por dentro, lembrou-me uma pequena “kitchenete” que morei quando estudante: aqui, em um dos cantos da cabana, uma pequena cozinha com panelas e frigideira limpas e areadas pousadas no fogão de taipa, sobre uma pequena bancada de bambu dois pratos de ágata, garfos e um facão enorme, com cabo de osso; na sala, contígua à cozinha, a cama sob a pequena janela, também feita com bambus, protegida por um colchão usado e gasto. Em toda a cabana um cheiro de limpeza, asseio e ordem.&lt;br /&gt;- “Benção, pai.”&lt;br /&gt;- “Deusabençoe, filho!”&lt;br /&gt;O eremita estava barbeado, tinha os cabelos aparados e curtos, aparentava ter a minha idade, peito à mostra no corpo musculoso, magro, dentes brancos e um olhar intenso e curioso.&lt;br /&gt;- “Pai, este senhor é de São Paulo e veio aqui conhecer o vale e o rio”, apresentou-me Oscar.&lt;br /&gt;- “Prazer, meu nome é Tiago.”&lt;br /&gt;Era hora do lanche. Tiro da mochila três bananas, ofereço ao eremita Tiago, que sem cerimônia, aceita duas, comendo-as rapidamente. Fala com elegância, voz clara de tenor, acentuando o sotaque típico da região. Reclama do cachorro, que pelo visto, era o xodó de Carlos:&lt;br /&gt;- “Caga de medo de onça, o peste. Esta noite mesmo, por causa da lua, ela veio por aqui e o Tarzan, ao invés de atacar fugiu, ganindo morro acima. Que adianta cachorro que tem medo de onça? Só para gastar com comida?”&lt;br /&gt;Carlos diz que vai ao rio desocupar. Ficamos o eremita e eu , sentados em um banco sob a árvore; comemos mais bananas e umas cenouras quando ele disse que aquilo seria seu almoço.&lt;br /&gt;- “E o seu?”, perguntou.&lt;br /&gt;- “O meu também: hoje nosso almoço é de bananas e cenouras”, respondo.&lt;br /&gt;- “Ontem jantei mandioca e lambaris fritos. Comi bem demais. Quer ver a roça de mandioca?”&lt;br /&gt;Fomos.&lt;br /&gt;Sua tapera, que é como ele chama sua cabana, ficava a uns trinta metros da base de uma grande montanha rochosa e a uns cinqüenta do rio. “Os guardas do Ibama estiveram aqui e implicaram com a minha roça. Me disseram que deste jeito, com o desmatamento, as pedras da montanha podem se desmoronar e rolar em cima da minha tapera. Mas, olhe doutor, eu não acredito: se Deus colocou ali aquelas pedras desde os eternamente, porque agora iriam querer sair de lá, para justamente, vir derrubar minha tapera? Besteira.”&lt;br /&gt;Não consegui, na hora, formar minha opinião: estariam corretos os ficais do Ibama? Será que o desmatamento provocado pela roça de mandiocas do eremita Tiago - que se limitava a uns trinta pés da planta, em um quadrado de vinte metros por vinte - poderia, mesmo, em longo prazo fazer rolar as imensas rochas que ficavam ao pé o morro? Sei não!&lt;br /&gt;Nem bem Oscar, após ter cumprido suas necessidades à beira do rio, se aproxima, seu pai muda de assunto:&lt;br /&gt;- “Oscar, comprei plástico grosso para cobrir a tapera; semana que vem vou buscar.”&lt;br /&gt;Ficou evidente a decepção do filho, orgulhoso da engenhosidade do pai em cobrir tão perfeitamente sua tapera com as folhas de palmeira:&lt;br /&gt;- “Mas pai, está tão bem coberta, não chove dentro. Para que por plástico, pai? Vai esquentar muito nos dias de sol quente.”&lt;br /&gt;- “Até pagar, já paguei. Semana que vem, vou à cidade pegar a aposentadoria, ver sua mãe e trago ...tenho também que trazer mais querosene, arroz e óleo. Você não quer me ajudar a trazer? Te pago o dia.”&lt;br /&gt;- “Ajudo pai, não precisa pagar o meu dia, mas não precisa do plástico.”&lt;br /&gt;- “Quero, sim”, aparentando, pelo tom de voz, que o assunto do plástico estava encerrado.&lt;br /&gt;O jeito foi Oscar muda de assunto:&lt;br /&gt;- “Vamos embora? O pessoal está esperando a gente, às quatro, para o café. Pai, sabe que vamos tomar café na casa da tia Geraldina? Ela vai fazer biscoito de polvilho frito na graxa, bolo de mandioca e café margoso para o senhor aqui, que não pode com açúcar, por doença. Sua bênção Pai.”&lt;br /&gt;- “Deusabençoe, filho. Pra semana a gente se vê.”&lt;br /&gt;- “Até um outro dia, seu Tiago”, me despedi.&lt;br /&gt;Deu-me a mão e respondeu timidamente:&lt;br /&gt;- “Inté. Volte mais vezes, quantas quiser; gostei de conversar com o senhor.”&lt;br /&gt;Nem bem coloquei a mochila nas costas para o retorno, Seu Tiago já descia em direção ao rio, dirigindo pesados palavrões ao “cagão” do cachorro Tarzan, que indiferente, abanava seu rabo a todo vapor, derramando-se em carinho pelo dono.&lt;br /&gt;O retorno deveria ser realizado, para alcançar o sítio onde teríamos o festejado café na casa dos colonos, por um outro caminho, que nos deixaria a oeste da sede do parque, onde estava o carro. Por este caminho, segundo Carlos, bem mais difícil e cansativo que o da vinda, passaríamos pela caverna de calcário, ao pé do morro, que até “hoje em dia ainda é morada das onças, mas foi, de antes, morada dos bugres, que até enfeitaram suas paredes com desenhos rupestres; estes desenhos não podem ser tocados, mas, mesmo assim, se quer ir ver, podemos. Não atrasa muito a caminhada, coisa de uma meia hora, e estamos adiantados. Quer?”&lt;br /&gt;Impossível não querer.&lt;br /&gt;Enorme a caverna de calcário! Uma boca de mais de quatro metros de largura por uns sete de altura. Até uns cinco metros entrava-se com a luz a clarear; após isso, seu fundo era de um escuro absoluto, breu, tudo imensamente negro e com um silêncio capaz de fazer ouvir as batidas do coração e sentir, tamanha a solidão naquele negrume, o pulsar do sangue nas veias.&lt;br /&gt;E foi então, aos sessenta e tantos anos, que visitei Brechó em sua caverna, ao pé do morro do Baguaçu, e o ajudei a desenhar, ao fim do dia, nas paredes da caverna, figuras que relatavam as aventuras de nossas caçadas, de nossos amores, de nossos sonhos e de nossos medos; repousei em sua cama ao chão, ajudei a fazer fogo, junto ao monte de pedras que era o fogão, para assarmos a paca que havíamos caçado e o enorme pintado que, no rio pedregoso, havíamos pescado; comemos, com as mãos, sentados no chão, a carne de paca e o peixe assado e ao despedir-me, coloquei sua muleta à entrada da caverna, para defendê-lo das onças e de outros bugres inimigos...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-7438471000930232348?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/7438471000930232348/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=7438471000930232348' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7438471000930232348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/7438471000930232348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/12/eremitas.html' title='EREMITAS'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxlZHjxwa8I/AAAAAAAAAHw/7q75xKx07Rk/s72-c/caminho+da+luz022retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-6001798107110895602</id><published>2009-11-30T03:45:00.000-08:00</published><updated>2009-12-01T12:53:05.529-08:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxOxYp4HGEI/AAAAAAAAAHo/vaQXvl3I7jE/s1600/2009+Bahia+153retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5409862614518274114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxOxYp4HGEI/AAAAAAAAAHo/vaQXvl3I7jE/s320/2009+Bahia+153retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;O verão já chegara.&lt;br /&gt;O ipê amarelo perdera as flores e estava, agora, carregado com suas folhas verdes pardas, ásperas, mas que funcionavam com um bom guarda-chuva, protegendo, do sol quente do meio dia, o banco do jardim, no qual me sentava após o almoço, para ler e fumar. De verdade, penso que ler e fumar talvez fosse a desculpa, sem motivo, inventada por mim, para o encontro e as palestras com Orozimbo, que chega faminto por fortes tragadas.&lt;br /&gt;Fumamos e, já pensando na troca que faria, leio para ele:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Meio século não se passa em vão. Sob nossa conversa de pessoas de leituras misturadas e gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos diferentes demais e parecidos demais. Não podíamos nos enganar, o que torna difícil o diálogo. Cada um de nós era o arremedo caricatural do outro...porque o inevitável destino dele era ser o que sou.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Orozimbo toma de minhas mãos O Livro da Areia, do Borges e me entrega sua brochura; percebi que desenhara, com sua caneta de pena, um par de óculos sobre os olhos do Duque de Caxias, que assim, de óculos, ficou mais sério, o Patrono do Exército Brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DURVALINA: ACABOU-SE A HISTÓRIA, MORREU A VITÓRIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, Deus do céu, onde foi parar o tatu galinha?&lt;br /&gt;Sumiu, o desgraçado? Será que esqueceu seu compromisso de buscar-me para meu retorno de volta à luz? Ando já cansado do escuro e da umidade das profundezas do cemitério e querendo, muito, ver de novo o sol. Resolvo que a melhor maneira de esperá-lo é conversar com a Mariquinha Precata. Vou até seu canto!&lt;br /&gt;Como sempre está lá a Mariquinha, toda encolhida, costas curvadas, magérrima, e me faz pensar: “não sei como deu certo em sua profissão: feia demais para ser puta”.&lt;br /&gt;- Me conte, Mariquinha a história de sua irmã Durvalina?&lt;br /&gt;- Conto sim, Orozimbo. Mas para não encompridar ainda mais esta história, vou contar para você partindo do fim, e assim, vejo se, hoje, termino. Pois aconteceu que Durvalina, sabendo dos meus finalmente de vida, veio me visitar, palestrar comigo, fazer a última visita. Você sabia, Orozimbo, que foi ela que ficou comigo na hora da minha morte, segurando em minhas mãos, rezando terço baixinho, pedindo a Deus e a Santa Luzia pela minha alma? Boa demais minha irmã Durvalina. Então foi assim que ela me contou:&lt;br /&gt;- “Pois então, Mariquinha, moramos lá na Santa Generosa, eu e Oscar, por trinta e tantos anos. Já no segundo ano de morada por lá o Patrão nomeou Oscar, como vaqueiro: isso dava a ele toda a responsabilidade pela fazenda, desde tarefas mais simples como cuidar do trabalho e do pagamento dos colonos e dos peões até trabalhos mais difíceis e honrosos como contar e vender, todo ano, lá pelo mês de setembro, a boiada, receber o dinheiro pelas vendas e zelar por ele até hora de entregar ao patrão. De bom, além dos pagamentos, a cada quatro bezerros que nascia um era dele. No início, quando tínhamos a certeza de muitos filhos e filhas, oferecíamos aqueles bezerros aos futuros: este vai ser do Luís, aquele outro da Luzinete, o tourinho bravo, cujo nome é Cigano, será do Justino...Filhos não tivemos: nada, providência nenhuma – e foram muitas as tentativas - conseguiu apagar a praga de secar meu bucho, jogada, em mim, pela patroa. “ Que fazer: Deus quis assim “, dizia Oscar;” desgraçada, filha d´uma égua “, pensava eu. Mas enricamos, Mariquinha: muitos bezerros e bezerras, porcos, galinhas, arroz, milho, mandioca...tudo com fartura a ponto de sobrar para vender. E foi daí, não sei se você ainda se lembra, Mariquinha, mas sabe aquela fazenda quase em frente a do Patrão, chamada de Boa Vista? Então: o governo desapropriou, dividiu em alqueires e distribuiu entre os moradores da região que não tinham terra. Seu Alfredo, pai de Oscar, e dona Ana, sua mãe, ganharam dois alqueires e para lá se mudaram. Com o dinheiro da venda de bezerros e porcos, Oscar mandou construir uma casinha, cercar as divisas, fazer curral e comprou duas bezerras para iniciar a criação. Seus pais também plantavam mandioca, milho e feijão de vara. A única dificuldade era a água: em grandes secas tinha que ser buscada na fazenda do Patrão, em troca de dias de serviços. E foi daí, Mariquinha, que Oscar, com seus cinqüenta e poucos anos foi ficando fraco e mais fraco. Não mais aguentava montar cavalo, respirava mal com o peito doente, de qualquer coisa se cansava e nada mais podia. O médico disse: “foi picada de barbeiro, o coração cresce demais e morre cedo.” Morreu, o meu Oscar, de tanto que inchou seu bom coração. Levei seu corpo para ser enterrado no cemitério do lugar onde nascera. E passei a ficar morando por lá, cuidando dos seus pais; te confesso, Mariquinha, que fiquei muito desiludida, sem o marido, sem os filhos que não tivemos; de bom, mesmo, só as lembranças de nossa vida de marido e mulher, das tardes na Santa Generosa, dos nomes que imaginávamos para nossos filhos, dos sonhos que sonhamos. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;- “Mas me conte, Durvalina, como foi que você voltou a trabalhar para o Patrão Anselmo”, pedi. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;E Durvalina continuou sua história. Pois foi assim, me disse: Acontece que, mesmo antes de sua mulher morrer, ele me contratou para lavar suas roupas, cuidar da limpeza da casa e cozinhar. Era o pagamento pela água que a gente precisava e que em casa não tínhamos. Então fui. O Patrão Anselmo era agora um homem fraco, doente, cara amarela, barba sempre por fazer: quieto, moribundo. Apenas quando nuvens apareciam no céu, chamando chuva, ele assoviava, um pouco desafinado a Saudades do Matão, mostrando um pouco de alegria.&lt;br /&gt;Nos demais, parecia tão triste como eu.&lt;br /&gt;Pai de Oscar morreu e ficamos na chácara, sua mãe e eu, para de tudo cuidar: das vacas, da plantação de mandioca, do feijão e do chiqueiro com os porcos. Intentei e consegui, com o Patrão, trabalhar até o meio-dia em sua casa com o direito de voltar à tarde para cuidar das nossas coisas. “Se não der conta de tudo o que tem que fazer, também dou só a metade da água que vocês precisam, combinado, Durvalina?” foi sua mal humorada resposta. Então era essa a luta: eu querendo tudo fazer logo cedo até o sol do meio dia queimar minhas costas para poder voltar e cuidar das nossas vacas, porcos, galinhas, mandiocas e feijões, e ele, Anselmo, querendo tudo retardar, reclamando da comida, sujando mais roupa, exigindo que além da dele eu lavasse também a roupa do vaqueiro já que “minha mulher morreu e não tem mais que lavar a roupa dela”. Eu seguia fazendo de tudo para dar conta: aquilo era minha diversão, minha vida: jogar na cara amarelada e barbuda do patrão doente que eu estava ali, forte, sacudida, com doença apenas na alma triste de tanta falta do Oscar. Uma tarde, lavando a louça do almoço, ouvi no rádio que o Patrão havia ligado: “o governo decidiu arrendar a lagoa da fazenda do Patrão para oferecer água a quem não tinha”.&lt;br /&gt;- “Filhos da Puta! Sabem, os desgraçados do governo, que não quero arrendar merda nenhuma”, berrou o patrão, desta vez saindo da rede com a antiga rapidez de homem são.&lt;br /&gt;Terminei de lavar a louça e me despedi.&lt;br /&gt;- “Até amanhã, seu Anselmo.”&lt;br /&gt;- “Inté”, respondeu nem bem se dignando a olhar para os meus lados. E continuou a falar sozinho: “Desgraçados, querem tirar minha água para oferecer aos merdas dos seus eleitores; que se fodam: bondades com minha água é que não vão fazer.”&lt;br /&gt;Fui para casa e sob o sol escaldante, sem uma nuvem no céu, me peguei assoviando a Saudades do Matão. Manhã seguinte, também: alguma coisa me fazia assoviar Saudades do Matão enquanto lavava as louças que sobraram da janta, enquanto pendurava a roupa lavada no varal, enquanto ajeitava, sob a sombra da aroeira, a rede do Seu Anselmo, toda manchada e fedida de suor, para ver se aliviava um pouco aquela catinga por demais de ruim. No rádio, dia seguinte e seguintes, a notícia era a mesma: decisão tomada pelo governo era a de desapropirar a Lagoa, tirar sua cerca em volta e dar água a quem quisesse: era para se cumprir a lei. “Filhos da puta, desgraçados!”, xingou, pulou da rede e desligou o rádio. Espreguiçou forte, enfiou o chapéu de couro na cabeça, pegou a espingarda e dirigiu-se para a Lagoa, com a intenção de defender suas águas.&lt;br /&gt;Terminei o serviço, arrumei as louças na prateleira, peguei minha trouxinha e me pus a caminho de casa. Era outro dia em que, sem nenhuma santa nuvem no céu anunciando chuvas, eu, independente de minha vontade, meu pus a assoviar a Saudades do Matão. O jeito foi a polícia chamar, na capital, Lindomar e Sebastiãozinho, seus filhos; Seu &lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Anselmo pai endoidara, não mais comia, teimando em ficar dia e noite encostado na aroeira, espingarda às mãos, para, dizia mal humorado entre os dentes, “defender o que era seu pela justiça de Deus e dos homens”.&lt;br /&gt;Os filhos o levaram, vestido com camisa de força, para um hospício na capital; decidiram, também, que eu seria paga para tomar conta da casa onde, quando criaças, sobre minhas costas, brincaram de cavalinho. A polícia retirou os arames que cercavam a lagoa, agora de todos. Foi também a polícia quem avisou do telefonema do Seu Tonico, me avisando de seu estado de saúde. Então resolvi vir: vendi um porco, duas galinhas, arranjei, com isso, o dinheiro das passagens, peguei o ônibus e estou aqui, ao seu lado, Mariquinha, rezando por você que logo, logo estará junto do meu Oscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-6001798107110895602?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/6001798107110895602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=6001798107110895602' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6001798107110895602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6001798107110895602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/11/o-verao-ja-chegara.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SxOxYp4HGEI/AAAAAAAAAHo/vaQXvl3I7jE/s72-c/2009+Bahia+153retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-6518080402274728851</id><published>2009-11-17T04:13:00.000-08:00</published><updated>2009-11-18T08:13:31.787-08:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SwKT6KhVUKI/AAAAAAAAAHY/L4k8a8rjOrU/s1600/2009+Caminho+da+fÃ©+090+retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405045130263875746" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SwKT6KhVUKI/AAAAAAAAAHY/L4k8a8rjOrU/s320/2009+Caminho+da+f%C3%A9+090+retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A preguiça triste de entender o mundo anda a me perseguir, parecendo não querer mais se desgrudar de mim. Não tenho forças sobre ela, que anda a me dominar, e, ainda bem, que o sol penetra forte sob as flores amarelas do ipê, aquece minha cabeça e meus ombros neste frio mês de agosto. Vou dividir, penso, estes últimos seis cigarros do maço de Continental com o Orozimbo, que chega em seu terno marrom, camisa azul com o colarinho puído, os punhos encebados e a gravata preta cobrindo o peito magro.&lt;br /&gt;Começamos a fumar e leio para Orozimbo:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“– Cemitérios gerais&lt;br /&gt;onde não só estão os mortos.&lt;br /&gt;- Eles são muitos mais completos&lt;br /&gt;do que todos os outros.&lt;br /&gt;- Que não são só depósito&lt;br /&gt;da vida que recebem, morta.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Terminei a leitura e nem perguntei a Orozimbo se havia gostado. Sabia que a resposta seria um NÃO, assim mesmo, com letras maiúsculas. Sabia também, que tomaria rápido, de minhas mãos, a Antologia Poética, do João Cabral.&lt;br /&gt;E foi mesmo o que aconteceu: em troca me passou sua Brochura com o Duque de Caxias enfeitando a capa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;MARIQUINHA PRECATA CONTA A MUDANÇA DE DURVALINA PAR O SERTÃO DO CEARÁ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nada do tatu-galinha aparecer para me levar de volta à luz. Assim me restou ficar andando e andando pelos fundões escuros do cemitério. Lá embaixo continuava úmido e dava pena dos anjinhos: espirravam muito os pobrezinhos, creio que por terem seus pequenos pulmões mais sensíveis ao frio e à umidade.&lt;br /&gt;Depois de boas conversas com amigos mortos recentemente e outros nem tanto voltei para o cantinho da Mariquinha Precata que é onde mais gosto de ficar para conversar e ouvir suas histórias.&lt;br /&gt;- Conte mais de sua irmã Durvalina, Mariquinha? pedi.&lt;br /&gt;- Conto, Orozimbo. Mas você não acha que esta história da Durvalina está muito comprida, parecendo “O Direito de Nascer”?&lt;br /&gt;- Você escutava O Direito de Nascer, Mariquinha? Gostava?&lt;br /&gt;- Gostava muito. Não perdia um capítulo na Rádio Nacional. Assim que ia começar a novela eu ia ao alpendre, desrosqueava para apagar a lusinha vermelha, sinal de que eu estava ocupada em minha profissão de puta. No horário da novela não atendia. Naquele horário, só tinha uma vez na semana, e acho que era nas quintas feiras, que vinha o Seu Tonico me usar. Ele dizia que era a única hora que sua mulher, a Dona Alice, com os ouvidos e a mente grudados na Rádio Nacional, o deixava livre. Mas, veja bem Orozimbo, era já antes tudo combinado: deitava com ele, aceitava ele em minha cama para fazer uso de mim, mas com o rádio ligado na novela. Aí eu fingia movimentos e sons mas a minha atenção mesma, estava toda no Albertinho Limonta, em sua voz doce, linda. Seu Tonico terminava seus prazeres, enfiava sua calça de linho, punha o dinheiro do pagamento em cima do criado mudo e eu continuava a ouvir O Direito de Nascer e só acordava daqueles sonhos quando acabava o capítulo; aí sim levantava, me lavava e voltava ao alpendre rosquear e acender a pequena luz: a vida continuava, agora sem o Albertinho Limonta e a luz vermelha acesa era o sinal que estava livre para prestar meus serviços a outro freguês.&lt;br /&gt;- Danada você Mariquinha...&lt;br /&gt;- Mas Orozimbo, não vamos perder o assunto da história de minha irmã Durvalina, agora toda casada de papel passado.&lt;br /&gt;Como ia te dizendo, e já te contei outra hora, lá se foi minha irmã Durvalina e seu marido, o peão João, cuidar da fazenda do patrão Sebastião, no sertão do Ceará, bem longe, muito longe. Pois foi ela, a Durvalina, quem me contou que gastaram mais de uma semana em cima do lombo de cavalo e do banco da carroça com a mudança, até a Fazenda Santa Generosa. A carroça, puxada pelo burro Zeloso, estava carregada: mais de um saco de farinha de mandioca, uns dois sacos de arroz, carne de sol salgada e seca, feijão, dois corotes de água, a trouxa com as roupas e as tralhas de cozinhar e comer; de vivo, na carroça, dois porquinhos, duas galinhas e um galo índio. Ao lado, curioso com a mudança, ia o Vinagre, cachorro de estimação do João, muito ensinado e ia também o Pangaré, cavalo grande, muito importante, alazão, acostumado com as lidas de gado. Durvalina e João viajavam mais tempo na carroça, outras horas iam montados no Pangaré e andavam também a pé quando o terreno era plano, sem morros e subidas fortes; mas a pé era mais de manhã, quando o sol castigava menos.&lt;br /&gt;Chegaram na Fazenda Santa Generosa e se acomodaram, inicialmente, em uma tapera de pau a pique, à beira do morro do Chapéu, perto do córrego de Santa Luzia: descarregaram a carroça, soltaram o Pangaré, os porquinhos e as galinhas, armaram suas redes e ajeitaram a taipa do fogão.&lt;br /&gt;Vida nova, longe de tudo e de todos.&lt;br /&gt;João ia cuidar de mais de duzentas cabeças de gado, todas branquinhas, orelhas compridas, cara de assustadas com seus enormes olhos negros. Também roçou pasto e preparou a roça para a lavoura de mandioca, e ajudou Durvalina a bulir e remoer a terra para plantar a pequena horta, nos fundos da casa, perto do córrego. Durvalina, cuidava dos porcos, das galinhas, capinava e plantava a horta.&lt;br /&gt;De noite eram amores, ela me disse. Era hora, também, ela me disse, de escolher os nomes dos filhos que viriam: João o dos meninos e ela das meninas: Romualdo, Cícero, Carlos, Paulo, Reinaldo...Rosa, Virgínia, Deolinda, Ana Maria...“Quantos filhos você quer ter, Durvalina? Eu quero pelo menos uns seis: três meninos e três meninas”, cochichava ao pé do ouvido, João. “Também quero muitos filhos, João. Até uns oito eu quero. O que Deus mandar eu aceito” respondia, também, com o hálito quente ao ouvido do marido. E dormiam pensando na família que teriam , no barulho e no choro das crianças, nas preocupações com seus estudos. “Teremos que voltar, Durvalina, aqui não em escola”. “Tem tempo, quando for hora a gente resolve, João”. E Durvalina voltava para sua rede, agora para dormir mesmo.&lt;br /&gt;O primeiro São João passaram lá mesmo, sós, na Fazenda Santa Generosa. Ano seguinte àquele não: resolveram passar o São João na antiga fazenda. Aproveitaram para ver os parentes, dançar na festa de São João e Durvalina consultar benzedor famoso daqueles lados:&lt;br /&gt;- “Porque não me embarrigo de filho, seu Eliseu?”, perguntou Durvalina.&lt;br /&gt;- “Vocês tem tentado sempre? Faz quanto tempo?”, pergunta sério o benzedor Eliseu.&lt;br /&gt;- “Afora os dias da regra, sempre, todas as noites Seu Eliseu?”.&lt;br /&gt;Seu Eliseu receitou uma raizada e a esperança voltou.. Voltaram para a Santa Generosa: na garupa do Pangaré, Durvalina carregava cortes de chita, um chapéu novo do João e duas garrafas com a raizada.&lt;br /&gt;- “Pedro, Fábio, Luís, Márcio....” dizia João. “Marta, Cristina, Lúcia, Aparecida...” continuava Durvalina; esta era a, de sempre, conversa dos dois abraçados em uma só rede, naquelas noites na Fazenda Santa Generosa.&lt;br /&gt;No outro São João voltaram ao Seu Eliseu. “Só pode ser praga! Jogaram praga e secaram seu bucho, Durvalina. Pode ser coisa da patroa, de inveja. Procure Sinhá Benedita, negra velha que desmancha estes nós de mau-olhado. O meu saber termina aqui.”,&lt;br /&gt;Na garupa do Pangaré, desta vez, Durvalina levava cortes de chita e novelos de linha grossa, dúzia e meia de velas brancas, uma dúzia de velas pretas, das grandes, um terço, ramos de cipó cabeludo: receita da Sinhá Benedita para acabar com o mau olhado que a patroa havia jogado no bucho de Durvalina, secando-o.&lt;br /&gt;Resolveram prometer que dariam aos filhos nomes de santos protetores: “Antônio, José, Benedito, Pedro....Aparecida, Luzia, Isolda, Maria...”&lt;br /&gt;- Me cansei Orozimbo. Você me desculpe ma cansei, por agora, quero contar mais não. Outra hora: passe aqui.&lt;br /&gt;- Ta certo Mariquinha, vou ver se acho o tatu galinha por aí...assim que der volto para saber o resto&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-6518080402274728851?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/6518080402274728851/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=6518080402274728851' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6518080402274728851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/6518080402274728851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/11/brochura-do-louco-orozimbo-historia-de_17.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SwKT6KhVUKI/AAAAAAAAAHY/L4k8a8rjOrU/s72-c/2009+Caminho+da+f%C3%A9+090+retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-3934472312011253842</id><published>2009-11-07T04:53:00.000-08:00</published><updated>2009-11-08T05:47:37.729-08:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SvVuLIM9VjI/AAAAAAAAAHQ/lqxaGLxaYE8/s1600-h/2009+Bahia+133retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5401344465560229426" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SvVuLIM9VjI/AAAAAAAAAHQ/lqxaGLxaYE8/s320/2009+Bahia+133retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Tempos de uma preguiça triste.&lt;br /&gt;Cansado com a rotina do trabalho, descontente com o pouco ou nenhum entendimento das exigências da vida, agrada-me sobremaneira o sol, os cigarros e o silêncio da pequena praça. Para compreender a existência e a convivência neste mundo talvez, só mesmo, páginas e páginas do escritor já morto, cigarros fortes - desses sem filtro - e a companhia de um louco: o Orozimbo.&lt;br /&gt;- Está sorumbático? pergunta Orozimbo enquanto estende a mão para o maço de Continental.&lt;br /&gt;Ofereço-lhe o cigarro, pego outro e com o mesmo palito de fósforo acendo os dois. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tragamos forte.&lt;br /&gt;Vou ler um trechinho para você, Orozimbo:&lt;br /&gt;“Não compreendo você – disse Hans Castorp. – Simplesmente não compreendo como alguém possa viver sem fumar. Priva-se, por assim dizer, do que há de melhor na vida. Em todo caso lhe escapa um prazer magnífico. Quando acordo pela manhã, já me alegro com a idéia de poder fumar durante o dia, e quando tomo uma refeição, já penso em fumar depois. Sim senhor, posso dizer, com um pouco de exagero, que como apenas para ter uma oportunidade de fumar.”&lt;br /&gt;- Ota vida boa! fala Orozimbo soltando a fumaça pelo nariz e pela boca enquanto toma de minhas mãos A Montanha Mágica, de Thomas Mann, do qual havia lido o pequeno trecho.&lt;br /&gt;Imediatamente me oferece desta vez não a brochura com a figura do Duque de Caxias na capa, mas duas folhas de papel pardo escrito a lápis.&lt;br /&gt;- Rascunho ainda, falta passar a limpo, me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;MARIQUINHA PRECATA CONTA A HISTÓRIA DO CASAMENTO DE DURVALINA &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Saí da moradia da Mariquinha Precata no lado dos pobres do cemitério e fui visitar o lado dos ricos. Cumprimentei o Dr. Eduardo, advogado famoso, que respondeu ao meu bom dia com sua voz de trombone:&lt;br /&gt;- Boa noite!&lt;br /&gt;Aqui, no fundão do cemitério, sempre me perco e nunca sei se é dia ou se é noite.&lt;br /&gt;Está muito úmido e os probientes espirrando por causa da friagem: deve estar chovendo muito lá em cima, penso enquanto continuo a caminhar. A vontade de ouvir histórias e de palestrar me leva de volta ao lado dos pobres. Lá encontro a Mariquinha Precata encolhidinha em sua morada: magra, pele enrugada, mãos quase azuis de tanto frio.&lt;br /&gt;- Bom dia Mariquinha!&lt;br /&gt;- Boa noite Orozimbo!&lt;br /&gt;- Me explique Mariquinha, agora aqui é dia ou noite?&lt;br /&gt;- Aqui é o sempre, Orozimbo. O eterno! Desencarnei à noite, então é noite.&lt;br /&gt;Queria prosas mais amenas.&lt;br /&gt;- Me conte mais da Durvalina?&lt;br /&gt;- Conto sim, gosto de contar...onde eu parei da última vez, se lembra?&lt;br /&gt;- Lembro sim. Você parou quando sua irmã Durvalina tinha trabalhado na cozinha ajudando a servir o almoço e viu, nas mãos do patrão, o anel que enfeitava a mão que, à noite, em sua rede, tocava e alisava seus seios, seu ventre e tirava sua camisolinha de algodão....lembrou?&lt;br /&gt;- Pois é claro que me lembro Orozimbo. Pois então, depois foi assim:&lt;br /&gt;A vidinha de Durvalina continuava no normalmente. De dia continuava sua prática obrigatória de lavar roupas, tratar dos porcos no chiqueiro, buscar água na mina e cuidar do Sebastiãozinho e do Lindomar.... Agora seu descanso, de ficar só consigo mesma, começava depois que o patrão, no início da noite, antes de ir para a cama com a patroa, passava em sua rede para bolir com ela. Só depois é que dormia de verdade, descansada, alegre em sua solidão.&lt;br /&gt;Foi aí então , em uma semana de lua nova, destas de total escuridão, a noite escura como breu chegando mais cedo tornando o dia mais curto que aconteceu o seguinte: naquele início de noite escura, impossível de alguma coisa se ver, Durvalina se viu desvestida de sua camisola de algodão e as mãos do patrão tatearem seu corpo com uma fúria maior e suas pernas serem abertas; daí foi que sentiu um peso enorme sobre si, uma respiração descontinuada, ofegante e quente aquecendo de calor seu rosto e uma forte dor queimando seu ventre adentro. Aquilo tudo só sossegou depois que gemidos balbuciados de dentro do corpo enorme do patrão inundaram a tulha onde estava sua rede.&lt;br /&gt;Dormiu.&lt;br /&gt;Manhã seguinte acordou com os risinhos de Rosa e de Rita:&lt;br /&gt;- Doeu? perguntou Rita.&lt;br /&gt;- Doeu, mas foi bom, respondeu Durvalina.&lt;br /&gt;Passou todo o dia com dor forte no corpo, no ventre, temerosa da outra noite que viria.&lt;br /&gt;Acostumou-se.&lt;br /&gt;Foi daí também que percebeu que a patroa, que até lhe dedicava minutos de afetuosa conversa, virou-lhe a cara. Rosa e Rita evitavam falar com ela mesmo na hora do almoço ou quando lavavam a louça. Só Sebastiãozinho e Lindomar continuavam a lhe exigir as mesmas brincadeiras e cuidados.&lt;br /&gt;A festa de São João estava para chegar. O mastro, feito com um tronco de guatambu, com a bandeira de São João em seu topo, enfeitava o curral; os galhos do guatambu foram cortados de modo a facilitar que laranjas maduras fossem enfiadas por todo o mastro; bandeirinhas de papel colorido cruzavam e descruzavam os moirões do curral. Tudo muito bonito.&lt;br /&gt;No baile dançou com Oscar, moreno alto e forte, peão de confiança do patrão. Sentiu, enquanto dançava que seu corpo e seus seios, eram forçados, carinhosamente, a se aproximar do peito forte do peão. E foi assim que dançou e dançou. Sentiu, enquanto dançava, a mesma respiração ofegante e descontinuada sair do peito de Oscar; só que agora via o rosto, sabia quem respirava, quem apertava carinhosamente seu corpo frágil contra o peito forte.&lt;br /&gt;Terminado o baile alojou-se em sua rede e dormiu sem ter sido tocada pelo patrão, cansado e bêbado da festança e do baile.&lt;br /&gt;Por aqueles dias duas coisas mais aconteceram.&lt;br /&gt;A primeira foi que ouviu, enquanto cuidava do Lindomar e do Sebastiãozinho, berros chorosos da patroa em conversa com o patrão:&lt;br /&gt;- Não quero puta aqui em casa, ainda mais cuidando de meus filhos. Deus me livre! Livre nossos filhos dela, lhe imploro de joellhos.&lt;br /&gt;A segunda coisa foi uma conversa com Oscar.&lt;br /&gt;O patrão havia comprado uma outra fazenda longe dali, lá pelos lados de Assaré, e queria que ele fosse lá, cuidar de tudo como peão principal:&lt;br /&gt;- Vou mas quero você junto. Quer casar comigo?&lt;br /&gt;- Oscar, não sou mais moça.&lt;br /&gt;- Sei. Te amo, Durvalina.&lt;br /&gt;E lá se foi, feliz, a Durvalina, mulher casada de papel e tudo com Oscar, importante peão principal da Fazenda da Esperança, pro sertão do Ceará.&lt;br /&gt;- Estou contando muito devagar, Orozimbo? Quer que eu me apresse nos relatos, pule coisas menos importantes, pequenos detalhes?&lt;br /&gt;- Não Mariquinha...estou gostando de ouvir, de saber da vida de Durvalina, respondi.&lt;br /&gt;- Ta bom, mas por agora chega. Cansei. Está muito frio, deve estar chovendo até canivete lá por cima. Outra hora conto o resto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-3934472312011253842?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/3934472312011253842/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=3934472312011253842' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3934472312011253842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/3934472312011253842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/11/brochura-do-louco-orozimbo-historia-de.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SvVuLIM9VjI/AAAAAAAAAHQ/lqxaGLxaYE8/s72-c/2009+Bahia+133retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-5146185643096792038</id><published>2009-10-13T06:59:00.000-07:00</published><updated>2009-11-30T01:21:07.276-08:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/StSIjPKjkRI/AAAAAAAAAHI/ueg1UYgzqOk/s1600-h/2009+Bahia+132retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5392084792816931090" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/StSIjPKjkRI/AAAAAAAAAHI/ueg1UYgzqOk/s320/2009+Bahia+132retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aos mais esquecidos relembro: tenho o hábito de, na hora do almoço, ler e fumar sentado em um banco da pracinha. E é lá, entre um cigarro e outro, enquanto visito meus livros preferidos, que encontro Orozimbo.&lt;br /&gt;Ofereço um Continental e:&lt;br /&gt;- Enquanto fuma vou ler para você Orozimbo:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Uns tomam éter, outros cocaína.&lt;br /&gt;Eu tomo alegria!&lt;br /&gt;Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.”&lt;/em&gt; Gostou Orozimbo, é do Manuel Bandeira?&lt;br /&gt;- Não, quero mais um cigarro.&lt;br /&gt;Não gostou, conforme me disse, mas logo tomou o livro do poeta de minhas mãos, e, curioso o folheou enquanto tirava do bolso de seu paletó marrom o caderno com a figura do Duque de Caxias na capa.&lt;br /&gt;A lápis, com sua letra firme, uniforme e um pouco dobrada à direita, li mais esta história do Orozimbo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;MARIQUINHA PRECATA CONTA A HISTÓRIA DE DURVALINA DA INFÂNCIA À ADOLESCÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Tatu Galinha mais manso, andava arredio naquela época da quaresma. O motivo do seu arredio era que no fundo da sua toca a companheira carecia de comida para ela e para os três tatuzinhos filhos, de quem cuidava receosa de ataques àqueles corpinhos frágeis, ainda sem a casca protetora, lindos em sua ainda cor rosa.&lt;br /&gt;Ofereci três pães, torresmo, duas folhas de couve frescas em troca da viagem até o fundo do cemitério.&lt;br /&gt;- Vou mas te deixo lá e te busco dias depois, quer assim?&lt;br /&gt;Fomos.&lt;br /&gt;Dito e feito: nem bem chegamos Tatu Galinha já buscou o caminho de volta saudoso de sua toca, da companheira e dos tatuzinhos cor de rosa. Gostei de ficar só, sem pressa de voltar, com tempo por demais para gastar ali no fundão do cemitério: queria e queria ouvir histórias, palestrar com os mortos. Gostava daquela escuridão, me fazia bem o musical silêncio das profundezas da terra e a companhia dos probiontes e das moneras, como gosta de dizer o Dr. Netto. Engraçado do Dr. Netto: acho que por ser comunista tão ardoroso, se sente proibido de falar de almas: para ele é tudo probiontes, moneras...&lt;br /&gt;Hoje não quero conversa difícil com ele: quero histórias amenas, verdadeiras, humanas. Tenho tempo! Vou longe até o lugar da Mariquinha Precata, velha puta da cidade, que em vida foi freqüentada por quase todos os homens de lá: alguns aproveitando a situação de bêbados, outros insatisfeitos com os prazeres nos limpos leitos caseiros, buscavam, em sua cama suja, prazeres outros.&lt;br /&gt;- Me conte uma história, Mariquinha?&lt;br /&gt;- Conto sim, qual você quer?&lt;br /&gt;- Me conte a da sua irmã, aquela que ainda vive e mora lá pelos sertões do Ceará?&lt;br /&gt;- É assim:&lt;br /&gt;Durvalina é o seu nome. Lá em casa todas as mulheres foram batizadas com os nomes terminados em ina: Durvalina, Emanoelina, Ernestina, menos eu, de nome Marianinha. Durvalina, a mais nova, nasceu no meio do pasto, sob a sombra de um umbuzeiro; nossa mãe, gordona dela, pastoreava cabritos morro adentro quando sentiu as dores do parto. Foi pai quem ajudou o nascer de Durvalina: berrou forte o primeiro choro, assustando os cabritos e até mesmo o carcará que vigiava guloso um bando de preás.&lt;br /&gt;Eu a vi crescer e cuidei dela até seus sete anos quando, ainda mocinha, descabaçada por Anselmo, filho do patrão, fui-me embora de casa para viver a profissão de puta.&lt;br /&gt;Assim sei de sua vida mais do que ela me contou, pela nossa proximidade de irmã e não por companhia constante; esta foi pouca, porque me vim embora.&lt;br /&gt;Mas, continuando: Durvalina cresceu forte, bonita em sua pele morena, cabelos crespos, com os dentes brancos por demais ajudando a iluminar o rosto alegre de se dar inveja.&lt;br /&gt;Mocinha, peitos ainda pequenos começando a apontar foi trabalhar na casa dos patrões, cuidar dos netos do seu Sebastião, lavar roupas pequenas e dar comida aos porco; eram estas suas obrigações em troca de cama, comida e roupas que não mais serviam para Julieta, neta do patrão que tinha ido para a cidade estudar.&lt;br /&gt;A vida dela era assim, me contou: passava a maior parte do dia a cuidar dos pequenos Lindomar e Sebastiãozinho; tinha que brincar de esconder a cara e achá-los e esta brincadeira era bem fácil para ela; tinha também que brincar de pega-pega e aí pegar o Sebastiãozinho já era mais difícil porque ele corria rápido e tinha também de brincar que era mula e sair carregando os dois nas costas, levar chicotadas para pular até conseguir derrubá-los. Essa brincadeira cansava mais.&lt;br /&gt;A noite era seu descanso. Armava a rede e ficava quietinha a ouvir, em silêncio, a conversa que Rosa tinha com Rita, outras duas empregadas da casa. Dormia logo de cansada e também para ficar só com ela mesma, não ter que de nada dar satisfação, não pensar em buscar água na mina, em tratar dos porcos no chiqueiro, nem em brincar de mula.&lt;br /&gt;A noite era, para ela, uma felicidade só até que uma manhã acordou não sabendo se havia sonhado um sonho, meio ruim e meio bom, de ter seus seios acariciados e seu ventre tocado.&lt;br /&gt;Prometeu não dormir a noite seguinte para descobrir se tinha sido mesmo sonho aquele prazer e medo que ocorrera na noite passada. Naquele dia Lindomar e Sebastiãozinho quiseram brincar de mula quase que o dia todo. À noite seu corpo doía, cansado, maltratado pelos chicotes e pelo peso dos patrõezinhos: caiu na rede e dormiu. Tornou a sonhar. Neste sonho sentiu as mãos mais firmes, menos trêmulas, acariciou seus seios e seu ventre com intimidade maior que no sonho anterior. Tocou a mão que acariciava seus seios e sentiu o frio de um metal, de um ouro, de um anel.&lt;br /&gt;Prometeu, outra vez, não dormir para saber se o que ocorria era sonho ou realidade. Mais uma vez cansada dormiu e as mãos, mais ousadas, menos temerosas examinaram todo seu corpo e a despiu de sua camisolinha branca. De manhã, ao ver-se despida, soube que não era sonho o que havia sonhado.&lt;br /&gt;Na hora do almoço foi chamada para ajudar Rita a por a mesa e servir a refeição dos patrões. Sobre a toalha branca de renda, ao lado do prato de louça, dos garfos e das facas pousava a mão do Seu Anselmo: em um dos dedos, o enorme anel de ouro.&lt;br /&gt;Mas agora me cansei de falar Orozimbo. Quero silêncio e descanso; outra hora te conto o resto.&lt;br /&gt;Também eu estava cansado de ouvir: muitas palavras confundem minha mente.  &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-5146185643096792038?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/5146185643096792038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=5146185643096792038' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5146185643096792038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5146185643096792038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/10/cadernos-do-orozimbo-historia-de.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: A história de Durvalina'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/StSIjPKjkRI/AAAAAAAAAHI/ueg1UYgzqOk/s72-c/2009+Bahia+132retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-4949285931142632145</id><published>2009-09-25T12:29:00.000-07:00</published><updated>2009-09-25T12:56:48.995-07:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: TATU GALINHA</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sr0anWSetTI/AAAAAAAAAHA/WGBSatSEpQk/s1600-h/2008+fevereiro+048retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5385489992705291570" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sr0anWSetTI/AAAAAAAAAHA/WGBSatSEpQk/s320/2008+fevereiro+048retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Muitas chuvas, o frio do final de inverno assim como mudanças súbitas e inesperadas em minha vida fizeram com que eu faltasse semanas e semanas ao delicioso costume de ler e fumar no banco sob o pé do ipê amarelo.&lt;br /&gt;Mas - tem sempre um mas - o corpo e a cabeça se acostumaram às mudanças que ocorriam, ao frio e ao vento cortante e molhado das chuvas que teimavam em não parar. Triste e ensimesmado voltei, em uma quarta-feira, logo após o almoço às minhas leituras no banco do jardim.&lt;br /&gt;Nem acabara de acender o primeiro cigarro quando Orosimbo para em minha frente e, como sempre, insistentemente olha o maço de cigarros. Ofereço, aceita, senta-se ao meu lado e traga gostosamente. A terceira tragada já é dada com seus olhos fixos no “Velório sem Defunto” do Mário Quintana que eu havia levado para ler. Toma o livro nas mãos ossudas e, ao mesmo tempo, me passa sua brochura com o Duque de Caxias na capa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Inicio a leitura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;TATU GALINHA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vontade de conversar com os mortos só se tornou possível quando aprendi a me transferir para dentro do tatu Galinha. Tinha que ser tatu Galinha porque se eu me transferisse para o corpo de um tatu Peba não daria certo; os mortos têm medo, e com razão, dos tatu pebas que vão até os locais não para conversas e amizades, mas, sim, para abocanhar suas carnes.&lt;br /&gt;Já o tatu Galinha, não: visita os mortos para conversar, dar notícias, levar recados.&lt;br /&gt;De casa ao cemitério, morada dos mortos, era coisa de meia hora. Em noites de chuva, como o terreno mais macio era um pouco mais rápido, mas enlameava todo meu paletó e a umidade resfriava e atacava meus pulmões. Assim preferia ajudar o Galinha a escavar o seu túnel ate o cemitério, em terras duras e pedregosas, em dias de sol ou em noites de muita lua. Melhor espirrar com a poeira do que com a lama fria.&lt;br /&gt;Íamos à noite ou de dia: nos fundões era sempre escuro; era um puro breu de escuridão até os olhinhos negros do Galinha se acostumar. Logo depois da chegada, lágrimas limpavam seus olhinhos da poeira, um clarão ia surgindo e, logo, tudo se enxergava, tudo se via.&lt;br /&gt;O Dr. Netto, médico morto há tempos, com seu túmulo sempre rodeado de flores e velas, era o meu preferido para conversas. Foi ele quem primeiro me explicou, com seu palavreado e linguajar difícil:&lt;br /&gt;- “Aqui Orosimbo, você nos encontra como os probiontes e as moneras da matéria: materiais quanto a nossa natureza, mas imaterial em nosso estado; se não entende e tiver dúvida leia A Montanha Mágica, do Mann, assim ficará mais claro para você!”&lt;br /&gt;Para mim coisa de muito difícil compreensão!&lt;br /&gt;Melhor mudar de assunto, saber e contar novidades.&lt;br /&gt;- “Adivinha quem morreu ontem, Dr. Netto?” e fui continuando: “o Miguel, alfaiate, marido da Dona Cida; mas está morando longe daqui, na área mais dos pobres”.&lt;br /&gt;- “Nossa: morreu? Antes ele do que eu”, disse querendo terminar ali a conversa.&lt;br /&gt;- “Dr. Netto, venho de longe para palestrar e encontro o senhor bravo.”&lt;br /&gt;Fui interrompido:&lt;br /&gt;- “Já te disse que não gosto de aqui onde me puseram fixo, perto de minha mulher de cartório. Queria mais era perto da Marina, sentir seu calor nas noites de chuva, aquecê-la e amá-la, aqui nestes desconhecidos.”&lt;br /&gt;Impossível conversar! De lamúrias, lamentações e reclamações o mundo dos vivos, o meu mundo, estava cheio, lotado.&lt;br /&gt;Vou procurar o Anor e suas histórias.&lt;br /&gt;Quando em vida, o Anor me dizia , em conversas sob o pé de eucalipto, perto da Santa Casa, que em nossa pequena cidade, com seus três loucos e três veados, ele era o mais amaldiçoado.&lt;br /&gt;- “Me conte dos benzimentos e de sua morte Anor?”&lt;br /&gt;- “Morri por causa de amor e medos, morto a tiros, por balas de fuzis dos mineiros da Revolução de 32. Já te contei tantas vezes. Não te enjoa ouvir sempre a mesma história?”&lt;br /&gt;- “Enjoa não, gosto.”&lt;br /&gt;- “De contar eu também gosto. Ajuda passar o infinito tempo daqui... Foi assim:&lt;br /&gt;Me juntei com Didi, faceiro filho de fazendeiros da cidade, contra a vontade de sua família e, penso que por isso jogaram praga e pegou. Moço bonito, rico e estudado gostar de um velho veado que só sabia benzer não era costume muito aceito. Esperavam dele casamento com mulher, filhos, tudo no normal. Mas, nos juntamos!&lt;br /&gt;E o Didi com sua mania de política, aprendia em seus livros e em conversas que teria que lutar para fazer valer a Constituição da República e estas coisas... Em uma noite clara de lua Didi me disse que a revolução estava chegando e que iria à luta. Tentei e tentei mudar suas idéias, mas nada. Nem seu amor por mim, me disse, faria mudar sua posição. Acreditava que venceria e que continuaríamos nossa vida juntos, protegidos pela sombra de uma Constituição.&lt;br /&gt;Você, Orosimbo, me diz que muitas vezes me procura porque não entende o linguajar do Dr. Netto; pois o mesmo se sucedia comigo. Ouvia o Didi e não entendia, mas tinha muito medo de sua morte e, também, da minha. Ele se alistou. Eu lhe disse, na estação de trem, garboso e lindo em sua fantasia de soldado com armas às costas: te espero aqui em nosso quartinho, mas se a tal da Revolução chegar fujo: tenho medo. Se ela chegar aqui por perto vou me embrenhar pelos lados do córrego do Bom Jesus e nada me acha, nem Deus. Te espero!&lt;br /&gt;Lá se foi o Didi lutar para a revolução da Constituição e fiquei só, muito só.&lt;br /&gt;Parece que até as pessoas que me procuravam para benzimentos de quebrantos e espinhela caída haviam sumido, indo atrás ou fugindo de medo da revolução.&lt;br /&gt;Resolvio ir pescar no Bom Jesus, córrego pedregoso de águas limpas, transparentes e frias, cheia de mandis, gambevas, bagres e lambaris. E foi lá no Bom Jesus, só, muito sozinho, que ouvi passos e conversas: eram os soldados mineiros, armados com seus fuzis às costas, à caça do Didi e dos paulistas...&lt;br /&gt;Fugi com minha vara de pescar. Pensava em me embrenhar pelas profundezas do Bom Jesus, ir vivendo de vento, de água limpa e de bagres até a volta de Didi e da vitória da Constituição.&lt;br /&gt;Mas os mineiros armados eram rápidos, muito rápidos. Pertinho da cachoeira e de seu poço fundo fui cercado, molestado, maltratado e morto: uma bala foi entrando cabeça adentro, e eu, naquela hora, aliviado de tanto sofrer, não senti dor e dormi. Meu corpo foi ficando por lá, esticado e duro, por demais de morto, sem mais poder ouvir o barulho da cachoeira ali tão perto. Vieram os urubus e começaram a me beliscar até que foram tocados, espantados pelos berros e pedradas atiradas pelo seu Eduardo, pai do Didi. Seu Eduardo ali ficou, ao meu lado, me vigiando dos urubus até chegar mais gente para ajudá-lo a me embrulhar em um pano de catar café. Me levaram para a cidade, passaram na igreja mas o padre não quis benzer meu corpo!&lt;br /&gt;Me enterraram aqui.&lt;br /&gt;Foi assim, Orosimbo.”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-4949285931142632145?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/4949285931142632145/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=4949285931142632145' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4949285931142632145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/4949285931142632145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/09/brochura-do-louco-orozimbo-tatu-galinha.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: TATU GALINHA'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sr0anWSetTI/AAAAAAAAAHA/WGBSatSEpQk/s72-c/2008+fevereiro+048retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-5899780600278555877</id><published>2009-09-03T06:44:00.000-07:00</published><updated>2009-10-08T04:17:26.215-07:00</updated><title type='text'>A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: RUA RIO BRANCO</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sp_JUB3t46I/AAAAAAAAAG4/5AtHcLy2SQ0/s1600-h/2009+Caminho+da+fÃ©+085retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5377237826040357794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sp_JUB3t46I/AAAAAAAAAG4/5AtHcLy2SQ0/s320/2009+Caminho+da+f%C3%A9+085retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Não morreu, sabe porquê? Porque mentiu. Histórias deles eram inventadas “, in Mia Couto, A varanda do frangipani. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram boas, mais que boas mesmo, as horas que passava, à tarde, sentado no banco do jardim, fumando e lendo livros retirados na Biblioteca. Como tinha um intervalo de três horas entre o primeiro e o segundo turno do trabalho acostumei-me a, logo após o almoço, pegar um livro e ir para a pracinha, sentar-me em um banco para fumar e ler.&lt;br /&gt;Os bancos do jardim, na praça, eram daqueles moldados em cimento com minúsculas pedrinhas, sinuosos e gordos e, cada qual, tinha em seu encosto o “anúncio” do seu doador grafado em negro: em um, “Casa do Rádio”, o outro era “Oferta da Família Saad”, em um outro “Netos&amp;amp;Irmãos Exportadores de Café”, e assim por diante. Este último era o meu preferido, talvez por estar sob o pé de ipê amarelo, cuja sombra rala deixava vazar pedacinhos de sol que aquecia partes do corpo, e aí, quando aquelas partes estavam bem quentinhas era hora de mudar de posição para esquentar o outro lado, num jogo gostoso enquanto lia e fumava.&lt;br /&gt;Na cidade havia três loucos: todos “loucos mansos”. Cidade muito pequena e, por isso penso que três loucos era um número significativo, grande, e com certeza teria inspirado Machado de Assis, caso tivesse vivido por lá, a escrever O Alienista. Quero contar do Orosimbo, um deles, talvez o mais “manso” de todos os loucos, em seu terno marrom, camisa aberta no peito peludo, barba já grisalha, cabelos negros apontando um início de calvície, rosto com as maçãs salientes e dentes fortes, muito brancos sob os lábios escuros e salientes.&lt;br /&gt;Orosimbo, nem sempre diga-se de passagem, ao passar por lá e me ver sentado parava frente ao banco e olhava fixa e alternadamente para o livro que eu lia e para o cigarro em minhas mãos ou nos lábios.&lt;br /&gt;- “Quer um cigarro, Orosimbo?”, eu dizia.&lt;br /&gt;Quando aceitava sentava-se ao meu lado e fumava um ou dois cigarros. Tragava forte, levando a fumaça do cigarro ao fundo de sua alma e soltando-a toda pelas narinas repletas de cabelo.&lt;br /&gt;Naquele dia aceitou o cigarro e enquanto fumava não tirava os olhos do Memórias do Subsolo, do Dostoievski.&lt;br /&gt;- “Você gosta de ler Orosimbo?”, pergunta a qual não se dignou responder; continuando, no entanto, a olhar com seus olhos lânguidos o livro em minhas mãos.&lt;br /&gt;Marquei mentalmente o número 109 da página que estava lendo, fechei o livro e tentei:&lt;br /&gt;- “Quer ver?” e apontei o livro em sua direção.&lt;br /&gt;Orosimbo, ainda mudo de palavras, tomou o livro em suas mãos ossudas. Olhou curioso primeiro para a capa cinza do livro, fixou os olhos nas grandes letras do título impressas em negro e passou a percorrê-las com o dedo indicador como que desenhando-as. Continuou ali sentado ao meu lado, mudo,sem nada falar, com o livro fechado em suas mãos agora com os olhos fixos no maço de cigarros Continental que nos separava no banco e, com o olhar implorou outro cigarro. Peguei o maço de Continental, ofereci-lhe , peguei outro no maço e acendi ambos com o mesmo palito de fósforo. Orosimbo tirou então, do bolso de dentro de seu paletó marrom, uma brochura de cinqüenta folhas, com o Duque de Caxias na capa colorida e colocou-a quase em minhas mãos. Feito isso, abriu o livro em uma página qualquer, que não era a primeira me parecendo estar mais interessado em ver o desenho das letras do que interpretar as palavras escritas.&lt;br /&gt;Abri sua brochura. Letra impecável, um pouco tombada para a direita, uniforme, semelhante aos exercícios que fazíamos nos cadernos de caligrafia.&lt;br /&gt;Escrito a lápis, com alguns pequenos e raros sinais de que havia usado a borracha para “deletar’ palavras, letras ou vírgulas.&lt;br /&gt;Iniciei a leitura de sua brochura pela primeira página:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;“RUA RIO BRANCO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor agora que aprendi a, logo ao amanhecer, fazer tremer todo o corpo, bater firme mas com delicadeza sete vezes na face esquerda com a mão direita e seis vezes um pouco mais forte com a mão esquerda na face direita, ao mesmo tempo em que sussurro, a meio tom “BRUUUUIIIOOOAAA!”. O lento e demorado sussurro tem que sair bem entre os dentes, fazendo soprar um ventinho morno nos lábios, os quais devem, também, acompanhar o movimento do corpo e tremular com delicadeza, embora de modo consistente e sem interrupções. Antes de aprender este meu novo modo de amanhecer, meu corpo doía por demais e a dor só era extinta às custas das trinta e sete cabeçadas que era obrigado a dar, quinze na parede e dezessete na porta da cozinha, para onde ia bater a cabeça e, assim, evitar evitar que o barulho das batidas na parede não incomodasse e acordasse os meus mais de trinta irmãos e bois que dormiam juntos na varanda que ligava o quarto à rua. Minha mãe não: ela dormia no alto, quase junto ao teto, só, em cama limpa, com lençóis brancos e cobertores de lã de ovelha que ela tecia; assim não passava frio e acordava sempre com seus olhos azuis limpos, com a face corada e fazia café amargo, sem açúcar, cujo odor se espalha por toda a rua, indo até o cemitério, acordando os mortos sem nenhum barulho: só com o cheiro bom, amargo e forte.&lt;br /&gt;Também agora, que não acordo ninguém com minhas cabeçadas na parede da cozinha, posso sair mais cedo à busca de café doce, caminhando ainda no escuro pela Rua Rio Branco. Não gosto e não me acostumo com café amargo, não sou defunto! Só minha mãe e os defuntos do cemitério, mesmo os anjinhos, gostam de café amargo.&lt;br /&gt;Na Rio Branco todos dormem, até mesmo os cachorros que sempre me atacam pensando que vou roubar café de seu dono, o que não é verdade, vou é pedir café doce, porque o que minha mãe faz é amargo.&lt;br /&gt;Ando sempre na calçada da esquerda quando vou e sempre pela direita quando volto: assim não erro o caminho e não me perco. A cada dois passos que dou, tenho que realizar um pequeno movimento circular com o pé direito; as pessoas pensam que é um tipo de dança mas não é: este pequeno movimento que faço com o pé direito, sempre a cada dois passos, tem o poder de afugentar bandidos, põe a correr cachorros e gatos, não deixa se aproximar o demônio que me persegue a noite toda e não me deixa dormir e roncar como minha mãe, meus irmãos e os bois lá de casa.&lt;br /&gt;Por dia tenho que subir dezessete vezes a Rio Branco até a Praça da Igreja e descê-la, sempre pela calçada da direita, passando pela garagem do Eliseu onde o cachorro preto com seus dentes enormes me ameaça, mas ao ver que sempre obedeço a superior ordem de a cada dois passos fazer o movimento circular com o pé direito me deixa sossegado e vai morder o Lázaro e o Nascimento que não acatam meu conselho de, a cada dois passos, fazer o movimento circular com o pé direito. O Lázaro e o Nascimento são os outros loucos daqui, mas são menos espertos, os cachorros os atacam e as pessoas da rua Rio Branco não lhes dão café doce, pois têm medo deles. De mim, não.”.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-5899780600278555877?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/5899780600278555877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=5899780600278555877' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5899780600278555877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/5899780600278555877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/09/brochura-do-louco-orozimbo-rua-rio.html' title='A BROCHURA DO LOUCO OROZIMBO: RUA RIO BRANCO'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/Sp_JUB3t46I/AAAAAAAAAG4/5AtHcLy2SQ0/s72-c/2009+Caminho+da+f%C3%A9+085retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-2980243664217895716</id><published>2009-08-21T04:36:00.000-07:00</published><updated>2009-08-21T04:42:05.026-07:00</updated><title type='text'>Histórias do Ribeira: casamento fugido!</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/So6HZ8wwKQI/AAAAAAAAAGw/VWDE8tJnsBI/s1600-h/2009+Caminho+da+fÃ©+008retoc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5372380285376669954" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/So6HZ8wwKQI/AAAAAAAAAGw/VWDE8tJnsBI/s320/2009+Caminho+da+f%C3%A9+008retoc.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Então foi assim: no primeiro ano, dei aulas lá no Bairro da Lagoa Nova; no segundo ano, fui para o Bairro de Votupoca, no município de Sete Barras, e, no terceiro ano, na cidadezinha de Sete Barras. Em Votupoca, havia um antigo projeto de Grupo Escolar Rural e, naquele ano, trabalhamos, lá, em quatro professores: a Mineko, a Eloina, o Luís e eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha classe, a maioria dos alunos era do segundo ano e havia, também, uns sete ou oito do quarto ano primário. Entre meus alunos do quarto ano, havia um, o Valter, que era um assombro de inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, havia um exame para ingressar no antigo ginásio e, desde o meu tempo de estudante, lá em Pedregulho, havia cursos preparatórios para o exame de admissão ao Ginásio. Resolvi, por conta própria e sem ônus para os alunos, dar as tais aulas de admissão, à tarde. Vieram, inicialmente, o Gilson e o Walter, ambos com condições de, se aprovados, freqüentarem o ginásio estadual em Sete Barras. O Gilson desistiu do curso preparatório e ficou o Walter. Foi aprovado em segundo lugar no exame de admissão.&lt;br /&gt;Por isso e por outros, fui “pegando” fama de bom professor, daqueles que o prefeito exige da diretora que seu filho freqüente sua classe. Resumindo, a diretora do Grupo Escolar de Sete Barras me convidou para assumir uma classe do quarto ano e o compromisso do diretor do Ginásio para eu assumir a docência do curso preparatório para o exame de admissão. Era tudo o que eu, na época, queria.&lt;br /&gt;Assim, fui parar em Sete Barras, trabalhando, de manhã, no Grupo e, à tarde, no Ginásio.&lt;br /&gt;Quando ainda estava em Votupoca, veio de Ribeirão, para trabalhar na região, um professor de Ribeirão Preto, o Samuel. Sujeito engraçado o Samuel. Alto, com mais de um metro e oitenta, magérrimo, pesava lá seus sessenta e cinco quilos. Lembrava muito o Caetano Veloso de alguns anos depois. Tocava, mal, violão e era realmente um tipo. Um dia chegou e me disse: “Orlando, comprei uma égua”. “Mas Samuel, retruquei, onde você vai deixar a égua quando você deixar esta escola?” “É linda, marchadeira e paguei um bom preço...” No fim do ano, em busca de uma escola melhor, teve que vender a bendita égua pela metade do que havia pago. Em outra vez, vínhamos de Ribeirão e, na Rodoviária, em São Paulo, enrabichou com uma loira oxigenadíssima e trocou de ônibus. Em vez de Registro, foi para Curitiba. Dia seguinte, meio desconsolado, estava lá o Samuel falando de seu novo e não correspondido amor. A oxigenadíssima era casada e o marido, um mulato de quase dois metros, estava a esperá-la na rodoviária de Curitiba. Samuel tomou o rumo de volta e encontrei-o na pensão onde morava, lastimando e recolhendo suas malas que havia deixado para eu trazer.&lt;br /&gt;Em outra vez, resolveu comprar uma winchester. Só ele - e creio que nem ele - sabia para que. Nas férias ou em um feriado prolongado, não me lembro, levou a winchester para Ribeirão, também não se sabe para que. A nossa volta de Ribeirão para Sete Barras coincidiu, nada nada, com uma enorme e desbaratada reunião de estudantes, em Ibiúna. Esta reunião, embora organizadíssima como todo o movimento estudantil da época, foi descoberta pela polícia e entre os presos, se me lembro bem, estavam entre outros o José Dirceu, o Travassos e um grande amigo meu lá de Pedregulho, o Pedro Ferreira.&lt;br /&gt;E o Samuel com a tal winchester na, naqueles dias, vigiadíssima rodoviária de São Paulo.&lt;br /&gt;Brincou com fogo: “São flores secas”, respondeu ao policial civil que nos abordou. “Vamos ver, então.” E lá fomos nós para a polícia civil, na Rodoviária de São Paulo.&lt;br /&gt;Um tempão por lá. Acredito que foi minha juventude, ingenuidade e persistência, aliadas a uma dose de sorte, que nos livrou da enrascada. Deixamos lá na polícia da Rodoviária nosso endereço de trabalho e o compromisso, não cumprido, de telefonar assim que chegássemos ao nosso destino.&lt;br /&gt;Aí o Samuel foi dar aula no Bairro da Formosa. Lá havia duas classes e a maioria dos alunos eram descendentes de japoneses. O Bairro da Formosa era um centro receptor de imigrantes japoneses, que visava a adaptação dos mesmos ao país para posterior encaminhamento para outras regiões.&lt;br /&gt;Um parênteses em relação ao bairro da Formosa: ficaram famosas as brigas entre os “baianos” brasileiros que trabalhavam nas plantações de chá e laranja ponkan e os japoneses. Havia na comunidade um campo que uns – os “baianos” - o queriam de futebol e outros – os japoneses - de basebol. Assim, aos domingos de manhã, os japoneses, escondidos e silenciosamente, tiravam as traves do campo de futebol e iniciavam seu joguinho de basebol. Logo, logo eram ameaçados pelos “baianos”, que, ruidosamente e sem nenhuma cerimônia, julgando-se eles os donos, recolocavam as traves no local e iniciavam suas peladas meio a fugitivos e silenciosos japoneses. A coisa chegou a tal ponto que houve necessidade da intervenção do delegado da cidade, Sr. Higino, que, na verdade, era açougueiro e sitiante de profissão; um barrigudo lutador de “sumo”, muito cordial e querido.&lt;br /&gt;Voltando ao nosso amigo Samuel, que, agora, tinha lá como colega, na outra classe, uma bela nissei: a Helena. Convidou-me para ir vê-lo num domingo. Insistiu tanto no convite que lá fui eu. O que consegui do amigo foi um curto “Bom dia”, logo me falou de sua paixão – segundo ele, correspondida – pela Helena e só. Me deixou lá no meio do laranjal e foi namorar. Completamente ignorado, voltei embora antes do pensado.&lt;br /&gt;Mas o namoro se firmou e a família da Helena não aceitava. Japoneses tradicionais não admitiam namoro e casamento que não fosse com descendentes. Helena, no entanto, teimava. Assim, o Samuel estava certo: desta vez, seu amor era correspondido.&lt;br /&gt;Solução da família: mandaram a moça para São Paulo, interna em um colégio de moças, no bairro da Liberdade. E lá se fica uma das escolas do bairro da Formosa sem a professora, que, agora, segundo o Samuel, vivia sofrendo de saudades de seu amor e aprendendo a modelar argila e a fazer ikebana.&lt;br /&gt;Houve um feriado prolongado e Helena veio ver a família em Sete Barras; e o Samuel, estranhamente, foi para Registro. Houve jogo de futebol, no Domingo, e eu não saí: precisava jogar.&lt;br /&gt;À noite, cansado do jogo e da surra que havíamos tomado de um bom time de Itapetininga, estava quieto lá na pensão, quando o seu José me chama: “oh.. Ribeirão, telefone para você”. Naqueles tempos, telefone e telegrama eram, normalmente, para más notícias: mortes e doenças. Corri atender, assustado.&lt;br /&gt;Do outro lado, o Samuel.&lt;br /&gt;- “Então... eu estou aqui em Ribeirão com a Helena e vamos nos casar daqui a alguns dias. Queria que você fosse até a casa dela e avisasse lá seu pai, o Odissam.”&lt;br /&gt;- “Mas, Samuel, como é que é isso? Vocês fugiram?”&lt;br /&gt;- “Não, não fala que fugimos. Fala que estamos aqui em casa, que minha mãe está preparando o vestido de casamento e, outra coisa, queria que você fosse padrinho”.&lt;br /&gt;A família de Helena era constituída por, além de seus pais, já idosos, pela Dona Alice, secretária do Ginásio, mais uma professora, a Nobu, e por um seu irmão, o mais velho da família, o Shinzo. O Shinzo tinha uma fábrica de esteiras de junco e toda noite descia até o bar da pensão onde eu morava para beber até se embriagar. Aí, diária e repetidamente, contava de seus tempos de exército, falava mal do prefeito e, como ninguém lhe dava ouvidos, cochilava um pouco, resmungava sozinho, tomava a última e, cambaleando, pegava sua Kombi; e, graças ao “intenso” trânsito de Sete Barras, chegava são e salvo em sua casa. No dia seguinte, a história se repetia.&lt;br /&gt;O Samuel havia me alertado para ter cuidado ao dar a notícia ao pai de Helena: o velho Odissam, coitado, era cardíaco. Eu cá não sabia como dar a notícia ao velho cardíaco com sutileza tal que não afetasse seu coração doente, na medida em que ele não entendia nada de português e eu não falava nada de japonês.&lt;br /&gt;Saí rumo à casa do Shinzo, encabulado em como cumprir minha missão casamenteira. Penso, repenso. Paro em frente à casa, sigo em frente como não se quer nada e volto. Uma eternidade. Poderia ir duas ruas abaixo e falar com a Dona Alice, talvez fosse melhor. Mas ela já é casada e seu marido não se dá com o Shinzo. Falar com a Nobu não! Era choradeira certa! E se eu falo e o velho morre na minha frente, pensava. Eu devia era matar o Samuel. Então, melhor, em vez de assassinar o amigo, é voltar e telefonar para ele: o Samuel que ligue para o Shinzo. Correto, penso, e tomo o caminho da pensão.&lt;br /&gt;Mas...&lt;br /&gt;Bato palmas e sai de dentro o Shinzo, mais para lá do que para cá, embriagado.&lt;br /&gt;- “E aí professor? Que foi?”&lt;br /&gt;- “Bem, vem aqui fora que preciso te falar”&lt;br /&gt;- “Aí fora? Então vou pegar meu revólver. Tá escuro”&lt;br /&gt;- “Shinzo, sou eu, o professor. Deixa de besteira de revólver e vem aqui fora. Tá ficando louco? Mania de revólver. E ainda fica falando mal de baiano. Merda”.&lt;br /&gt;Ele veio.&lt;br /&gt;- “Então, Shinzo, o Samuel me ligou e disse que a Helena está em sua casa, com sua família e que eles vão casar logo. A mãe do Samuel está fazendo o vestido e ele disse que gostaria que vocês fossem....”&lt;br /&gt;Falei, falei, falei e o Shinzo cambaleava em minha frente.&lt;br /&gt;Finalmente, resolveu dar o ar de sua graça e com a voz embargada pelo álcool e pela notícia:&lt;br /&gt;- “Vou lá buscar minha irmã. Onde eles moram?”&lt;br /&gt;- “Shinzo, não adianta. Ribeirão é longe, você não pode guiar porque bebeu e acho melhor você entrar, contar para seus pais, pensar melhor...”&lt;br /&gt;Indignado por eu ter dito que ele não podia dirigir, Shinzo fez um embolado e confuso discurso, durante quase meia hora. Sua excitação melhorou seu estado geral. Eu lá parado, ouvindo, e ele que queria porque queria saber o endereço do Samuel para buscar a irmã. “Tudo menos casar fugida”, resmungava nervoso, misturando português com japonês em sua fala embriagada.&lt;br /&gt;- “Fugiu não”, eu dizia. “Estão lá se preparando para casar. Quando foge, o ato se consuma antes do casamento e não é este o caso”. Nestas alturas, tirei o pai do Samuel da cama de casal e lá coloquei a Helena junto com Dona Esperança, mãe do casadoiro.&lt;br /&gt;A conversa não tinha fim. Não convencia o Shinzo a entrar em casa e comunicar aos seus a festança que se aproximava.&lt;br /&gt;- “Bom, Shinzo, tchau, até.”&lt;br /&gt;Voltei pensativo. Será que ele vai buscar a irmã? Irá armado? E se ele for mesmo, como aviso o Samuel?&lt;br /&gt;Deitei e dormi.&lt;br /&gt;Duas semanas depois, com o amigo Nobuioshi, fui para Ribeirão. O casamento foi na Catedral, quem os casou foi um grande amigo, o Cônego Arnaldo, e lá estavam, sãos e salvos, os pais da noiva, dona Alice, a Nobu e o Shinzo. Voltaram todos, inclusive o Samuel e a Helena, na Kombi do Shinzo. Em Sete Barras, o seu José os levou de volta a Formosa.&lt;br /&gt;Aproveitei para ficar mais um dia em Ribeirão, com minha família, e, à noite, como o amigo Nobuioshi, fomos beber e farrear na Zona.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6635766729941194415-2980243664217895716?l=oficiocontadordehistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/feeds/2980243664217895716/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6635766729941194415&amp;postID=2980243664217895716' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2980243664217895716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6635766729941194415/posts/default/2980243664217895716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficiocontadordehistorias.blogspot.com/2009/08/historias-do-ribeira-casamento-fugido.html' title='Histórias do Ribeira: casamento fugido!'/><author><name>Orlando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00120735710144764438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SQWzR6h1J4I/AAAAAAAAAAU/aTnljqXYDaw/S220/2008+fevereiro+161.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/So6HZ8wwKQI/AAAAAAAAAGw/VWDE8tJnsBI/s72-c/2009+Caminho+da+f%C3%A9+008retoc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6635766729941194415.post-574947601095535885</id><published>2009-07-29T06:51:00.000-07:00</published><updated>2009-08-03T10:21:23.469-07:00</updated><title type='text'>PULA GOIABADA!</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SnBUv6gwayI/AAAAAAAAAGo/9j5NmN33qLU/s1600-h/Novembro2008+012.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5363880338335492898" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_u90WwMnTNpY/SnBUv6gwayI/AAAAAAAAAGo/9j5NmN33qLU/s320/Novembro2008+012.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Tem um pouco a ver com rodeios, esta historinha que vou contar.&lt;br /&gt;Mas nada a ver com os rodeios de hoje, de peões famosos com curtíssimo tempo para ficar montado nos gordos bois...&lt;br /&gt;Nada disso.&lt;br /&gt;“Se não era assim, como era então?”&lt;br /&gt;Muito mais simples.&lt;br /&gt;De repente, sem muito alarde, chegava na cidade, em um caminhão velho, paus e tábuas e gentes para mais um rodeio. Escolhido o terreno tinha início à montagem do “picadeiro”, como era chamado; na verdade uma pequena arena circular e, à sua volta, os andaimes com as tábuas colocadas em degraus onde as pessoas se acomodavam para os espetáculos que ocorriam , normalmente, no início da noite, exceto aos sábados onde havia os rodeios diurnos.&lt;br /&gt;No caminhão, entre as gentes, além dos operários que montavam o picadeiro e cuidavam de sua manutenção, precária, diga-se de passagem, vinham dois ou três peões que realizavam as montarias. Nos espetáculos, além desses, digamos, peões profissionais, havia os peões locais, domadores de cavalos e de burros da região, convidados a montar as novilhas, garrotes ou os bois e cavalos bravos, também selecionados nas fazendas e sítios da região.&lt;br /&gt;Muitos destes rodeios traziam um animal treinado para saltar. Do rodeio que estou falando veio a besta Ruana. Alta, elegante no porte, com longas pernas que deviam lhe dar os famosos “sete palmos de altura”, da famosa Mula Preta da canção, que não tinha como não ficar assobiando quando se chegava para o espetáculo.&lt;br /&gt;Ruana era menos famosa que sua amiga Mula Preta, mas ninguém parava sobre ela e até música ela já tinha merecido.&lt;br /&gt;“Música, como a da Mula Preta?”&lt;br /&gt;Sim, música mesmo, tocada e cantada nos rádios, mais mesmo nos programas da Rádio Nacional as segunda, quarta e sextas, comandados pelos famosos Torres, Florêncio e Nininho. Da letra toda, direitinho, não me lembro, mas guardo bem na memória que falava e enaltecia a beleza da Ruana e da fama que sobre seu dorso peão nenhum conseguia ficar nem três segundos.&lt;br /&gt;Dito e feito: no primeiro rodeio Chupança, o mais famoso da cidade, montou a besta, segurou forte no “sofrete”, ajeitou e fincou suas pernas fortes meio no peito e sob as longas pernas dianteiras da mula, tirou o chapéu e fez o sinal da cruz e, com a cabeça avisou ao dono da Ruana, dizendo com aquele meneio de cabeça, que estava pronto para enfrentar os saltos da Ruana.&lt;br /&gt;E lá se foi:&lt;br /&gt;- “Pula, Ruana!”, gritou seu dono.&lt;br /&gt;E a bela mula, que até então obediente aguardava a ordem de comando, se transformou imediatamente; seus olhos antes tão doces agora soltando faíscas, e, como um raio de tão rápida saracoteou, deu um salto enorme e ainda no ar, deu um volteio jogando em terra o bravo Chupança.&lt;br /&gt;Caiu o Chupança, depois foi a vez de cair o Santista, veio de Franca o Pernambuco que também caiu...&lt;br /&gt;O único que permanecia sobre o lombo da besta, após a ordem “Pula, Ruana!” era ou o seu dono ou um peão e tratador da Ruana que acompanhava o rodeio. Estes dois sacolejavam e acompanhavam com o corpo retorcido os volteios e os saracoteios da Ruana, se contorciam todo agarrados ao sofrete mais que os três segundos, e se agüentavam até o berro “Pára, Ruana!”, dado em alto tom pelo seu dono, este o único a quem a besta obedecia.&lt;br /&gt;Só depois de ouvir a ordem é que Ruana parava de pular e outra vez se travestir em um calmo e doce animal.&lt;br /&gt;E foi assim que começou o outro o pedaço desta história.&lt;br /&gt;Alguns meses depois da passagem da Ruana pela cidade, um colega de classe, com quem estudava na segunda série do Ginásio, me abordou na hora do intervalo, e entre uma tragada e outra de um cigarro Continental sem filtro:&lt;br /&gt;- “Treinei a Goiabada para saltar igualzinho a Ruana. Não quer ir montar lá em casa no domingo?”&lt;br /&gt;Fui.&lt;br /&gt;O sítio onde morava Dirceu, dono da Goiabada, era próximo ao de meu cunhado e assim, sábado à tarde, após a aula lá fui eu. Domingo bem de manhã fui para o sítio do colega e mal chegando em sua casa, ansiosos, fomos para o pasto buscar a Goiabada.&lt;br /&gt;Nada a ver com a bela Ruana. Goiabada era uma potranca alazã de pelos longos, raquítica, olhar inocente, crina mal feita, pequena, com um peitoril acanhado...&lt;br /&gt;Espiga de milho nas mãos e Goiabada não resiste ao “Vem, Goiabada” do Dirceu.&lt;br /&gt;No curral, agora já com uns cinco ou seis adolescentes, vai ter início o rodeio. Um sofrete de cordas é amarrado na pequena potranca, passando pelas suas pernas da frente, dando uma volta até o início de suas crinas, onde uma pequena argola feita com a mesma corda servia como ponto de apoio para se segurar.
